quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Gente que faz - Cuidados com o meio ambiente – você pode fazer a diferença por Alexandre Cardia Machado


Vocês sabiam que o número de mortes por problemas respiratórios (Doenças Pumonares Obstrutivas Crônicas) a nível mundial é a quarta maior causa, só superada por mortes por acidentes de trânsito, doenças coronarianas e AVC (Acidente Vascular Cerebral) de acordo com o publicado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Para o caso dos acidentes de trânsito, onde a redução dos mesmos, pode ser conseguida com mais educação dos motoristas e dos pedestres e por medidas de medidas de engenharia, como controle de velocidade, controle de proximidade, sons ao dar ré, câmaras, air bags enfim muitas possibilidades que claro, sempre passam pela vontade e respeito à vida das outras pessoas.

Tratando-se de meio ambiente nossa contribuição para a existência do problema é muito maior e, em muitos casos nos passa despercebido. Nas grandes cidades a concentração de CO2, outros gases e particulados na atmosfera é agravada pela condição climática que dificulta a sua dispersão.


As consequências são ambulatórios cheio de pessoas com problemas respiratório. Um simples virus da gripe, nestas condições pode ser acelerado como um fator de morte para pessoas de mais idade.
Não importa se é inverno ou verão, todos nós precisamos respirar e portanto, todos nós precisamos cuidar do nosso meio ambiente, do planeta em que vivemos que embora nos pareça grande tem o seu espaço limitado.

Quando eu estava fazendo pós graduação em Engenharia de Controle de Poluição, aprendi a seguinte definição: Poluição é toda a contribuição, líquida, gasosa ou sólida produzida por atividade humana, acima do limite que o meio ambiente suporta sem consequência danosas. Ou seja a mesma quantidade de dejeitos que se joga no canal 7, em Santos pode poluir o canal e não poluir o rio Amazonas.

Como saber o limite, como controlar nosso consumos de água, de energia elétrica, do uso do automóvel,  ou seja qualquer forma de geração de resíduos poluidores?

Bem, durante a greve dos caminhoneiros meu carro ficou com ¼ de tanque, então em casa decidimos andar a pé, pois em caso de emergência poderíamos precisar do carro, em uma semana, usamos o automóvel apenas uma vez, para irmos ao ICKS numa noite de sexta-feira chuvosa, e pensando bem, o carro não fez falta. Porque não repetimos este comportamento, sem ser em uma crise?

Pensem em outras formas de contribuição que podemos dar, são exemplo, consumir frutas da época e plantadas próximas de nossas cidades, reduzimos com isto o consumo de diesel, necessário para trazê-las até nós. Ter uma pequena horta em casa, além de prazeiroso permite consumir um produto natural e sem geração de CO2.

Caminhar mais como já explicado, economizar energia elétrica, além de reduzir a queima de gás natural. O que em tempos de tarifa vermelha ajuda a reduzir nosso custo de vida, como benefício agregado. São coisas pequenas que somadas ajudam. Subam de escada ao invés de usar o elevador, aumenta a resistência muscular dos músculos mais longos do corpo e poupam energia elétrica.

Cultive plantas em sua casa e varanda, elas retém o carbono da atmosfera, contribuindo um pouquinho para a solução do problema. Lembre-se sempre nossas ações tem consequência, propague esta ideia e outras, pequenas que sejam, todas as ações importam, ajudam a evitar mortes e melhoram as condições de vida para toda a humanidade.

Afinal reencarnaremos ainda muitas vezes neste mesmo planeta.

Alexandre Cardia Machado

Quer saber mais, veja neste blog:


ECOLOGIA À LUZ DO ESPIRITISMO – por Junior da Costa e Oliveira



terça-feira, 9 de outubro de 2018

A importância do Jornal Abertura – 31 anos influenciando o desenvolvimento do Espiritismo por Alexandre Cardia Machado


A importância do Abertura – 31 anos influenciando o desenvolvimento do Espiritismo


Se voltarmos no tempo, há 31 anos atrás, no mês de abril de 1987,  este jornal foi fundado com o objetivo de abrir um canal de comunicação para ideias espíritas não conservadoras, que tivessem como base o entendimento do Espiritismo como ciência, filosofia com consequências morias e não religioso.


Dedicou-se a criação e divulgação de eventos, coberturas jornalísiticas enfim uma série de ações que  hoje foram quase totalmente substituídas pelas midias eletrônicas, mas rápidas e que permitem a transmissão ao vivo e em cores.  Fotos videos ou transmissões ao vivo estão muito baratas, ou até mesmo sem custo algum.

Qual o nosso papel então nos dias atuais?

O que nos cabe é tratarmos os problemas socias, políticos e espirituais sob a ótica espírita, como se fossemos uma revista, com a reflexão que só o afastamento do fato diário permite.

Este tem sido o nosso foco. Contamos com articulistas que tem em comum o amor pelo Espiritismo moderno. Cada qual trás consigo visões de mundo um pouco distintas, o que permite uma pluralidade maior ao vaículo de comunicação.

Estamos na direção deste jornal há 8 anos, já produzimos 88 edições, após a desencarnação de Jaci Régis, ou 25% do total de edições do Abertura. Buscmos nos reinventar o tempo todo, a razão disto é que quase nada funciona do mesmo jeito que era em 1987.

Para dar uma ideia de como eram as coisas naquele tempo, eu, gaúcho e torcedor do Inter, para acompanhar o campeonato gaúcho, preciava subir no alto da Ilha Porchat, em São Vicente, para sintonizar a Rádio Gaúcha em ondas curtas, algo que parece, ao olharmos para trás, coisa do cinema em preto e branco.

Cláudia e eu casamos em 1985 e somente em 1989 conseguimos uma linha telefônica, isto porque antes mesmo de casarmos Cláudia já havia se inscrito na Telesp, para comprar uma linha, alguém hoje esperaria 4 anos por uma linha de telefone?

A comunicação entre amigos e colaboradores deste jornal que não viviam em Santos, era feita via carta. Estávamos vivendo o momento das diretas já. Na Europa a Alemanha estava dividida, desde o fim da segunda Guerra Mundial em Alemanha Ocidental e Oriental. Não havia ainda caído o muro de Berlim, cidade que estava dividida por um muro de 110 km de comprimento, acessada somente por via aérea, pois estava, o seu lado ocidental encrustrado em meio a Alemanha Oriental comunista. O mundo seguia em meio à Guerra Fria.

No campo da ciência espírita apostávamos nos avanços da psicobiofísica, por trás da cortina de Ferro, o que se demanstrou uma total ilusão. Os soviéticos faziam muita propaganda, mas de fato não estavam encontrando as respostas que buscavam, ou lhes interessavam.Quase 30 anos depois da queda a União Soviética, nada de prático surgiu, ou se apresentou neste campo do conhecimento.
Em 1988 tivemos a nossa atual constituição promulgada e agora, 30 anos passados, alguns de seus princípios ainda não foram regulamentados, mas muitos sim, temos o SUS – Sitema Único de Saúde, FGTS para empregados domésticos, estado laico, liberdade de crença e da imprensa, dentre muitos outros avanços.

O ICKS em 2017 apresentou um trabalho no 15° SBPE – Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita: Somos Progressistas? Que já divulgamos neste jornal, demonstrou como a visão espírita, ao menos em nosso grupo de ideal avançou, juntamente com o conjunto da sociedade emcampos de interesse como os direitos das mulheres, homossexuais, liberdade de gênero e muitos outros.
A sociedade está em constante mudanças, sempre haverão vanguardistas, excessos, reações, mas é o conjunto deste movimento que altera a legislação e por consequência, novos entendimentos socias são alcançados.

Como cada indivíduo tem uma história de vida, um trajeto familiar, cultural e também reencarnatório, teremos portanto pensamentos e ações distintas. Esta é a beleza da imortalidade dinâmica, conflitiva, litigante mas também transformadora.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

DO DISCURSO À AÇÃO E O COMPORTAMENTO ESPÍRITA - por Jailson Lima de Mendonça


15º SIMPÓSIO BRASILEIRO DO PENSAMENTO ESPÍRITA
De 02 a 04 de novembro/2017

TEMA: DO DISCURSO À AÇÃO E O COMPORTAMENTO ESPÍRITA
Jailson Lima de Mendonça
Santos/SP


Esse trabalho tem como motivação alguns questionamentos e reflexões sobre nosso comportamento, em especial como espíritas, a responsabilidade do exemplo e também do distanciamento entre o discurso e a ação no contexto que vivemos.

Consideramos interessante a capacidade que temos de nos indignar momentaneamente quando recebemos uma notícia ou um post nas redes de informação em especial as sociais, as quais muitas vezes nos causam tristeza, revolta mesmo, enquanto em outros nos levam à reflexão sobre nossa própria vida, valores, potencialidades e limitações.

Em alguns casos no sentido positivo, nos embebêssemos de uma vontade que antes não estava presente, como se fora um impulso, um pensar o que não havíamos pensado, um querer assumir e acreditar que somos capazes de realizar. Em outros, no sentido negativo, nos sentimos fragilizados, as vezes impotentes, mas que nos incita pra fazer, mudar, realizar, mas que no geral se vai esvaindo e voltamos ao nosso estado de ser tentando nos conformar de que não podemos fazer mais do que já estamos fazendo. Será?!

Vivemos em um mundo onde, ainda, as pessoas são analisadas, julgadas e criticadas pela aparência, pelo visual, por suas posses e não estamos preocupados com o que os outros efetivamente tem a oferecer, qual a contribuição que tem pra dar e agregar ao meu próprio aprendizado.

As notícias que vemos ou fatos que presenciamos no geral nos deixam inertes, como se não tivéssemos nada a ver com isso. E vem o inquietamento, pois é difícil acreditar que vivendo no século XXI com a imensidão de conhecimento e informações que já foram desenvolvidos, pensados e escritos, não nos parece crível que agimos desta ou daquela maneira e que muitas das atitudes que consideramos aceitáveis parecem exceções.

Verificamos que a construção efetiva se dá num passo muito menor do que da nossa capacidade criativa e intencional. A execução, o agir, esbarra em uma série de artefatos, concretos ou não, que a nossa vontade não consegue transpor. E porquê?

Somos todos iguais na origem, e espíritos num processo natural de desenvolvimento individual, com livre arbítrio e inteligência, mas que necessariamente passamos ou adquirimos aprendizado através da relação com o outro.

Quando falamos da distância entre o discurso e ação, será que o falar, por si só não seria uma ação? Já que ao falarmos estamos de alguma forma nos comprometendo ou influenciando aquele que escuta?

O professor do Centro de Análise do Discurso da Universidade de Paris 13, o linguista francês Patrick Charaudeau diz em "O discurso entre a ação e a comunicação" de 2002 quea linguagem é, por si própria, ação, já que ela faz ou faz fazer, seja expressando de forma direta (“Feche a porta”) ou indireta (“Está fazendo frio”). Deste ponto de vista surgiu a teoria dos "atos de fala", promovida por Austin e Searle, que estavam convencidos de que “uma teoria da linguagem é uma parte de uma teoria da ação”. Observaremos aqui que a relação entre a linguagem e a ação é uma relação de fusão de uma na outra: não há, nesta perspectiva, combinação entre ação e linguagem, mas integração da ação na linguagem. O exemplo emblemático disso é o ato performativo (“Eu vos declaro unidos pelos laços do matrimônio”) onde o dizer, descrevendo sua própria ação, torna-se ação. A ação não é, portanto, exterior à linguagem, e esta, não possuindo existência autônoma, não pode exercer por sua vez uma influência sobre a própria linguagem.

Naquela palestra o professor ainda acrescenta que “A intenção, contrariamente ao fim, não é outra coisa que a intenção de influenciar o outro, de produzir nele um efeito ("efeito visado") que o leve a modificar sua própria intenção. É apenas na observação do comportamento do outro ("efeito produzido") que poderá ser medido o impacto do efeito visado”.

Bom, essa discussão não é nova, desde Aristóteles, a ação é considerada levando-se em conta o sentido social que a mesma gera e em relação aos geradores dos fatos sociais.

As ações dos seres humanos, ou melhor, dos espíritos encarnados, são representadas por uma linguagem verbal ou não que de toda forma gerará consequências a partir da capacidade representativa do autor e sua vontade, ou seja, do seu campo de influência e dos diversos motivos que animam os interesses pessoais e coletivos.

“(...) a virtude está em nosso poder, do mesmo modo que o vício, pois quando depende de nós o agir, também depende o não agir, e vice-versa. De modo que quando temos o poder de agir quando isso é nobre, também temos o de não agir quando é vil; e se está em nosso poder o não agir quando isso é nobre, também está o agir quando isso é vil. Logo, depende de nós praticar atos nobres ou vis, e se é isso que se entende por ser bom ou mau, então depende de nós sermos virtuosos ou viciosos". (Aristóteles, III)

E nesse momento que vivemos um período de revisão de valores é preciso ceder espaço à reflexão de que quanto mais se assume o que se é, embora não sem dor, abre-se caminho para a felicidade.

No livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis nos fala da vontade como a maior das potências e que “O princípio de evolução não está na matéria, está na vontade, cuja ação tanto se estende à ordem invisível das coisas como à ordem visível e material. Esta é simplesmente a consequência daquela. O princípio superior, o motor da existência, é a vontade”. E mais adiante “Querer é poder! O poder da vontade é ilimitado. O homem, consciente de si mesmo, de seus recursos latentes, sente crescerem suas forças na razão dos esforços. Sabe que tudo o que de bem e bom desejar há de, mais cedo ou mais tarde, realizar-se inevitavelmente, ou na atualidade ou na série das suas existências, quando seu pensamento se puser de acordo com a Lei Divina”.
Atualmente, em especial com a difusão das redes sociais, verificamos como as pessoas se sentem muito mais a vontade ou persuadidas a interagir, pois com um único clique se pode replicar ou transmitir algo que tenham “curtido”, tanto para o bem como para o mal, sem que muitas vezes tenham checado seu conteúdo, veracidade e muito menos avaliado as consequencias da repercussão de tal informação.

E assim, nós somos agentes e/ou receptores de tais situações, suscetíveis e sensíveis a frustração, decepção, mágoa, etc ou ao júbilo, alegria e entusiasmo dos resultados obtidos ou não, num linguajar atual se fomos ou não curtidos.

O homem, tanto nas grandes ou pequenas ações do cotidiano, perde a oportunidade em ter uma atitude de respeito aos pontos de vista dos outros e de compreensão para com suas eventuais fraquezas, ou seja, de exercitar a tolerância, cuja virtude é a potência do ato, onde reflete seu próprio progresso e a disposição de se atualizar.

O comportamento humano é a atitude do ser perante a vida, sua postura no cotidiano, seus procedimentos e reações com o outro.


Como a atitude é uma intenção de se comportar de certa maneira, a intenção pode ou não ser consumada, dependendo da situação ou das circunstâncias.

E as mudanças nas atitudes de uma pessoa podem demorar muito para causar mudanças de comportamento que, em alguns casos, podem nem chegar a ocorrer.

Cada pessoa deve ser vista e analisada de acordo com suas particularidades, até porque somos uma individualidade, com nossos vícios e imperfeições, mas também com nossas virtudes, portanto é bom lembrar que as grandes variedades que o comportamento humano apresenta, não podem servir de regras para todas as outras pessoas, pois cada ser apresenta características individuais.

Segundo Aristóteles, a virtude deve ficar no meio, ou seja, nem se exceder para cima e nem para baixo, por exemplo o excesso de humildade pode transformar-se em orgulho e o excesso de orgulho pode transformar-se em humildade. O que nos sugere que a tolerância as vezes demonstrada pode não ser verdadeira.

Então, a verdadeira tolerância deve ser humilde, mas convicta. Respeitar as ideias e condutas dos demais, sem desprezá-las, mas também sem minimizar as diferenças, porque sabe que é a contradição que leva ao bem comum.

Devemos agir com parcimônia, mas quais são os limites da virtude da tolerância? Pensamos que pode se resumir em dois princípios: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” e “Não deixes que te façam o que não farias a outrem”.





COMPORTAMENTO ESPÍRITA

Neste ponto paramos para refletir sobre quais outros subsídios o Espiritismo nos oferece para uma melhor interpretação do tema e lembramos daquele pequeno, mas importante livro Comportamento Espírita, resultado de uma conferência de Jaci Régis para um grupo de jovens em uma confraternização espírita (COMELESP) no início dos anos 80, encontramos a preocupação do autor em tratar da questão do comportamento e sua repercussão:

“Por fim, uma abordagem sobre o comportamento não é um julgamento. É uma discussão aberta, simples e objetiva das formas de interação social e humana que decorrem e resultam da existência e da vida.
Tal é o nosso propósito. Queremos apenas suscitar debates, comentários e reflexões. Para equacionar, porém, a análise que pretendemos fazer, levantamos, como hipótese de trabalho, as seguintes questões, que terão desenvolvimento nos capítulos desta obra:
1. O comportamento espírita é naturalmente diferente ou deve esforçar-se para ser?
2. Se o espiritismo não impõe regras, como se definirá o comportamento espírita?
3. Vivendo no mundo, como superar as exigências, os desafios, as necessidades, sem comprometer-se espiritualmente?
4. Como se situar diante do apelo aos excessos e vícios que estão presentes e são estimulados no mundo?
5. De que maneira compreender e usar as forças sexuais?

O comportamento é a expressão da individualidade, exteriorizada em atos, palavras, gestos, ações e interiorizada em pensamentos, ideias, desejos, constituindo o que se chama de personalidade.

Na encarnação, admitem-se comportamentos específicos, próprios aos vários níveis de idade. São decorrentes de experiências cristalizadas na mente imperecível e desencadeadas, em cada encarnação, de acordo com as circunstâncias e as condições do ambiente.

É inegável que o espiritismo propõe uma nova visão de vida e do homem. É a partir dessas ideias básicas que se erguerá o comportamento espírita.

A proposta do espiritismo, relativamente ao comportamento, é dinâmica. Isso significa, objetivamente, que o espiritismo não nos sugere qualquer comportamento que se expresse antinaturalmente ou que signifique uma posição alienada, isto é, afastada da realidade e transferida para o além.


ALGUMAS REFLEXÕES:
ü  De nada adianta as pessoas terem um excelente currículo e discurso se não conseguirem tratar o outro com civilidade (não estamos falando de amor).
ü  Devemos nos preocupar em demonstrar, através do exemplo, respeito por todos aqueles com os quais nos relacionamos, a começar dentro do próprio lar.
ü  É comum justificarmos que as preocupações em excesso, a ansiedade dos tempos modernos e a falta de tempo são responsáveis por comportamentos grosseiros.
ü  Comportamentos injustificáveis nos mostram que está faltando controle sobre as próprias ações e, acima de tudo, respeito para com o próximo.
ü  Pode parecer difícil agir com amabilidade no mundo competitivo e individualista em que vivemos, mas não devemos abrir mão de nossas convicções.
ü  É lamentável que as expressões Com licença, Por favor e Obrigado estejam sendo usadas com menor frequência.
ü  Caso venhamos a sofrer indelicadezas, não nos deixemos envolver por essas atitudes e sigamos em frente dando bom exemplo, mesmo que seja através do nosso silêncio.

Não dá para fugir, se aqui estamos, estamos para fazer e realizar, assumindo a responsabilidade dos nossos pensamentos, ações e comportamentos, a parte que nos cabe na construção de uma nova sociedade mais ética, justa e fraterna.

Questionamentos, dificuldades, resistências e reflexões haverão, mas não há mudanças sem esforço e comprometimento.

 Somos espíritos e temos nosso livre-arbítrio o que significa a possibilidade de optarmos entre muitas variáveis, exercendo o direito de escolha e praticando o exercício da vontade como garantia do poder de executar nossa decisão. Ora, todas essas atitudes só se concretizarão a partir de uma base de conhecimento do porquê, das razões e de se ter um consistente objetivo para a vida.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

15 anos do Livro Kadu e o Espírito Imortal - oferta especial


15 anos do Livro Kadu e o Espírito Imortal



Cláudia Régis Machado em outubro de 2013, na Feira do Livro de Porto Alegre, lançava este livro enfocado para jóvens de todas as idades, um livro com muitas atividades, desafios que não segue uma ordem clara e sequencial, cada leitor lerá o mesmo na ordem que entender mais apropriada.



Nas palavras de Jaci Régis o livro é destinado à juventude, mas também para adultos, é uma interessante e excitante gincana, onde o personagem Kadu, vai aprendendo os fundamentos do Espiritismo, através de jogos e buscas que transformam a leitura numa emocionante jornada.
Cláudia é a terceira filha de Palmyra e Jaci Régis tendo ainda outros três irmãos mais novos, escreveu também o livreto Desafios do Kadu.

O livro tem sido usado em infâncias espíritas e permanece muito atual.

Kadu e o Espírito Imortal tem 85 páginas, com 42 charadas.





Com a proximidade do Natal e aproveitando o aniversário da obra estamos fazendo uma oferta do mesmo ao valor de R$ 8,00. Entregue em sua casa, basta pedir pelo email abaixo do ICKS. Agora, se você já for assinante do jornal, poderá receber junto com o seu jornal por apenas R$ 6,00.


Para abrir a sua mente: leia o livro Kadu e o Espírito Imortal de Cláudia Régis Machado a venda no ICKS pelo email: ickardecista1@terra.com.br

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Verdades Nômades - por Ciro Pirondi


Verdades Nômades

Verdades são transitórias, buscamos captar um ângulo de existência humana, suas razões e motivos em tempo determinado.

Deolindo Amorim, filósofo e educador, ensinava, nos Anais do Instituto de Cultura Espírita, haver verdades transitórias e as permanentes.

Na filosofia espírita, penso ser sua verdade de permanência o conceito de imortalidade dinâmica, terminologia definida por Jaci Regis ou a itinerância da existência como gosto de chamar. Todas outras verdades são transitórias e sujeitas a um tempo histórico.

Infelizmente, a palavra Espiritismo está marcada pelo engano. Por que? Embora indique a liberação da vida, como possibilidade criativa individual e coletiva, tornou-se sinônimo de mais uma, entre milhares, quer seja no Oriente como no Ocidente, salvação religiosa, esmagando o Homem em culpas, influenciação espiritual obsessiva marcada por um passado ruim.

Inventamos métodos de ação, agremiações e espaços semelhantes aos já existentes das religiões. O que era novo, implantou-se, desde o início velho. Reacionário nos discursos, com pretensões revolucionárias.

Todas as mudanças propostas foram traídas, e nosso movimento carregado de uma inércia histórica insuperável.

Textos como o de Ricardo Nunes no Abertura de Junho, são ventos bons, iluminam possibilidades; aliás a variação dos temas expostos nesta última edição, revela o poder das idéias, são elas transformadas em cultura, entendendo cultura como ação humana no cotidiano, que mudará o mundo.

Mas nosso dilema, não é novo. Aristóteles, com seu senso de proporção insuperável, diz uma coisa impecável:

"A busca da verdade é ao mesmo tempo difícil e fácil: ninguém pode alcançá-la absolutamente, nem deixá-la escapar totalmente."

A crise inaugurada na década de 70/80 no espiritismo, é oportuna ao nos fazer serenamente refletir sobre qual tipo de "verdades" estamos nos debruçando,e esta análise contaminou a todos, mesmo  os que tentam ignorá-la.

Espiritismo como um saber de fronteiras, margeando outros saberes, parece ser uma postura mais contemporânea, adequada à idéia de uma "inteligência coletiva" defendida pelos filósofos atuais.

Por mais movediça e incerta parecer a tese da imortalidade dinâmica, sem culpas e salvação, por não nos dar um "manual" seguro e infalível para a felicidade, temos, por outro lado, a liberdade de optar, veremos esse saber como uma dimensão constitutiva da existência humana e por sermos mais livres, mais felizes.

Ciro Pirondi

Artigo publicado no jornal ABERTURA em julho de 2018

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Espiritismo aos 90 anos por Carolina Regis


O Espiritismo aos 90 anos

“A doutrina salvou minha juventude, não fosse ela eu não sei como seria”.

Ivon Régis e Mauricy Silva

Essa é a frase que ouço desde muito pequena, sempre dita com gratidão e verdade por um Espírita de berço, de vida e ideal. Tenho a sorte de ter Ivon Régis como meu avô, mas qualquer um que o conhece – de Santos a Florianópolis – reconhece os valores doutrinários arraigados em sua personalidade, seus atos e seu sorriso que há 90 anos é distribuído gratuitamente, a quem precise. E tantos já precisaram...

Não sei quais os perigos e desvios que um jovem da década de 30 poderia enfrentar, quando comparados aos adolescentes atuais e o mundo moderno. Mas sejam quais fossem, era o Espiritismo que balizava e norteava os 7 irmãos Régis: Jaci, Egidio, Ivon, Arnaldo, Francisco, Albertina, Lucy. E é assim que permaneceu durante toda a vida – alguns permanecem contribuindo com a doutrina no Plano Espiritual, outros por aqui.

Fazendo aniversário no meio do mês do meio do ano, como ele costuma dizer, em 2018 Ivon completou 90 anos e o mais impressionante não é a aparência 10 anos mais jovem, nem a disposição para montar em uma bicicleta e sair rodando pela cidade. O incrível é que a Doutrina segue inabalável, diária, com a mesma lucidez da juventude, quando da fundação da Mocidade Espírita Estudantes da Verdade, das Campanhas Auta de Souza, do Centro Espírita Allan Kardec. Esse jovem de 90 anos é a prova de que, realmente, uma vez “Meeviano Sempre Meeviano”; um o exemplo prático da vivência doutrinaria cotidiana, fraterna.

Ivon Régis não se tornou conhecido nos círculos Espíritas pela eloqüência, por grande obras, por palestras inspiradoras, livros emblemático, idéias inovadoras. Ele é o Espirita obreiro, trabalhador, de bastidores, da rotina da casa Espirita. Contador de formação, até mês passado assinava os balancetes do CEAK com o rigor moral de que “o dinheiro dos outros vale o dobro”. E por décadas abria a casa para as palestras de 3ª e 4ª feira, recebendo os novos freqüentadores, cobrando mensalidades, cuidando do patrimônio. Espiritismo na prática, nos atos, nos abraços, como deve ser.

Sua companheira de 66 anos de casamento partiu 5 dias após as comemorações de aniversario. Ele estava lá para lhe oferecer o ultimo passe energético, as orações de apoio, chamar pela equipe que a vida inteira os apoiou. Por mais doloroso que seja, ele tem a certeza de um reencontro, da continuidade, da vida nova que a espera. E sua Doutrina “salvadora” o mantém de pé, forte, mais do que nunca. Olho pra ele e penso: O Espiritismo resiste há 90 anos.

Certa vez, meu avô me disse: “Faça pela obra, pelo ideal. Continue fazendo, não importa a quem”. Nesse dia, algo de seu DNA Espírita invadiu meus ideais, salvou minha juventude. Como uma herança passada de pai para filho, de avô para neta. E de Ivon para tantos que por ele passaram e ainda passam e foram contagiados pela alegria, pelo carinho, pelo genuíno amor pela vida e pelas pessoas, por Kardec, sempre na prática.
               

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Comportamento Espírita. por Roberto Rufo


Comportamento Espírita

" No dia 18 de Abril de 1857 uma nova luz surgiu nos horizontes mentais do mundo " ( Herculano Pires )

Livro Comportamento Espírita - peça pelo ickardecista1@terra.com.br

 Em seu pequeno mas ótimo livro " Comportamento Espírita " Jaci Regis na Introdução  indaga : "o comportamento espírita é naturalmente diferente ou deve esforçar-se para ser "?  É bom repetir, como faz o autor no capítuo I, que o comportamento é a expressão da individualidade, exteriorizada em atos, palavras, gestos, ações e interiorizada em pensamentos, ideias, desejos, constituindo o que se chama de personalidade. Diz o autor ser o momento do homem assumir sua natureza espiritual e desenvolver no plano da vida terrena, novas formas de relacionamento e revolucionar seu projeto de vida.

Isto posto me volto para um instigante artigo do psiquiatra Daniel Martins de Barros intitulado " É fácil ser norueguês na Noruega". Ele relata o caso ocorrido no final de 2017, início de 2018, quando foi descoberto que uma mineradora atuando no Pará vinha burlando a lei e despejando conteúdo tóxico nos rios da região. A mineradora norueguesa atende pelo nome de Hydro, cujo controlador e maior acionista é o governo da Noruega.

O pensamento do articulista é intrigante: " deve ser difícil manter-se norueguês no Brasil ". Porque será? Diz o psicanalista que essa dificuldade é que antes de sermos cidadãos desse ou daquele país, somos seres humanos movidos a interesses. Estamos todos em busca da vantagem.  E porque não agiriam assim na Noruega?  Simples explica o psiquiatra Daniel de Barros, não é a natureza humana que muda de país para  país, mas o grau de freio que nos impomos.
Ele compara com a história de Ulisses, do livro Odisseia de Homero, que se amarrou no mastro do navio porque sabia que sendo humano não resistiria ao canto das sereias. Conclui o psiquiatra que países onde se diz existir um alto grau de conscientização, é porque se chegou a um ponto de que o ato de cooperação é mútuo, sendo então uma atitude mais racional cooperar. No entanto, segundo ele,  é óbvio que a sanção moral se faz muito mais presente, sançao esta que faz um brasileiro malandro respeitar a fila quando entra nos EUA por exemplo.
 Ao contrário,  espera-se do espírita, que o seu comportamento seja universal, pelo seu processo de reconstrução moral. Jaci Régis diz que a saída que o Espiritismo pode oferecer é a sua visão do homem e do objetivo da vida. Todos os instrumentos  dourtinários, complementa o autor, tendem para esse esclarecimento, essa compreensão, porque é a única que realmente importa.

 No último capítulo do livro " Comportamento Espírita " de nome " Fazer a hora " Jaci nos remete à figura de Zaqueu, o publicano, que ansiava entrar em contato com Jesus. Ao dizer a Zaqueu, após ser convidado a entrar em sua residência, " hoje a salvação entrou nesta casa ", queria dizer que Zaqueu começou a entrar no comando do seu destino, discernindo fatores, estabelecendo prioridades e sobretudo agindo.
Percebo que ao atingirmos esse grau de comprometimento requerido pela doutrina espírita, de acordo com a nossa vontade, disposição e trabalho, agiremos universalmente em quaisquer lugares do planeta. Nosso comportamento ficará imune a tantos cantos de sereia ainda existentes nos dias de hoje, sem precisar que nos amarremos no mastro da insegurança.


     Roberto Rufo  


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Finalmente encontramos água em Marte - por Alexandre Cardia Machado


Finalmente encontramos água em Marte

Era uma das descobertas mais esperadas, não significa que tenhamos encontrado vida, ou mesmo que ela exista, mas água no estado líquido aumenta muito a probabilidade.
Cientistas da Agência Espacial Italiana anunciaram nesta quarta-feira que existe água líquida em Marte, de forma constante.
Para especialistas, essa descoberta, de um reservatório subterrâneo permanente de água líquida, aumenta consideravelmente as chances de haver vida no planeta ou de conserver a vida, caso venhamos a ocupar o planeta um dia.
"Foram anos de debate e investigações, ficamos anos discutindo se isso era mesmo possível. Mas agora podemos dizer: descobrimos água em Marte", disse o astrônomo Roberto Orosei, pesquisador da Universidade de Bolonha e principal autor da descoberta.
A água líquida e perene foi encontrada 1,5 km abaixo de uma camada de gelo, próxima ao Polo Sul de Marte. "Trata-se de um lago com 20 quilômetros de diâmetro", contou Orosei. A descoberta será publicada na revista Science no mês de Julho.
"Sem água, nenhuma forma de vida como a conhecemos poderia existir. Por isso é grande o interesse na detecção de água líquida em outros planetas", contextualiza a pesquisadora Anja Diez, do Instituto Polar Norueguês.
"Acidentes geográficos como vales mostram que água líquida deve ter sido presente em Marte no passado. Mas apenas pequenas quantidades de água gasosa haviam sido identificadas na atmosfera, além de água congelada. Gotículas de água foram vistas condensando e havia a hipótese de água líquida em encostas durante o verão marciano. Corpos estáveis de água líquida, entretanto, até o momento não haviam sido encontrados."
A descoberta da equipe de Orosei baseou-se em análise de dados obtidos por radar da missão Mars Express, sonda espacial lançada em 2003 pela Agência Espacial Europeia e pela Agência Espacial Italiana.
"Em comparação com os lagos terrestres, é um lago pequeno com seus 20 quilômetros de diâmetro. Mas não conseguimos saber a profundidade do lago porque a água atenua o sinal do radar. O que sabemos é que (a profundidade) é de pelo menos de um metro - ou o radar não seria capaz de revelar sua existência", diz o astrônomo. "Mesmo no caso mais pessimista, portanto, acredito que o volume de água deve ser de várias centenas de milhões de metros cúbicos."
Orosei acredita que esta descoberta seja só a primeira. "É apenas a primeira descoberta de uma quantidade grande de água líquida em Marte. Mas sob as calotas deve haver muito mais", aposta.
Em próximos artigos debateremos o impacto desta descoberta e em que ela pode ajudar a termos um plano B para o planeta Terra, quem sabe no futuro não venhamos a habitar nosso planeta vizinho. E tornar efetivo o princípio da pluralidade de mundos habitados. Temos escrito muito  a respeito da importância para o Espiritismo e principalmente para a humanidade a possibilidade de buscarmos outro planeta como possível morada no futuro.

Para abrir mais a sua mente:  Cientistas encontram água líquida em Marte, descoberta que pode transformar busca por vida – site Terra – www.terra.com.br .

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Tolerância, diversidade e as próximas eleições - por Alexandre Cardia Machado


Tolerância, diversidade e as próximas eleições

O jornal ABERTURA mudou o seu logotipo, invertendo o B em março de 2017. Fizemos isto como forma explícita de apoio à diversidade e a tolerância, ao novo e ao menos comum, mas também natural. Aceitar que todos tenham direito às suas próprias escolhas. A sociedade plural funciona, desde que todos respeitem os limites de seu livre arbítrio, entendendo que o direito de um termina, onde começa o direito do outro.

Apoiar a diversidade significa dizer que independente de nossas escolhas devemos respeitar, no sentido mais amplo, as escolhas dos outros. Isto vale para ideias conservadoras e também para ideias liberais, pois a sociedade é plural, sempre teremos diferenças e isto nos faz melhores.

Sobre a intolerância recorro a um trecho do artigo Intolerância e Falta de Conhecimento da coluna Mundo Atual do Abertura de junho de 2017 de Reinado di Lucia e Caroline Régis di Lucia: “ Se há algo que é completamente incompatível com o Espiritismo é essa não aceitação da possibilidade de haver pensamentos distintos daqueles que abraçamos. Tal postura, revelando consciente ou inconscientemente a certeza de ser possuidor de uma “verdade absoluta”, é inconciliável com a proposta da evolução contínua que constitui o cerne da Filosofia Espírita”.

Próximas eleições

Que estamos com o nosso país dividido não há dúvidas, isto nada mais é do que democracia em essência. Estar dividido no campo das ideias, mas respeitando a ética nas relações entre as partes é normal e desejável.  O debate que daí nasce é o que produzirá soluções mas abrangentes e possíveis de implementação. A democracia propõe o melhoramento contínuo, não é uma forma de mudança revolucionária. Ainda que aqui e ali, em condições especiais, face a crises importantes, os estados possam tomar medidas mais radicais, com apoio popular e de seus representantes mas idealmente deveríamos mudar aos poucos e incessantemente, ou seja monitorar as condições socias e ir agindo para melhorar. Este é o que se espera de uma democracia.

Volto a citar num editorial um trecho atribuído a Allan Kardec em Obras Póstumas – As Aristocracias: “ ...dizemos primeiro que os bons, sobre a Terra, não são inteiramente tão raros quanto se crê; os maus são número, isto infelizmente é verdade; mas o que os faz parecer ainda mais numerosos, é que são audazes, e sentem que esta audácia mesma lhes é necessária para triunfarem ... os bons ao contrário, não exibem as suas boas qualidades; não se colocam em evidência e eis porque parecem tão pouco numerosos ...”

Nos últimos 15 anos a revolução digital mudou um pouco isto, hoje as pessoas se expõe muito mais nas redes sociais, existem formas novas de influenciar o mundo ao nosso redor. Portanto está mais do que na hora de fazermos algo, participarmos mais, sem criar fake news, mas sabendo detalhes da atuação dos candidatos, a que grupos está associado, sobre como se portou no passado.  Os candidatos querem o seu voto, sim seu voto irá para quem você decidir outorgar seu poder.

Dar de ombros e votar em qualquer um, ou pior, nem votar, não ajuda a resolver os problemas de nosso estado, nem do país. A solução passa pela decisão de cada um de nós.

Começe a sua lição de casa agora, assista aos debates, informe-se, converse com seus amigos, participe. No final do processo, urnas abertas, aceite as divergências. O congresso, as assembléias representarão o conjunto de ideias e varições da nossa sociedade e não apenas as nossas crenças e valores.
Este artigo foi publicado no editorial do jornal ABERTURA de agosto de 2018.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

QUAL DEVE SER O PAPEL DOS ESPÍRITAS E SUAS INSTITUIÇÕES PERANTE AS QUESTÕES POLÍTICAS E SOCIAIS? - por Ricardo de Morais Nunes


XV SIMPÓSIO BRASILEIRO DO PENSAMENTO ESPÍRITA
SANTOS/BRASIL - NOVEMBRO DE 2017



QUAL DEVE SER O PAPEL DOS ESPÍRITAS E SUAS INSTITUIÇÕES PERANTE AS QUESTÕES POLÍTICAS E SOCIAIS?



Autor: Ricardo de Morais Nunes




Ricardo de Morais Nunes
INTRODUÇÃO

Por ocasião da proposta que fiz aos associados da CEPABrasil, instituição filiada a Associação Espírita Internacional- CEPA, visando a publicação de um manifesto de caráter político e social, não partidário, tratando do atual momento político brasileiro, refleti profundamente sobre o papel dos espíritas e suas instituições no enfrentamento de questões desta natureza. Naquela oportunidade, quando debatemos sobre a oportunidade ou não de um manifesto em nome da CEPABrasil, a maioria dos companheiros se revelaram favoráveis ao posicionamento dos espíritas laicos frente aos problemas brasileiros daquele momento histórico. Alguns poucos companheiros, no entanto, protestaram, de forma um tanto veemente, argumentando que estávamos desvirtuando os objetivos da instituição com aquela iniciativa.
Devo confessar que fiquei um pouco surpreso com a intolerância de algumas reações adversas, porém as considerei dialeticamente, como fazendo parte de um natural processo de discussão de temas que, ao final das contas, devo reconhecer, são polêmicos por natureza. É necessário dizer, no entanto, que o referido manifesto não tinha nada que, a meu ver, não se constituísse ou pudesse se constituir em uma aspiração natural de qualquer espírita brasileiro. Por isto minha surpresa. O manifesto, que foi efetivamente publicado em novembro de 2016, com a colaboração autoral de vários associados da CEPABrasil, defendia, em linhas gerais, um Brasil democrático, soberano, ético e com justiça social.
Acusaram-me à época de trazer minhas próprias paixões políticas para o espiritismo. Entre outras coisas, fui acusado de defensor da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do PT (Partido dos Trabalhadores), instituições envolvidas nos últimos tempos no centro das polêmicas políticas brasileiras. Não que eu tenha alguma coisa contra a CUT, PT, ou qualquer outra designação partidária de esquerda. Valorizo, como o professor Antônio Candido, a importância das variadas propostas socialistas na história, considero-as “triunfantes”, pois funcionaram e funcionam como importante contraponto ao egoísmo e individualismo do capital. Porém, o que me motivou não foi este objetivo, pois nem mesmo sou filiado a qualquer partido. O que me motivou foi justamente a ideia de que o espiritismo possui um pensamento social generoso
Passei a refletir, por ocasião daquela polêmica, sobre algumas teses muito comuns encontradas no movimento espírita a respeito do envolvimento dos espíritas nas questões políticas e sociais. Uma tese muito frequente é a da neutralidade perante tais questões. Segundo o pensamento de alguns, as instituições espíritas não devem tomar partido.  Esta tese defende que política e espiritismo não se misturam. Assim, os espíritas organizados devem ficar distantes deste tipo de polêmica, sob pena de envolver o espiritismo em questões que não são de sua competência. O máximo admitido pelos adeptos da tese da neutralidade, é que o espírita, enquanto cidadão, participe da vida política se assim o desejar, porém sem envolver as instituições espíritas nestas questões.
Verifiquei, igualmente, ser muito comum a tese de que a evolução moral do homem e, por consequência, da sociedade, ao longo do processo histórico, levará o mundo a um estado melhor de coisas. Indubitavelmente, tal teoria nos conduz a esperança e é dotada de uma lógica intrínseca do ponto de vista kardecista, mas, infelizmente, seu efeito principal é induzir os espíritas a um grau de paciência e passividade infinitas, a fim de aguardar a transformação do mundo pelo aperfeiçoamento de cada homem individual. Em termos práticos, este argumento funciona como justificativa para a não participação dos espíritas e suas instituições em temas políticos e sociais.
Também é muito frequente encontrarmos uma visão conservadora a respeito dos objetivos da reencarnação, a qual muitas vezes é interpretada como uma espécie de pagamento de dívidas do passado, a justificar, portanto, as injustiças sociais. Para muitos espíritas, os que moram nas inúmeras favelas ou comunidades espalhadas pelo Brasil estão “pagando” os erros de vidas anteriores, nas quais foram egoístas e gastaram avaramente sua riqueza. Tal teoria possui característica conservadora e busca legitimar o status quo.
Observei, também, que o espírita, quando toca em problemas de caráter político, normalmente pensa apenas no indivíduo, e quase nunca reflete a respeito das estruturas econômicas e sociais garantidoras das injustiças. Frequentemente, os espíritas não fazem uso de um pensamento sociológico crítico em relação às questões da vida em sociedade e acabam por apostar todas as possibilidades de melhoria do mundo na chamada “reforma íntima”.
Iniciarei o presente artigo fazendo um levantamento exemplificativo de como O Livro dos Espíritos trata algumas questões de caráter político e social. Discorrerei também sobre a posição de um dos mais respeitados pensadores espíritas de todos os tempos, Manuel S. Porteiro, e sua contribuição para melhor equacionamento desta controversa questão. Finalmente, refletirei sobre a necessidade dos espíritas prestarem atenção a uma questão importante de nosso tempo: o ressurgimento do neoliberalismo, sistema de pensamento político-econômico, que pretende o desmonte do chamado Estado de bem-estar social.
O que pretendo com o presente estudo é apenas refletir sobre o melhor posicionamento dos espíritas e, principalmente, das instituições espíritas frente aos problemas da sociedade. Esta reflexão se faz importante porque sabemos que o silencio ou a neutralidade são também formas de tomar partido, por isso precisamos ter claro, principalmente como espíritas laicos, que enxergam valor no adjetivo progressista, qual o melhor caminho a ser seguido: o do silêncio ou do posicionamento.
É necessário esclarecer, entretanto, que o presente artigo não irá defender que as instituições espíritas, centros, federações, associações nacionais e internacionais, atuem como partidos políticos ou que defendam um determinado partido na busca pelo poder político. Entendo que não é este o objetivo do espiritismo. Porém, o espiritismo, enquanto filosofia, possui consequências morais, as quais, necessariamente, se expandem para princípios, valores e práticas da vida social.
Defendo que os espíritas, portanto, devem encontrar um justo equilíbrio, pois se é certo que não devem absorver as demandas de caráter político e social, pois não são efetivamente um partido político, ao mesmo tempo, não devem ficar alienados dos problemas referentes à morada terrestre do espírito encarnado. Entendo que uma postura adequada dos espíritas nestas questões trata-se de uma obrigação moral, principalmente em razão da importância social das instituições espíritas na sociedade brasileira. A verdade é que a sociedade brasileira, onde se encontra o maior movimento espírita do mundo, tem o direito de conhecer o que pensam os espíritas nestes importantes temas.
As associações espíritas brasileiras têm se notabilizado ao longo da história por uma profunda preocupação e atuação de caráter social através dos serviços de beneficência material e da criação de hospitais, escolas, creches, asilos, bem como outras variadas atividades de serviço ao próximo, o que certamente dá a estas instituições legitimidade para pensar e opinar sobre os desenvolvimentos políticos, econômicos e sociais do Brasil.
 O presente estudo, portanto, tem como objetivo maior refletir sobre a importância da participação das sociedades espíritas, enquanto instituições da sociedade civil, nas questões políticas e sociais. Visa defender a necessidade das instituições espíritas se tornarem uma voz de caráter moral, comprometida explicitamente, de modo inequívoco, com os valores da democracia, justiça social, ética, humanismo e desenvolvimento econômico com vistas ao benefício de todos.
 Quanto a participação individual dos espíritas na vida política, parece não haver divergência maior quanto a esta possibilidade. Os exemplos de participação de espíritas na atividade política são inúmeros, inclusive ocupando importantes cargos nas esferas executiva e legislativa. De Bezerra de Menezes a Arthur Chioro, passando por Cairbar Schutel, Eusínio Lavigne e Freitas Nobre, entre tantos outros exemplos, temos uma excelente   amostra de que os espíritas, enquanto cidadãos, já atuam na esfera política há muito tempo.

QUESTÕES POLÍTICAS E SOCIAIS EM O LIVRO DOS ESPÍRITOS

Muitos espíritas fundamentam a tese da neutralidade em temas de caráter político baseados no estatuto da sociedade parisiense de estudos espíritas, fundada por Allan Kardec, que vedava a discussão de temas políticos em suas atividades. Segundo o artigo primeiro do referido regulamento:
“A Sociedade tem por objeto o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas, e sua aplicação às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas. As questões políticas, de controvérsia religiosa e de economia social, nela são interditadas”
No entanto, o espiritismo foi fundado por Allan Kardec em um período de grandes agitações políticas e sociais. Para termos clareza deste fato, basta lembrar que o nascimento do espiritismo em 1857 situou-se entre a revolução francesa de 1789, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, e a comuna de Paris, em 1871, primeira revolução operária a tomar o poder na cidade de Paris, revolução que foi violentamente derrotada.
Quando abrimos, portanto, O Livro dos Espíritos, ali encontramos várias teses de caráter político e social. Se não encontramos um livro partidário no sentido de tomar partido no que diz respeito às disputas pelo poder daquele momento histórico, encontramos uma obra que abrange várias questões relevantes de caráter político e social, próprias daquele período histórico, mas que representam problemas universais ainda vigentes na atualidade.
O Livro dos Espíritos não é um livro metafísico que busca descolar o homem de sua realidade concreta. Observamos na obra inaugural da filosofia espírita a discussão de vários temas importantes. Questões como liberdade de pensamento, igualdade da mulher, direito de propriedade, organização social e muitas outras ali estão presentes através de uma reflexão avançada tanto da parte dos Espíritos quanto de Allan Kardec.
Portanto, é incorreto dizer que O livro dos Espíritos é um livro neutro em questões de natureza política e social. De modo algum. É um livro que se posiciona corajosamente sobre vários assuntos. Por exemplo, a questão da escravidão. Muitos países à época ainda eram escravagistas e o Livro dos Espíritos condena a escravidão. Para bem entendermos a importância deste posicionamento na obra espírita, é necessário termos em mente que a escravidão não era apenas uma questão moral, mas um problema de caráter econômico, ou seja, havia toda uma estrutura econômica em vários países, inclusive no Brasil, assentada sobre a base escravagista. Mas, o espiritismo, em seu livro fundamental, não se omitiu, se posicionou, certamente contrariando interesses poderosos.
Outro exemplo interessante é a visão crítica que encontramos em O Livro dos Espíritos sobre o direito de propriedade. Os Espíritos, em sua visão crítica da propriedade, afirmam, no melhor estilo de Proudhon, que muitas vezes a propriedade é produto “da astúcia e do roubo”. No período de elaboração do espiritismo, século XIX, a França estava no processo inicial de seu desenvolvimento capitalista, no qual a acumulação de bens, muitas vezes a qualquer custo, era o valor social a ser seguido. Mesmo assim os Espíritos criticam a propriedade adquirida em prejuízo dos outros, através da exploração dos mais fracos e da desonestidade. Os Espíritos chegam a falar em “necessário e supérfluo” no que diz respeito a posse de bens materiais. Existe alguma coisa mais anticapitalista do que esta distinção, quando consideramos que o capitalismo nos induz ao consumo do supérfluo?
Kardec e os Espíritos enfrentam várias questões oferecendo um norte para o que podemos chamar de pensamento social espírita. Não é por acaso que ao longo da história do espiritismo surgiram vários pensadores espíritas que refletiram sobre as questões políticas e sociais com profundidade como Léon Denis, Manuel Porteiro, Humberto Mariotti, Herculano Pires e muitos outros.
Infelizmente, o espiritismo ao tornar-se uma religião perdeu muito deste aspecto filosófico combativo, inclusive, em relação as questões da sociedade. O espiritismo tornou-se uma doutrina apolítica, intimista, distanciada das questões da sociedade e do mundo, pela qual se espera a “salvação” nas esferas de “nosso lar” e outras regiões espirituais. E as instituições espíritas, de forma geral, também foram por este caminho. Tornaram-se igrejas e não escolas de pensamento para educação integral do espírito.
Veremos a seguir, nas perguntas de Allan Kardec e nas respostas dos Espíritos, que o espiritismo, desde sua obra inaugural, O Livro dos Espíritos, posicionou-se firmemente em relação a várias questões fundamentais da vida social e claramente tomou partido, visando a construção de uma sociedade humanista, na qual a liberdade e a justiça social se façam presentes.
QUESTÕES TRABALHISTAS E PREVIDENCIÁRIAS

684- Que pensar dos que abusam da autoridade para impor aos seus inferiores um excesso de trabalho?
R: É uma das piores ações. Todo homem que tem o poder de dirigir é responsável pelo excesso de trabalho que impõe aos seus inferiores., porque transgride a lei de Deus.

685- O homem tem direito ao repouso na sua velhice?
R: Sim, pois não está obrigado a nada, senão na proporção de suas forças.

685ª - Mas o que fará o velho que precisa trabalhar para viver e não pode?
R: O forte deve trabalhar para o fraco; na falta da família, a sociedade deve ampará-lo: é a lei da caridade.

SOBRE O ACESSO UNIVERSAL AOS BENS

711- O uso dos bens da terra é um direito de todos os homens?
R: Esse direito é a consequência da necessidade de viver...

717- Que pensar dos que açambarcam os bens da terra para se proporcionarem o supérfluo, em prejuízo dos que não têm sequer o necessário?
R: Desconhecem a lei de Deus e terão de responder pelas privações que ocasionarem.

719- O homem é censurável por procurar o bem-estar?
R: O bem-estar é um desejo natural. Deus só proíbe o abuso, por ser contrário à conservação, e não considera um crime a procura do bem-estar se este não for conquistado à expensas de alguém...

SOBRE A PENA DE MORTE

761- A lei de conservação dá ao homem o direito de preservar a sua própria vida; não aplica ele esse direito quando elimina da sociedade um membro perigoso?
R: Há outros meios de se preservar do perigo, sem matar. É necessário, aliás, abrir ao criminoso e não fechar a porta do arrependimento.

SOBRE AS DESIGUALDADES SOCIAIS

806- A desigualdade das condições sociais é uma lei natural?
R: Não; é obra do homem e não de Deus.

808- A desigualdade das riquezas não tem sua origem na desigualdade das faculdades, que dão a uns mais meios de adquirir do que a outros?
R: Sim e não. Que dizes da astúcia e do roubo?

811- A igualdade absoluta das riquezas é possível e existiu alguma vez?
R: Não, não é possível. A diversidade das faculdades e dos caracteres se opõe a isso.

SOBRE A IGUALDADE DE DIREITOS ENTRE HOMENS E MULHERES
817- O homem e a mulher são iguais perante Deus e têm os mesmos direitos?
R: Deus não deu a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?



818- De onde procede a inferioridade moral da mulher em certas regiões?
R: Do domínio injusto e cruel que o homem exerceu sobre ela. Uma consequência das instituições sociais e do abuso da força sobre a debilidade Entre os homens pouco adiantados do ponto de vista moral a força é o direito.

SOBRE A ESCRAVIDÃO

829- Há homens naturalmente destinados a ser propriedade de outros homens?
R: Toda sujeição absoluta de um homem a outro é contrária à lei de Deus. A escravidão é um abuso da força e desaparecerá com o progresso, como pouco a pouco desaparecerão todos os abusos.

SOBRE A LIBERDADE DE PENSAMENTO

833- Há no homem qualquer coisa que escape a todo o constrangimento, e pela qual ele goze de uma liberdade absoluta?
R: É pelo pensamento que o homem goza de uma liberdade sem limites, porque o pen-samento não conhece entraves. Pode impedir-se a sua manifestação, mas não aniquilá-lo.

SOBRE A LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA

837- Qual o resultado dos entraves à liberdade de consciência?
R: Constranger os homens de maneira diversa ao seu modo de pensar, o que é torna-los hipócritas. A liberdade de consciência é uma das características da verdadeira civilização e do progresso.

SOBRE A LIBERDADE DE CRENÇA

838- Toda a crença é respeitável, ainda mesmo quando notoriamente falsa?
R: Toda crença é respeitável quando é sincera e conduz à prática do bem. As crenças reprováveis são as que conduzem ao mal.

SOBRE O DIREITO DE PROPRIEDADE

883- O desejo de possuir é natural?
R:Sim, mas quando o homem só deseja para si e para sua satisfação pessoal, é egoísmo.
884- Qual é o caráter da propriedade legítima?
R: Só há uma propriedade legítima, a que foi adquirida sem prejuízo para os outros.

SOBRE O CARÁTER DA VERDADEIRA JUSTIÇA

875- Como se pode definir a justiça?
R: A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.

876- Fora do direito consagrado pela lei humana, qual a base da justiça fundada sobre a lei natural?
R: O Cristo vos disse: “Querer para os outros o que quereis para vós mesmos”. Deus pôs no coração do homem a regra de toda a verdadeira justiça, pelo desejo que tem cada um de ver os seus direitos respeitados. Na incerteza do que deve fazer para o semelhante, em uma dada circunstância, que o homem pergunte a si mesmo como desejaria que agissem com ele. Deus não lhe poderia dar um guia mais seguro que a sua própria consciência.

SOBRE A ORGANIZAÇÃO SOCIAL

930- É evidente que sem os preconceitos sociais, pelos quais se deixa dominar, o homem sempre encontraria um trabalho qualquer que o pudesse ajudar a viver, mesmo deslocado de sua posição. Mas entre as pessoas que não têm preconceitos ou que os põem de lado, não há as que estão impossibilitadas de prover às suas necessidades em consequência de moléstias ou outras causas independentes de sua vontade?
R: numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.

MANUEL S. PORTEIRO: UM ESPÍRITA QUE COMPREENDEU A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO POLÍTICA E SOCIAL DO ESPIRITISMO

Manuel Porteiro foi um importante pensador espírita argentino, que viveu na primeira metade do século XX. Foi presidente da C.E.A., Confederação Espírita Argentina, bem como se tornou um filósofo espírita profundo, que deixou sua marca na bibliografia espírita internacional e influenciou pensadores espíritas por todo o mundo.
Não é meu objetivo aqui discorrer sobre a biografia de Porteiro, para esta finalidade indico a excelente obra o “O pensamento vivo de Porteiro” de Jon Aizpúrua, e recomendo, também, um artigo de minha autoria, que pode ser encontrado na internet, no site do CPDoc, cujo título é “Breve estudo comparativo sobre a reflexão socialista de Léon Denis e Manuel Porteiro”, no qual também podem ser encontrados dados biográficos do ilustre pensador argentino.
Na presente reflexão quero destacar apenas que Porteiro foi um espírita de profunda preocupação com as questões sociais. Em vários momentos de sua obra se coloca contra as injustiças do sistema capitalista de produção, visando realizar uma crítica filosófica espírita às questões econômicas, políticas e sociais de seu tempo. Jamais se conformou como uma postura conservadora, pois entendia que o espiritismo deveria ser uma filosofia progressista, inclusive no que diz respeito à postura do espírita no mundo.
Esta característica de Porteiro ficou evidenciada no exercício da presidência da Confederação Espírita Argentina, oportunidade em que se revelou sintonizado com todas as teses progressistas de seu período histórico, bem como em sua brilhante participação, como representante da C.E.A., no congresso de Barcelona de 1934, no qual defendeu duas teses fundamentais: que o espiritismo não era uma religião e que o   espiritismo necessariamente possui preocupações sociológicas. Falarei um pouco sobre a participação de Porteiro nestes dois importantes momentos da história do espiritismo, especificamente sobre suas preocupações sociais.

PORTEIRO NA PRESIDÊNCIA DA C.E.A.

De abril de 1934 a março de 1935, Porteiro exerce a presidência da Confederação Espírita Argentina e se põe a trabalhar intensamente para colocar o espiritismo em um caminho filosófico progressista, a partir da negação do caráter religioso do espiritismo e, ao mesmo tempo, afirmando as profundas consequências morais e sociológicas da filosofia espírita. Trabalhou incansavelmente escrevendo artigos para a imprensa espírita de seu tempo, bem como se colocou a visitar inúmeras sociedades espíritas. Segundo Jon Aizpúrua:
“Porteiro era um incansável mobilizador de opiniões. Quantos estivessem dispostos a ouvi-lo, e aos muitos que não estavam, lhes apresentava um Espiritismo dinâmico e renovador capaz de guiar o mundo para a sua liberação moral, social e espiritual. Ao assumir a presidência da C.E.A. se propôs a visitar a maior quantidade de grupos espíritas que lhe fosse possível e levar mediante conversas públicas sua mensagem esclarecedora”.
Porteiro não via no espiritismo uma filosofia de alienação, de renúncia ao mundo. Acreditava, o ilustre pensador espírita, que o espiritismo tinha um potencial revolucionário, no sentido da mudança do paradigma existencial e social do homem, visando não apenas o conhecimento das questões de além-túmulo, mas também as questões terrenas, sociais. Ainda Aizpúrua nos fala:
“Porteiro com insistência falou do Espiritismo como doutrina revolucionária, querendo dizer com esta palavra que propõe ao homem mudanças radicais em sua maneira de pensar e de atuar. Um Espiritismo que traz como missão revelar a vida no plano espiritual e com a finalidade de melhorar as condições dos seres, agora, no plano material. Opunha-se a uma interpretação distorcida do Espiritismo, apresentado como uma religião, ou como uma ideologia conservadora, alienante, que justifique, em nome do “karma” as desigualdades sociais e adormece os espíritos em uma atitude de inércia ou de cumplicidade, esperando a “salvação”.
A Confederação Espírita Argentina, sob a presidência de Porteiro, lançou, na revista La Idea, de janeiro-fevereiro de 1935, um “programa de ação da C.E.A.”. Este programa de ação foi preparado pela “Mesa Diretiva, lido no Conselho Federal e apresentado à consideração e estudo das sociedades confederadas”. Neste documento, encontramos a proposta de várias ideias interessantíssimas a respeito da natureza do espiritismo, bem como em relação às questões de caráter político e social. Nas “considerações gerais” do referido programa, encontramos a seguinte afirmação preliminar:
“Antes de pontuar plenamente o programa de ação da C.E.A. acreditamos ser imprescindível fazer algumas considerações preliminares que justificariam amplamente a necessidade imperiosa de traçar rumos ao Espiritismo no país, para que este marche pela senda que há de conduzir à realização dos grandes postulados científicos, filosóficos, morais e sociais que surgem da mesma doutrina, dos quais a humanidade tanto necessita nesses momentos importantes de sua evolução”.
Em seu programa de ação a C.E.A., sob a inspiração de Porteiro, define o espiritismo como uma ciência integral:
”Porque abarca todas as fases e manifestações da vida; resume todos os conhecimentos e disciplinas do espírito, como as ciências em geral, filosofia, estética, moral e sociologia; porque estuda o espírito e as relações deste com a matéria, da alma humana no corpo; do homem com os demais seres viventes; do indivíduo com a sociedade; de sua causalidade moral com o determinismo histórico, o meio social e as condições econômicas”.
Quanto ao aspecto sociológico do espiritismo, diz Porteiro e seus companheiros da direção da C.E.A., através do programa de ação:
“Como sociologia o espiritismo encaminha-se para a constituição de um sistema social, sem classes nem privilégios, em que todos os homens possam produzir segundo suas forças e suas aptidões e consumam segundo suas necessidades. Para tão alta finalidade, fundamenta-se nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade que postula a doutrina. Seu elevado conceito de solidariedade humana não é compatível com nenhuma classe de despotismo nem de exploração do homem pelo próprio homem”.
Aquele importante documento histórico chega a propor a criação de uma cátedra de sociologia, visando o aprofundamento do estudo das questões políticas e sociais pelos espíritas. Em pleno Brasil de início do século XXI, época de redes sociais e opiniões nem sempre bem fundamentadas, talvez já possamos compreender o quão importante seria esta cadeira de sociologia, com vistas ao aprimoramento dos estudos sociológicos dos espíritas, inclusive, os de nosso tempo. Diz o projeto:
“A C.E.A. patrocinará a criação de uma cátedra de sociologia que consulte todas as questões ou problemas de ordem econômica e social, a partir do ponto de vista objetivo e de acordo com os princípios morais de liberdade, igualdade e fraternidade que postulam o Espiritismo, confrontando e assimilando-os, dentro do conceito espiritista da vida, com as teorias econômicas e sociais daqueles ideais que buscam a realização de uma sociedade melhor”.

A PARTICIPAÇÃO DE PORTEIRO NO CONGRESSO ESPÍRITA INTERNACIONAL DE BARCELONA EM 1934

Manuel Porteiro e Humberto Mariotti, cheios de idealismo, se encarregaram de levar as ideias progressistas da C.E.A. para o congresso espírita de Barcelona, realizado no ano de 1934. Embarcaram entusiasmados em um navio para a Espanha, pensando que suas ideias seriam bem recebidas naquele importante evento internacional espírita. Segundo Jon Aizpúrua: “Em 4 de agosto partem para a Espanha os delegados argentinos. Vão entusiasmados, pensando que seu projeto será bem recebido no Congresso. Em poucos dias saberão de seu equívoco”.
Porteiro, um dos representantes da C.E.A. no congresso de Barcelona, fez um informe detalhado, datado do dia 15 de outubro de 1934, para a presidência da C.E.A. em exercício, na pessoa do Sr. Mario Rinaldini, a respeito dos acontecimentos principais daquele congresso internacional. Em relação a repercussão das teses apresentadas pelos argentinos naquele congresso, principalmente as que dizem respeito a relação entre espiritismo e política, relata Porteiro:
“Alguns congressistas alegaram, contra nossas proposições , o triste argumento de que se tratava de fazer política, que o Espiritismo devia estar afastado dos problemas sociais, justificando que as injustiças e os males reinantes são consequências lógicas e necessárias da lei de causas e efeitos; outros sustentaram que a maneira como se constitui a sociedade economicamente e inclusive o meio social, eram devidos ao  atraso moral dos indivíduos e que o Espiritismo teria por única missão educar os indivíduos nos novos postulados filosóficos e morais de sua doutrina sem intrometer-se na solução dos problemas sociais”.
Porém, Porteiro e Mariotti refutaram a tese de que o espiritismo e os espíritas deveriam ser omissos em relação às questões políticas e sociais. Alertaram que o espiritismo e os espíritas não devem justificar a exploração do homem pelo homem, bem como as injustiças sociais, com fundamento na lei da causalidade espiritual. Neste sentido lemos no relatório de Porteiro:
“Todos esses argumentos foram devidamente refutados por nós demonstrando que é dever do Espiritismo, e por conseguinte dos espíritas, não somente divulgar a doutrina e dizer aos homens que sejam melhores, mas também tratar por todos os meios lógicos, a seu alcance, de modificar a sociedade, fazendo crítica da mesma em tudo que haja de mau e buscando soluções práticas para que o mesmo desapareça; que a lei de causalidade espírita não vem justificar a exploração do homem pelo homem, a injustiça , o crime de guerra e demais desajustes sociais; que a igualdade econômica e social, que nós reivindicamos, em nada contradiz as desigualdades de inteligência, de aptidões e de moralidade”.
Continua Porteiro o seu relatório dando ênfase à importância do estudo da sociologia e do espiritismo. Destaco novamente aqui a brilhante percepção de Porteiro no sentido de indicar a necessidade dos espíritas se dedicarem ao estudo da sociologia. O espiritismo não pode dar conta de tudo. O espiritismo se relaciona com outras áreas do conhecimento em um sentido de complementação. Para os estudos da sociedade, portanto, a sociologia, a história, a economia e outras disciplinas são fundamentais para um maior conhecimento das complexidades sociais:
“Ante estes conceitos reacionários, que estão nas palavras de todos os que defendem o privilégio e as situações vantajosas dos bem-acomodados, expusemos argumentos contundentes e irrefutáveis sustentados pela sociologia moderna e pela doutrina espírita em seu aspecto moral e sociológico...”.
Finalmente, Porteiro alerta em seu relatório que o espiritismo não vem para adormecer os espíritos. Diz ele:
“Temos observado também com profundo desconsolo que muitos dos delegados, com as opiniões que expressaram, têm pretendido fazer do Espiritismo uma filosofia conformista, conservadora e passiva, dando-lhe o significado de uma religião natural, ao que temos contestado com todas as nossas convicções, que o Espiritismo não vem adormecer os espíritos, senão que é um ideal dinâmico que vem despertar as forças morais do homem para que este se coloque ante a cultura e a organização social presentes, com um novo sentido das coisas e não com um sentir arcaico dos espíritos conservadores”.
Importantes pensadores espíritas no mundo contemporâneo alinham-se perfeitamente às concepções avançadas de Manuel Porteiro, apesar de todo o conservadorismo do movimento espírita da atualidade. Um destes pensadores que merece destaque é o professor, escritor, filósofo do direito, Alysson Leandro Mascaro, que fala da necessidade dos espíritas serem críticos da “sociabilidade presente”, sociabilidade esta altamente excludente em termos econômicos da maioria da população. Neste sentido diz Mascaro:
“O espiritismo, lastreado necessariamente em percepções racionais e científicas desde suas raízes pós-iluministas, está no mesmo contexto das mais progressistas posições a respeito da sociedade. Sua perspectiva transformadora, então, representa uma crítica à sociabilidade presente. É preciso compreender tais impasses para poder fazer com que o movimento espírita, no plano teórico e prático, seja vanguarda de crítica, transformação social e superação das explorações presentes. O pensamento social espírita deve se emparelhar com o que de mais radical, fraterno, libertário e pleno o pensamento social geral conseguir vislumbrar, porque o pensamento social espírita e sua prática serão iguais aos melhores pensamentos e práticas que a sociedade tiver de si própria”.

TEMPOS SOMBRIOS

Vivemos nas primeiras décadas do século XXI “tempos sombrios”. A impressão que temos é que as piores ideias conservadoras e reacionárias ressurgiram não apenas no Brasil, mas no mundo. Temos convivido em nosso cotidiano com o ódio de caráter político, com a intolerância religiosa, com o desprezo aos mais pobres, racismo, menosprezo a mulher, ao homossexual, a tentativa de construção de novos muros e mesmo a ameaça de guerra nuclear. As redes sociais, a internet, e todos os brilhantes avanços tecnológicos de nosso tempo, também têm servido à formação de guetos de sectarismo e ódio.
Na atualidade, vivemos um grande conflito entre a política e o poder do grande capital. Após a queda do muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, o capital, vencedor, passou a nada temer. Durante quase todo o século XX, o capital temia revoluções comunistas radicais e, por isso, fazia concessões visando atenuar os conflitos. Daí o surgimento, principalmente na Europa ocidental, da segunda metade do século XX, do chamado Estado de bem-estar social, no qual o sistema capitalista fazia concessões importantes em várias áreas sociais visando impedir a revolta dos trabalhadores.
Atualmente, o capital com nada se preocupa, além do seu lucro maximizado. Aliás, no mundo contemporâneo, existe um verdadeiro conflito entre o chamado capital produtivo, que produz empregos, e o capital financeiro, especulativo, que não vive da produção, mas de juros altos. Por outro lado, as empresas multinacionais emigram para os países que pagam menores salários e concedem menos direitos aos trabalhadores. O processo de exploração do homem pelo homem se acentua. Os países do chamado “socialismo real” caíram junto com o muro de Berlim, mas a crítica marxista à exploração promovida pelo sistema capitalista de produção continua válida até nossos dias.
O conflito entre a política e o capital põe em risco a própria ideia de democracia. A democracia pressupõe que todos sejam ouvidos nos processos decisórios de uma nação. Porém, o que ocorre é justamente o contrário. A grande maioria fica excluída das grandes decisões das nações e fica refém do que os detentores do poder econômico nacional e internacional, do que os meios de comunicação dominantes, alta burocracia estatal e parlamentos não representativos dos anseios populares, desejam para os destinos dos países. O povo trabalhador não conta. Não é ouvido e frequentemente desconhece os mecanismos profundos de sua exploração. Muitas vezes faz coro com as opiniões de seu próprio explorador, em razão dos processos de doutrinação ideológica perpetrados pela imprensa.
O humanismo nas políticas de Estado está sendo substituído pela ideia de gestão. A ideia de gestão eficiente dos negócios públicos, porém, não mexe nos interesses dos grandes possuidores do capital. Mexe apenas com os trabalhadores, com os simples. Ataca os direitos trabalhistas, previdenciários, reduz investimentos em educação e saúde para o povo. Não promove o incentivo ao desenvolvimento das micro e pequenas empresas. E tudo isso é considerado por muitos como modernidade. O Estado não pode auxiliar os mais fracos, prega-se a “meritocracia”.
 No entanto, este “Estado mínimo” é apenas para os pobres, porque os muito ricos, através de alianças poderosas, conseguem apoio deste Estado. Nas crises do capitalismo, é aceito naturalmente e sem maiores repercussões que os trabalhadores salvem da falência, com seus impostos, grandes instituições financeiras mal administradas. É um bom exemplo do fraco que ajuda o forte em uma lógica muito questionável.
No Brasil dos últimos anos tem sido veiculado pela imprensa em geral que o problema maior a ser enfrentado em nosso país é a corrupção. De fato, a corrupção é um câncer social que deve ser combatido a todo momento, por todas as nações, pois não é um problema único dos brasileiros. Porém, defendo neste estudo, que talvez o problema maior que enfrentamos neste momento histórico não é o da corrupção, mas sim da ascensão do neoliberalismo que, se não for combatido pelos povos do mundo, levará ao aumento da concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos e a exclusão e miséria da maioria. E mais. Corremos o risco de perdermos as conquistas democráticas, pois os interesses do capital estão se sobrepondo aos interesses da democracia.
O grande problema é que vivemos em uma época de domínio econômico e ideológico tão profundo e cruel, que o homem comum, o trabalhador, a dona da casa, o executivo, e mesmo o espírita, acaba por sentir vergonha em sonhar e pensar em um mundo diferente do que hoje temos. A exploração é vista como natural, afinal, como muitos alegam, o mundo sempre foi assim e nunca se transformará. Neste sentido diz Alysson Leandro Mascaro:
“Ainda hoje, perpassa uma vergonha ideológica ao homem comum e ao homem ilustrado, bloqueando-lhes a possibilidade de achar ou imaginar que todos possam dividir a produção, que todos possam ter o que comer, que haja casa, roupa e remédio para todos, enfim. Palavras como fraternidade, justiça social e socialismo, ideologicamente, são tornadas perversas na cabeça das pessoas. São todos ensinados a terem vergonha de sonhar algo neste sentido, que seja novo, que seja diferente da sociedade que conhecemos. Ironicamente, nós não temos vergonha da pobreza angustiante da maioria, da exploração contra os que trabalham ou estão fora do mercado, da miséria dos que não tem remédio nem pão para seus filhos, mas nós somos ensinados a ter vergonha de sonhar e de lutar por um mundo de justiça”.

NEOLIBERALISMO: UM GRAVE PROBLEMA DE NOSSO TEMPO:

Acredito que o fortalecimento do neoliberalismo é a grande questão política e econômica de nosso tempo a ser enfrentada. É algo que precisamos todos nos dedicar a pensar e compreender, pois o que está em jogo é a existência digna da maioria da humanidade, ou melhor, a sobrevivência dos pobres. Está em jogo também o ideal de democracia, pois em sociedades tão desiguais do ponto de vista econômico é verdadeira hipocrisia nos conformarmos com a ideia de que “todos são iguais perante a lei”, preceito que representa apenas e tão somente a igualdade formal, legal, conquistada pelas revoluções burguesas.
Sendo assim, entendo que os espíritas, através dos seus centros, federações e associações diversas, também devem participar desta reflexão de modo a ampliar a sua compreensão de tão grave questão da atualidade. Também cabe aos espíritas, segundo penso, qualificar seu discurso no que diz respeito a este relevante tema de caráter social, e, por consequência, e, certamente, não menos importante, direcionar conscientemente sua práxis na sociedade, visando contribuir para o surgimento de um mundo melhor, mais democrático, não apenas no sentido legal, formal, mas também no sentido material, de oportunidades iguais para todos.
Entendo que não é mais possível aos espíritas participarem desta importante discussão apenas com argumentos de caráter moral. É urgente que tenhamos não apenas uma compreensão ética e espiritual do problema social, que obviamente não deve ser desconsiderada, mas também se faz necessário que os espíritas desenvolvam uma compreensão histórica, filosófica, sociológica e econômica deste tema. É certo que, em última análise, os males sociais residem na alma humana, no egoísmo do homem, mas não podemos parar nossa compreensão e discurso dos problemas sociais apenas nesta afirmativa.
Mas, afinal o que é o neoliberalismo? Felizmente alguns espíritas tem se dedicado a este tema, entre eles está Ademar Arthur Chioro dos Reis, professor, médico sanitarista e ex ministro da saúde, que escreveu um importante artigo cujo título é neoliberalismo x espiritismo, que pode ser encontrado no site do CPDoc. O referido artigo, que ora indico à leitura, nos proporciona uma excelente e necessária reflexão sobre a relação entre espiritismo e neoliberalismo.
Segundo Arthur Chioro: “Neoliberalismo é a ideologia que justifica e defende os princípios do capitalismo, baseado na propriedade privada, na liberdade de empresa, o que significa nenhuma intervenção do Estado na economia. Seu objetivo fundamental é o lucro individual, constituindo-se em expressão máxima do individualismo”.
No neoliberalismo se pensa a liberdade de empresa de forma absoluta, sem quaisquer restrições, cabendo ao empresário decidir o que produzir independentemente das necessidades efetivas da sociedade, baseado apenas em sua perspectiva de lucro. Trata-se de uma concepção de sociedade extremamente individualista que não visa ao benefício de todos os membros do grupo social indistintamente, mas principalmente ao benefício dos detentores dos meios de produção.
O neoliberalismo se opõe a qualquer intervenção do Estado para beneficiar os menos favorecidos da sorte, pois segundo seus ideólogos, as crises econômicas são provenientes da excessiva intervenção do Estado na economia. Os neoliberais buscam como solução a privatização e liberalização total da economia, bem como defendem o desparecimento de importantes programas de seguridade social no campo da saúde, assistência e previdência social. Diminuem ou extinguem programas de construção de moradias populares pelo Estado, atacam as leis trabalhistas alegando modernização na retirada de direitos dos trabalhadores.
Afirma Chioro que: “ o principal objetivo para o neoliberalismo, é maximização dos lucros dos empresários privados (lucro econômico, mesmo que signifique maior exploração). E a este critério estão submetidas todas as necessidades sociais. Para esta corrente, a satisfação das necessidades sociais não conta, o que conta é o lucro. ”
Ainda segundo Chioro: “para o neoliberalismo o mercado pode tudo. Neste sentido, há uma absolutização do mercado e não se leva em conta que o mercado, em parte necessário, mas deixado a seu livre jogo, não é capaz de garantir a satisfação das necessidades fundamentais de toda a população”.
Portanto, é fácil concluir que o neoliberalismo é um sistema político-econômico que privilegia o ter em detrimento do ser, o dinheiro como prioridade em relação às pessoas, o indivíduo em relação ao coletivo, aliás, as pessoas, em tal sistema, tornam-se apenas mais uma mercadoria a vender sua força de trabalho. Quantos aos seus efeitos o neoliberalismo tem promovido, nas palavras de Chioro:
“Políticas governamentais antipopulares que ampliaram a queda do poder aquisitivo dos salários, o desemprego massivo, a desnacionalização dos setores estratégicos da economia, a venda de empresas estatais a preços venais, a falência de milhões de pequenos e médios produtores, tanto rurais como industriais”.
A verdade é que as políticas neoliberais só têm aumentado a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos e ampliado as desigualdades sociais, ampliando, portanto, o abismo entre ricos e pobres. O pensamento neoliberal se opõe a qualquer ideia de fraternidade, no sentido da criação de uma rede de proteção social pelo Estado para os cidadãos mais carentes. Qualquer medida de proteção social é tida preconceituosamente como auxílio indevido para aqueles que não querem trabalhar ou que não se esforçam o suficiente.
Tivemos uma boa amostra deste pensamento no Brasil por ocasião do programa do governo brasileiro nomeado bolsa-família. O referido   programa tornou-se uma referência internacional no combate a fome, segundo reconhecimento das Nações Unidas. No entanto, muitos brasileiros, condicionados pela ideologia neoliberal dos meios de comunicação dominantes, apelidaram este programa de “bolsa-esmola”.
Mas, a pergunta inevitável é a seguinte, no que diz respeito a este tema: se o Estado muitas vezes vai em auxílio de grandes corporações financeiras, se muitas vezes perdoa dívidas de grandes detentores do capital, se com frequência empresta dinheiro a grandes capitalistas em condições extremamente favoráveis, por que o Estado não pode auxiliar pessoas que estão na linha da miséria, da fome e do desamparo? Por que chamarmos de vagabundos aqueles que possuem a mais fundamental necessidade humana de se alimentar?
A ideia de solidariedade social, estrutural, organizada pelo Estado, está, portanto, descartada sob os princípios do neoliberalismo. Estamos, portanto, nós, homens e mulheres comuns, condenados a interpretar e a nos submeter às vontades “alienígenas” do chamado mercado, que é mencionado nos meios de comunicação como se fosse uma pessoa real, concreta, a exigir medidas econômicas que garantam e aumentem os seus lucros exorbitantes, sob a enganosa bandeira da eficiência econômica, sem qualquer consideração pelas necessidades fundamentais do povo, que continua explorado e sacrificado.
Neste sentido, Arthur Chioro entende que neoliberalismo e espiritismo são totalmente incompatíveis, diz ele:
“O egoísmo intrínseco ao neoliberalismo é o oposto da fraternidade tal qual concebida na visão espírita e que significa: devotamento, abnegação, tolerância, benevolência, indulgência. O neoliberalismo prega “cada um por si”. O Espiritismo proclama: “um por todos e todos por um”. A fraternidade é a base para a realização da felicidade social. Está na primeira linha; sem ela seriam impossíveis a liberdade e a igualdade reais”
. E diz mais Chioro: “O Espiritismo se contrapõe de forma antagônica à concepção neoliberal”.
A ideia de civilização no Espiritismo está ligada ao princípio de que o “forte deve amparar o fraco”. Em outras palavras, na civilização ideal imaginada por Allan Kardec ninguém fica excluído, a liberdade, a igualdade e a fraternidade estão presentes. Não há privilégios. Nesta “sociedade organizada segundo a lei do cristo” imaginada por Kardec será garantido a todos uma existência digna.
É, portanto, de uma lógica cristalina que se o espiritismo se contrapõe a qualquer tipo de ditadura seja ela de esquerda ou de direita, se contrapõe, igualmente, a qualquer tipo de regime político e econômico que se auto intitula liberal, pretensamente democrático, mas que deixa as pessoas morrerem, abandonando-as a própria sorte, sem comida, sem habitação, educação, acesso a saúde pública e aos bens fundamentais da vida.
Em uma época em que não estranhamos que jogadores de futebol e outras estrelas das sociedades capitalistas ganhem milhões em seus contratos, talvez tenha chegado o momento de refletirmos sobre o que é essencial, prioritário, em uma sociedade, a fim de que se possa atender a todos os seres humanos de acordo com suas capacidades e necessidades, mas nunca de modo inferior ao básico da dignidade humana.
Não é possível acharmos normal, por outro lado, que um professor da rede pública de ensino, por exemplo, seja humilhado em suas condições de trabalho, salários, prestígio social, inclusive, sofrendo a violência policial quando reivindica melhores condições de vida, enquanto que alguns pouquíssimos privilegiados na sociedade ostentam na face dos miseráveis sua opulência e prestígio, muitas vezes em total indiferença pelos graves problemas estruturais de nossa sociedade.
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, nos fala do ideal de civilização que deve nortear o pensamento dos espíritas, e penso que este ideal de civilização indicado pelo fundador do espiritismo não corresponde aos padrões das sociedades regidas pelo neoliberalismo, as quais pouco se importam com o ser humano, tendo sua atenção voltada apenas e exclusivamente para o lucro sempre maior de alguns poucos. Diz Kardec:
“De dois povos que tenham chegado ao ápice da escala social, só poderá dizer-se o mais civilizado, na verdadeira acepção do termo, aquele em que se encontre menos egoísmo, menos cupidez e menos orgulho; em que os costumes sejam mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência possa desenvolver-se com mais liberdade; em que exista mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento sejam menos enraizados, porque esses prejuízos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo; em que as leis não consagrem nenhum privilégio e sejam as mesmas para o último como para o primeiro; em que a justiça se exerça com o mínimo de parcialidade; em que o fraco sempre encontre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e suas opiniões sejam melhor respeitadas; em que haja menos desgraçados; e, por fim, em que todos os homens de boa vontade estejam sempre seguros de não lhes faltar o necessário”.



CONCLUSÃO

Muitas pessoas na atualidade ao observarem a situação do Brasil e do mundo têm expressado desanimo e pessimismo em relação a possibilidade de surgimento de um mundo melhor. Muitos dizem que o mundo não tem jeito mesmo. Que a exploração, a injustiça, o sectarismo, a violência, a fome, sempre estiveram presentes desde que o mundo é mundo. Afirmam que é ilusão pensar na possibilidade de transformação das coisas.
De fato, os momentos de pessimismo na atualidade são muitos. Basta assistirmos ou ouvirmos os noticiários diários para rapidamente constatarmos as dificuldades em que a humanidade se encontra. As notícias de refugiados nos espantam, o terrorismo na Europa, a violência nas cidades brasileiras, as crises institucionais do Brasil, a corrupção das altas esferas políticas e empresariais, a degradação de meio ambiente. Enfim, um cortejo de problemas muito difícil para que nós, pequenos cidadãos da vida cotidiana, possamos enfrentar.
Porém, somos espíritas. E este fato deve nos levar a considerar o que o espiritismo diz sobre tais temas.  O espiritismo é otimista, sem perder de vista a complexidade dos problemas sociais. O espiritismo nos fala de evolução, progresso, tanto no sentido intelectual quanto moral. O espiritismo aposta que a sociedade está em permanente transformação. Afirma que a terra já passou por um estado primitivo e que ora se encontra como um mundo de provas e expiações, e que, um dia, se transformará em um mundo regenerado, em direção a patamares mais altos de felicidade.
No entanto, o espiritismo afirma que esta transformação será necessariamente produto da ação humana. Sem dúvida, que existem teorias espíritas que afirmam que almas mais qualificadas, evoluídas, um dia também virão para este mundo, através da reencarnação, com vistas a auxiliar o processo de transformação. Mas, o espiritismo, não é uma filosofia contemplativa, que estimula o homem a aguardar este hipotético momento. O espiritismo é claro, categórico, ao afirmar que os problemas sociais são obra do homem e não de Deus e que a solução de tais problemas, portanto, é de única e exclusiva responsabilidade do homem.
Assim, como espíritas que somos, não podemos perder a esperança. Pelo contrário, conscientes que a reencarnação é uma oportunidade preciosa de construção de nosso destino individual e coletivo, devemos por todos os meios éticos ao nosso alcance lutar pela melhoria de nossa vida individual e coletiva. Devemos acreditar que o mundo não é algo dado, definitivo, mas que é um permanente devir, um vir a ser. E que a força desta transformação está na ação permanente e consciente dos homens.
Acredito que os espíritas e suas instituições podem fazer o papel de “sal da terra”, ou seja, serem agentes de transformação para o surgimento de um mundo melhor. Não consigo compreender a ideia de um espírita conservador, posto que conservador é aquele que quer conservar, que está contente com o que aí está. Pessoalmente, não estou contente com o que aí está, o que quero é um mundo melhor, não apenas para mim, mas para todos.
 No que diz respeito às instituições espíritas desde os centros espíritas às grandes federações acredito que estas instituições têm uma responsabilidade muito importante, não apenas no que diz respeito as atividades próprias do cotidiano dos espíritas, mas também no que diz respeito a ampliação da consciência crítica dos espíritas em relação aos problemas da vida, sejam eles de caráter individual ou social.
De fato, as instituições espíritas podem promover ações práticas, concretas, visando uma participação social dos espíritas em defesa dos grandes valores que o espiritismo postula. Os espíritas e suas instituições podem promover, portanto, grupos de estudos e reflexão sobre questões políticas e sociais, palestras, manifestos e até mesmo passeatas, em favor da paz, da democracia, da justiça social, dos direitos humanos. Enfim, na defesa de todos os valores que estão englobados nas ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, ideais defendidos explicitamente nas obras de Allan Kardec.
Certamente que muitos irão continuar a dizer que isto é misturar política com espiritismo. Não pretendo, obviamente, como diria Kardec “violentar consciências”, que cada um continue pensando como deseja. Porém, pessoalmente, não consigo compreender como os espíritas e suas instituições poderiam ser alienados de questões fundamentais da vida social. Penso que isto além de grave omissão, seria um tamanho desperdício de um grande contingente de pessoas que, em sua maioria, tiveram acesso a educação formal, a uma reflexão mais apurada sobre a vida e a sociedade. E por isso possuem potencialidade crítica ou pelo menos deveriam possuir.
 O Brasil nos últimos tempos vive uma onda de ódio e sectarismo. Nós, espíritas, precisamos tomar cuidado para não sermos apanhados por esta onda. Não podemos esquecer nossas grandes tradições de alteridade e humanismo. Não podemos esquecer que nós, espíritas, já fomos vítimas tanto do ódio religioso, lembremos o auto de fé de Barcelona, quanto político, lembremos a ditadura de Franco, também na Espanha. A história nos ensina que o ódio político ou religioso pode acabar na fogueira, na tortura ou no campo de concentração.
 Por outro lado, os meios de comunicação nos últimos tempos têm dado grande repercussão ao problema da corrupção. Certamente que os meios de comunicação dominantes escolhem criteriosamente a pauta de temas que lhes interessam, e que devemos prestar atenção não somente no que eles falam, mas também no que eles calam. É evidente, como já foi dito anteriormente neste artigo, que a corrupção é um câncer que fragiliza o organismo social e deve ser combatido sem trégua.
Porém, defendo nesta reflexão que talvez este não seja o maior problema da vida social brasileira no momento. Entendo que o fortalecimento do neoliberalismo com a sua insaciável busca de destruição do chamado Estado de bem-estar social, que foi uma conquista importante da humanidade no século XX, é o principal perigo que vivem as sociedades do Brasil e do mundo no momento. E este perigo normalmente é silenciado nos principais meios de comunicação.
Finalmente, pensar o neoliberalismo é pensar o capitalismo em sua face mais agressiva. E esta reflexão nos leva necessariamente a uma questão mais profunda. Chegamos ao fim da história? O sistema capitalista de produção é o que de melhor a humanidade pode atingir? Devemos nos conformar com a eterna separação entre uma pequena minoria de incluídos e uma grande maioria de excluídos dos benefícios da civilização? Um dia teremos um mundo sem explorados e exploradores? Neste início do século XXI este mundo melhor é uma utopia, mas muitas vezes a utopia de hoje se torna a realidade de amanhã.
 O espiritismo, por sua vez, nos ensina a ter esperança.
Segue anexo o manifesto da CEPABrasil, publicado em novembro de 2016, assinado por seu presidente Homero Ward da Rosa. Trata-se de um exemplo concreto, atual, de que os espíritas, através de suas instituições, podem se manifestar na sociedade defendendo princípios e ideias generosas para o campo político e social. O manifesto ao seu final defende um Brasil soberano, democrático, ético e com justiça social. Aqueles que acompanham a vida política brasileira dos últimos tempos sabem que estes princípios, todos eles sem exceção, devem ser reafirmados com veemência na atualidade de nosso país.
 Parabéns à CEPABrasil por não ter preferido o silêncio e a omissão.

BIBLIOGRAFIA
       
AIZPÚRUA, Jon. O pensamento vivo de Porteiro-Homenagem ao fundador da sociologia espírita.Ed.C.E. “José Barroso”
DOS REIS, Ademar Arthur Chioro. Neoliberalismo x Espiritismo. www.cpdocespírita.com.br
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.Ed. Lake.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Ed.Ide.
MANIFESTO DA CEPABRASIL. www.cepabrasil.org.br – Anexo ao artigo.
MASCARO, Alysson Leandro. Pensamento social e Espiritismo. www.pedagogia espírita.org.br
MASCARO, Alysson Leandro. Lições de sociologia do  Direito. Ed. Quartier Latin.
NUNES, Ricardo de Morais. Breve estudo comparativo sobre a reflexão socialista de Léon Denis e Manuel Porteiro. www.cpdocespírita.com.br

AUTOR: RICARDO DE MORAIS NUNES. Bacharel em Direito e Lic. em Filosofia. Delegado da CEPA e Presidente do CPDoc- Centro de Pesquisa e Documentação Espírita. Articulista do Jornal ABERTURA.