sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Posicionar-se é viver - por Alexandre Cardia Machado e Bruna Régis Machado

Posicionar-se é viver

Estávamos em casa, fazendo uma limpeza de armários e nos deparamos com algumas redações escolares de nossas filhas, Cláudia sempre teve um carinho especial por estas recordações de um tempo onde elas viviam ao nosso redor. A Linha da vida é esta mesmo e os filhos saem para trabalhar.
Voltando às redações, uma nos chamou mais a atenção, talvez pelo momento em que vivemos, foi escrita pela Bruna, nossa filha mais velha em 2005 e tinha o título “Posicionar-se é viver” uma redação de cursinho pr-e-vestibular, corrigida pela professora, identificada como Lígia.




Transcrevo aqui algumas partes, pois nos permite mergulhar no tempo e na mente adolescente, mas já rica em observações do mundo ao seu redor.

“ O mundo é muito dinâmico. Tantas coisas se passam ao mesmo tempo, de forma tão diferente, e as pessoas são bombardeadas com informações a cada minuto. Dentre os milhares de acontecimentos que se tem conhecimento durante a vida, há sempre aqueles mais marcantes...

Cada pessoa tem um jeito único de encará-la, pois cada uma delas possui um histórico diferente de criação, educação e estrutura moral, e é isso que as torna tão singulares entre si. Embora as características pessoais existentes no homem sejam bastante diversas, existem certas posturas que são muito comuns numa sociedade. Uma delas é a acomodação, acomodação política, afetiva, 
profissional ou de qualquer outro setor que exija a reflexão e consequentemente a emissão de opinião.
Isso ocorre frequentemente pois não se posicionar é muito mais fácil, ser espectador da vida é tão mais simples do que atuar nela, afinal não exige esforço, não é preciso se arriscar, desistir, 
transformar e tentar de novo. É necessário apenas ser indiferente e não se importar com o que acontece ao redor, ignorando qualquer sinal de movimentação interna”.

Sabemos que não são todas as pessoas que se preocupam com o de onde venho? O que sou? Ou para onde vou? Perguntas básicas da filosofia tradicional. Nossa sociedade atual vive entre o imediato e não é comigo. Posicionar-se, requer um abrir-se ao mundo – olhar para frente, analisar, planejar e pela ação tentar mudar a realidade ao nosso redor.

Uma hipótese para a pequena ação política ou social, alguns podem pensar, seria porque as pessoas atualmente parecem não ter religião ou partido político. Mas pesquisando o número de Brasileiros que se auto denominaram ateus ou sem religião, não chegou nem a 2% no Censo de 2010. Portanto esta não é uma das causas. Ligação a partidos políticos, talvez o excesso deles, 36 seja uma das razões que não nos faça adotar um. O alto índice de abstenção nas últimas eleições assim o demonstra.

Mas de 2005 para cá, certamente que o interesse por política aumentou bastante, tomou conta dos noticiários e tivemos diversas manifestações populares, pessoas de todas as idades foram para as ruas, posicionaram-se, algo quem sabe impensável há meros 11 anos atrás, ainda que os manifestantes não tenham demonstrado associação clara e nenhuma organização política, foi muito mais um grito de basta.

Bruna discorre naquilo que entende sejam os componentes da falta de ação e investe na análise do que seria pior em termos de responsabilidades não compartilhada, enquanto seres socias que somos.
“ O acomodado tem uma postura pior do que a do alienado, porque o primeiro tem conhecimento do que se passa, mas se esconde atrás da falta de preocupação, já o segundo não quer saber o que acontece para não se ocupar. Aquele que não se manifesta não o faz não porque não o consegue, e sim porque não o quer, ele não possui ânsia de conhecimento e de discussão, já que se conforma com as coisas do jeito que elas estão. Acredita que não pode fazer nada para modificar a sua, ou a situação de outros, é como se vivesse em uma caixa de vidro, observando a vida correndo a sua volta”.
Ao que tudo indica, os acontecimentos recentes no Brasil, forçaram que até mesmo alienados e acomodados saíssem do armário e expressassem o seu pensamento. Na mais diversas formas de manifestações de pensamento, em todos os tons que vivemos nos dias de hoje, quer fisicamente, quer no mundo virtual da internet e redes sociais.

Bruna meio que detectou o mecanismo de resposta dos mansos, “ Entretanto, o posicionamento conformado é fácil, porém não leva a lugar algum. E, talvez, seja  este o seu objetivo, manter-se estagnado mas, esta realidade é finita. Em algum momento da vida, percebe-se que nada foi construído e que pode ser muito tarde para mudanças, porque, às vezes, quando a mente começa a funcionar, o corpo já não tem mais condições de acompanhá-la. Porém, quando se nota que a vida pode ter um sentido maior, mesmo sem a possiblidade de transformação, a consciência da acomodação é, por si só, uma forma de evolução e progresso humano”.

Este texto em sua ambientação original, não traz uma abordagem espírita. Pois trata-se de um exercíco visando uma redação para vestibular; mas o último mostra uma visão transformadora, que é a mola do Espiritismo, a possibilidade de não ficarmos parados, pois a cada dia que vivemos aprendemos algo que pode ser usado no futuro,  nesta ou em outra vida.

Kardec nos ensina que devemos ser moderados, calmos, agir com sabedoria, mas jamais nos acomodarmos, pois somos seres que transitamos pela Terra e devemos deixar a nossa marca.

NR: Este artigo foi originalmente publicado no Jornal ABERTURA de novembro de 2016



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