terça-feira, 12 de julho de 2016

Jesus, este mito que me atormenta - por Marco Videira

Em 1985, quando o meu amigo Arnaldo mudou-se para os Estados Unidos da América e querendo diminuir a sua bagagem, me ofertou, além de várias bugigangas, o livro A Gênese – os milagres e as predições segundo o espiritismo, escrito em 1868 pelo francês prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail, que posteriormente adotou o pseudônimo de Allan Kardec. Guardo até hoje essas lembranças, bem como o livro, o qual contribuiu para aumentar as minhas dúvidas a respeito da crença católica, que conservava àquela época. Falo em aumentar, pois após ter trabalhado ao lado do amigo Rogério, um profundo estudioso da doutrina das Testemunhas de Jeová, quando pude ouvir várias interpretações a respeito das passagens bíblicas, as quais são chamadas pelos TJ’s como Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, de formas diferentes, ou melhor, conflitantes em relação às interpretações que eu tinha, oriundas do catolicismo.



Marco Videira

A jornada do catolicismo até o espiritismo foi penosa e longa, pois não foi fácil largar a “segurança” das orações e do clima criado durante as cerimônias religiosas, principalmente aquelas invocadas com canções, criando sons vocálicos meio inebriantes, como as praticadas nas cerimônias Rosacruz, nas quais também deixei algumas pegadas... Quando me lembro desse ritual de passagem (do catolicismo ao espiritismo), penso no ator e diretor americano de cinema Allan Stewart Königsberg (nome artístico: Woody Allen), sempre em busca de uma resposta para as questões de religião, sem falar da morte e do sexo, que completam a trilogia desse cineasta.

Não era fácil ouvir do Jáci Régis - grande pensador espírita erradicado em Santos e desencarnado em dez/2010, durante as suas preleções no Centro Espírita Allan Kardec, localizado em Santos/SP, que o espiritismo não era cristão. Mas com o passar do tempo e com o aprofundamento das leituras, pude suportar esse “peso”. Todas essas questões e dúvidas levaram-me a escrever este texto, que possui muitas passagens (cópias literais da bibliografia abaixo citada), o qual intitulei: Jesus, este mito que me atormenta. O termo atormentar é só uma força de expressão, pois é um tema que me seduz e procuro ler sempre a respeito, pela necessidade que sinto de reforçar a minha crença na Doutrina Espírita, de forma racional, pois como disse Kardec: “Se a ciência em algum momento contradisser alguma premissa do Espiritismo, não cabe ao espírita rever esse ponto equivocado e seguir a orientação da ciência?”.

Antes de continuar o texto, acho válido citar que a discussão sobre a natureza de Jesus foi algo muito debatido por parte de várias escolas, que buscavam determinar qual era a natureza de Jesus. Cito abaixo, algumas delas:

  • Arianismo – doutrina dos primeiros anos da era cristã que crê que Jesus, apesar de um ser superior, seja inferior ao Pai.
  • Docetismo – século II, defende que Jesus era um mensageiro dos céus e que seu corpo carnal era uma ilusão e sua crucificação teria sido apenas aparente.
  • Ebionismo – crê em Jesus como um profeta, nascido de Maria e José, que teria se tornado Cristo no ato do batismo.
  • Monofisismo – século V – segundo a qual Jesus teria uma única natureza: divina (o Monofisismo foi elaborado por Eutiques em reação ao Nestorianismo).
  • Nestorianismo – século V – segundo a qual Jesus Cristo é, na verdade, duas entidades distintas, vivendo no mesmo corpo: uma humana (Jesus) e uma divina (Cristo).
  • Monarquianismo – série de crenças que enfatizam a Unidade Absoluta de Deus, ou seja, são contrários à divindade de Jesus.
  • Sabelianismo ou Modalismo – século III – defendia que Jesus e Deus não eram pessoas distintas, mas sim “aspectos” ou “modos” diferentes do trato da divindade com a humanidade.
  • Adocionismo – entende que Deus é um ser superior a tudo e completamente indivisível, defendendo a ideia de que o filho não foi coautor com o Pai.
 
No tocante ao Nestorianismo, registra-se que a doutrina Rosacruz difunde esta ideia dual da figura de Jesus.

No livro “A Vida Mística de Jesus”, há o registro de que a entidade divina de Jesus deixou de existir no momento da crucificação (“No momento da entrega do Espírito Santo, ainda na cruz, Jesus deixou que o poder e a autoridade especial retornassem à Consciência Cósmica.”), mas ele, utilizando-se de seus conhecimentos gnósticos, recuperou-se dos ferimentos sofridos pela crucificação e continuou com a sua vida humana.

Como visto acima, a discussão sobre a natureza de Jesus não é nova e longe de mim, querer com este modesto texto criar uma visão nova, mas sim expor o resultado das minhas leituras acerca do tema e trazer uma reflexão sobre o mesmo.

Cada época fez de Jesus o reflexo de suas próprias preocupações. Na França, na época da Revolução (1789), vimos aparecer a figura de um Jesus “sans-culotte” (denominação de trabalhador que participou da Revolução Francesa), em seguida, por ocasião da Revolução de 1848, a de um Jesus proletário e socialista. No início do século XX, o inglês Houston Stewart Chamberlain, inspirador das teorias nazistas, até retratou um Jesus ariano, que não tinha “uma única gota de sangue judeu”!

Apesar da figura de Jesus ser extremamente conhecida no mundo ocidental, faz-se mister registrar que o Cristianismo representa 28% em relação à população mundial e o Islamismo 22% (dados de 2012); porém, a continuar o crescimento do Islamismo, na proporção atual, projeções para o ano de 2020 indicam que tal religião superará o Cristianismo, ou seja, em pouco tempo, teremos crianças ao redor do mundo, sendo ensinadas que o maior e mais importante profeta foi Maomé (Muhammad em árabe, nascido em 570 na cidade de Meca e falecido em 632 na cidade de Medina) e que Jesus foi somente mais um profeta; porém menor do que Maomé, pois segundo a religião Islâmica, Maomé foi o último e o mais importante profeta de Deus (Allah como eles os chamam, que significa Deus Único).

Em janeiro de 2002, quando estava com a minha esposa e filhos, a passeio na cidade do Rio de Janeiro, um jovem trajando um uniforme estilo militar, ostentava no peito um bordado com o título Embaixador de Cristo e me entregou um folheto, que guardo até hoje e nele está escrito: “Por natureza, todos nós somos inimigos de Deus. Mesmo quando alguém não acredita nisso” !!??. Depois o texto segue com outras aberrações, para finalmente apresentar Cristo como a solução para todos os problemas.

Fiz o comentário acima, para registrar que dentro da neurociência, há uma corrente que defende que a razão caminha em paralelo com as questões de crenças religiosas, ou seja, é algo impossível de você tentar conciliar. Ainda nessa linha, registra-se um recente estudo conduzido pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, que chegou a uma conclusão bem mais instigante: as pessoas intuitivas são naturalmente mais religiosas do que as reflexivas. Registro, ainda, os estudos do biólogo americano Dean Hamer, que descobriu uma coincidência: aqueles que tinham sentimentos religiosos compartilhavam o gene VMAT2, responsável pela regulação das chamadas monoaminas, grupo de compostos que incluem a adrenalina (substância excitante) e a serotonina (sensação de prazer).

A questão da fé é algo extremamente complexa, pois a Associação Mundial de Psiquiatria declara a importância da espiritualidade nos tratamentos de saúde. Uma das explicações é a atuação do chamado eixo "psiconeurimunoendócrino", em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial.

A fé parece ser algo biológico...

Como o relato do jovem Embaixador de Cristo, na cidade do Rio de Janeiro, menciona a palavra Cristo, julgo ser necessário expor algo a respeito disso, ou seja, como Jesus (forma grega do seu nome em hebraico – Joshua – “há salvação em Deus”, nome muito comum entre os judeus da época), passou a ser chamado de Jesus Cristo. Cristo vem do latim Christus, que por sua vez vem de Christos, correspondente grego da palavra Messias, e significa literalmente ungido. O nome Jesus Cristo foi empregado por Paulo (missionário de Jesus, nascido em torno de 6 d.C. Paulo não chegou a conhecer Jesus), que também chamava Jesus, só como Cristo, ou seja, Paulo usou a palavra Cristo como se fosse um sobrenome e não como um título: Jesus, o Cristo.

O livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec apresenta uma série de milagres citados na Bíblia e atribuídos a Jesus, os quais são desmistificados.  Este livro, publicado há mais de 150 anos, nos proporciona uma visão humana de Jesus, em detrimento da figura divina, que fomos acostumados a conhecer.

Infelizmente não é o que vemos hoje na maioria dos centros espíritas (nem falar no âmbito das igrejas evangélicas neopentecostais), pois a figura de Jesus continua a ser cultuada como uma encarnação de Deus.

Quando da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (930 documentos escritos entre o século III a.C. e o 1º século depois de Cristo, que foram descobertos entre  1947 e 1956, em 11 cavernas próximas de Qumran, em Israel), havia a expectativa de se encontrar evidências da figura de Jesus; porém as traduções desses manuscritos,  nada revelaram a respeito. Pelo contrário, geraram mais dúvidas, pois nos citados documentos havia menção a um Messias (Mestre da Justiça), líder dos Essênios, mas que historiadores “disputam” diferentes explicações para tal figura. Sem falar na polêmica se tais manuscritos pertenciam aos Essênios, seita que muitos acreditam que Jesus pertencia, ou se os Manuscritos pertenciam aos Macabeus. A hipótese de que Jesus pertencia aos Essênios era porque ele tecia críticas aos Fariseus (aqueles que se consideravam a verdadeira comunidade de Israel – “santos”) e aos Saduceus (aristocratas que colaboravam com Roma), mas não aos Essênios. 


Cabe lembrar que Jesus nada escreveu (a única passagem bíblica que menciona algo é em João 8, 1-11 – “Então Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo” – esta passagem se refere à mulher flagrada em adultério, a qual para muitos críticos não faz parte do texto original de João, pois foge do estilo dele, mas isto é uma pequena mostra das controvérsias que iremos ver mais adiante. 

Há estudiosos que defendem que Jesus era analfabeto. Nenhuma surpresa, pois essa era a realidade daquela época.
Tudo o que foi escrito sobre ele, ocorreu entre 40 a 90 anos após a sua morte, incluindo pessoas que nem o conheceram, como Paulo.

Em resumo, estamos falando de uma doutrina, calcada na tradução oral.

O 1º evangelho foi escrito por Marcos em 70 d.C., em Roma. - Mateus escreveu em Damasco, por volta de 90 d.C.- Lucas escreveu na cidade grega de Antioquia, por volta do mesmo período que Mateus. - João é o último dos quatros evangelhos, escrito entre 100 e 120 d.C., em Éfeso.

Muito provavelmente, a exceção de Lucas-Atos, os Evangelhos não foram escritos pelas pessoas, segundo as quais foram nomeadas.

Isso me faz lembrar a história do chinês Confúcio - Kung Fu-Tse, (551 a.C. a 479 a.C.), professor preparado para lecionar história, poesia, matemática, música etc, por meio do método de ensino socrático e que após a sua morte foi glorificado pelos seus discípulos.

O Confucionismo se tornou a ideologia de estado na China, mesmo que nenhum texto seja demonstrável ser de autoria de Confúcio, e as ideias que mais chegadas lhe eram, foram elaboradas em escritos acumulados durante o período entre a sua morte e a fundação do primeiro império chinês em 221 a.C.

Confúcio tinha um provérbio: “Não faças aos outros, o que não queres que te façam.” Lembram-se de algo similar na bíblia? Só reforço que Confúcio morreu em 479 a.C.

A transformação de algo que não é naquilo que gostariam que fosse, também é típica no caso do nosso Tiradentes, pois a imagem do mesmo foi criada durante a República, juntando a imagem de um herói cívico e de religioso, por isso ele tem uma imagem similar a imagem que é atribuída a Jesus; porém não se tem registro da verdadeira imagem de Tiradentes e nem de Jesus.

O leitor já deve ter percebido que o presente texto está direcionado para enquadrar a figura de Jesus num plano humano e sem a áurea de um Deus ou de um espírito sobrenatural, por isso introduzi a palavra “mito”, que significa – “relato fantástico de tradução oral”.

Para não restar dúvidas, os registros a seguir irão relatar as passagens bíblicas e/ou conceitos criados a respeito de Jesus, ao longo dos anos, que não se coadunam com as visões dos recentes historiadores:

O alemão Hermann Samuel Reimarus (1694 -1768) foi um dos pioneiros a tentar uma interpretação secular, para entender quem foi Jesus. Ele defendia que os objetivos de Jesus eram basicamente políticos.
Uma das visões mais influentes sobre Jesus é a defendida pelo ex-padre irlandês John Dominic Crossan, autor de Quem Matou Jesus?.  Crossan afirma que Jesus teria sido uma versão judaica dos filósofos cínicos gregos. Em outras palavras, um pensador itinerante que atacava as convenções sociais e convidava seus ouvintes a levar uma vida de solidariedade radical.
Bem antes dos escritores acima citados, podemos citar quatro autores que versaram sobre Jesus, entre o fim do século I e o início do século II: o judeu Flávio Josefo e os romanos Tácito, Suetônio e Plínio. Dentre eles, as narrações de Flávio Josefo são as mais complexas e abordam o caráter messiânico de Jesus.
  • Composição da Bíblia
O Cristianismo é uma religião textualmente orientada cujos textos fundamentais foram mudados e que só sobrevivem em cópias que diferem de uma para outra, em certos momentos de um modo altamente significativo.

Não temos os originais, como não temos as primeiras cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde (séculos depois). Todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens.

A Crítica Textual é uma área de estudos em que há mais de 300 anos tem acumulado pesquisas a respeito de como os copistas foram mudando as escrituras e sobre como se pode reconhecer onde eles fizeram alterações.

John Mill – membro do Queens College, Oxford, em 1550 examinou cerca de cem manuscritos gregos para descobrir suas 30 mil variantes.  Hoje temos conhecimento de muitas variantes (temos catalogados 5.700 manuscritos gregos, contendo desde pequenos fragmentos até produções bem maiores). Com este número de fragmentos, estudiosos divergem quanto às variantes, podendo ser de 100 a 400 mil.

Coube ao bispo de Alexandria – Atanásio, durante a 2ª metade do século IV, ou seja, 300 anos depois que os livros do Novo Testamento foram escritos, relacionar os 27 livros que deveriam compor o mesmo.

No fim do século IV cristão, o papa Dâmaso encomendou ao maior especialista daquela época – Jerônimo, a produção de uma tradução latina “oficial”, que pudesse ser aceita por todos os cristãos que falavam latim, em Roma e em outros lugares, como um texto oficial. A tradução de Jerônimo se tornou conhecida como a Bíblia Vulgata (comum).

Com o advento da imprensa no século XV por Johannes Gutemberg foi impressa a 1ª edição da Bíblia (Vulgata), concluída em 1456. Por volta de 1550, cerca de 50 edições da Vulgata foram produzidas.
Somente com o advento da imprensa é que as cópias da Bíblia puderam ter uma maior concisão, mas mesmo assim, novas traduções foram feitas, culminando com a de 1979,  promulgada pelo Papa João Paulo II, a qual se tornou a versão oficial da Igreja Católica – denominada de Nova Vulgata.

A escolha dos quatros Evangelhos foi feita pelo bispo Irineu – Bispo de Lyon da Gália (a França moderna), no ano de 185, quando ele escreve Contra as Heresias – 3.11.7  ...”Pois, dado que há 4 regiões do mundo em que vivemos, 4 ventos principais, ... é adequado que a Igreja deva ter 4 colunas”.

Como exemplo das variantes das traduções, cito o Códex Vaticano datado do século IV d.C. que é um dos mais importantes e antigos exemplares da Bíblia em grego. Neste Códex, a famosa cena da mulher adúltera e do “atire a primeira pedra quem não tiver pecado”, não constam desse manuscrito.

  • Nascimento:

Começando do começo: O dia 25 de dezembro era a grande festividade romana que comemorava o solstício de inverno. Em momentos simultâneos da história, cristãos comemoravam as diferentes etapas da vida de Cristo, buscando testemunhos do dia exato de seu nascimento, enquanto pagãos celebravam a chegada da luz e dos dias mais longos ao fim do inverno. Foi somente no ano de 354 d.C que o Papa Libério, querendo cristianizar as festividades pagãs entre os vários povos europeus, instituiu oficialmente a celebração do Natal - a data de nascimento de Jesus.

A palavra Natal deriva do latim Natale - grafada com a inicial maiúscula quando se refere ao nascimento de Jesus, cujo aniversário teria sido escolhido, segundo boa parte dos estudiosos, para coincidir com a festividade romana do deus Sol.

Como visto acima, a data de nascimento de Jesus não é verdadeira e, muito menos, o ano, pois não há consenso sobre tal. Estima-se que ele tenha nascido entre 6 e 4 a.C.

Sobre o local de nascimento também há polêmicas, pois por Marcos e João o local é apontado como Nazaré e por Mateus e Lucas como Belém. Acredita-se que Mateus e Lucas optaram por Belém, pois de acordo com uma profecia do livro de Miquéias, do Antigo Testamento, o salvador viria de lá, uma vez que era a cidade do rei Davi. As recentes pesquisas indicam como local de nascimento, a cidade de Nazaré.

Ainda sobre o nascimento, existe, talvez, um dos pontos mais questionáveis que seria a virgindade da mãe de Jesus – Maria. Talvez esse caso seja parecido com um do Alcorão (livro sagrado do Islã), onde historiadores acreditam que há um erro na tradução, onde diz que o devoto do Islã, morto em combate terá no céu a companhia de 72 virgens, esses historiadores acreditam que sejam pérolas, a tradução correta. Para o caso de Jesus, há historiadores que também defendem um erro de tradução na Bíblia, da palavra ALMAH, que significa jovem e foi erroneamente traduzida do Hebraico para o Grego, como virgem. Em Isaías – 7,14 – faz menção a uma jovem que dará a luz a um menino e em Mateus – 1,23 usa esta passagem de Isaías, mas muda o termo “jovem” para “virgem”.

Mateus e Lucas não são levados a sério pelos historiadores, a respeito da natividade de Jesus. Mateus escreve que Jesus nasceu em casa e Lucas escreve que Jesus nasceu numa manjedoura.

A história de que Jesus nasceu numa manjedoura, não condiz com o que de fato ocorreu, pois para o judaísmo, a maternidade é algo sagrado e nenhum judeu permitiria que Maria desse à luz num estábulo. Mais uma contradição a respeito do local de nascimento de Jesus.

Independente da data exata e do local exato de nascimento de Jesus, o que é real é que a época em que Jesus nasceu a Galiléia era palco da opressão de Roma contra os judeus. Céfores, capital da Galiléia, era o símbolo da revolução dos judeus contra os romanos, ou seja, Jesus nasceu num momento onde os judeus clamavam por liberdade, o que leva a alguns historiadores a entenderem que o papel de Jesus foi o de um revolucionário.

Mas uma coisa é certa, o Natal é hoje o feriado mais rentável financeiramente em países predominantemente cristãos.



  • Pregação:

Sobre o debate de Jesus com os sábios, quando tinha 12 anos,  segundo o escritor Moacir Scliar esta é a idade que compreende o momento na vida de um judeu onde ele é sabatinado. Fica a dúvida onde Jesus teria aprendido os costumes judaicos, pois Nazaré era uma pequena cidade com 2 hectares e, provavelmente, não deveria ter uma Sinagoga.

No tocante ao local de início das pregações de Jesus, a história territorial e a arqueologia conjugam-se com a tradição cristã, indicando que foi em Cafarnaum, cidade situada na parte setentrional do mar da Galiléia.

Lucas 3,23 menciona que Jesus inicia sua vida de pregação “por volta de 30 anos”, mas é preciso ter cuidado, já que é possível ver nessa indicação uma aproximação com a entrada do rei Davi na vida pública.

No tocante à duração da atividade pública de Jesus, Mateus, Marcos e Lucas não fazem qualquer indicação, mas João menciona três páscoas, o que nos leva a concluir que Jesus pregou durante 2 ou três anos.


  • Morte:

O Templo de Jerusalém era a principal instituição cívica e religiosa dos judeus. As autoridades romanas teriam considerado uma ofensa capital: sedição, punível por crucificação, o ataque de Jesus aos negócios do Templo, quando ele derrubou as mesas dos cambistas e expulsou os vendedores de comida e soltou os animais que seriam vendidos a sacrifício.

A crucificação era mais do que uma pena de morte para Roma – era um lembrete público do que acontecia quando se desafiava o Império. Por isso, era reservada exclusivamente para os crimes políticos mais radicais: traição, rebelião, sedição e banditismo.

Jesus foi condenado por crime de sedição. O julgamento, se existiu, foi ilegal, uma vez que ocorreu na noite que antecede a Páscoa.

Como Jesus morreu horas antes do sabat, o seu corpo não podia ser movido, pelas leis judaicas. Isto pode ter provocado as histórias sobre o sumiço do corpo e a sua ressurreição.

Durante o julgamento de Jesus, a multidão teria pedido que Barrabás, um assassino, fosse solto em vez de Jesus – já que era “costume” da Páscoa. Esse costume, porém, não é mencionado em nenhum lugar, exceto nos Evangelhos. Para os pesquisadores, Barrabás personificaria os sicários, judeus que saíam armados de punhais para matar romanos na calada da noite, como uma forma de vingança pela destruição do Templo. E que por isso mesmo eram assassinos amados pela população.


  • Propagação da Doutrina Cristã:

Por volta do ano 110, os habitantes de Antioquia deram aos adeptos de Jesus uma alcunha que permanece até hoje, Christianoi, cristãos – Atos 11:27.

Em 313 d.C., o imperador Constantino assinou o Edito de Milão, que iniciou um período de tolerância aos cristãos. Constantino adotou o cristianismo para si, mas não o instituiu como religião oficial de Roma. Só em 380 d.C. foi que o imperador Flávio Teodósio tornaria o cristianismo como religião oficial do Império Romano.

A assimilação do cristianismo foi facilitada pelo medo de represálias romanas ao judaísmo.

Os seguidores de Jesus, de língua aramaica, abertamente se confrontaram com os judeus de língua grega da diáspora em relação à correta compreensão da mensagem de Jesus. Um grupo, defendido pelo irmão de Jesus, Tiago e outro promovido pelo ex-fariseu Paulo.

Por falar em Paulo, registra-se que para muitos teólogos, ele foi um personagem fundamental nos primeiros anos do cristianismo. Seu trabalho de evangelização foi em grande parte, responsável pelo caráter universal da doutrina cristã. Enquanto que a maioria dos apóstolos que conviveram com Jesus restringiram sua pregação à Palestina, Paulo levou a palavra de Cristo para: Grécia e Roma.

A penetração de Paulo em lugares aonde só ele chegou, faz com que uma corrente de historiadores e teólogos considerem que Paulo deturpou os ensinamentos de Jesus – a ponto de a mensagem cristã que sobrevive até hoje, ter origem não em Jesus, mas em Paulo.

Esses historiadores e teólogos julgam ser mais correto dizer que o que existe hoje é um “paulinismo”, não um cristianismo.


Encerro este texto com uma passagem do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec:

"não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade" – capítulo XIX – item 7.



Bibliografia:



  • A Vida Mística de Jesus – Biblioteca Rosacruz  - 1985.
  • Bíblia Sagrada – Edição Pastoral – nov-1991
  • Deus um delírio – Richard Dawkins – Companhia das Letras- 2006.
  • Folha de S.Paulo – online – Como tudo funciona - “Nascimento do Deus Sol Invencível” .
  • Jesus A Biografia – Jean-Christian Petitfils – Editora Benvirá – 2015.
  • Jesus Ensinamentos Essenciais – Anthony Duncan – Editora Cultrix – 1986.
  • O Judaísmo e as Origens do Cristianismo – volume I – David Flusser – Imago Editora – 2.000.
  • O que Jesus Disse ? O que Jesus não disse ? – Quem mudou a Bíblia e por quê – Bart D. Ehrman – Agir Editora Ltda – 2005.
  • Revista Galileu – nº 208 – set/2008 – Editora Globo
  • Revista História Viva – Grandes Temas – Duetto Editorial
  • Revista Super Interessante – edição 293 – Editora Abril jul/2011.
  • Revista VEJA – Editora Abril – edição 2.449 – 28/10/2015.
  • TV Canal Discovery – programa exibido em: 25/12/2013.
  • TV Canal History – programas exibidos em: 1º, 15, 22 e 29/03/2014.
  • Zelota – A Vida e a época de Jesus de Nazaré – Reza Aslan – editora Zahar – 2013

Marco Videira é Conselheiro da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda e assinante do Jornal Abertura - Reside em Santos, SP



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