quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Um texto sem nome - Ciro Pirondi


Um texto sem nome

Ciro Pirondi


foto: Palmyra Régis, Regina Celi, Ciro Pirondi, Reinaldo de Lucia, Cláudia Régis e Alexandre Machado no CEAK - Santos

Quando compreendemos a complexidade – simples do Espiritismo, e a dimensão real da itinerância das existências, sentimos que o mundo nos basta. E o presente, a eternidade que nos satisfaz.

Não corremos atrás de um Deus, mesmo que ele exista. Não sofremos pela salvação, mesmo porque, ela não é necessária.

Como sopra o espírito dos evangelhos, não nos inquietamos com o dia seguinte, pois o amanhã se inquietará consigo mesmo. Basta a cada dia seu próprio penar.

No cotidiano percebemos a razão de André Sponville ser a generosidade uma força e vitória, porque ficamos mais leves, simples e gentis. Menos tolerantes com as injustiças, principalmente as coletivas e sociais, como a de Paraisópolis.

Libertando-nos dos anseios de eternidade e nos satisfazendo com o presente, nos tornamos mais humanos, mais fortes e doces. Talvez mais eternos.

Não se trata de dar lição a ninguém, mas ajudar a cada um a ser seu próprio mestre e seu único juiz.
Aceitar a distância entre o que sabemos e não sabemos, e termos a sabedoria de nossa ignorância é a condição básica para aprendizagem. Os que sabem já não necessitam aprender e os que dizem nada saber negam suas memórias, suas vidas.

Este breve texto sem nome, fala um pouco dessas minhas inquietudes. Animei-me a escrevê-lo quando li sobre os Cadernos de Cultura que Jaci e eu inventamos. Talvez pense em editar um outro, sem título ou tema, apenas convidando amigos a escreverem sobre suas reflexões.

Afinal aqui estamos neste belo mundo, em um país temporariamente na escuridão, onde nenhuma pessoa com bom senso pode se sentir confortável. Talvez só nos reste resistir, intuir algo novo, acreditarmos na beleza, na leveza e nos poetas, “antenas da raça”.

Ciro Pirondi é arquiteto e reside em Mogi das Cruzes

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Com quantas pessoas você se comunica? por Alexandre Cardia Machado


Com quantas pessoas você se comunica?

Parece uma pergunta simples, mas nos dias de hoje é na verdade uma pergunta complexa. Alguns estudos demonstram que em média nós temos no máximo 150 pessoas que podemos chamar de amigos.

Ter amigos só traz benefícios. Quanto mais, melhor. Mas há um limite. Um estudo feito na Universidade de Oxford comparou o tamanho do cérebro humano, mais precisamente do neocórtex (área responsável pelo pensamento consciente), com o de outros primatas. Ele cruzou essas informações com dados sobre a organização social de cada uma das espécies ao longo do tempo. E chegou a uma conclusão reveladora: 150 é o máximo de amigos que uma pessoa consegue ter ao mesmo tempo.” ( Revista Superinteressante – Fevereiro 2011)

Bem, mas temos pessoas que seguimos, pessoas que fazem parte de redes socias, onde “amigos” de amigos são adicionados.

Agora outra pergunta. De quantas redes sociais você participa? Facebook, Instagram, LinkedIn, Skype, WhatsApp, blogs e tantas outras? Fiz esta contagem como não uso Facebook e Instagram cheguei ao número mágico, no dia de hoje de 1541 pessoas com quem me comunico. Estou muito longe do Bill Gates que tem, só no LinkedIn 23 milhões de seguidores.

Agora, como sou redator de um jornal, me comunico mesmo com vários amigos, no trabalho então nem dá para contar, pois não considerei em minhas contas a possibilidade de falar com mais de 100 mil pessoas de minha empresa a um toque no computador.

Mas tenho contatos próximos em quantidade dez vezes maior do que os estudos demonstram ser possível manter uma amizade produtiva. É que o mundo mudou muito nos últimos anos, após o MSN e o Orkut, que hoje nem existem mais. Hoje somos conectados, temos “amigos” de “like”!
Ainda que esta conexão seja leve entre as pessoas existe a possiblidade de multiplicarmos a influência de nossos pensamentos. É aqui que entra a possibilidade de divulgarmos o espiritismo que queremos. Quantos de nós compartilhamos os nossos pensamentos espíritas, fora da esfera de contatos mais próximos?

Este é um campo que devemos buscar influenciar, talvez com uma linguagem um pouco mais moderna, quem sabe com isto possamos trazer à compreensão de muitos do que seja a imortalidade dinâmica, mola propulsora da humanidade e tão pouco conhecida da maioria.

2020 está chegando, temos que renovar as expectativas, focar no positivo e gerar ações transformadoras.

Ainda sobrou tempo para convidar nossos verdadeiros amigos a ouvir uma música de Oswaldo Montenegro – “A Lista” pesquisem no Google. Segue a letra.

“Faça uma lista de grandes amigos / 
Quem você mais via há dez anos atrás /
Quantos você ainda vê todo dia /
Quantos você já não encontra mais /
 Faça uma lista dos sonhos que tinha /
 Quantos você desistiu de sonhar / 
Quantos amores jurados pra sempre / 
Quantos você conseguiu preservar /
Onde você ainda se reconhece / 
Na foto passada ou no espelho de agora /
 Hoje é do jeito que achou que seria / 
Quantos amigos você jogou fora / 
Quantos mistérios que você sondava / 
Quantos você conseguiu entender / 
Quantos segredos que você guardava / 
Hoje são bobos ninguém quer saber /
Quantas mentiras você condenava / 
Quantas você teve que cometer /
Quantos defeitos sanados com o tempo / 
Eram o melhor que havia em você / 
Quantas canções que você não cantava / 
Hoje assobia…”

O objetivo aqui é convidá-los a usar a sua influência pessoal para mostrar-se como espírita e permitir que outros possam compartilhar de nosso espiritismo!

Alexandre Cardia Machado

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

texto original de inauguração do Blog - ainda atual


Texto inaugural do blog do ICKS – 14 de abril de 2009
A PERPLEXIDADE DIANTE DOS FATOS


Republicamos este texto, dez anos depois de sua primeira publicação. Jaci Regis inaugurou o blog do ICKS chamando esta discussão. Bem hoje blogs não são tão dinâmicos assim, outras mídias são mais vigorosas. Mas vale a releitura, para que tenhamos a perspectiva histórica, veremos que não mudamos tanto.

Fiquem com Jaci Régis:

“O panorama social do mundo neste século vinte e um é extremamente confuso, dinâmico, rico e pobre, violento e promissor.

Entretanto, é impossível ficar passivo diante da sucessão dos fatos.

Fatos que se modificam constantemente, que mudam cenários de um dia para a outro.

Isso tem provocado profunda preocupação nos religiosos em geral.

Um espírita escreveu que não fosse a reencarnação, deixaria praticamente de acreditar em Deus, tal a impressão de abandono e passividade da divindade diante dos fatos.

Para ele, encontrar a culpa nas pessoas, relativamente ao passado, alivia a passividade divina.

O exame é falho porque a reencarnação não é um instrumento de punição moral, nem o Universo se assenta na perspectiva do pecado e do castigo.

Vemos o papa católico, vestido à moda da Idade Média falando a multidões e à mídia, com ideia da Idade Média, sem que suas palavras causem efeito.

Da mesma forma os evangélicos, principalmente os pentecostais, arregimentam multidões, em shows de fé e arrecadação, mobilizando recursos da mídia eletrônica, sem que se veja qualquer atitude positiva na mudança das coisas, na modificação do ambiente.

Na verdade quem tumultua e muda é o materialismo que é genericamente apontado como o culpado de tudo.

É preciso, porém, definir esse materialismo.

Não se trata de um esquema filosófico, nem uma opção consistente.
Esse materialismo representa a insatisfação generalizada, a subversão comportamental relativamente aos parâmetros que se instituíram na sociedade cristã. Talvez seja mais apropriado chamá-lo de comportamento oportunista. Como ocorre com certas doenças que afloram devido à queda das defesas do organismo.

Essa insatisfação reflete a falta de perspectiva real, imortal da sociedade nominalmente espiritualista, mas que se envolve deliberadamente no sexualismo, no consumismo e na falta de perspectiva.

Esse materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer.

Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.


É mesma coisa que pais que dão péssimos exemplos e quando os filhos se transviam alegam que a culpa é deles, das más companhias, do consumismo, enfim, nada com eles mesmos.

Como compreender a sucessão dos fatos que derrubam antigas ordenações morais?

Por que o materialismo é tão sedutor?

Por que a porta da perdição é larga?

Na atual crise econômica o que menos se fala é em ética. Mas fundamentalmente ela decorre da ganância, da esperteza, da deliquencia de colarinho branco que corrompe as estruturas sociais.
Todavia poucas vozes se levantam para apontar essa falha básica, que não apenas do capitalismo, mas de todos os regimes e ideologias.

Tenta-se remendar com trilhões de dólares. A questão ética fica de lado até na crista da crise, quando nos Estados Unidos, foram pagos bônus milionários a executivos, mesmo tendo o dinheiro origem pública.

Seria demais apontar o fracasso das religiões como causa básica do avanço do materialismo?

O que pede a sociedade moderna?

A sociedade moderna olha para o que diz a ciência. A ciência se define como materialista, no sentido de restringir seu campo de atuação, no caso do ser humano, ao corpo.

Aqui, no corpo, estaria a base de tudo. A neurologia pretende responder a todas as perguntas sobre o comportamento através de complicadas explicações das funções cerebrais descartando qualquer natureza espiritual do ser humano.

Então, as religiões – católica, evangélica ou espírita - fazem de conta que nada mudou, que seus fundamentos continuam intactos, que o comportamento humano derivados das necessidades, desejo, desvios, seja do que for, está errado e que o único caminho é retornar aos roteiros por elas estabelecidos.

Todas essas religiões são cristãs. Isto é, estão baseadas no modelo criado pela Igreja nos primórdios da era cristã e que, estão comprovadamente falhos, incapazes de entender a natureza do ser humano e de dar uma diretriz objetiva para sua vida.

Vivem de rituais, de discursos repetitivos.

A verdade é que as religiões em toda a história são movimentos organizados para exercer o poder.
Promovem a fé, mas não a espiritualidade.

Desprovidas do poder real patinam em doutrinações que não questionam a natureza das emoções, medos e insatisfações do ser humano.”

Espero que tenham gostado do texto.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

30 anos da queda do Muro de Berlim - por Roberto Rufo e Silva


Trinta anos da queda do Muro de Berlim.

"Sem o livre-arbítrio o homem não tem nem demérito no mal, nem mérito no bem, e isso é igualmente reconhecido no mundo, onde se proporciona sempre a censura ou o elogio à intenção, quer dizer à vontade. Ora, quem diz vontade, diz liberdade". (Allan Kardec em "Resumo Teórico da Motivação das Ações do Homem").

                          
Há exatos 30 anos, mais especificamente no dia 09 de novembro de 1989, caiu fragorosamente um dos símbolos mais marcantes da Guerra Fria, o Muro de Berlim sem precisar de nenhuma revolução sangrenta. Com a crise econômica do sistema de produção marxista-leninista, os países do Leste Europeu subjugados ao mando da falecida União Soviética desmoronaram como um castelo de areia.

Na pergunta 837 do Livro dos Espíritos kardec indaga justamente sobre qual o resultado dos entraves postos à liberdade de consciência? Poderíamos acrescentar ao direito de ir e vir representado pelo Muro de Berlim.

Os espíritos respondem que os entraves podem constranger os homens a agirem de modo contrário do que pensam, torná-los hipócritas. A liberdade de consciência é um caractere da verdadeira civilização e do progresso.

O muro separou o destino de milhões de pessoas, acarretando sofrimentos incríveis diante daquela brutalidade. É bom que se lembre que o muro foi construído pela Alemanha Oriental comunista, com apoio da União Soviética. Por ironia o país se chamava RDA - República Democrática Alemã, a atestar que o substantivo democracia era apenas uma falácia ideológica.

Como em outras partes do mundo, a extrema direita ronda os países do Leste Europeu, em países da antiga Cortina de Ferro, e não poderia ser diferente no que era antigamente a Alemanha Oriental, onde a população apresenta uma insatisfação e frustração com a pouca prosperidade em relação aos alemães ricos da antiga Alemanha Ocidental. Na reunificação era conhecida a lacuna educacional entre as duas Alemanhas, a diferença de aptidões era enorme. Passados 30 anos, das 500 maiores empresas da Alemanha, 423 ficam na antigamente chamada Alemanha Ocidental. E com isso vem a inevitável pergunta: de que adianta a democracia se os frutos do trabalho são para poucos? 

Kardec na pergunta 831 indaga aos espíritos se a desigualdade natural de aptidões não coloca certas raças humanas sob dependência de raças mais inteligentes?  Sim, para as erguer e não para as embrutecer ainda mais pela subjugação. O governo alemão fez vários esforços nesse sentido, mas parece que foram insuficientes. A importante queda do muro de Berlim trouxe a esperança num país unido e acolhedor, sem cidadãos de segunda classe.

Tenho certeza de que em nome de um mundo livre de ideologias totalitárias saberemos conduzir, com a nossa querida Doutrina Espírita a nos subsidiar, a nossa proposta de que " cabe à educação combater as más tendências e ela o fará quando estiver baseada na natureza moral do homem" nos ensina Allan Kardec. 

O jornalista  Hélio Gurovitz escreveu com muita propriedade: "como todo o Leste da Europa, o território da antiga Alemanha Oriental se tornou terreno fértil para a xenofobia, onde o nacional-populismo floresce no solo arado pelo comunismo. Berlim não. Dividida ao meio por 28 anos, reunificada há 30 anos, voltou a ser metrópole cosmopolita de Albert Einstein e Bertolt Brecht. Traz nos destroços do nazismo e do comunismo, a lição mais necessária para o mundo de hoje: nenhum muro contém a força da liberdade ". O Espiritismo humanista assinaria embaixo. Chega de populismos inúteis.  Como escreveu Friedrich Nietzsche "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras ".  

Roberto Rufo.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Onde Vamos? por Alexandre Cardia Machado


Onde vamos?

O mês de novembro nos trouxe algumas boas notícias no movimento espírita livre-pensador nas terras brasileiras e países vizinhos.  Tivemos a realização do I Fórum do Livre Pensar em São Paulo que acabou por ocorrer mais ou menos na mesma época em que antes realizávamos o SBPE, com características muito diferentes é claro, mas igualmente importante e produtivo.

Houve também uma iniciativa interessante de um grupo de espíritas brasileiros e argentinos que foram ao Uruguai e realizaram o Primeiro Encontro Espírita Uruguaio – Brasileiro.

O momento me inspirou a buscar alguns pensamentos de Ciro Pirondi que vou me apropriar.  Ciro escreveu logo após a desencarnação de Jaci Régis um texto afetivo e profundo sobre algumas de suas características, ao artigo denominou de – Jaci, Construtor de Barcos - que está disponível no Blog do ICKS. O texto foi originalmente publicado no Jornal ABERTURA de Janeiro - Fevereiro de 2011.

Fui buscar neste artigo a perspectiva de Ciro da importância da liderança, do sentido de direção que dirigentes espíritas precisam ter para manter os militantes focados no que realmente interessa. Assim se referia Pirondi:

“Jaci tem o sentido da direção, percepção dada a poucos. Uma espécie de norte interior.

“Esta clareza vezes é confundida com rigidez e intolerância. Nada mais normal para um dos maiores pensadores espíritas de vanguarda do século XX. Nos anos setenta (do século passado) o pensamento espírita estava estagnado. Alguns poucos – Herculano Pires, Deolindo Amorim – tentavam uma teoria filosófica para conciliar religião e ciência; revelações mediúnicas e pensamento crítico. Sem a metodologia acadêmica, natural dos dois outros grandes filósofos, Jaci chega com textos claros, diretos: fala da família, do casamento, de sexo e dos problemas cotidianos.

“Como um construtor de barco, sábio de seu ofício, mas cujo objetivo maior não é a construção da nau, mas a viagem, o processo no tempo, que ela proporciona: novas paisagens, outros hábitos, novos afetos, um olhar mais sensível e tolerante.”

Precisamos urgentemente definir que viagens faremos no ano 2020 e com que recursos.
Teremos uma grande oportunidade com a realização do XXIII Congresso Espírita da CEPA Internacional que será realizado em Salou na Catalunha, Espanha. Evento que tem como tema central: O Espiritismo ante os desafios humanos. E porque não - O espiritismo ante os desafios internos, pois temos problemas estruturais.

Nossa opção na CEPA é de não sermos formalmente ligados, funcionamos como grupos orgânicos com existência independente. Este modelo de grupos orgânicos por ser leve, é fácil de levar, como um barco pequeno muito manobrável. Mas como cada grupo, ou centro é totalmente independente, tende a cuidar de seus problemas locais que lhes parecem muito mais importantes do que trabalhar para coordenar ações nacionais e internacionais. 
Como boa convivência, isto funciona, mas é pouco produtivo, no sentido mais amplo de penetração de ideias e ações coordenadas. Precisamos de barcos maiores. Quem sabe deste congresso de 2020 possam sair alternativas efetivas de trabalho coordenado e que nos concentremos no que pode ser feito para superamos os desafios e aumentar a nosso impacto na sociedade.

Isto só será possível com interação, muita ação e comprometimento. Quando um movimento é ágil. Os espaços são ocupados.

Temos muitos construtores de barcos em nosso grupo, nos falta um censo de navegação conjunta, como se fossemos fazer uma navegação de longo curso, fazemos uma viagem aqui, outra ali, ... navegar é preciso ... já dizia Fernando Pessoa mas o que buscamos é a construção de um navio capaz de nos levar em uma travessia segura, que garanta a troca de ideias e que agregue todos os segmentos do livre pensar espírita. Se isto ocorrer estaremos dando os passos certos para o sucesso que buscamos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O Centésimo Abertura ninguém esquece e os 20 anos de ICKS - por Alexandre Cardia Machado


O Centésimo Abertura ninguém esquece e os 20 anos de ICKS

No dia 29 de outubro de 2010 todos da família Abertura fomos surpreendidos pela internação hospitalar de Jaci Régis então Presidente do ICKS e Editor-Chefe do jornal ABERTURA, fato este que infelizmente culminou com o retorno de Jaci ao Mundo dos Espíritos no mês dezembro do mesmo ano.

Passado alguns dias de sua internação na UTI nos ocorreu, e o ABERTURA? Foi então que nos dirigimos a antiga sede do ICKS e junto com a Danielle Pires verificamos o que havia de material em andamento e tratamos de agilizar o fechamento daquela edição, realmente pensávamos que, da mesma forma que já havíamos passado por problemas de saúde anteriores e Jaci Régis sempre voltava, que esta edição seria a única. Bem os fatos que se seguiram mostraram que não e aqui estamos escrevendo o nosso 100° editorial.

Vou compartilhar com vocês o e-mail que enviamos aos nossos articulistas, como de praxe é feito todos os meses, mas que especialmente nesta ocasião se tornaria em algo especial. Digo isto pois este jornal é feito pela direção do ICKS, pelos queridos articulistas e claro vocês, nossos leitores.

“Espero que vocês já tenham recebido o jornal de setembro, para outubro gostaria de informá-los que se tratará do 100° ABERTURA sem a participação direta de Jaci Régis. Os dois primeiros jornais que trabalhei, o primeiro estava 50% pronto e o segundo começamos do zero, mas ainda esperávamos pela recuperação do meu sogro o que acabou não ocorrendo. Tem sido uma grande honra seguir com esta tarefa e não poderia jamais ter chegado a esta quantidade de edições sem os artigos, o apoio e o incentivo de todos vocês, muito obrigado! Em outubro também o ICKS completará 20 anos, somos mais novos que o Abertura que antes era editado pela LICESPE. Vamos começar o jornal de outubro, favor enviar os seus artigos. Um grande abraço, Alexandre”.

Recebi vários e-mails que copio aqui pela importância desta amizade e dedicação deste grupo ao projeto ABERTURA.

“É uma honra para mim, e creio para todos nós escrevermos para um Jornal Espírita com excelente conteúdo. Parabéns a você Alexandre pela liderança expressiva na coordenação do Jornal Abertura. Parabéns a todos. Roberto Rufo”.

Parabéns Alexandre pela competente condução do jornal Abertura após a desencarnação de Jaci Régis. O Abertura continua sendo um jornal espírita sintonizado com o nosso tempo. É uma honra participar do grupo de articulistas do jornal. Devo observar que, no Abertura, somos livres para expor nossos pontos de vista, sem qualquer tipo de coação ou pressão da parte do editor do jornal. Viva o Abertura! Viva o livre-pensar espírita! Ricardo Nunes.”

Querido! Que orgulho da tua trajetória! Conte sempre conosco. Carolina Régis di Lucia”.
“Parabéns pela condução eficiente do jornal espero estar contigo enquanto a vida me permitir. Abraços. Egydio Régis”.

“Estimado Alexandre. Confesso que temia pela sobrevivência do Abertura, com a partida do Jaci. Ao contrário do ditado popular segundo o qual "ninguém é insubstituível", creio que há pessoas, em todos os setores de atividade, que deixam espaço que outros não conseguem ocupar com a mesma competência. Gosto da frase Bertold Brecht, segundo quem há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.

O Jaci, ao meu sentir, se fez imprescindível entre nós. Por isso tudo, me surpreendeu enormemente que alguém, de tua capacidade e dinamismo, logo após a desencarnação do Jaci assumisse o Abertura e seguisse, com a mesma competência, editando o jornal. Claro que te vales, para tanto, das ideias e, inclusive, de matérias deixadas por teu sogro e rememoradas a todo o momento. De uma certa forma, ele está presente nessa empreitada.

Assim, te cumprimento por levares avante esse projeto singular, mediante um enorme esforço pessoal. Posso avaliar isso, porque realizo tarefa semelhante com o coirmão do Abertura, que é o nosso Opinião, seguindo a mesma linha editorial e enfrentando as mesmas dificuldades e incompreensões. Parabéns, por tudo isso, e vida longa ao Abertura. Milton Medran”.

É claro que nossos companheiros não esperavam que seus e-mails se tornassem notícia, mas somos aqui jornalistas e como tal, o que cai na caixa de entrada do editor é matéria jornalista. Fazemos isso para que todos vocês que são parte interessada, pois pagam pela assinatura e podem e devem saber que sem vocês não há porque fazer o jornal. Assim carinhosamente digo a todos obrigado por seguirmos juntos em companhia nesta trajetória.

20 anos do ICKS

O ICKS foi fundado no dia 3 de outubro de 1999, esta data não é ocasional, Jaci Régis fez questão de escolher a data do nascimento de Hippolyte Léon Denizard Rivail mais conhecido pela alcunha de Allan Kardec. O nosso ABERTURA é um pouco mais velho, nasceu também em uma data importante para o espiritismo, exatamente no dia em que se comemora o lançamento do Livro dos Espíritos – 18 de abril - no ano de 1987, portanto já tem 32 anos.

O Espírito Jaci Régis

Temos notícias, principalmente vinda do Centro Espírita Allan Kardec que Jaci Régis está ativo, participando de diversas atividades no Mundo dos Espíritos e frequentemente se comunica por lá. Enquanto tivemos atividades mediúnicas no ICKS era comum recebermos boas notícias a seu respeito o que deixava a todos nós repletos de satisfação. Como disse muito bem o Milton Medran, Jaci era simplesmente imprescindível, então o que fazemos aqui é algo diferente, jamais teremos a vivência espírita, a capacidade intelectual e conhecimento do espiritismo daquele que era certamente uma referência para todos nós.

Mas como é costume dizer no Rio Grande: “Não está morto quem peleia” e este jornal seguirá sendo por muito tempo um canal importante de divulgação do Espiritismo Livre-pensador, porque podemos discordar, mas jamais impedir os outros de emitirem as suas opiniões.

Alexandre Cardia Machado – Editor-Chefe - editorial de outubro do Jornal Abertura

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Revolucionário, eu? Seria a reencarnação obrigatória? por Reinaldo di Lucia


Durante o XXI Congresso Espírita Panamericano, realizado em Santos, o trabalho que escrevi, propondo a possibilidade da reencarnação não ser obrigatória, provocou alguma polêmica. Muitos vieram dizer-me: “Quer dizer que agora, depois de tirarmos Jesus e questionarmos o Perispírito, estamos também eliminando a Reencarnação do Espiritismo?”




Penso que o medo da mudança é tão constante no homem que chega a ser natural este tipo de questionamento. Afinal, desde crianças, quando frequentávamos a infância espírita – naquela época ainda chamada de “escolinha”, um provável diminutivo de “escola de evangelização” – a reencarnação é encarada quase como um dogma. Aliás, em perfeita consonância com Kardec: “Em que se funda o dogma da reencarnação? Na justiça de Deus e na revelação (...)” (Livro dos Espíritos, pergunta 171).

Talvez eu seja mesmo um espírito, digamos, inquieto. Penso que o comodismo do pensamento, o congelamento das ideias leva a uma cristalização que é fatal para a sobrevivência de uma doutrina tão dinâmica quanto o Espiritismo. E assim, desde muito, as perguntas “e se ...” e “ou não” fazem parte integrante da minha visão espírita. Considero necessária e fundamental a revisão periódica dos princípios espíritas, ainda mais se considerarmos o quão rapidamente o conhecimento humano vem evoluindo.

Eis porque considero que a proposta de um trabalho consistente de atualização do Espiritismo, feita há mais de 10 anos pela CEPA, é o que há de mais importante neste século XXI. Não há outras formas de mantermo-nos vivos e atuantes a não ser construindo pontes com as demais formas de conhecimento humano e, se necessário, revendo conceitos que já não mais se sustentam.

Mas, para que isso se efetive, é essencial que nós, espíritas laicos, livres-pensadores e progressistas, tenhamos a mente aberta para a possibilidade da mudança. E, para isso, não pode haver tabus, temas proibidos, impossibilidades a priori. A discussão, o questionamento é obrigatório; a conclusão será feita a partir desse questionamento.

Vamos tirar a reencarnação do corpo doutrinário espírita? Não, não é essa a proposta. Mas temos que analisar com calma até que ponto o livre arbítrio de cada ser pode possibilitar a ele a escolha da não reencarnação. E essa avaliação passa por uma série de outros questionamentos, como fica o edifício conceitual espírita se isso for assim? Qual a extensão do nosso livre-arbítrio? Que outras formas de aprendizado seriam possíveis? Como se dá a evolução? Enfim, há um desdobramento significativo que, de modo amplo, só contribuirá para que o Espiritismo seja mais firme – e que cada um de nós, espíritas, compreendamo-lo ainda melhor.

Que tal, despretensiosamente, despertar o livre-arbítrio revolucionário que vive em você? A reflexão te dará embasamento para mudar seus conceitos, ou mantê-los (seja da mesma forma de antes, seja com novos pilares). Modernizar é isso: pensar, repensar, reciclar, redescobrir, reinventar. Afirmar o mesmo de sempre em uma realidade absolutamente diferente, sem nem ousar uma dúvida sobre o posto, é contextualizar às avessas. Necessário, em algumas situações, mas já exaustivamente explorado, há pelo menos 100 anos, no que tange a filosofia Espírita.  

NR: Este artigo foi publicado no jornal Abertura em novembro de 2012

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO – por Ricardo Nunes


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO – por Ricardo Nunes



NR: Este artigo compilado aqui, foi publicado no Jornal ABERTURA de janeiro a outubro de 2019.
INTRODUÇÃO
  Um dos princípios fundamentais do pensamento filosófico de Jaci Régis é a valorização do prazer. Segundo o pensador espírita brasileiro, a adequada compreensão da necessidade do prazer em nossa trajetória existencial pode nos conduzir à conquista de uma vida terrena relativamente feliz e exitosa. Esta visão estabelece um contraditório ao pensamento cristão e ao pensamento espírita-cristão, que enaltecem o sofrimento como fator privilegiado de evolução e crescimento espiritual. Em razão desta postura teórica, Jaci foi chamado de epicurista por alguns de seus opositores:


“Revoltam-se alguns quando afirmo que O universo está baseado no prazer e não na dor. Dedo em riste acusam-me de epicurista. Epicurista? Eu não sabia. Não tinha conhecimento da filosofia de Epicuro e fui saber quem era esse ilustre personagem, a quem fui ligado como um verdadeiro pecado.”[i]

Ao acusarem Jaci de epicurista utilizaram o sentido negativo do termo, cujo significado popular expressa uma pessoa ligada ao culto do prazer sensorial, corporal, ou seja, alguém que vive para o gozo e para o prazer imediatos, sem maiores preocupações de ordem existencial. Não era este o sentido que Jaci dava à ideia do prazer.

 Procuraremos nos próximos meses fazer uma análise do pensamento de Jaci Régis sobre tão importante tema. Pensar sobre a questão do prazer e da dor é também questionar sobre a temática da felicidade. Em um sentido profundo, é refletir sobre a possibilidade de uma sabedoria para o bem viver.

A presente reflexão, que se desenvolverá pelas próximas edições de ABERTURA, oferecerá, também, aos amantes da filosofia, uma excelente oportunidade de conhecer alguns princípios do epicurismo, importante escola filosófica da antiguidade. Em seu jardim, Epicuro enaltecia o prazer como objetivo fundamental da existência.

Para bem distinguirmos a posição de Epicuro e de Jaci Régis, destacaremos algumas importantes doutrinas que ensinavam a superação, e, até mesmo, a negação do mundo e do corpo, na busca de regiões metafísicas mais elevadas. Trataremos especialmente do platonismo e do cristianismo.

O platonismo compreende o mundo terrestre como cópia imperfeita do chamado “mundo das ideias”, ou “mundo das formas”, cabendo ao filósofo, portanto, a tarefa de elevar-se, pela razão, deste mundo terreno da instabilidade, imperfeição e ignorância, até o mundo ideal da estabilidade, perfeição e conhecimento.

 O cristianismo, por sua vez, propõe a salvação da alma, que deverá escapar deste “vale de lágrimas”, que é a terra, em direção ao céu, onde o crente será acolhido por Deus. Para o cristianismo tradicional, o homem é maculado pelo pecado original desde sua origem e, portanto, não há que se falar de felicidade neste mundo. A felicidade do homem é a salvação em Jesus Cristo.

Na atualidade, já existem correntes cristãs que prometem o reino da terra e os bens do mundo aos seus fiéis, através da polêmica teologia da prosperidade. Porém, esta não foi a concepção do cristianismo em suas origens, principalmente o católico, e também não foi a concepção das principais correntes do protestantismo desde Lutero. Não trataremos da teologia da prosperidade na presente reflexão.

No que diz respeito as influências cristãs contidas no espiritismo, verificaremos um certo enaltecimento do sofrimento, apesar de, em essência, o espiritismo apresentar uma proposta de valorização positiva da encarnação e das vidas sucessivas, como fatores imprescindíveis de aperfeiçoamento e oportunidade para a evolução do espírito imortal.

É justamente em relação às influências cristãs presentes no espiritismo que devemos considerar a importância do pensamento de Jaci Régis, que, ao final de sua vida, defendeu um espiritismo pós-cristão.  Um espiritismo liberto das influências do cristianismo, ou seja, um espiritismo livre das concepções de culpa, castigo, e do culto ao sofrimento.


O PRAZER EM EPICURO
Jaci Régis e o Jardim de Epicuro

Epicuro de Samos fundou a primeira das grandes Escolas helenísticas, que surgiu em Atenas por volta do século IV a. C. A fundação da escola, em Atenas, constituiu-se em um verdadeiro ato de desafio às Escolas de Platão e Aristóteles, que ainda existiam na época, mas que já se encontravam em decadência, apenas vivendo de seu passado glorioso. A Escola de Epicuro representava o novo em contraposição ao passado clássico, segundo Giovanni Reale e Dario Antiseri:

O próprio lugar escolhido por Epicuro para sua Escola é a expressão da novidade revolucionária do seu pensamento: não uma palestra, símbolo da Grécia clássica, mas um prédio com jardim (que era mais um horto), nos subúrbios de Atenas. O Jardim estava longe do tumulto da vida pública citadina e próximo do silêncio do campo, aquele silêncio e aquele campo que não diziam nada para  as filosofias clássicas, mas que se revestiam de grande importância para a nova sensibilidade helenística”.[ii]

O pensamento de Epicuro pode ser subdivido em três temas: lógica, física e ética. Abordaremos a ética de Epicuro, a qual melhor se relaciona com o tema em desenvolvimento. Para Epicuro, a essência do homem é material, ou seja, o homem é um agregado de átomos que se dispersam por ocasião da morte, logo será material o seu bem específico, que é o prazer. No entanto, diferentemente dos Cirenaicos, que consideravam os prazeres e dores físicas superiores aos psíquicos, Epicuro tem uma tese contrária:

“Como fino indagador da realidade do homem, Epicuro compreendera perfeitamente que mais do que os gozos ou sofrimentos do corpo, que são circunscritos no tempo, contam as ressonâncias interiores e os movimentos da psique, que os acompanham e duram bem mais”.[iii]

Assim, para Epicuro, existe o prazer do corpo, que consiste “na ausência de dor no corpo”, e o prazer da alma, que consiste “na ausência de perturbação da alma”. Este estado de ausência de dor no corpo e perturbação na alma foi denominado de aponía e ataraxía.Diz Epicuro:

“Assim, quando dizemos que o prazer é um bem, não aludimos, de modo algum, aos prazeres dos dissipados, que consistem em torpezas, como creem alguns que ignoram nosso ensinamento ou o interpretam mal; aludimos, ao contrário, à ausência de dor no corpo e à ausência de perturbação na alma. Portanto, nem libações e festas ininterruptas, nem comer peixes e tudo o mais que uma mesa rica pode oferecer são fonte de vida feliz, mas sim o sóbrio raciocinar, que perscruta a fundo as causas e todo ato de escolha e de recusa, e que expulsa as falsas opiniões por via das quais grande perturbação se apossa da alma” .[iv]

Com vistas a atingir a aponía e ataraxía, Epicuro distinguiu os prazeres da seguinte forma: 1- Prazeres naturais e necessários; 2- prazeres naturais, mas não necessários 3- prazeres não naturais e não necessários. Os prazeres naturais e necessários são aqueles que devem ser satisfeitos, como por exemplo: beber quando se tem sede, comer quando se tem fome, repousar quando se está cansado. Já os prazeres naturais, mas não necessários, são “variações supérfluas” dos prazeres naturais, exemplo: comer bem, beber bebidas refinadas, vestir-se com apuro, etc. E, finalmente, os prazeres não naturais e não necessários, os quais não tolhem a dor corpórea e nem eliminam a perturbação da alma. São prazeres “vãos” nascidos das “vãs opiniões dos homens”. São aqueles ligados aos desejos de riqueza, poder e honras.

  Devemos concluir esta breve reflexão sobre o prazer em Epicuro afirmando que o famoso filósofo acreditava na possibilidade de uma vida feliz e harmônica neste mundo. Trata-se de uma visão otimista sobre as possibilidades da existência humana, a qual nos convida à necessidade de estabelecermos uma sabedoria de vida, com vistas a manutenção de nossa serenidade e equilíbrio pessoal através do uso da razão.


REGIS E O JARDIM DE EPICURO
O corpo como túmulo da alma em Platão

Normalmente, quando pensamos na ideia de conflito entre corpo e alma, nos conceitos de expiação e culpa, lembramos da tradição judaico-cristã, que nos é mais próxima em termos de perspectiva histórica. No entanto, estas ideias estão presentes desde a mais alta antiguidade no mundo ocidental. Já no orfismo, religião que existiu na Grécia arcaica, mais ou menos por volta do século VIII A.C., encontramos ideias deste tipo.
O orfismo não deve ser ignorado pelos estudiosos do pensamento ocidental, pois influenciou importantes filósofos gregos do período áureo da filosofia na Grécia. É interessante observar, igualmente, que a ideia da palingenesia ou reencarnação está presente nesta que é uma das mais antigas doutrinas religiosas do mundo ocidental. Segundo Giovanni Reale e Dario Antiseri as crenças fundamentais do orfismo são:

“a) No homem hospeda-se um princípio divino, um demônio (alma) que caiu em um corpo por causa de uma culpa originária.
b) Esse demônio não apenas preexiste ao corpo, mas também não morre com o corpo, pois está destinado a reencarnar-se em corpos sucessivos, a fim de expiar aquela culpa originária.
c) Com seus ritos e práticas, a “vida órfica” é a única em grau de pôr fim ao ciclo das reencarnações e de, assim libertar a alma do corpo.
d) para quem se purificou (os iniciados nos mistérios órficos) há um prêmio no além (da mesma forma que há punições para os não iniciados.”[v]

Podemos verificar que no orfismo o corpo e a alma estão em conflito, e que o corpo é uma espécie de lugar de expiação da alma. Pitágoras, o eminente filósofo e matemático, também recebeu grande influência dos órficos e acreditava que a alma devido a uma “culpa originária” também era obrigada a reencarnar-se em sucessivas existências corpóreas, não apenas em forma humana, como forma de expiação daquela culpa. Conta a tradição que Pitágoras se recordava de suas vidas anteriores e que entendia que a purificação da alma não se daria apenas através da prática de ritos, como os órficos ensinavam, mas sim através do reto agir humano com vistas a se tornar um seguidor de Deus.

É em Platão, no entanto, que conheceremos a mais alta reflexão metafísica até aquele momento histórico. O pensamento platônico influenciou profundamente a história da filosofia no ocidente com sua tese que enfatiza a contraposição entre o mundo sensível e mundo das ideias. Outra distinção importante no pensamento platônico, é a que separa radicalmente alma e corpo, sendo o corpo, segundo a concepção do famoso discípulo de Sócrates, um verdadeiro túmulo a impedir a liberdade da alma. Neste sentido, Giovanni Reale e Dario Antiseri explicam o pensamento de Platão:

“Enquanto temos um corpo, estamos “mortos”, porque somos fundamentalmente nossa alma; e a alma, enquanto se encontra em um corpo, acha-se como em uma tumba; e, com isso, encontra-se em situação de morte. Nosso morrer (com o corpo) é viver, porque, morrendo o corpo, a alma se liberta do cárcere. O corpo é a raiz de todo mal, fonte de amores insensatos, de paixões, inimizades, discórdias, ignorância e loucura. E tudo isso precisamente mortifica a alma. Essa concepção negativa do corpo sofre certas atenuações nas últimas obras de Platão, embora nunca desapareça por completo”.[vi]   




JACI REGIS E O JARDIM DE EPICURO- PARTE 4
O cristianismo: pecado e salvação

No cristianismo é central a noção de pecado e queda do homem. Disse Javé: “Da árvore do conhecimento do bem e do mal não comereis, porque no dia em que dela comerdes tereis de morrer”. [vii]Já o maligno disse ao primeiro casal: “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dela comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal”.[viii]

Como Adão não resistiu à tentação foi expulso do paraíso. A partir deste momento entraram no mundo o mal, a dor e a morte. Com Adão toda a humanidade pecou e o pecado entrou na história do homem. Diz Paulo de Tarso: “Por obra de um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado, a morte; assim, a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram”.[ix]

Porém, segundo o pensamento cristão, Deus se fez homem e resgatou a humanidade do pecado e, com a sua ressurreição, derrotou a morte, consequência do pecado. Esta milenar interpretação cristã distanciou-se profundamente do pensamento grego vigente até então. Neste sentido, afirmam Giovanni Reale e Dario Antiseri:

 “A encarnação do Cristo, sua paixão expiadora do antigo pecado, que fez seu ingresso no mundo com Adão, e sua ressurreição resumem o sentido da mensagem cristã- e essa mensagem subverte inteiramente os quadros do pensamento grego. Os filósofos gregos haviam falado de uma culpa original, extraindo o conceito dos mistérios órficos... Mas, ficaram muito longe da explicação da natureza dessa culpa”.[x]

Portanto, para a visão cristã, o homem é um ser decaído, maculado pelo pecado original. Trata-se de uma visão negativa a respeito do ser humano. O homem, nesta visão, é um nada que deve ser resgatado pela graça de Deus de sua condição miserável. Daí à interpretação do mundo como um “vale de lágrimas” foi um passo.

Santo Agostinho, unindo revelação cristã e filosofia grega, retomou o dualismo platônico radical. O famoso santo da igreja falava em cidade de Deus e cidade dos homens. Na primeira, a virtude em todas as suas expressões, na segunda, o mal, a corrupção, o erro.

Estas concepções nos influenciaram profundamente ao longo dos séculos. Nós, espíritos imortais, temos reencarnado sucessivas vezes no mundo ocidental e temos sofrido a pressão ideológica desta cultura que nega a vida, sendo que esta maneira de compreender o sentido do homem e do mundo também influenciou o espiritismo como veremos a seguir.

JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO – PARTE 5
A Influência cristã no espiritismo

Em relação ao contexto histórico em que foi fundado o espiritismo, meados do século XIX, é necessário ter em mente que era uma época em que o cristianismo na França, e mesmo na Europa, ainda tinha grande influência social. É curioso verificar na Revista Espírita de Allan Kardec, que cobre o período de 1858 a 1869, quantos membros da igreja se manifestaram contra o espiritismo com suas pastorais e sermões. Na Espanha ultraconservadora ocorreu um auto de fé com a queima de livros espíritas. Vários Espíritos ligados ao cristianismo auxiliaram na elaboração do espiritismo, sendo que tal circunstância histórica contribuiu para que, em certos aspectos, o espiritismo incorporasse algumas ideias e conceitos mais pertinentes ao cristianismo do que ao espiritismo propriamente dito.

De fato, uma boa compreensão do espiritismo não nos permitirá idealizar a vida extrafísica em detrimento da vida terrena. Quando o espiritismo aceita a classificação do planeta terra como “mundo de provas e expiações” certamente está mais próximo da visão cristã que compreendia a terra como uma espécie de “vale de lágrimas”.  Podemos encontrar, mesmo no contexto da obra de Allan Kardec, algumas ideias muito discutíveis, que apontam para uma compreensão literal, fatalista, punitiva, da lei de causa e efeito no campo da reencarnação.

Enfim, o espiritismo incorporou alguns elementos do pensamento cristão em sua estrutura doutrinária, e aqui se faz necessário distinguir, o pensamento cristão, do imortal pensamento ético de Jesus de Nazaré, com o qual o espiritismo está em conformidade.  É a partir da reflexão crítica a este estado de coisas que poderemos compreender o pensamento de Jaci Régis, pensador espírita brasileiro que entendeu, profundamente, o quanto as noções cristãs foram assimiladas ao pensamento espírita.


 Antes de falarmos da reflexão de Jaci Régis devemos ressaltar que seu pensamento é o de um espiritualista, mais especificamente, de um espírita, de um kardecista. Alguém que raciocina a partir da ideia de corpo e alma, sendo esta última imortal e submetida a reencarnações sucessivas com vistas a um percurso evolutivo. Não é, portanto, o pensamento de um materialista. Como vimos anteriormente neste artigo, Epicuro valoriza a vida terrestre, sob a perspectiva materialista. Jaci Régis, a partir de uma leitura mais precisa em termos conceituais do pensamento espírita, ressalta a importância da vida terrena para a trajetória evolutiva da alma. O corpo, o mundo, e a vida terrestre, não devem, portanto, ser negados, pois representam elementos fundamentais da educação e evolução do Espírito.

Finalmente, devemos dizer que no Brasil o espiritismo tomou um feitio religioso e cristão acentuado. Este posicionamento epistemológico do espiritismo no campo da religião fez com que as pretensões de Kardec no sentido de criar uma ciência e doutrina filosófica fossem prejudicadas em grande parte. E, com isso, aprofundou-se ainda mais o sincretismo entre cristianismo e espiritismo.


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO - PARTE VI
Reflexões sobre o prazer.

Jaci Régis afirma que a cultura judaico-cristã enalteceu o sofrimento e a dor e que nela: “O homem foi colocado numa posição de impotência, cumulado de culpa, desobediência e sujeito à ação fulminante da divindade. Nada de alegria. Nem de felicidade. Essa, quando tudo dá certo, só depois da morte. Aqui, a dor é soberana. O velho testamento diz, sem meias medidas, que Deus não faz acordo com quem desobedece suas leis” .[xi]

 O pensador kardecista denuncia a deturpação histórica que foi realizada com a figura de Jesus, que foi transformado em salvador dos pecados da humanidade, que passou a ser visto como alguém triste, alguém que se deu em sacrifício por nós, sem alegria, sem felicidade, sem sorrisos: “os cristãos foram enganados pela Igreja que transformou o homem de Nazaré num mito, em salvador, em messias universal. E fizeram-no triste, morto na cruz, com sua coroa de espinhos. Não existem gravuras do Cristo sorrindo. Como se ele estivesse amargurado por ter que conviver com essa espécie decaída que é o homem. Jesus de Nazaré foi criticado porque comia e bebia”.[xii]

 Jaci nos faz recordar que Jesus teria dito que veio para que tenhamos “vida em abundância”, e apresentou a criança como símbolo: “Todavia, não é exaltado que Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância”. As mentes enfermiças dos religiosos entenderam que essa vida abundante só seria possível depois da morte, depois de derramar sangue, suor e lágrimas. O mestre apresentou a criança como símbolo. E criança é alegria, prazer, esperança e promessa. A vida terrena é terreno de construção. Cada um prepara esse terreno de forma diferente, colhendo sorrisos ou lágrimas”.[xiii]

É muito fácil constatarmos que o espiritismo, desde suas origens com Allan Kardec, assimilou a cultura do sofrimento e da dor. Reflete o Espírito Agostinho, em O evangelho segundo o espiritismo: “Vossa terra é por acaso um lugar de alegrias, um paraíso de delícias? A voz do profeta não soa ainda aos vossos ouvidos? Não clamou ele que haveria choro e ranger de dentes para os que nascessem neste vale de dores? Vós, que nele vieste viver, esperai, portanto, lágrimas ardentes e penas amargas. E quanto mais agudas e profundas forem as vossas dores voltai os olhos aos céus e bendizei ao Senhor por vos ter querido provar! (...) Felizes os que sofrem e choram! Que suas almas se alegrem porque serão atendidos por Deus”.[xiv]

Segundo Jaci o espiritismo não pode ser a doutrina da dor e do sofrimento, mas sim a doutrina do prazer: “O Espiritismo não pode ser a doutrina da dor e do sofrimento. Mas a doutrina do prazer, no seu sentido amplo, libertador e construtivo. Deve limpar a mente das pessoas da morbidez deixada pelo cristianismo. Precisa reciclar a pretensa maldição divina sobre as gerações...”[xv]

Muitos depreciam a vida afirmando que ela é curta, ilusória, que somos frágeis, e que nada podemos realizar, não era o que entendia nosso pensador: “A vida é breve, afirmam, desqualificando nossa estadia corpórea. Ilusão. A vida é longa, longuíssima, pois se vivencia no bater ritmado dos segundos, dos milésimos de segundo. Pensar na morte para viver é subverter a vida. A mente mergulhada na morbidez, cercada de medo, de erros do passado, lei de talião, causa e efeito, entendidas, todas, como instrumentos de tortura divina e purificação da alma pelo fogo da dor, não pode ser feliz. Ao contrário, retrai-se, induz-se à solidão e sente-se intimamente injustiçada”. [xvi]

Esta visão distorcida pela glorificação do sofrimento e da punição atinge até mesmo um dos princípios fundamentais do espiritismo: “Alguns espíritas, tomando a reencarnação desligada do processo evolutivo e esquecidos de que ela é um instrumento deste, passaram a ligá-la à punição divina. Se, raciocinam, Deus é justo, ninguém sofre sem razão. Logo se a razão não está nesta vida, só pode estar nas outras vidas. Criaram o pecado originário.”.[xvii]

O pensador espírita pós-cristão faz um verdadeiro elogio ao amor e ao prazer: “Agora queremos o amor que liberta que é leve, aberto, que faz bem ao coração. Amor com sexo, com alegria, dentro do recíproco respeito. Amor com ideal, com construtividade. Prazer é retempero da alma. É estado de otimismo e realidade, de pensamento positivo e disposição para servir. É uma forma de estar no mundo, superando morbidez conceitual da punição divina, pois não existe punição divina”. [xviii]


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO 
POR UMA NOVA COMPREENSÃO DE DEUS

 Afirma Jaci Régis que é necessário que tenhamos uma nova compreensão sobre Deus.  Devemos compreendê-lo não mais como um Deus com características humanas, que pune e fornece a graça segundo seus soberanos e inescrutáveis critérios, mas sim como um Deus que se revela na perfeição das leis naturais, as quais apontam para a felicidade humana.

 Segundo o pensador espírita brasileiro devemos: “Inaugurar um novo entendimento da forma como a Causa Primária de todas as coisas, através de sua obra magnífica, rica de detalhes e de processos perfeitos, quer proporcionar felicidade aos homens”.[xix]

Para ter este novo entendimento sobre Deus é necessário ter em mente que tudo aquilo que foi dito sobre Deus, desde a antiguidade até nossos dias, foi dito por homens, apenas por homens, e que não foi o próprio Deus que falou diretamente à humanidade, nem passou procuração a quem quer que seja para falar em seu nome.

“Tudo o que se diz e prega sobre a existência de um deus superior, um criador, um ordenador da vida, foi idealizado, escrito, pregado pelos homens. As muitas faces de Deus representam a imagem dos homens, de cada época. ” [xx]

E a civilização ocidental, judaico-cristã, desenvolveu uma ideia terrível sobre Deus. Um Deus que tem características de pessoa humana a exigir sacrifícios e oferendas, a condenar e a absolver as criaturas, segundo critérios discricionários. Na verdade, a concepção judaico-cristã, apesar de sua origem monoteísta mais abstrata e racional que a do politeísmo da antiguidade, acabou por não conseguir se livrar de uma ideia antropomórfica a respeito da divindade.

A primeira coisa a fazer, portanto, para que tenhamos um novo entendimento sobre Deus, é nos descartarmos desta visão restritiva e humana a respeito da Causa primária de todas as coisas. Devemos liberar nossa mente desta visão acanhada, a qual nos tem sido ensinada há milênios. Neste sentido, afirma Jaci:

 Um novo pensar sobre Deus começará por deixar de lado o deus Jeová, as afirmativas bíblicas e, de modo geral, as teorias que fazem dele uma pessoa. Simplesmente porque não corresponde às mínimas necessidades de um deus universal”.[xxi]

Para Régis a lei natural é a grande expressão da atuação da mente divina no universo, a qual cria, sustenta e direciona, teleologicamente, o espírito e a matéria, em uma sábia e permanente interação, em um grandioso panorama cósmico evolutivo, que ainda escapa a compreensão plena do homem terreno.

“A lei natural exprime a sabedoria divina, com mecanismos extremamente competentes, estabelecendo o ritmo e a sucessão dos fatores com o fim de equacionar, no universo energético, tanto quanto no universo inteligente, o princípio do equilíbrio. Atuando através da lei de causa e efeito ou ação e reação, ferramenta de busca do equilíbrio, pela reciprocidade dos fatores.”[xxii]

No que diz respeito à relação homem e Deus, afirma o pensador espírita pós-cristão que tal relação tem sido frustrante, em razão da equivocada compreensão dos homens sobre a forma da atuação divina. O apelo dos homens sobe aos céus na busca de soluções nem sempre encontradas.

“... a relação entre a criatura e o criador tem sido fria, unilateral. A tentativa do diálogo pela oração, pela imprecação não se concretiza porque o silêncio divino é devastador. E isso sempre foi e é terrível, porque as criaturas são inseguras, temem a morte e procuram num poder maior, supostamente cheio de amor, um porto seguro, uma resposta para o seu medo. O crente pergunta, onde está o Deus onipotente que não atua para eliminar o mal, punir os que praticam crimes e não salva e cura livrando-nos da morte”.[xxiii]

  Afirma Jaci que esta decepção decorre do que se tem falado sobre o amor de Deus. As igrejas referem-se ao amor de Deus à pessoa, ao indivíduo. No entanto, este amor de Deus se expressa no sentido da sabedoria da lei natural, a qual propicia infinitos meios e oportunidades para que o Espírito imortal atinja a felicidade e a plenitude no tempo e no espaço.

Na busca da plenitude existencial, há espaço para o erro e para o acerto do Espírito em um longo processo de aprendizado, sendo que a realização desta plenitude deve ser compreendida sempre na relação com o outro e nunca isoladamente.

 Nesta visão, não se cogita de pecados suscetíveis de condenação eterna e também não se espera nenhum ato de salvação por parte da divindade. E também não se compreende o planeta terra como um “vale de lágrimas”, do qual devemos nos libertar com vistas a alcançarmos as esferas espirituais da felicidade.

 O que existe é apenas aprendizado no percurso das vidas sucessivas, as quais devem ser aproveitadas em um sentido de oportunidade, produtividade e prazer na construção de nossas potencialidades individuais e coletivas.

 “De fato, o universo gira em torno do amor, no sentido de prodigalizar meios e formas de oferecer ao Espírito humano o acesso ao seu equilíbrio interno e nas relações com o outro, isto é, seja feliz. O novo pensar sobre Deus pensa que o objetivo da vida é a felicidade. A inteligência divina proporciona meios para isso, no tempo, através da lei da evolução”.[xxiv]


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO 
A TERRA É AZUL

Jaci Régis costumava afirmar que não desconhecia os problemas do mundo, mas que preferia pensar o mundo de forma positiva, porém sem ingenuidade: “Passam pela mente o alarido das crianças, as campinas floridas, o amor entre as pessoas, a música, a paciência dos educadores, o trabalho silencioso e persistente dos pesquisadores, os benefícios da ciência e da tecnologia”.

Reconhece que vivemos em um “mundo globalizado”, em uma “aldeia global”, e que estamos no “olho do furacão”, pois no dia a dia recebemos, de forma imediata, uma enxurrada de notícias a respeito do sofrimento e das dores dos seres humanos de todas as partes do mundo e que, em vista disso, precisamos selecionar muito bem nossas sintonias mentais, sob pena de nos perdermos em uma angustia paralisante.

“Tamanha carga de emoções exige um redimensionamento da mente, da percepção, da capacidade de priorizar, de decidir, de escolher. De ouvir e não ouvir. De ver e não ver. De falar ou calar”.

Mas, sobretudo, sua visão é otimista. Enquanto muitos se desesperam com a vida e com o mundo, em uma atitude de negação existencial, afirma Jaci que as noções da preexistência, sobrevivência, e destinos evolutivos da alma, que incluem lágrimas, mas também sorrisos, dor, mas também prazer, apontam para novos horizontes no futuro da humanidade.

“A terra é azul, gira no silêncio do cosmo cumprindo seu roteiro. Cada uma das pessoas gira em torno de si mesma em busca do outro. Isso é vida e vida dinâmica, que inclui dor, alegria, lágrimas e sorrisos. Mas somente a persistência do ser que cada um é, além da morte e antes do túmulo será o sinal para uma nova etapa da humanidade.”

 Entendemos que a importância da reflexão espírita de Jaci Regis está justamente em nos auxiliar a desenvolver uma visão mais otimista sobre a vida, sobre o mundo, no sentido de rompimento com uma certa visão mórbida da existência humana neste planeta. Jaci, em uma correta compreensão da filosofia espírita, nos convida a acreditar em nossas potencialidades e a realizar uma vida produtiva, prazerosa, útil no bem, e feliz, tanto quanto possível à nossa condição evolutiva.

Certamente que os percalços existem. E são muitos.  As realidades da existência cotidiana de cada um de nós não são desconhecidas.  O sofrimento também está presente neste mundo. Porém, o sofrimento não deve ser cultuado, deve ser superado. Precisamos acreditar na vida, nas possibilidades, no amor. Precisamos acreditar em Deus, afinal, como dizia Jaci:

“Não quer Deus o sorriso, a felicidade, melhor? A doutrina kardecista abriu as portas da esperança. Ninguém ficará fora do reino, porque Deus ama a todos, mesmo que não tenhamos condições de entender os mecanismos de sua sabedoria. A reencarnação consolida a solicitude e a sabedoria divinas. Nela se espelha a grandeza do Criador e da sua Lei Natural”.

OBRAS CONSULTADAS

Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos –Luc Ferry
Doutrina Kardecista-modelo conceitual-reescrevendo o modelo espírita- Jaci Régis
História da Filosofia, volumes I e II – Giovanni Reale e Dario Antiseri
Introdução a Doutrina Kardecista – Jaci Régis
Novas Ideias – Jaci Régis
Novo pensar- Deus, homem e mundo – Jaci Régis
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec



[i] RÉGIS, Jaci.Novas Ideias.icks edições
[ii] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia- Volume 1.Paulus.
[iii] Idem, idem
[iv] Idem, idem
[v] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia – volume 1. Paulus.
[vi] Idem, idem
[vii]REALE, Giovanni; DARIO, Antiseri. História da Filosofia-Volume 2. Paulus
[viii]Idem, idem
[ix] Idem, idem
[x] Idem, idem
[xi] RÉGIS, Jaci. Novas ideias. icks edições.
[xii] Idem, idem
[xiii] Idem, idem
[xiv] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.Lake.
[xv] RÉGIS, Jaci. Novas ideias. icks edições
[xvi] Idem, idem
[xvii] RÉGIS, Jaci. Introdução à doutrina kardecista.Licesp
[xviii] RÉGIS, Jaci. Novas ideias.icks edições
[xix] RÉGIS, Jaci. Novas ideias- icks edições
[xx] RÉGIS, Jaci. Novo pensar-Deus, homem e mundo.icks edições
[xxi] Idem, idem
[xxii] Idem, idem
[xxiii] Idem, idem
[xxiv] Idem, idem