sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Revolucionário, eu? Seria a reencarnação obrigatória? por Reinaldo di Lucia


Durante o XXI Congresso Espírita Panamericano, realizado em Santos, o trabalho que escrevi, propondo a possibilidade da reencarnação não ser obrigatória, provocou alguma polêmica. Muitos vieram dizer-me: “Quer dizer que agora, depois de tirarmos Jesus e questionarmos o Perispírito, estamos também eliminando a Reencarnação do Espiritismo?”




Penso que o medo da mudança é tão constante no homem que chega a ser natural este tipo de questionamento. Afinal, desde crianças, quando frequentávamos a infância espírita – naquela época ainda chamada de “escolinha”, um provável diminutivo de “escola de evangelização” – a reencarnação é encarada quase como um dogma. Aliás, em perfeita consonância com Kardec: “Em que se funda o dogma da reencarnação? Na justiça de Deus e na revelação (...)” (Livro dos Espíritos, pergunta 171).

Talvez eu seja mesmo um espírito, digamos, inquieto. Penso que o comodismo do pensamento, o congelamento das ideias leva a uma cristalização que é fatal para a sobrevivência de uma doutrina tão dinâmica quanto o Espiritismo. E assim, desde muito, as perguntas “e se ...” e “ou não” fazem parte integrante da minha visão espírita. Considero necessária e fundamental a revisão periódica dos princípios espíritas, ainda mais se considerarmos o quão rapidamente o conhecimento humano vem evoluindo.

Eis porque considero que a proposta de um trabalho consistente de atualização do Espiritismo, feita há mais de 10 anos pela CEPA, é o que há de mais importante neste século XXI. Não há outras formas de mantermo-nos vivos e atuantes a não ser construindo pontes com as demais formas de conhecimento humano e, se necessário, revendo conceitos que já não mais se sustentam.

Mas, para que isso se efetive, é essencial que nós, espíritas laicos, livres-pensadores e progressistas, tenhamos a mente aberta para a possibilidade da mudança. E, para isso, não pode haver tabus, temas proibidos, impossibilidades a priori. A discussão, o questionamento é obrigatório; a conclusão será feita a partir desse questionamento.

Vamos tirar a reencarnação do corpo doutrinário espírita? Não, não é essa a proposta. Mas temos que analisar com calma até que ponto o livre arbítrio de cada ser pode possibilitar a ele a escolha da não reencarnação. E essa avaliação passa por uma série de outros questionamentos, como fica o edifício conceitual espírita se isso for assim? Qual a extensão do nosso livre-arbítrio? Que outras formas de aprendizado seriam possíveis? Como se dá a evolução? Enfim, há um desdobramento significativo que, de modo amplo, só contribuirá para que o Espiritismo seja mais firme – e que cada um de nós, espíritas, compreendamo-lo ainda melhor.

Que tal, despretensiosamente, despertar o livre-arbítrio revolucionário que vive em você? A reflexão te dará embasamento para mudar seus conceitos, ou mantê-los (seja da mesma forma de antes, seja com novos pilares). Modernizar é isso: pensar, repensar, reciclar, redescobrir, reinventar. Afirmar o mesmo de sempre em uma realidade absolutamente diferente, sem nem ousar uma dúvida sobre o posto, é contextualizar às avessas. Necessário, em algumas situações, mas já exaustivamente explorado, há pelo menos 100 anos, no que tange a filosofia Espírita.  

NR: Este artigo foi publicado no jornal Abertura em novembro de 2012

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO – por Ricardo Nunes


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO – por Ricardo Nunes



NR: Este artigo compilado aqui, foi publicado no Jornal ABERTURA de janeiro a outubro de 2019.
INTRODUÇÃO
  Um dos princípios fundamentais do pensamento filosófico de Jaci Régis é a valorização do prazer. Segundo o pensador espírita brasileiro, a adequada compreensão da necessidade do prazer em nossa trajetória existencial pode nos conduzir à conquista de uma vida terrena relativamente feliz e exitosa. Esta visão estabelece um contraditório ao pensamento cristão e ao pensamento espírita-cristão, que enaltecem o sofrimento como fator privilegiado de evolução e crescimento espiritual. Em razão desta postura teórica, Jaci foi chamado de epicurista por alguns de seus opositores:


“Revoltam-se alguns quando afirmo que O universo está baseado no prazer e não na dor. Dedo em riste acusam-me de epicurista. Epicurista? Eu não sabia. Não tinha conhecimento da filosofia de Epicuro e fui saber quem era esse ilustre personagem, a quem fui ligado como um verdadeiro pecado.”[i]

Ao acusarem Jaci de epicurista utilizaram o sentido negativo do termo, cujo significado popular expressa uma pessoa ligada ao culto do prazer sensorial, corporal, ou seja, alguém que vive para o gozo e para o prazer imediatos, sem maiores preocupações de ordem existencial. Não era este o sentido que Jaci dava à ideia do prazer.

 Procuraremos nos próximos meses fazer uma análise do pensamento de Jaci Régis sobre tão importante tema. Pensar sobre a questão do prazer e da dor é também questionar sobre a temática da felicidade. Em um sentido profundo, é refletir sobre a possibilidade de uma sabedoria para o bem viver.

A presente reflexão, que se desenvolverá pelas próximas edições de ABERTURA, oferecerá, também, aos amantes da filosofia, uma excelente oportunidade de conhecer alguns princípios do epicurismo, importante escola filosófica da antiguidade. Em seu jardim, Epicuro enaltecia o prazer como objetivo fundamental da existência.

Para bem distinguirmos a posição de Epicuro e de Jaci Régis, destacaremos algumas importantes doutrinas que ensinavam a superação, e, até mesmo, a negação do mundo e do corpo, na busca de regiões metafísicas mais elevadas. Trataremos especialmente do platonismo e do cristianismo.

O platonismo compreende o mundo terrestre como cópia imperfeita do chamado “mundo das ideias”, ou “mundo das formas”, cabendo ao filósofo, portanto, a tarefa de elevar-se, pela razão, deste mundo terreno da instabilidade, imperfeição e ignorância, até o mundo ideal da estabilidade, perfeição e conhecimento.

 O cristianismo, por sua vez, propõe a salvação da alma, que deverá escapar deste “vale de lágrimas”, que é a terra, em direção ao céu, onde o crente será acolhido por Deus. Para o cristianismo tradicional, o homem é maculado pelo pecado original desde sua origem e, portanto, não há que se falar de felicidade neste mundo. A felicidade do homem é a salvação em Jesus Cristo.

Na atualidade, já existem correntes cristãs que prometem o reino da terra e os bens do mundo aos seus fiéis, através da polêmica teologia da prosperidade. Porém, esta não foi a concepção do cristianismo em suas origens, principalmente o católico, e também não foi a concepção das principais correntes do protestantismo desde Lutero. Não trataremos da teologia da prosperidade na presente reflexão.

No que diz respeito as influências cristãs contidas no espiritismo, verificaremos um certo enaltecimento do sofrimento, apesar de, em essência, o espiritismo apresentar uma proposta de valorização positiva da encarnação e das vidas sucessivas, como fatores imprescindíveis de aperfeiçoamento e oportunidade para a evolução do espírito imortal.

É justamente em relação às influências cristãs presentes no espiritismo que devemos considerar a importância do pensamento de Jaci Régis, que, ao final de sua vida, defendeu um espiritismo pós-cristão.  Um espiritismo liberto das influências do cristianismo, ou seja, um espiritismo livre das concepções de culpa, castigo, e do culto ao sofrimento.


O PRAZER EM EPICURO
Jaci Régis e o Jardim de Epicuro

Epicuro de Samos fundou a primeira das grandes Escolas helenísticas, que surgiu em Atenas por volta do século IV a. C. A fundação da escola, em Atenas, constituiu-se em um verdadeiro ato de desafio às Escolas de Platão e Aristóteles, que ainda existiam na época, mas que já se encontravam em decadência, apenas vivendo de seu passado glorioso. A Escola de Epicuro representava o novo em contraposição ao passado clássico, segundo Giovanni Reale e Dario Antiseri:

O próprio lugar escolhido por Epicuro para sua Escola é a expressão da novidade revolucionária do seu pensamento: não uma palestra, símbolo da Grécia clássica, mas um prédio com jardim (que era mais um horto), nos subúrbios de Atenas. O Jardim estava longe do tumulto da vida pública citadina e próximo do silêncio do campo, aquele silêncio e aquele campo que não diziam nada para  as filosofias clássicas, mas que se revestiam de grande importância para a nova sensibilidade helenística”.[ii]

O pensamento de Epicuro pode ser subdivido em três temas: lógica, física e ética. Abordaremos a ética de Epicuro, a qual melhor se relaciona com o tema em desenvolvimento. Para Epicuro, a essência do homem é material, ou seja, o homem é um agregado de átomos que se dispersam por ocasião da morte, logo será material o seu bem específico, que é o prazer. No entanto, diferentemente dos Cirenaicos, que consideravam os prazeres e dores físicas superiores aos psíquicos, Epicuro tem uma tese contrária:

“Como fino indagador da realidade do homem, Epicuro compreendera perfeitamente que mais do que os gozos ou sofrimentos do corpo, que são circunscritos no tempo, contam as ressonâncias interiores e os movimentos da psique, que os acompanham e duram bem mais”.[iii]

Assim, para Epicuro, existe o prazer do corpo, que consiste “na ausência de dor no corpo”, e o prazer da alma, que consiste “na ausência de perturbação da alma”. Este estado de ausência de dor no corpo e perturbação na alma foi denominado de aponía e ataraxía.Diz Epicuro:

“Assim, quando dizemos que o prazer é um bem, não aludimos, de modo algum, aos prazeres dos dissipados, que consistem em torpezas, como creem alguns que ignoram nosso ensinamento ou o interpretam mal; aludimos, ao contrário, à ausência de dor no corpo e à ausência de perturbação na alma. Portanto, nem libações e festas ininterruptas, nem comer peixes e tudo o mais que uma mesa rica pode oferecer são fonte de vida feliz, mas sim o sóbrio raciocinar, que perscruta a fundo as causas e todo ato de escolha e de recusa, e que expulsa as falsas opiniões por via das quais grande perturbação se apossa da alma” .[iv]

Com vistas a atingir a aponía e ataraxía, Epicuro distinguiu os prazeres da seguinte forma: 1- Prazeres naturais e necessários; 2- prazeres naturais, mas não necessários 3- prazeres não naturais e não necessários. Os prazeres naturais e necessários são aqueles que devem ser satisfeitos, como por exemplo: beber quando se tem sede, comer quando se tem fome, repousar quando se está cansado. Já os prazeres naturais, mas não necessários, são “variações supérfluas” dos prazeres naturais, exemplo: comer bem, beber bebidas refinadas, vestir-se com apuro, etc. E, finalmente, os prazeres não naturais e não necessários, os quais não tolhem a dor corpórea e nem eliminam a perturbação da alma. São prazeres “vãos” nascidos das “vãs opiniões dos homens”. São aqueles ligados aos desejos de riqueza, poder e honras.

  Devemos concluir esta breve reflexão sobre o prazer em Epicuro afirmando que o famoso filósofo acreditava na possibilidade de uma vida feliz e harmônica neste mundo. Trata-se de uma visão otimista sobre as possibilidades da existência humana, a qual nos convida à necessidade de estabelecermos uma sabedoria de vida, com vistas a manutenção de nossa serenidade e equilíbrio pessoal através do uso da razão.


REGIS E O JARDIM DE EPICURO
O corpo como túmulo da alma em Platão

Normalmente, quando pensamos na ideia de conflito entre corpo e alma, nos conceitos de expiação e culpa, lembramos da tradição judaico-cristã, que nos é mais próxima em termos de perspectiva histórica. No entanto, estas ideias estão presentes desde a mais alta antiguidade no mundo ocidental. Já no orfismo, religião que existiu na Grécia arcaica, mais ou menos por volta do século VIII A.C., encontramos ideias deste tipo.
O orfismo não deve ser ignorado pelos estudiosos do pensamento ocidental, pois influenciou importantes filósofos gregos do período áureo da filosofia na Grécia. É interessante observar, igualmente, que a ideia da palingenesia ou reencarnação está presente nesta que é uma das mais antigas doutrinas religiosas do mundo ocidental. Segundo Giovanni Reale e Dario Antiseri as crenças fundamentais do orfismo são:

“a) No homem hospeda-se um princípio divino, um demônio (alma) que caiu em um corpo por causa de uma culpa originária.
b) Esse demônio não apenas preexiste ao corpo, mas também não morre com o corpo, pois está destinado a reencarnar-se em corpos sucessivos, a fim de expiar aquela culpa originária.
c) Com seus ritos e práticas, a “vida órfica” é a única em grau de pôr fim ao ciclo das reencarnações e de, assim libertar a alma do corpo.
d) para quem se purificou (os iniciados nos mistérios órficos) há um prêmio no além (da mesma forma que há punições para os não iniciados.”[v]

Podemos verificar que no orfismo o corpo e a alma estão em conflito, e que o corpo é uma espécie de lugar de expiação da alma. Pitágoras, o eminente filósofo e matemático, também recebeu grande influência dos órficos e acreditava que a alma devido a uma “culpa originária” também era obrigada a reencarnar-se em sucessivas existências corpóreas, não apenas em forma humana, como forma de expiação daquela culpa. Conta a tradição que Pitágoras se recordava de suas vidas anteriores e que entendia que a purificação da alma não se daria apenas através da prática de ritos, como os órficos ensinavam, mas sim através do reto agir humano com vistas a se tornar um seguidor de Deus.

É em Platão, no entanto, que conheceremos a mais alta reflexão metafísica até aquele momento histórico. O pensamento platônico influenciou profundamente a história da filosofia no ocidente com sua tese que enfatiza a contraposição entre o mundo sensível e mundo das ideias. Outra distinção importante no pensamento platônico, é a que separa radicalmente alma e corpo, sendo o corpo, segundo a concepção do famoso discípulo de Sócrates, um verdadeiro túmulo a impedir a liberdade da alma. Neste sentido, Giovanni Reale e Dario Antiseri explicam o pensamento de Platão:

“Enquanto temos um corpo, estamos “mortos”, porque somos fundamentalmente nossa alma; e a alma, enquanto se encontra em um corpo, acha-se como em uma tumba; e, com isso, encontra-se em situação de morte. Nosso morrer (com o corpo) é viver, porque, morrendo o corpo, a alma se liberta do cárcere. O corpo é a raiz de todo mal, fonte de amores insensatos, de paixões, inimizades, discórdias, ignorância e loucura. E tudo isso precisamente mortifica a alma. Essa concepção negativa do corpo sofre certas atenuações nas últimas obras de Platão, embora nunca desapareça por completo”.[vi]   




JACI REGIS E O JARDIM DE EPICURO- PARTE 4
O cristianismo: pecado e salvação

No cristianismo é central a noção de pecado e queda do homem. Disse Javé: “Da árvore do conhecimento do bem e do mal não comereis, porque no dia em que dela comerdes tereis de morrer”. [vii]Já o maligno disse ao primeiro casal: “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dela comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal”.[viii]

Como Adão não resistiu à tentação foi expulso do paraíso. A partir deste momento entraram no mundo o mal, a dor e a morte. Com Adão toda a humanidade pecou e o pecado entrou na história do homem. Diz Paulo de Tarso: “Por obra de um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado, a morte; assim, a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram”.[ix]

Porém, segundo o pensamento cristão, Deus se fez homem e resgatou a humanidade do pecado e, com a sua ressurreição, derrotou a morte, consequência do pecado. Esta milenar interpretação cristã distanciou-se profundamente do pensamento grego vigente até então. Neste sentido, afirmam Giovanni Reale e Dario Antiseri:

 “A encarnação do Cristo, sua paixão expiadora do antigo pecado, que fez seu ingresso no mundo com Adão, e sua ressurreição resumem o sentido da mensagem cristã- e essa mensagem subverte inteiramente os quadros do pensamento grego. Os filósofos gregos haviam falado de uma culpa original, extraindo o conceito dos mistérios órficos... Mas, ficaram muito longe da explicação da natureza dessa culpa”.[x]

Portanto, para a visão cristã, o homem é um ser decaído, maculado pelo pecado original. Trata-se de uma visão negativa a respeito do ser humano. O homem, nesta visão, é um nada que deve ser resgatado pela graça de Deus de sua condição miserável. Daí à interpretação do mundo como um “vale de lágrimas” foi um passo.

Santo Agostinho, unindo revelação cristã e filosofia grega, retomou o dualismo platônico radical. O famoso santo da igreja falava em cidade de Deus e cidade dos homens. Na primeira, a virtude em todas as suas expressões, na segunda, o mal, a corrupção, o erro.

Estas concepções nos influenciaram profundamente ao longo dos séculos. Nós, espíritos imortais, temos reencarnado sucessivas vezes no mundo ocidental e temos sofrido a pressão ideológica desta cultura que nega a vida, sendo que esta maneira de compreender o sentido do homem e do mundo também influenciou o espiritismo como veremos a seguir.

JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO – PARTE 5
A Influência cristã no espiritismo

Em relação ao contexto histórico em que foi fundado o espiritismo, meados do século XIX, é necessário ter em mente que era uma época em que o cristianismo na França, e mesmo na Europa, ainda tinha grande influência social. É curioso verificar na Revista Espírita de Allan Kardec, que cobre o período de 1858 a 1869, quantos membros da igreja se manifestaram contra o espiritismo com suas pastorais e sermões. Na Espanha ultraconservadora ocorreu um auto de fé com a queima de livros espíritas. Vários Espíritos ligados ao cristianismo auxiliaram na elaboração do espiritismo, sendo que tal circunstância histórica contribuiu para que, em certos aspectos, o espiritismo incorporasse algumas ideias e conceitos mais pertinentes ao cristianismo do que ao espiritismo propriamente dito.

De fato, uma boa compreensão do espiritismo não nos permitirá idealizar a vida extrafísica em detrimento da vida terrena. Quando o espiritismo aceita a classificação do planeta terra como “mundo de provas e expiações” certamente está mais próximo da visão cristã que compreendia a terra como uma espécie de “vale de lágrimas”.  Podemos encontrar, mesmo no contexto da obra de Allan Kardec, algumas ideias muito discutíveis, que apontam para uma compreensão literal, fatalista, punitiva, da lei de causa e efeito no campo da reencarnação.

Enfim, o espiritismo incorporou alguns elementos do pensamento cristão em sua estrutura doutrinária, e aqui se faz necessário distinguir, o pensamento cristão, do imortal pensamento ético de Jesus de Nazaré, com o qual o espiritismo está em conformidade.  É a partir da reflexão crítica a este estado de coisas que poderemos compreender o pensamento de Jaci Régis, pensador espírita brasileiro que entendeu, profundamente, o quanto as noções cristãs foram assimiladas ao pensamento espírita.


 Antes de falarmos da reflexão de Jaci Régis devemos ressaltar que seu pensamento é o de um espiritualista, mais especificamente, de um espírita, de um kardecista. Alguém que raciocina a partir da ideia de corpo e alma, sendo esta última imortal e submetida a reencarnações sucessivas com vistas a um percurso evolutivo. Não é, portanto, o pensamento de um materialista. Como vimos anteriormente neste artigo, Epicuro valoriza a vida terrestre, sob a perspectiva materialista. Jaci Régis, a partir de uma leitura mais precisa em termos conceituais do pensamento espírita, ressalta a importância da vida terrena para a trajetória evolutiva da alma. O corpo, o mundo, e a vida terrestre, não devem, portanto, ser negados, pois representam elementos fundamentais da educação e evolução do Espírito.

Finalmente, devemos dizer que no Brasil o espiritismo tomou um feitio religioso e cristão acentuado. Este posicionamento epistemológico do espiritismo no campo da religião fez com que as pretensões de Kardec no sentido de criar uma ciência e doutrina filosófica fossem prejudicadas em grande parte. E, com isso, aprofundou-se ainda mais o sincretismo entre cristianismo e espiritismo.


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO - PARTE VI
Reflexões sobre o prazer.

Jaci Régis afirma que a cultura judaico-cristã enalteceu o sofrimento e a dor e que nela: “O homem foi colocado numa posição de impotência, cumulado de culpa, desobediência e sujeito à ação fulminante da divindade. Nada de alegria. Nem de felicidade. Essa, quando tudo dá certo, só depois da morte. Aqui, a dor é soberana. O velho testamento diz, sem meias medidas, que Deus não faz acordo com quem desobedece suas leis” .[xi]

 O pensador kardecista denuncia a deturpação histórica que foi realizada com a figura de Jesus, que foi transformado em salvador dos pecados da humanidade, que passou a ser visto como alguém triste, alguém que se deu em sacrifício por nós, sem alegria, sem felicidade, sem sorrisos: “os cristãos foram enganados pela Igreja que transformou o homem de Nazaré num mito, em salvador, em messias universal. E fizeram-no triste, morto na cruz, com sua coroa de espinhos. Não existem gravuras do Cristo sorrindo. Como se ele estivesse amargurado por ter que conviver com essa espécie decaída que é o homem. Jesus de Nazaré foi criticado porque comia e bebia”.[xii]

 Jaci nos faz recordar que Jesus teria dito que veio para que tenhamos “vida em abundância”, e apresentou a criança como símbolo: “Todavia, não é exaltado que Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância”. As mentes enfermiças dos religiosos entenderam que essa vida abundante só seria possível depois da morte, depois de derramar sangue, suor e lágrimas. O mestre apresentou a criança como símbolo. E criança é alegria, prazer, esperança e promessa. A vida terrena é terreno de construção. Cada um prepara esse terreno de forma diferente, colhendo sorrisos ou lágrimas”.[xiii]

É muito fácil constatarmos que o espiritismo, desde suas origens com Allan Kardec, assimilou a cultura do sofrimento e da dor. Reflete o Espírito Agostinho, em O evangelho segundo o espiritismo: “Vossa terra é por acaso um lugar de alegrias, um paraíso de delícias? A voz do profeta não soa ainda aos vossos ouvidos? Não clamou ele que haveria choro e ranger de dentes para os que nascessem neste vale de dores? Vós, que nele vieste viver, esperai, portanto, lágrimas ardentes e penas amargas. E quanto mais agudas e profundas forem as vossas dores voltai os olhos aos céus e bendizei ao Senhor por vos ter querido provar! (...) Felizes os que sofrem e choram! Que suas almas se alegrem porque serão atendidos por Deus”.[xiv]

Segundo Jaci o espiritismo não pode ser a doutrina da dor e do sofrimento, mas sim a doutrina do prazer: “O Espiritismo não pode ser a doutrina da dor e do sofrimento. Mas a doutrina do prazer, no seu sentido amplo, libertador e construtivo. Deve limpar a mente das pessoas da morbidez deixada pelo cristianismo. Precisa reciclar a pretensa maldição divina sobre as gerações...”[xv]

Muitos depreciam a vida afirmando que ela é curta, ilusória, que somos frágeis, e que nada podemos realizar, não era o que entendia nosso pensador: “A vida é breve, afirmam, desqualificando nossa estadia corpórea. Ilusão. A vida é longa, longuíssima, pois se vivencia no bater ritmado dos segundos, dos milésimos de segundo. Pensar na morte para viver é subverter a vida. A mente mergulhada na morbidez, cercada de medo, de erros do passado, lei de talião, causa e efeito, entendidas, todas, como instrumentos de tortura divina e purificação da alma pelo fogo da dor, não pode ser feliz. Ao contrário, retrai-se, induz-se à solidão e sente-se intimamente injustiçada”. [xvi]

Esta visão distorcida pela glorificação do sofrimento e da punição atinge até mesmo um dos princípios fundamentais do espiritismo: “Alguns espíritas, tomando a reencarnação desligada do processo evolutivo e esquecidos de que ela é um instrumento deste, passaram a ligá-la à punição divina. Se, raciocinam, Deus é justo, ninguém sofre sem razão. Logo se a razão não está nesta vida, só pode estar nas outras vidas. Criaram o pecado originário.”.[xvii]

O pensador espírita pós-cristão faz um verdadeiro elogio ao amor e ao prazer: “Agora queremos o amor que liberta que é leve, aberto, que faz bem ao coração. Amor com sexo, com alegria, dentro do recíproco respeito. Amor com ideal, com construtividade. Prazer é retempero da alma. É estado de otimismo e realidade, de pensamento positivo e disposição para servir. É uma forma de estar no mundo, superando morbidez conceitual da punição divina, pois não existe punição divina”. [xviii]


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO 
POR UMA NOVA COMPREENSÃO DE DEUS

 Afirma Jaci Régis que é necessário que tenhamos uma nova compreensão sobre Deus.  Devemos compreendê-lo não mais como um Deus com características humanas, que pune e fornece a graça segundo seus soberanos e inescrutáveis critérios, mas sim como um Deus que se revela na perfeição das leis naturais, as quais apontam para a felicidade humana.

 Segundo o pensador espírita brasileiro devemos: “Inaugurar um novo entendimento da forma como a Causa Primária de todas as coisas, através de sua obra magnífica, rica de detalhes e de processos perfeitos, quer proporcionar felicidade aos homens”.[xix]

Para ter este novo entendimento sobre Deus é necessário ter em mente que tudo aquilo que foi dito sobre Deus, desde a antiguidade até nossos dias, foi dito por homens, apenas por homens, e que não foi o próprio Deus que falou diretamente à humanidade, nem passou procuração a quem quer que seja para falar em seu nome.

“Tudo o que se diz e prega sobre a existência de um deus superior, um criador, um ordenador da vida, foi idealizado, escrito, pregado pelos homens. As muitas faces de Deus representam a imagem dos homens, de cada época. ” [xx]

E a civilização ocidental, judaico-cristã, desenvolveu uma ideia terrível sobre Deus. Um Deus que tem características de pessoa humana a exigir sacrifícios e oferendas, a condenar e a absolver as criaturas, segundo critérios discricionários. Na verdade, a concepção judaico-cristã, apesar de sua origem monoteísta mais abstrata e racional que a do politeísmo da antiguidade, acabou por não conseguir se livrar de uma ideia antropomórfica a respeito da divindade.

A primeira coisa a fazer, portanto, para que tenhamos um novo entendimento sobre Deus, é nos descartarmos desta visão restritiva e humana a respeito da Causa primária de todas as coisas. Devemos liberar nossa mente desta visão acanhada, a qual nos tem sido ensinada há milênios. Neste sentido, afirma Jaci:

 Um novo pensar sobre Deus começará por deixar de lado o deus Jeová, as afirmativas bíblicas e, de modo geral, as teorias que fazem dele uma pessoa. Simplesmente porque não corresponde às mínimas necessidades de um deus universal”.[xxi]

Para Régis a lei natural é a grande expressão da atuação da mente divina no universo, a qual cria, sustenta e direciona, teleologicamente, o espírito e a matéria, em uma sábia e permanente interação, em um grandioso panorama cósmico evolutivo, que ainda escapa a compreensão plena do homem terreno.

“A lei natural exprime a sabedoria divina, com mecanismos extremamente competentes, estabelecendo o ritmo e a sucessão dos fatores com o fim de equacionar, no universo energético, tanto quanto no universo inteligente, o princípio do equilíbrio. Atuando através da lei de causa e efeito ou ação e reação, ferramenta de busca do equilíbrio, pela reciprocidade dos fatores.”[xxii]

No que diz respeito à relação homem e Deus, afirma o pensador espírita pós-cristão que tal relação tem sido frustrante, em razão da equivocada compreensão dos homens sobre a forma da atuação divina. O apelo dos homens sobe aos céus na busca de soluções nem sempre encontradas.

“... a relação entre a criatura e o criador tem sido fria, unilateral. A tentativa do diálogo pela oração, pela imprecação não se concretiza porque o silêncio divino é devastador. E isso sempre foi e é terrível, porque as criaturas são inseguras, temem a morte e procuram num poder maior, supostamente cheio de amor, um porto seguro, uma resposta para o seu medo. O crente pergunta, onde está o Deus onipotente que não atua para eliminar o mal, punir os que praticam crimes e não salva e cura livrando-nos da morte”.[xxiii]

  Afirma Jaci que esta decepção decorre do que se tem falado sobre o amor de Deus. As igrejas referem-se ao amor de Deus à pessoa, ao indivíduo. No entanto, este amor de Deus se expressa no sentido da sabedoria da lei natural, a qual propicia infinitos meios e oportunidades para que o Espírito imortal atinja a felicidade e a plenitude no tempo e no espaço.

Na busca da plenitude existencial, há espaço para o erro e para o acerto do Espírito em um longo processo de aprendizado, sendo que a realização desta plenitude deve ser compreendida sempre na relação com o outro e nunca isoladamente.

 Nesta visão, não se cogita de pecados suscetíveis de condenação eterna e também não se espera nenhum ato de salvação por parte da divindade. E também não se compreende o planeta terra como um “vale de lágrimas”, do qual devemos nos libertar com vistas a alcançarmos as esferas espirituais da felicidade.

 O que existe é apenas aprendizado no percurso das vidas sucessivas, as quais devem ser aproveitadas em um sentido de oportunidade, produtividade e prazer na construção de nossas potencialidades individuais e coletivas.

 “De fato, o universo gira em torno do amor, no sentido de prodigalizar meios e formas de oferecer ao Espírito humano o acesso ao seu equilíbrio interno e nas relações com o outro, isto é, seja feliz. O novo pensar sobre Deus pensa que o objetivo da vida é a felicidade. A inteligência divina proporciona meios para isso, no tempo, através da lei da evolução”.[xxiv]


JACI RÉGIS E O JARDIM DE EPICURO 
A TERRA É AZUL

Jaci Régis costumava afirmar que não desconhecia os problemas do mundo, mas que preferia pensar o mundo de forma positiva, porém sem ingenuidade: “Passam pela mente o alarido das crianças, as campinas floridas, o amor entre as pessoas, a música, a paciência dos educadores, o trabalho silencioso e persistente dos pesquisadores, os benefícios da ciência e da tecnologia”.

Reconhece que vivemos em um “mundo globalizado”, em uma “aldeia global”, e que estamos no “olho do furacão”, pois no dia a dia recebemos, de forma imediata, uma enxurrada de notícias a respeito do sofrimento e das dores dos seres humanos de todas as partes do mundo e que, em vista disso, precisamos selecionar muito bem nossas sintonias mentais, sob pena de nos perdermos em uma angustia paralisante.

“Tamanha carga de emoções exige um redimensionamento da mente, da percepção, da capacidade de priorizar, de decidir, de escolher. De ouvir e não ouvir. De ver e não ver. De falar ou calar”.

Mas, sobretudo, sua visão é otimista. Enquanto muitos se desesperam com a vida e com o mundo, em uma atitude de negação existencial, afirma Jaci que as noções da preexistência, sobrevivência, e destinos evolutivos da alma, que incluem lágrimas, mas também sorrisos, dor, mas também prazer, apontam para novos horizontes no futuro da humanidade.

“A terra é azul, gira no silêncio do cosmo cumprindo seu roteiro. Cada uma das pessoas gira em torno de si mesma em busca do outro. Isso é vida e vida dinâmica, que inclui dor, alegria, lágrimas e sorrisos. Mas somente a persistência do ser que cada um é, além da morte e antes do túmulo será o sinal para uma nova etapa da humanidade.”

 Entendemos que a importância da reflexão espírita de Jaci Regis está justamente em nos auxiliar a desenvolver uma visão mais otimista sobre a vida, sobre o mundo, no sentido de rompimento com uma certa visão mórbida da existência humana neste planeta. Jaci, em uma correta compreensão da filosofia espírita, nos convida a acreditar em nossas potencialidades e a realizar uma vida produtiva, prazerosa, útil no bem, e feliz, tanto quanto possível à nossa condição evolutiva.

Certamente que os percalços existem. E são muitos.  As realidades da existência cotidiana de cada um de nós não são desconhecidas.  O sofrimento também está presente neste mundo. Porém, o sofrimento não deve ser cultuado, deve ser superado. Precisamos acreditar na vida, nas possibilidades, no amor. Precisamos acreditar em Deus, afinal, como dizia Jaci:

“Não quer Deus o sorriso, a felicidade, melhor? A doutrina kardecista abriu as portas da esperança. Ninguém ficará fora do reino, porque Deus ama a todos, mesmo que não tenhamos condições de entender os mecanismos de sua sabedoria. A reencarnação consolida a solicitude e a sabedoria divinas. Nela se espelha a grandeza do Criador e da sua Lei Natural”.

OBRAS CONSULTADAS

Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos –Luc Ferry
Doutrina Kardecista-modelo conceitual-reescrevendo o modelo espírita- Jaci Régis
História da Filosofia, volumes I e II – Giovanni Reale e Dario Antiseri
Introdução a Doutrina Kardecista – Jaci Régis
Novas Ideias – Jaci Régis
Novo pensar- Deus, homem e mundo – Jaci Régis
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec



[i] RÉGIS, Jaci.Novas Ideias.icks edições
[ii] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia- Volume 1.Paulus.
[iii] Idem, idem
[iv] Idem, idem
[v] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia – volume 1. Paulus.
[vi] Idem, idem
[vii]REALE, Giovanni; DARIO, Antiseri. História da Filosofia-Volume 2. Paulus
[viii]Idem, idem
[ix] Idem, idem
[x] Idem, idem
[xi] RÉGIS, Jaci. Novas ideias. icks edições.
[xii] Idem, idem
[xiii] Idem, idem
[xiv] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.Lake.
[xv] RÉGIS, Jaci. Novas ideias. icks edições
[xvi] Idem, idem
[xvii] RÉGIS, Jaci. Introdução à doutrina kardecista.Licesp
[xviii] RÉGIS, Jaci. Novas ideias.icks edições
[xix] RÉGIS, Jaci. Novas ideias- icks edições
[xx] RÉGIS, Jaci. Novo pensar-Deus, homem e mundo.icks edições
[xxi] Idem, idem
[xxii] Idem, idem
[xxiii] Idem, idem
[xxiv] Idem, idem