Este artigo foi publicado no Jornal Abertura de julho de 2026. Se quiser ver o mesmo no jornal, clique no link abaixo, neste blog:
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Apresentamos o texto em português e logo a seguir, em espanhol.
Devo necessariamente escrever esta crônica em um estilo muito pessoal,
em um tom íntimo, motivado pelos laços estreitos que me uniram à pessoa que
faço esta biografia, a quem devo não apenas ter adquirido o conhecido da
filosofia espirita e entendê-la como um sistema de pensamento laico e
livre-pensador, mas também ter me acolhido, quando eu ainda era adolescente,
com um afeto fraternal que, pouco depois do nosso primeiro encontro, se
transformou em amor filial, fazendo-me sentir sua casa e sua família como
minhas.
Hoje, como a única pessoa que pode dar testemunho direto da vida e
trajetória de David Grossvater no movimento espirita venezuelano e
internacional, sinto enorme satisfação em oferecer alguns fatos e comentários
que ajudarão os leitores a obter conhecimento essencial sobre este líder espirita,
cuja presença e ações deixaram uma marca profunda em seu tempo e projetaram-se
para o futuro.
Algumas referências sobre a vida dele.
Não sabemos muito sobre sua origem familiar, sua infância e juventude.
Ele nunca escreveu sobre si mesmo e, quando questionado sobre sua história
pessoal, respondia com parcimônia. Havia uma certa relutância de sua parte em
relembrar episódios trágicos para ele, sua família e seu país de origem.
Ele veio nascer em uma família judaica asquenazitas (judeus de
ascendência europeia oriental) em Cracóvia, Polônia, em 16 de outubro de 1911.
O país estava então sob domínio russo e, anos depois, sofreria a invasão e
ocupação impiedosa do exército nazista. Foi por meio dele que soube que seus
pais e outros parentes morreram em um campo de concentração.
Em Cracóvia, ele concluiu o ensino fundamental e, após a formatura, sua
família o enviou para Porto Alegre, no Brasil, para morar com parentes. Ele
viveu nessa cidade dos 12 aos 23 anos. Aprendeu português, embora o iídiche,
idioma dos judeus da Europa Central e Oriental, fosse falado em seu novo lar.
Buscando uma vida própria, viajou pelo vasto território brasileiro e
chegou à Venezuela em 1934. Naquela época, a Venezuela era um país pouco
povoado, com pouco mais de 3 milhões de habitantes, a maioria vivendo em áreas
rurais ou pequenas cidades. No entanto, a nascente indústria petrolífera já
gerava um aumento significativo na renda nacional e uma melhoria nas condições
socioeconômicas da população, que foi ainda mais impulsionada por milhares de
imigrantes de países vizinhos e da Europa. A partir de então, haveria migrações
significativas de pessoas das áreas rurais para as cidades, que experimentariam
um crescimento sustentado.
David me contou que a primeira cidade em que se estabeleceu foi Cumaná,
capital do estado de Sucre, onde foi bem recebido e logo conseguiu se sustentar
com modestos trabalhos comerciais e agrícolas. Depois de um tempo, mudou-se
para Caracas e de lá para Barquisimeto, capital do estado de Lara, um
importante centro urbano no oeste da Venezuela. Nessa cidade, casou-se com
Blanca Gallardo, uma enfermeira. A partir de 1941, ele e sua esposa viveram em
Maracay, capital do estado de Aragua, onde ele residiu até sua morte, em 1974.
Sua única filha, Ima, nasceu na família Grossvater-Gallardo. Ele ajudava então,
no sustento da família, com pequenas atividades comerciais.
Seu encontro com o espiritismo
David teve seu primeiro contato com o Espiritismo em Porto Alegre,
capital e maior cidade do estado do Rio Grande do Sul. Ele tinha cerca de 20
anos quando assistiu a uma palestra no Instituto Espírita Dias da Cruz e, a
partir daí, começou a frequentar suas atividades e a ler as obras de Allan
Kardec, que gradualmente o conquistaram. Naturalmente, ele, que desde jovem se
definia como um judeu liberal, irreligioso e de espírito livre, não simpatizava
com a orientação decididamente cristã daquela instituição, embora guardasse
boas lembranças dela, como expressaria mais tarde em alguns de seus escritos.
Em Cumaná, ele conheceu um grupo espirita guiado pelos livros de Joaquín
Trincado, um escritor espanhol que havia se estabelecido em Buenos Aires,
Argentina. Em 1911, Trincado fundou um movimento chamado Escuela
Magnético-Espiritual de la Comuna Universal (EMECU), que se espalhou por
diversos países da América Latina. Seus princípios gerais são semelhantes aos
definidos por Kardec, embora existam algumas diferenças conceituais e
linguísticas. Os centros espiritas da EMECU são chamados de Cátedras, e David
logo se juntou à Cátedra de Cumaná com notável entusiasmo. Mais tarde, ele
faria o mesmo em Caracas, Barquisimeto e Maracay. Ele apreciava particularmente
o fato de esses centros apresentarem uma forma não religiosa de espiritismo e
darem maior ênfase a questões sociais.
David tornou-se um líder proeminente do movimento Trincadadista,
especialmente após se estabelecer em Maracay. Lá, fundou a Cátedra Simón
Bolívar e a revista "El Espiritista", que circulou entre 1944 e 1948.
Seus escritos desse período revelam que sua formação cultural, inteiramente
autodidata, havia se expandido consideravelmente. Além dos livros de Trincado,
ele lia com grande interesse as obras de Kardec, Denis, Delanne, Geley, Amália
Domingo Soler, Quintín López Gómez, Manuel Porteiro, bem como filósofos
clássicos e contemporâneos.
Fundação do CIMA
De fato, sua disposição em abrir a doutrina espírita ao estudo de
diferentes autores e em se afastar de posições dogmáticas levou a debates
acalorados, nos quais as divergências se tornaram intransponíveis. Apoiado por
um grande grupo de espíritas de Maracay, Caracas e outras cidades venezuelanas,
David Grossvater fundou um movimento em 20 de maio de 1958, inicialmente
chamado Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines (C.I.M.A.), que
mais tarde, em 1980, adotou o nome Movimiento de Cultura Espírita CIMA,
nome que mantém até hoje.
A nova instituição rompeu com a velha guarda, não apenas em questões
administrativas e institucionais, mas também em suas definições, princípios e
propósitos. Baseava-se em um modelo conceitual próprio, reconhecendo o
pensamento de Kardec como fundamento do Espiritismo, mas sem considerá-lo
infalível ou sagrado. Surgiu o CIMA com a proposta de um Kardecismo que
incentivasse a constante atualização, definindo-se como laico, evolucionista,
racionalista e livre-pensador. Inspirados por esses princípios, e em um
ambiente fraterno onde não havia espaço para censura ou desprezo, numerosos
espíritas decidiram fundar grupos de estudo e de atividades mediúnicas em
diversas cidades venezuelanas. Os nomes que os identificavam transmitiam a
ideia da variedade e pluralidade que caracterizavam seus membros: CIMA
“Armonía, Luz y Amor”, CIMA “Allan Kardec”, CIMA “León Denis”, CIMA “Amalia
Domingo Soler”, CIMA “Cosmos”, CIMA “Arriba Corazones”, CIMA “Charles Darwin”,
CIMA “Albert Einstein”, etc. Nos anos seguintes, novos centros afiliados à CIMA
foram fundados na Colômbia, Peru, México, Guatemala e Estados Unidos.
Em 1960, a Primeira Assembleia Nacional Espírita foi realizada em
Maracaibo, uma grande cidade no oeste da Venezuela, onde foi aprovada a
fundação a Federación Espírita Venezuelana (FEV). A FEV foi colocada sob
a presidência de Pedro Barboza de la Torre, advogado, pensador espírita e
escritor de singular prestígio acadêmico. Grossvater assinou a carta de
fundação da nascente Federação em nome do CIMA e causou um impacto notável com
sua oratória eloquente, sua firme defesa da orientação espírita laico e seu
jeito cordial, amigável, modesto e bem-humorado. Primeiro por meio de sua
participação como entidade fundadora da FEV e, posteriormente, de forma
independente, o CIMA filiou-se à CEPA, então Confederação Espírita Pan-Americana
(atual Associação Espírita Internacional CEPA), e ao longo dos anos contribuiu
significativamente para seu crescimento e consolidação. À frente de uma grande
delegação do CIMA, David participou ativamente do Sétimo Congresso Espírita
Pan-Americano realizado em Maracaibo em 1966.
Produção intelectual
Seus escritos foram dedicados ao estudo e à divulgação do Espiritismo e
estão compilados em três livros de sua autoria, centenas de artigos e traduções
de outros autores. Além disso, ele manteve correspondência com os líderes
espíritas mais proeminentes da América e da Europa. Preservei algumas dessas
cartas, cujo conteúdo constitui uma importante fonte de informação sobre o
movimento espírita de sua época.
Seus livros são: Por los fueros del espíritu, Psicología
del espíritu y Espiritismo laico. Cada um deles teve diversas
reedições, principalmente por editoras Kier de Buenos Aires e Voz
Informativa da Cidade do México. Seguindo o exemplo de Kardec, a cada nova
edição ele introduzia correções, alterava conceitos e incorporava novos
capítulos. Sua obra fundamental é o Espiritismo Laico e o próprio título
fez dele a maior figura desta orientação espírita em sua época. Acrescente-se
que sob o título Raciocínios Espíritas reuniu uma seleção de textos de
autores espíritas e livres-pensadores com os quais se identificou. Esta obra,
publicada pela Kier, foi muito popular e circulou amplamente nos centros
espíritas e nas livrarias da América Latina.
Seus artigos eram numerosos e
abrangiam uma ampla gama de tópicos. Eles foram publicados nos periódicos do
CIMA e de outras associações espíritas. Em sua residência em Maracay, eu
frequentemente o via datilografando em sua velha máquina de escrever até altas
horas da noite, dando forma ao que brotava de sua mente inquieta. Também
testemunhei momentos em que ele parecia estar debatendo em voz alta consigo
mesmo até que as ideias que buscava emergissem, as quais ele então transcrevia
para sua amada máquina de escrever Olivetti. Depois, ele se deliciava em ler
para mim o que havia escrito, e eu me sentia profundamente honrado quando ele
pedia minha opinião ou uma análise crítica.
Aproveitando seu conhecimento de português, David traduziu três obras
psicografadas do médium brasileiro Francisco Cândido Xavier, que ele considerou
dignas de estudo e uso por leitores de língua espanhola: Mecanismos da Mediunidade,
No Domínio da Mediunidade e Evolução
em Dois Mundos. Ele também traduziu o livro de Pietro Ubaldi, A Grande
Síntese e de Hernani Guimarães Andrade – A Teoria Corpuscular do
Espírito.
Conferências e viagens
Os grupos espiritas das décadas de 1950 e 60 buscavam sua presença para
ouvir suas palestras, nas quais ele explicava os fundamentos filosóficos,
científicos e morais da doutrina espírita. Radicalmente contrário à ideia de
considerar o espiritismo uma religião, ele rejeitava todo tipo de dogma ou
cerimônia e condenava enfaticamente os charlatães que usavam indevidamente o
nome do espiritismo para lucrar explorando supostas ou reais habilidades
psíquicas.
Sua orientação era frequentemente solicitada na área da mediunidade
prática, que David dominava com admirável habilidade. Ele acreditava que um
verdadeiro centro espírita deveria combinar o estudo com a prática mediúnica,
sempre que as condições o permitissem. Participei de muitas sessões conduzidas
por David e, em cada uma delas, aprendi as estratégias para realizá-las
adequadamente por meio do desenvolvimento das habilidades dos médiuns, do
diálogo com os espíritos, da educação mental e comportamental dos
participantes, bem como da avaliação crítica das mensagens para determinar sua
origem mediúnica ou espiritual, da análise e utilização de seu conteúdo e da
erradicação de qualquer forma de credulidade ou sugestão. Nesse campo, ele
recomendava fortemente a leitura e consulta de “O Livro dos Médiuns” e “O
Invisível”, textos de Allan Kardec e
Léon Denis, respectivamente.
Em diversas ocasiões, David viajou internacionalmente para contribuir
com a disseminação do Espiritismo, explicar sua visão laica e evolutiva e
estabelecer relações fraternas. Tive a honra de acompanhá-lo em intensas e
extensas viagens que nos levaram a várias cidades da Colômbia, Equador, Peru,
Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e México. Essas atividades, apoiadas por
inúmeros centros espíritas, resultaram em estreitas relações pessoais e fortes
laços institucionais.
Até os últimos dias de sua vida
frutífera, David permaneceu inabalável em suas convicções espiritas, laicas e
evolucionistas, que deram sentido à sua vida e aos seus esforços para
difundi-las. Ele partiu deste mundo prematuramente, aos 63 anos, com muito
ainda por fazer. Sua morte ocorreu no sábado, 18 de maio de 1974, em um
hospital em Maracay, onde estava internado devido a graves problemas
respiratórios causados por enfisema pulmonar. Ele nunca conseguiu se livrar
do vício do cigarro, apesar dos avisos e até mesmo dos apelos daqueles que o
amavam.
Eu estava em Caracas quando recebi a triste notícia. Viajei rapidamente para Maracay e, ao chegar, abracei Blanca, Ima e muitos colegas do CIMA que permaneceram em respeitoso silêncio diante de seu corpo sem vida. Representantes da comunidade judaica se ofereceram para cuidar de todos os preparativos e despesas do sepultamento em seu mausoléu particular, desde que a cerimônia religiosa tradicional fosse observada. Explicamos a eles que David não praticava o judaísmo nem seguia seus preceitos, que sua filosofia de vida era o espiritismo e que ele sempre expressara o desejo de que, quando chegasse a hora, seu funeral fosse inteiramente civil e sem quaisquer cerimônias religiosas. E assim aconteceu, e com profunda tristeza no coração e um imenso vazio na alma, abalado por inúmeras lembranças, tive a honra de dizer algumas palavras para me despedir do eminente pensador, fundador e primeiro presidente do CIMA, o amigo que com afeto fraternal me tomou pela mão quando adolescente, abriu-me as portas de sua casa e me conduziu a percorrer com paixão os caminhos cativantes da cultura espírita.
Texto em espanhol:
Jon Aizpúrua
PERSONALIDADES RELEVANTES DEL
ESPIRITISMO LATINOAMERICANO
DAVID GROSSVATER
Necesariamente
esta crónica debo redactarla en un estilo muy personal, en tono intimista, motivado
por los estrechos lazos que me unieron al personaje biografiado, a quien no
solo debo el haber conocido la filosofía espiritista y entenderla como un
sistema de pensamiento laico y librepensador, sino también el haberme acogido cuando
era todavía un adolescente, con un afecto tan fraterno que al poco tiempo de
nuestro primer encuentro devino en amor filial, haciéndome sentir su hogar y su
familia como propios.
Al
día de hoy, siendo yo la única persona que puede dar testimonio directo de la
vida y de la trayectoria de David Grossvater en el movimiento espiritista
venezolano e internacional, experimento una enorme satisfacción al ofrecer algunos
datos y uno que otro comentario que sirvan a los lectores para disponer de un
conocimiento esencial acerca de este líder espírita, cuya presencia y actuación
dejarían honda huella en su tiempo y se proyectarían hacia el porvenir.
Algunas
referencias sobre su vida
No
es mucho lo que sabemos de sus antecedentes familiares ni de su niñez y
juventud. Jamás escribió sobre sí mismo y cuando le interrogaba sobre su
historia personal respondía con parquedad. Había en él un cierto rechazo a
recordar episodios que fueron trágicos para él, para su familia y para su país
de origen.
Vino
al mundo en el seno de una familia judía asquenazi en Cracovia, Polonia, el 16
de octubre de 1911. El país se hallaba entonces bajo la dominación rusa y años
después sufriría la despiadada invasión y ocupación del ejército nazi. Por él me enteré que sus padres y demás
familiares fallecieron en un campo de concentración.
En
Cracovia había seguido estudios primarios y una vez culminados, por decisión
familiar fue enviado a Porto Alegre, Brasil, a la residencia de unos tíos. En
esta ciudad vivió entre los 12 y los 23 años de edad. Aprendió el idioma
portugués, aunque en su nuevo hogar se hablaba en yiddish, la lengua usada por
los judíos de Europa central y del este.
En
busca de una vida propia, recorrió el extenso territorio brasileño y llegó a
Venezuela en 1934. Este era entonces un país escasamente poblado, que apenas
superaba los 3 millones de habitantes, los cuales en su mayor parte vivían en
el medio rural o en pequeños pueblos. Sin embargo, la incipiente explotación
del petróleo ya reflejaba un aumento significativo de los ingresos nacionales y
una mejora en las condiciones socioeconómicas de la población, que se vio
incrementada por millares de inmigrantes que provenían de países vecinos o de
Europa. En adelante se producirían
importantes traslados de población rural hacia las ciudades, las cuales
crecerían de manera sostenida.
Me
contaba David que la primera ciudad en la que se estableció fue Cumaná, capital
del estado Sucre, y que allí fue bien recibido y pronto pudo ganar su sustento
realizando modestas faenas comerciales y agrícolas. Al cabo de un tiempo se
marchó a Caracas y de aquí pasó a Barquisimeto, capital del estado Lara,
importante centro urbano del occidente de Venezuela. En esta ciudad contrajo
matrimonio con la señora Blanca Gallardo, enfermera de profesión. A partir de
1941 se estableció junto con su esposa en Maracay, capital del estado Aragua
donde residiría definitivamente hasta su fallecimiento en 1974. En el hogar de
los Grossvater-Gallardo nacería Ima, única hija. Atendió a las necesidades del
hogar desempeñándose en modestas actividades comerciales.
Su
encuentro con el espiritismo
David conoció la doctrina espiritista en Porto Alegre, capital y mayor
ciudad del estado de Rio Grande do Sul. Contaba alrededor de 20 años cuando
escuchó una conferencia en el Instituto Espírita Días da Cruz y en adelante
comenzó a frecuentar sus actividades y a leer las obras de Allan Kardec, las
cuales fueron ganando su entusiasmo y adhesión.
Naturalmente, a él que ya desde su juventud se definía como un judío
liberal, arreligioso y librepensador, no le simpatizaba la orientación
decididamente cristiana de aquella institución, aunque de ella guardaba gratos
recuerdos y así lo manifestaría en algunos textos.
Encontrándose en Cumaná conoció un grupo espiritista que se guiaba por
los libros del escritor Joaquín Trincado, español de origen que estableció su
residencia en Buenos Aires, Argentina. Aquí Trincado fundó en 1911 un
movimiento que denominó Escuela Magnético-Espiritual de la Comuna Universal
(EMECU), que alcanzó a expandirse por varios países hispanoamericanos, y cuyos
principios generales son semejantes a los que definió Kardec, aunque no dejan
de haber algunas diferencias conceptuales y de lenguaje. Los centros espíritas
de la EMECU se denominan Cátedras, y pronto David se adhirió con notable
entusiasmo la Cátedra de Cumaná. Lo mismo haría en adelante en Caracas,
Barquisimeto y Maracay. Le agradaba
especialmente que en esos centros se planteara un espiritismo no religioso y
que se pusiera un mayor énfasis en las cuestiones sociales.
David llegó a convertirse en un destacado líder del trincadismo,
especialmente desde que estableció su residencia en Maracay. Aquí fundó la
Cátedra “Simón Bolívar” y la revista “El Espiritista” que circuló entre 1944 y
1948. Por sus escritos de esa época se puede constatar que su formación
cultural, enteramente autodidacta, se había ampliado considerablemente. Además
de los libros de Trincado leía con enorme interés a Kardec, Denis, Delanne, Geley,
Amalia Domingo Soler, Quintín López Gómez, Manuel Porteiro, y también a
filósofos clásicos y contemporáneos.
Fundación
del CIMA
Precisamente, su disposición a que la doctrina espírita se abriera al
estudio de diferentes autores y se alejara de posiciones dogmáticas, desembocó
en fuertes debates en los que las desavenencias se hicieron insuperables.
Secundado por un numeroso grupo de espíritas de Maracay, Caracas y otras
ciudades venezolanas David Grossvater
fundó el 20 de mayo de 1958 un movimiento que inicialmente se denominó Centro
de Investigaciones Metapsíquicas y Afines (C.I.M.A), que posteriormente, en
1980, adoptaría el nombre de Movimiento de Cultura Espírita CIMA, que
actualmente le distingue.
La
nueva institución rompía con el trincadismo, no solo en lo relativo a
cuestiones administrativas o institucionales sino en sus definiciones,
principios y propósitos. Partía de un modelo conceptual propio en el cual se
reconocía el pensamiento de Kardec como la base del espiritismo, pero sin
considerarlo infalible o sagrado. El CIMA surgió con la propuesta de un
kardecismo que debía estimular una permanente actualización, que se definía
como laico, evolucionista, racionalista y librepensador. Animados por estos
principios, vibrando en un clima fraterno dentro del cual no había lugar para
censuras, ni descalificaciones, numerosos espíritas decidieron fundar grupos de
estudio y de actividades mediúmnicas en diversas ciudades venezolanas. Los
nombres que les identificaban daban la idea de la variedad y pluralidad que
caracterizaba a sus integrantes: CIMA “Armonía, Luz y Amor”, CIMA “Allan
Kardec”, CIMA “León Denis”, CIMA “Amalia Domingo Soler”, CIMA “Cosmos”, CIMA
“Arriba Corazones”, CIMA “Charles Darwin”, CIMA “Albert Einstein”, etc. En los
años siguientes se fundaron nuevos centros adheridos al CIMA en Colombia, Perú,
México, Guatemala y Estados Unidos.
En
1960 se celebró en Maracaibo, gran ciudad del occidente de Venezuela, la
Primera Asamblea Espírita Nacional en la que se aprobó la fundación de la
Federación Espírita Venezolana (FEV), la cual quedó bajo la presidencia de
Pedro Barboza de la Torre, abogado, pensador espírita y escritor de singular
prestigio académico. Grossvater suscribió el acta fundacional de la naciente
Federación en nombre del CIMA y causó un notable impacto por su verbo elocuente,
por la defensa vertical de la orientación espírita laica, y por su trato
cordial, amistoso, sencillo y bienhumorado. Primero por su participación como
entidad fundadora de la FEV, y posteriormente en forma autónoma, el CIMA se
afilió a la C.E.P.A, entonces Confederación Espírita Panamericana (hoy
Asociación Espírita Internacional CEPA), y a lo largo de los años ha ofrecido
una importante contribución a su crecimiento y consolidación. Al frente de una
amplia delegación del CIMA, David participó activamente en el Séptimo Congreso
Espírita Panamericano que se celebró en Maracaibo, en 1966.
Producción
intelectual
Su
obra escrita estuvo consagrada al estudio y divulgación del espiritismo y se
encuentra reunida en tres libros propios, centenares de artículos y
traducciones de otros autores. A ello hay que agregar el intercambio epistolar
con los líderes espíritas de mayor relevancia de América y Europa. Conservo
algunas cartas cuyo contenido constituye una importante fuente de información
sobre el movimiento espírita de su época.
Sus
libros se titulan: Por los fueros del espíritu, Psicología del
espíritu y Espiritismo laico. Cada uno de ellos tuvo varias
reediciones, principalmente por las editoriales Kier de Buenos Aires y Voz
Informativa de Ciudad de México. Siguiendo el ejemplo de Kardec, en cada
nueva edición introducía correcciones, cambiaba conceptos e incorporaba nuevos
capítulos. Su obra fundamental es Espiritismo Laico y el propio título
le convirtió en su tiempo en la figura máxima de esta orientación espírita. Hay
que adicionar que bajo el título Razonamientos espiritistas, reunió una
selección de textos de autores espiritistas y librepensadores con los cuales se
identificaba. Esta obra, publicada por Kier, gustó mucho y circuló
profusamente dentro de los centros espíritas y en las librerías de
Hispanoamérica.
Sus
artículos fueron numerosos y dedicados al examen de temas muy variados. Aparecieron
en las revistas del CIMA o de otras asociaciones espíritas. En su residencia en
Maracay lo vi muchas veces tecleando en su vieja máquina hasta altas horas de
la noche, dando forma a lo que brotaba de su mente inquieta y también pude
presenciar momentos en que parecía debatir en voz alta consigo mismo hasta que
aparecían las ideas que buscaba y las transcribía a su entrañable Olivetti.
Luego se complacía en leerme lo que había escrito y yo me sentía muy honrado
cuando pedía mi opinión o que hiciese un análisis crítico.
Aprovechando su conocimiento del idioma portugués, David tradujo tres
obras psicografiadas por el médium brasileño Francisco Cándido Xavier, que él
consideraba dignas de ser estudiadas y aprovechadas por los lectores de habla
española: Mecanismos de la mediumnidad, En torno de la mediumnidad
y Evolución en dos mundos. Tradujo también el libro La Grande
Síntesis de Pietro Ubaldi.
Conferencias y viajes
Los
grupos espíritas de los años cincuenta y sesenta del pasado siglo requerían su
presencia para escuchar sus conferencias en las que explicaba las bases
filosóficas, científicas y morales de la doctrina espírita. Opuesto
radicalmente a que se considerase al espiritismo como una religión, rechazaba
toda clase de dogmas o ceremonias, y con mucho énfasis rechazaba a los charlatanes
que emplean indebidamente el nombre del espiritismo para lucrar mediante la
explotación de supuestas o reales facultades psíquicas.
Con
frecuencia se pedía su orientación en el área de la mediumnidad práctica, que David
dominaba con admirable destreza. Él consideraba que un auténtico centro
espírita debe combinar el estudio con el ejercicio mediúmnico, cuando hubiese
condiciones para ello. Participé en muchas sesiones dirigidas por David y en
cada una de ellas fui aprendiendo las estrategias para conducirlas
apropiadamente mediante el desarrollo de las facultades de los médiums, el
diálogo con los espíritus, la educación mental y conductual de los
participantes, así como la evaluación crítica de los mensajes en cuanto a la
determinación de su origen mediúmnico o anímico, el análisis y aprovechamiento
de su contenido, erradicando cualquier forma de credulidad o sugestión. En este
campo, recomendaba con insistencia la lectura y consulta de El libro de los
médiums y En lo invisible, textos de Allan Kardec y Léon Denis
respectivamente.
En
varias ocasiones David realizó viajes internacionales con la intención de
contribuir a la divulgación del espiritismo, explicar su visión laica y
evolucionista, y entablar relaciones fraternales. Tuve el honor de acompañarle
en intensas y extensas giras que nos llevaron hasta diversas ciudades de
Colombia, Ecuador, Perú, Chile, Argentina, Uruguay, Brasil y México, quedando
de esas actividades, que contaron con el respaldo de numerosos centros
espíritas, entrañables relaciones personales y sólidos vínculos
institucionales.
Hasta los días finales de su fecunda existencia, David se mantuvo
inquebrantable en las convicciones espíritas, laicas y evolucionistas, que
dieron sentido a su vida y a su esfuerzo por divulgarlas. Se marchó
prematuramente de la dimensión encarnada cuando apenas sumaba 63 años y tenía
pendiente mucho por hacer. Su deceso ocurrió el sábado 18 de mayo de 1974 en un
hospital de Maracay en el que había sido recluido por presentar severos
problemas respiratorios provocados por un enfisema pulmonar. Nunca pudo superar
su afición al consumo habitual de cigarrillos, no obstante las advertencias y
hasta las súplicas de quienes le queríamos.
Me
hallaba en Caracas cuando fui informado de la triste noticia. Rápidamente, me
trasladé a Maracay y al llegar abracé a Blanca, a Ima, y a muchos compañeros
del CIMA que guardaban respetuoso silencio ante su cuerpo inerte. Los
representantes de la comunidad judía ofrecieron encargarse de todos los
trámites y gastos del entierro en su panteón privado siempre que se cumpliera
la tradicional ceremonia religiosa. Les aclaramos que David no practicaba la
religión judía ni seguía sus prescripciones, que su filosofía de vida era el
espiritismo y que siempre había manifestado su deseo de que llegado el momento
su funeral debía ser enteramente civil y sin ceremonias de ninguna religión.
Así se cumplió, y con hondo pesar en mi corazón y un inmenso vacío en mi alma, estremecido
por un sinfín de recuerdos, me cupo el honor de pronunciar unas palabras para
despedir al eminente pensador, al fundador y primer Presidente del CIMA, al
amigo que con fraterno cariño tomó mi mano de adolescente, me abrió las puertas
de su hogar, y me condujo a transitar con pasión por los cautivantes senderos
de la cultura espírita.