terça-feira, 21 de julho de 2015

Corrupção à Brasileira - Reinaldo di Lucia

Conversava recentemente com um grande amigo sobre coisas sérias e amenidades quando ele soltou a pergunta: como é possível que um país que junta milhões na parada gay, milhões na marcha com Jesus, outros tantos nos protestos contra o aumento das passagens de ônibus não consiga estruturar uma manifestação contra a corrupção?

À primeira vista, isto é realmente um paradoxo. O Brasil, apesar de não ser conhecido por ser incisivo quanto a manifestações, tem um povo que, de modo geral, não se furta às manifestações. Mesmo em condições adversas, como na passeata dos cem mil – em plena ditadura militar! – a população vai às ruas, seja pela festa, seja para dar voz às suas insatisfações. Então, porque as manifestações contra os diversos casos de corrupção são tão tímidas e, normalmente, eivadas do viés político partidário inevitável? Porque não nos levantamos contra a corrupção como tal, exigindo o fim desta prática e a punição dos culpados por tais crimes contra o povo?

Tenho para mim, e foi o que respondi ao meu interlocutor, que o brasileiro tem a corrupção introjetada em seu DNA. É claro que todos, de modo geral, ficam indignados quando tomamos conhecimento da quantidade de dinheiro que é desviada e que, vez ou outra, chega ao domínio do público. Principalmente quando nos damos conta que os 50 ou 100 milhões do último escândalo seriam suficientes para resolver os problemas da saúde ou educação de muitas cidades brasileiras.

Mas algumas atitudes do brasileiro comum são interessantes: conheço mais de uma pessoa que anda com 50 reais na carteira do documento do veículo, para o caso de ser parado por uma blitz de trânsito. Ou que paga, sem pestanejar, uma “taxa de urgência” para que um documento do cartório, que demoraria seus 30 dias, saia na hora. Ou ainda que compra aquela pechincha num celular de última geração, mesmo sabendo, lá no fundo, que é roubado.

Fico com a nítida impressão que o que causa a indignação das pessoas é o volume, não o ato. Quantas vezes não ouvi que “perto desses aí do mensalão, os trinta mil reais do Magri (ex-ministro do trabalho do governo Collor, demitido por corrupção) eram dinheiro de pinga”. Há quase que um perdão ao “coitado” que roubava tão pouco que, poxa, nem conta. E quantos, quantos se rendem ao bordão “rouba, mas faz” e mantém o Maluf ativo na política desde... sempre!


O grande problema do Brasil é ético. Falta ética nas relações pessoais, comerciais e políticas, seja no cotidiano, seja nos grandes momentos. Não agimos, não nos comportamos, não votamos eticamente. Enquanto não compreendermos isso e nos esforçarmos conscientemente para mudar este estado de coisas, continuaremos na situação de, vez ou outra, nos depararmos com um evento grande de corrupção – e nos admirarmos porque não há uma mobilização contra isso.

Um comentário:

  1. Prezado Sr. Reinaldo muita boa sua colocação acerca da corrupção no Brasil, entretanto discordo que esta seja uma característica do povo brasileiro. Na verdade àqueles que faltam ética são minoria, mas sempre tem maior visibilidade na mídia. Acredito que a pequena adesão às manifestações contra a corrupção se deve ao fato de que a maioria da população não sabe ou entende o que está se passando, ignorância pura alimentada pelos que está no poder.

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