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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A Fé Raciocinada - por Alexandre Cardia Machado

 

A Fé Raciocinada uma visão Livre-pensadora

 

“Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.

Allan Kardec”




Nunca antes a expressão acima do mestre lionês se mostrou tão sábia, em tempos de corona-vírus o que mais nos ajuda a enfrentar o problema é a razão, representada pela ciência.

Contudo o mundo se depara frente a um dilema, parar tudo o que for possível para estancar a proliferação rápida do vírus pagando com isto a conta com uma recessão mundial, ou seguir a vida normalmente e sacrificar uma parcela mais vulnerável da população, sem a menor capacidade de antever até onde isto poderia chegar.

O mundo inteiro, apesar das diversas reclamações de vários setores, optou pela saída mais humanista, por salvar mais vidas e com isto vamos colocar o planeta em quarentena, esta é a opção mais sensata. Mesmo no Brasil onde nosso presidente insiste em falar contra o isolamento horizontal, ele tem ficado na retórica a prática do governo é sim pelo isolamento.

Claro, que não são todos os que estão, ou ficarão em quarentena, mas todos devem se proteger, a área de saúde, de segurança, toda a cadeia de alimentação, transporte e logística e geração de energias, não pode parar.

Para que parte da população possa ficar em casa, alguns serviços precisam funcionar. Há que prover energia para fábricas, hospitais e residências, combustível e alimentos a todos, bem como necessitamos de uma capacidade de produzir remédios, e aparelhos médicos, entre muitas outras coisas. Com isto o vírus continuará se propagando, mas a uma velocidade menor e compatível com a nossa capacidade de lidar com a doença.

O momento é de união pela vida, de exercermos a paciência e a resiliência. A crise será superada, como sempre se supera e o mundo voltará a crescer. Governos de todos os matizes ideológicos estão tomando ações para superar a crise de falta de dinheiro que pode implicar na incapacidade de comprar mantimentos da população. Porém, acreditar que a barbárie tomará conta do mundo é um salto muito grande, estamos seguros de que a generosidade se fará presente como sempre aconteceu na história da humanidade em situações como estas.

A medicina encontrará remédios, já existem alguns tratamentos que estão sendo testados todos os governos estão trabalhando para aumentar a capacidade de leitos hospitalares de UTI, se tivermos paciência e aguentarmos ficar em casa o máximo de tempo possível, vamos superar.

Temos que enfrentar os problemas um a um, primeiro o vírus e a seguir o problema de fome, se este problema de fato chegar a ocorrer, as medidas de apoio podem minimizar o impacto da fome, outras se seguirão de acordo com o desenrolar dos acontecimentos.

É hora, quem sabe de olharmos para dentro de nós e vermos o que podemos fazer pelo outro? Moro em um bairro com muitos edifícios altos, hoje fomos surpreendidos por um show de teatro para crianças feito na sacada do prédio ao lado, com autofalantes e transmissão pela internet, assim como este evento que relato, tantos outros ocorreram na Itália e em outras partes do mundo, alguns só para quebrar a rotina do “Dia da Marmota” (nome de um filme onde a cada manhã o protagonista voltava ao dia anterior – tudo era igual, só ele quem mudava) em que estamos vivendo em nossos momentos de confinamento forçado. Outros eventos online estão sendo feitos com o objetivo de arrecadar fundos para ajudar a resolver o problema.

Alguns podem simplesmente contribuir com dinheiro para as diversas organizações de acolhimento que existem, por que não?

- Bah! Mas alguns dirão, - não sei como fazer? Quem for de Santos, basta olhar no carnê do IPTU onde temos várias opções de organizações que fazem trabalho voluntário que podemos doar, são só sugestões, sabemos que todos já estão fazendo algo.

No momento em que escrevo, observo que a Fundação Porta Aberta, já apresentada anteriormente neste jornal, na coluna - Gente que Faz - dirigida por Mauro Spinola e nossa presidente da CEPA Internacional, Jacira Silva e outros amigos, está viabilizando a fabricação de máscaras de proteção, informações podem ser obtidas pelo WhatsApp – conforme quadro abaixo. Quem quiser pode ajudar através deles também. Trata-se de uma parceria com o Rotary Club de São Paulo.

Artigo publicado no jornal Abertura abril 2020

Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.

Gostou? Você pode encontrar muito mais no Jornal Abertura – digital, totalmente gratuito.

Acesse: CEPA Internacional


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Revolucionário, eu? Seria a reencarnação obrigatória? por Reinaldo di Lucia


Durante o XXI Congresso Espírita Panamericano, realizado em Santos, o trabalho que escrevi, propondo a possibilidade da reencarnação não ser obrigatória, provocou alguma polêmica. Muitos vieram dizer-me: “Quer dizer que agora, depois de tirarmos Jesus e questionarmos o Perispírito, estamos também eliminando a Reencarnação do Espiritismo?”




Penso que o medo da mudança é tão constante no homem que chega a ser natural este tipo de questionamento. Afinal, desde crianças, quando frequentávamos a infância espírita – naquela época ainda chamada de “escolinha”, um provável diminutivo de “escola de evangelização” – a reencarnação é encarada quase como um dogma. Aliás, em perfeita consonância com Kardec: “Em que se funda o dogma da reencarnação? Na justiça de Deus e na revelação (...)” (Livro dos Espíritos, pergunta 171).

Talvez eu seja mesmo um espírito, digamos, inquieto. Penso que o comodismo do pensamento, o congelamento das ideias leva a uma cristalização que é fatal para a sobrevivência de uma doutrina tão dinâmica quanto o Espiritismo. E assim, desde muito, as perguntas “e se ...” e “ou não” fazem parte integrante da minha visão espírita. Considero necessária e fundamental a revisão periódica dos princípios espíritas, ainda mais se considerarmos o quão rapidamente o conhecimento humano vem evoluindo.

Eis porque considero que a proposta de um trabalho consistente de atualização do Espiritismo, feita há mais de 10 anos pela CEPA, é o que há de mais importante neste século XXI. Não há outras formas de mantermo-nos vivos e atuantes a não ser construindo pontes com as demais formas de conhecimento humano e, se necessário, revendo conceitos que já não mais se sustentam.

Mas, para que isso se efetive, é essencial que nós, espíritas laicos, livres-pensadores e progressistas, tenhamos a mente aberta para a possibilidade da mudança. E, para isso, não pode haver tabus, temas proibidos, impossibilidades a priori. A discussão, o questionamento é obrigatório; a conclusão será feita a partir desse questionamento.

Vamos tirar a reencarnação do corpo doutrinário espírita? Não, não é essa a proposta. Mas temos que analisar com calma até que ponto o livre arbítrio de cada ser pode possibilitar a ele a escolha da não reencarnação. E essa avaliação passa por uma série de outros questionamentos, como fica o edifício conceitual espírita se isso for assim? Qual a extensão do nosso livre-arbítrio? Que outras formas de aprendizado seriam possíveis? Como se dá a evolução? Enfim, há um desdobramento significativo que, de modo amplo, só contribuirá para que o Espiritismo seja mais firme – e que cada um de nós, espíritas, compreendamo-lo ainda melhor.

Que tal, despretensiosamente, despertar o livre-arbítrio revolucionário que vive em você? A reflexão te dará embasamento para mudar seus conceitos, ou mantê-los (seja da mesma forma de antes, seja com novos pilares). Modernizar é isso: pensar, repensar, reciclar, redescobrir, reinventar. Afirmar o mesmo de sempre em uma realidade absolutamente diferente, sem nem ousar uma dúvida sobre o posto, é contextualizar às avessas. Necessário, em algumas situações, mas já exaustivamente explorado, há pelo menos 100 anos, no que tange a filosofia Espírita.  

NR: Este artigo foi publicado no jornal Abertura em novembro de 2012

Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

BREVE REFLEXÃO SOBRE ESPIRITISMO, POLÍTICA E SOCIEDADE NO ÂMBITO DA CEPA - por Ricardo de Morais Nunes


BREVE REFLEXÃO SOBRE ESPIRITISMO, POLÍTICA E SOCIEDADE NO ÂMBITO DA CEPA.

Em tempos de polêmicas políticas e sociais, tanto na esfera nacional quanto internacional, vale a pena pensarmos sobre o papel dos espíritas laicos e da CEPA (Associação Espírita Internacional) em relação a estes temas. Trata-se de uma reflexão de grande importância no que diz respeito as diretrizes fundamentais do movimento espírita laico e livre pensador, que precisa delinear, com precisão de princípios, o que poderíamos chamar de um pensamento social espírita, com vistas a compreensão e enfrentamento dos temas sociais e políticos do mundo contemporâneo.

  O intelectual espírita deve ter uma abrangência global em seu olhar para a realidade. Deve ser alguém capaz de pensar desde as questões metafísicas até as estruturas sociais. O intelectual espírita, portanto, deve refletir sobre o além, sobre as condições existenciais na esfera extrafísica; sobre o homem terreno, enquanto indivíduo encarnado; e sobre o mundo, em seu aspecto de organização social.  Devemos ser capazes de abrigar no âmbito da CEPA e da CEPABrasil (Associação Brasileira dos delegados e amigos da CEPA) espíritas que pensem e falem sobre todos os temas da filosofia espírita.

Neste sentido, temos que ser capazes de discutir sobre o períspirito, mas também devemos refletir sobre as exclusões econômicas e sociais proporcionadas pelo sistema capitalista de produção. Devemos ter a capacidade de refletir sobre os efeitos benéficos do magnetismo, mas também sobre as restrições à liberdade individual geradas pelas chamadas ditaduras do proletariado. Devemos ser livres para discutir sobre “Nosso lar”, a colônia espiritual revelada pelo espírito André Luiz, mas também devemos refletir sobre a importância da defesa do laicismo ante a influência das religiões no Estado. Por fim, devemos filosofar sobre a ideia de Deus, mas também devemos nos dedicar a pensar nos processos de corrupção pública e privada que abalam os orçamentos das nações e desviam recursos fundamentais que deveriam ser aplicados no bem comum.

 Devemos discutir todos estes temas e outros de natureza política e social, à luz da filosofia espírita e das ciências sociais, abertamente, dialeticamente, sem sectarismo, e com pleno respeito a opinião do outro, em uma tentativa honesta, verdadeira, de compreensão profunda de fenômenos políticos, sociais e econômicos complexos, que não se prestam a simplificações através de frases feitas ou sentenças definitivas.

No campo das ideias políticas e sociais, há alguns companheiros que defendem que a CEPA e a CEPABrasil devem ser uma espécie de guarda-chuva, com vistas a abrigar tanto os espíritas de direita, quanto os de esquerda, e os que não tem posição política. Apesar de concordarmos com a necessidade de abrigar a todos, em um espírito de alteridade e fraternidade, pensamos que a CEPA e a CEPABrasil, enquanto instituições, não devem ser neutras no que diz respeito a estes temas.

 Em conformidade com os princípios sociais humanistas da filosofia espírita, a CEPA e a CEPABrasil devem se colocar expressamente, inequivocamente, a favor das liberdades democráticas, da justiça social, do laicismo, dos direitos humanos, da ética na condução dos negócios públicos e privados, e da preservação ecológica do planeta.  Na ordem internacional, os espíritas laicos e livre pensadores devem ser defensores do pacifismo, ou seja, da resolução não violenta dos conflitos entre as nações, e devem ser contrários a quaisquer tipos de imperialismos ou neocolonialismos, em pleno e absoluto respeito à soberania dos povos para decidir seus destinos.

 Em especial, estas instituições do movimento espírita laico e livre pensador devem se colocar decisivamente a favor dos mais fracos economicamente na sociedade.  Quanto a preocupação com os mais carentes que alguns no Brasil de hoje em dia lamentavelmente chamam de partidária ou esquerdista, e que preferimos chamar de humanista, vale lembrar uma frase de O Livro dos Espíritos que sintetiza esta preocupação na obra espírita: “Numa sociedade organizada segundo a lei do cristo, ninguém deve morrer de fome” (reposta a questão 930 LE). Esta frase deveria ser um antídoto contra qualquer tendência a uma pretensa neutralidade dos espíritas nestes temas.  Aliás, quanto a acusação de que pensar nas estruturas injustas da sociedade e nos mais carentes é coisa apenas de comunista, lembramos de uma célebre frase do cristão Dom Hélder Câmara: “Quando alimentei os pobres chamaram-me santo, mas quando perguntei por que há gente pobre chamaram-me comunista”.

Os espíritas têm sido muito eficazes ao longo da história do movimento espírita na criação de instituições de caridade, em cuidar dos efeitos das sociedades desiguais, o que é muito bom e sempre deverá ser incentivado. No entanto, o pensador espírita deve ir além com vistas a pensar nas causas profundas das desigualdades sociais, a fim de construir um pensamento social espírita maduro sobre tais temas.

A CEPA e a CEPABrasil não podem cair no erro de pensar apenas no indivíduo, na reforma moral ou intima, ignorando as estruturas econômicas, sociais e, principalmente, as ideológicas, uma vez que estas últimas condicionam e atravessam o indivíduo, constituindo lhe a subjetividade e sua maneira de ser e estar no mundo. A ideologia vigente, de índole materialista, estimulada pelos interesses do capital, baseada na mercantilização da vida, fundamentada na preferência do ter sobre o ser, na ideia de concorrência de todos contra todos, na acumulação financeira, e na exaltação do supérfluo sobre o necessário, concorre na deformação ética do indivíduo, daí a necessidade do pensamento crítico com vistas ao aperfeiçoamento moral do homem.

A ideia de um homem e de um mundo melhor, mais fraterno e justo, está presente na filosofia espírita. Esta ideia perpassa desde a mudança do indivíduo até a mudança das instituições. Portanto, cabe ao espírita intelectualmente maduro pensar globalmente sobre todas as questões, sobre todos os assuntos, a partir de todas as perspectivas do conhecimento filosófico. O espiritismo deve permanentemente dialogar com todas as ciências desde as ciências físicas, psicológicas, biológicas, parapsicológicas, humanas, astronômicas, etc. Os espíritas e o espiritismo têm muito a contribuir com estes ramos do conhecimento, mas também tem muito a aprender e assimilar em um contexto de progressividade do pensamento espírita.

 Entendemos que o adjetivo “progressista” que adotamos na CEPA e CEPABrasil não deve ser compreendido pela metade, apenas no que diz respeito a liberdade no campo dos costumes, mas também no que diz respeito ao avanço dos processos sociais no sentido do progresso, em direção a mais vida, mais igualdade, mais liberdade, para todos que se encontram neste planeta, independentemente dos governos de plantão.

 Alguns dirão que existem as verdades eternas com as quais devemos particularmente nos preocupar. E que não devemos nos preocupar com as questões terrenas e transitórias. Certamente que não precisamos nos envolver com a pequena política partidária dos interesses egoístas, bem como com as mesquinhas disputas pelo poder. Certamente que não devemos fazer campanha política dentro do centro espírita, e muitos menos querer formar uma bancada espírita no congresso.  Não precisamos formar o partido espírita. No entanto, podemos discutir nos centros, federações e eventos espíritas, princípios filosóficos de caráter social e político, podemos elaborar debates, produzir palestras, artigos, trabalhos e livros, em absoluto clima de livre pensar, com vistas a estabelecermos uma concepção espírita humanista, democrática, equitativa e ecológica de mundo e sociedade. E podemos até mesmo realizar ações, enquanto membros da sociedade civil, com vistas a contribuir de alguma forma para a melhoria da vida social.

   Temos condições de estabelecer no âmbito do movimento espírita laico e livre pensador um pensamento social espírita crítico, isento de preconceitos filosóficos, que se proponha a estudar e refletir desde o liberalismo até ao marxismo, o que fará com que nos habilitemos a dialogar com o mundo contemporâneo no que diz respeito aos temas políticos e sociais. Podemos compreender esta necessidade de formação intelectual séria dos espíritas ante as inúmeras mensagens e declarações pueris e alienadas que são enviadas por alguns espíritas pela internet e redes sociais, as quais muitas delas passam a imagem que os espíritas como um todo vivem em um mundo abstrato, de colorido fantasioso, e de expectativas messiânicas e mágicas.

É preciso lembrar que o espiritismo considera a presença do homem no mundo, encarnado, como um fator de evolução intelecto- moral, não apenas do indivíduo, mas também das sociedades. Além do mais, os problemas estruturais de nossa sociedade produzem extremo sofrimento em grande parte da população, e conhecer as causas do sofrimento humano, para atenua-lo, certamente é um dos interesses do espiritismo.

Outros dirão que o ambiente político e social brasileiro e internacional está polarizado, e que tais reflexões perturbariam nosso ambiente e não seriam fator de agregação e harmonia. Porém, é justamente nos momentos de crise que temos a oportunidade de dizer ao mundo a que viemos. É nos momentos de crise que revelamos integralmente quem somos. É nestes momentos que devemos oferecer àqueles que se aproximam dos espíritas laicos e livre pensadores uma reflexão séria do mundo e da sociedade, a partir de todo o arcabouço filosófico produzido pelos pensadores espíritas de todos os tempos no campo político e social, e também levando em consideração toda a produção das ciências humanas produzidas até este momento histórico.

 Existirão aqueles que, ante as reflexões acima, dirão que o que importa mesmo é o melhoramento intelecto-moral do indivíduo, e que o progresso social virá por consequência. Porém, a filosofia espírita nos convida a um pensamento mais amplo, não restritivo, no que diz respeito aos problemas do mundo. Vivemos em sociedades extremamente individualistas, desiguais, ainda extremamente injustas para a grande maioria das pessoas. Se não nos preocuparmos com isso estaremos nos alienando. Por fim, a filosofia espírita nos convida a pensar e a crer   em um outro mundo terreno possível, mais justo, solidário, livre, e amoroso, quando nos fala da lei de progresso. Se ignorarmos este aspecto do espiritismo, estaremos compreendendo o espiritismo de forma incompleta.


RICARDO DE MORAIS NUNES: É presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e documentação Espírita- Instituição filiada a CEPA – Associação Espírita internacional)

Nota : Este artigo será publicado no Jornal Abertura nas edições de abril e maio de 2019








segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Politica e Fé não se misturam - Carolina Regis di Lucia e Reinaldo di Lucia


Politica e Fé não se misturam

Há duas décadas, também em período eleitoral, um grande companheiro de Espiritismo lançava-se no cenário politico local. Eu estava na Mocidade e acompanhava o apoio de todos à sua empreitada, certos de que era uma opção acertada e ética a votar. Até que comecei a ver santinhos do candidato no mural do centro e uma discussão sobre trazê-lo para falar aos jovens em uma de nossas reuniões... Aquilo me pareceu estranho, de certo modo até errado, mas, com a maturidade em formação na época, não sabia elaborar perfeitamente o que sentia. Lembro que havia recém convidado duas amigas não espiritas para frequentar o grupo e receava o que elas iriam pensar, vendo uma casa para estudo da Doutrina, estar claramente apoiando, divulgando e incentivando o voto em um candidato interno. Quando da votação sobre trazê-lo ou não para o grupo, fui a única contrária, expondo que não achava correto propaganda politica dentro do centro, de quem quer que fosse. Algumas pessoas ficaram chocadas com meu posicionamento, afinal, era diretor da casa, de moral inquestionável, que faria a diferença na política da região. Outros não entendiam o porquê da casa não poder apoiar um candidato conhecido. Porém, apesar de ser minoria, meus questionamentos foram incômodos o suficiente para que os santinhos saíssem dos murais e o evento não acontecesse. Em tempo, o candidato não alcançou os votos necessários e jurou que nunca mais se meteria com política – desgostoso do que encontrou nos bastidores eleitorais.

Vinte anos após esse episódio, já tenho alguma bagagem a mais para poder afirmar que política e fé não devem se misturar oficialmente. Haja vista o caos social desta eleição: nas redes sociais, mesas de bar, nos almoços e encontros de trabalho e nas manifestações populares são observadas toda a imaturidade do brasileiro em, não apenas discutir política – assunto que absolutamente não dominamos - , mas no direito básico e intrínseco do outro em pensar diferente. Parentes, amigos antigos, colegas e completos desconhecidos, com a tradicional paixão latino americana, se agridem, se humilham, cortam relações pelo simples fato de não aceitarem a escolha eleitoral do outro.
Aceitemos: o brasileiro ainda é analfabeto politico. Sequer entende o próprio sistema de governo, escolhe o candidato por frases e ideias soltas, como se fossem personagens de vídeo game com poderes ilimitados para salvar um país afundado por anos e anos de.... analfabestimo político. A mistura deste campo, ao campo da fé é uma combinação inevitavelmente explosiva e nociva. Exemplos claros são as bancadas já constituídas parlamentares-religiosas, exemplos fanáticos e opressores de voto vicioso de seus fiéis, impedidos de poderem exercer a livre escolha dos candidatos oprimidas pelo argumento religioso.

E as maiores decepções desta eleição, repleta de episódios desagradáveis, foram os manifestos Espíritas e, pasmem, auto intituladas Livre Pensadores, contrários a este ou aquele determinado partido. Chegou-se ao auge da alucinação em afirmar que Espíritas, principalmente os Livre Pensadores, não deveriam votar em X candidato, por motivos Espíritas. Que contraditória a afirmação que um livre pensador de Kardec, por ser livre pensador de Kardec, não deveria votar em X candidato... A que ponto paradoxal a cegueira causada pela imaturidade Espirito-Politica chegou?

Em nossas ultimas filosofias, batemos na mesma tecla de que o Espírita deve vivenciar a Doutrina, não apenas a estudar. Os atos diários, a pratica, o lidar com o outro nas questões sociais são os fatores determinantes da Espiritualidade de alguém, não apenas o que ele lê, o que prega nas palestras, o cargo que ocupa nas casas. E esta eleição expos claramente o hiato existente entre o Filósofo Espirita (profundo conhecedor da doutrina) e o Praticante Espírita (que transpira seus valores éticos em suas ações). O Espírita, assim como qualquer cidadão, tem o direito de votar em quem ele acredita ser o melhor representante de suas ideias para governar a sociedade em que ele está inserido. Se, avaliando as argumentações do candidato, ele como eleitor acredita que se aproximem do que a Ética Espírita propõe, que vote em quem escolher.

Minha maior preocupação é que, talvez, o despreparo histórico para a política impeça esse eleitor Espirita de fazer essa ponte avaliatória entre a ética Espírita e a ética Politica proposta por esse ou aquele partido/candidato. Em geral, as avaliações são feitas isoladamente, olhando em separado, o cenário político, do cenário Espirita. Não há o cruzamento da Ética Espírita com as propostas dos futuros governantes a ponto de realmente embasar a escolha com um arcabouço de valores daquele individuo, escolhendo os políticos que irão governar a todos ao seu redor.
E essa escolha final deve ser particular, individual, fora dos bancos das casas Espiritas. Pelo simples fato de que não temos maturidade para lidar com ambas as questões ao mesmo tempo. E, ainda que tivéssemos, teríamos que ter, sobretudo, alteridade o suficiente, responsabilidade o suficiente e discernimento o suficiente para sair do centro sabendo que, ainda que a maioria julgue tal candidato ou partido melhor, eu posso escolher qualquer outro, sem prejuízo das amizades, sem julgamento moral, sem perder o vinculo com o grupo. Jovens políticos que somos não temos essa capacidade ainda.

 publicado no jornal ABERTURA em outubro de 2018

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Maioridade Penal, uma reflexão espirita por Marcelo Regis

Maioridade Penal, uma reflexão espirita Marcelo Regis  Rio de Janeiro, 14°  SBPE setembro de 2015 


 I - Introdução 

Esse trabalho tem como objetivo refletir, sempre através das lentes da doutrina espírita, sobre esse tema atual e pulsante que é a redução ou não da maioridade penal no Brasil. Não temos a pretensão de esgotar o tema, nem mesmo analisar todas as facetas do problema. Nesse trabalho vamos nos ater a refletir sobe o tema usando como guia os conceitos morais espiritas, conforme ditados pela codificação kardequiana. Estão fora do escopo dessa reflexão questões jurídicopenais, bem como debater o sistema penal brasileiro e sua adequação para receber menores ou mesmo reintegrá-los a sociedade. O titulo do trabalho é propositadamente UMA reflexão espírita, pois sabemos que sendo a Doutrina Espirita uma doutrina de livres-pensadores, sem dogmas ou direção central ela permite muitas interpretações sobre esse tema, principalmente por se tratar de um tópico temporal, específico do momento atual em que vivemos e particularmente importante no contexto brasileiro onde a violência ocupa um lugar central nas preocupações da sociedade.  A reflexão que ora propomos, estará centrada nos conceitos de justiça divina e lei natural. É preciso esclarecer que a codificação espírita não contempla nenhuma questão especifica sobre esse assunto, provavelmente porque tal tema não era relevante quando da codificação kardequiana há mais de 170 anos atrás.  No Brasil o tema tomou suma importância, frente à escalada constante da violência e o debate sobre o efeito na mesma das resoluções estabelecida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), publicado em 1990. Atualmente encontram-se no congresso nacional inúmeras propostas de mudança tanto da constituição como do ECA, no sentido de alterar e na maioria das vezes endurecer as penalidades aplicadas a adolescentes infratores. Na maioria das vezes e como típico de nossa cultura, o debate é apaixonado e contaminado por preconceitos ideológicos e religiosos, sem muito espaço para aprofundamento sério, nem mesmo para entender experiências bem sucedidas em outros países.

II - Entendendo a Situação 

Para que possamos fazer a reflexão proposta, precisamos primeiramente entender a situação corrente no Brasil e no mundo sobre o tema. O tópico gera discussões apaixonadas, irracionais e na maioria das vezes sem nenhum embasamento teórico ou jurídico. Graças à difusão das redes sociais muitos conceitos errôneos, apresentados sem o devido contexto ou sem suporte estatístico são utilizados para defender ambas as teses. A briga nas redes sociais é quente e quase sem nenhum debate sério – na maioria das vezes posições são colocadas mas sem nenhuma chance do contraditório ou mesmo de se considerar os argumentos do “outro” lado.

Cabe aqui definir alguns conceitos importantes para o restante desse trabalho:

Maioridade Penal: o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa define “maioridade penal” como “condição de maioridade para efeitos criminais”. É a idade a partir da qual o indivíduo responde pela violação da lei penal na condição de adulto, sem qualquer garantia diferenciada reservada para indivíduos jovens.

Imputabilidade Penal: significa a possibilidade de se atribuir a responsabilidade pela violação de lei penal, ou seja, pela prática de um crime nos termos das leis penais. A inimputabilidade penal significa o oposto: a impossibilidade, de acordo com a lei, de se atribuir a responsabilidade pela violação de lei penal. A inimputabilidade penal tem várias hipóteses. Uma delas é a inimputabilidade por idade. Indivíduos podem ser considerados penalmente inimputáveis por estar abaixo de certa idade. A idade de imputabilidade penal não coincide, necessariamente, com a idade de maioridade penal. Os ordenamentos jurídicos podem reconhecer imputabilidade penal diferenciada para aqueles abaixo da idade de maioridade penal.

Existe uma confusão conceitual entre imputabilidade penal e maioridade penal. Imputabilidade penal significa à possibilidade de atribuir a responsabilidade pela violação de lei penal, ou seja, pela prática de um crime, entendida como ação ou omissão típica, antijurídica e culpável. Maioridade penal, por usa vez, refere-se à idade a partir da qual o indivíduo responde pela violação da lei penal na condição de adulto, sem qualquer garantia diferenciada reservada para indivíduos jovens. A lei pode reconhecer a imputabilidade penal de indivíduos com idade abaixo da maioridade penal, acarretando uma responsabilização de natureza penal diferenciada, sob a luz do chamado Direito Penal Juvenil.

II.1 - Brasil 

Atualmente, a maioridade penal é alcançada quando o indivíduo completa 18 (dezoito) anos – mesma idade em que se torna também maior no âmbito civil – conforme prevê a Constituição Federal em seu artigo 228, vejamos: Art. 228. “São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial”. Como vimos acima inimputável significa aquele a quem não pode ser imputado um crime, e, por consequência, uma sanção criminal, como disposto no código penal, que tipifica aquelas condutas a serem rechaçadas do convívio social e estipula os limites de pena a serem aplicados em cada caso concreto. No Brasil, uma das causas dessa confusão conceitual é o fato de que o ordenamento jurídico não faz distinção entre imputabilidade penal e maioridade penal - definindo a idade para ambos como sendo dezoito anos - mas ao mesmo tempo os adolescentes são responsabilizados à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pela prática de ato infracional. Em consonância com a norma constitucional, o regime de infrações do Estatuto da Criança e do Adolescente não segue a sistemática típica do Direito Penal, baseada em tipos penais e penas mínimas e máximas para cada delito. O ECA não faz referência a penas ou crimes
praticados por adolescentes, mencionando apenas infrações e medidas socioeducativas, que não são individualizadas pelo estatuto para cada conduta específica. 

Os crimes praticados por menores de dezoito anos são legalmente chamados de “atos infracionais” e seus praticantes de “adolescentes em conflito com a lei” ou de "menores infratores". Aos praticantes são aplicadas “medidas socioeducativas” e se restringem apenas a adolescentes (pessoas com idade compreendida entre doze anos de idade completos e dezoito anos de idade incompletos. Todavia, a medida socioeducativa de internação poderá ser excepcionalmente aplicada ao jovem de até 21 anos, caso tenha cometido o ato aos quatorze anos). O ECA estabelece, em seu artigo 121, § 3º, quanto ao adolescente em conflito com a lei, que “em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos”, por cada ato infracional grave. Após esse período, ele passará ao sistema de liberdade assistida ou semiliberdade, podendo retornar ao regime fechado no caso de mau-comportamento.

II.2 - Pelo Mundo 

A responsabilidade criminal varia imensamente entre os diferentes países, conforme a cultura jurídica e social de cada um, indicando uma falta de consenso mundial sobre o assunto. Segundo informação fornecida pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a  maioridade penal é a seguinte, nos países abaixo listados:

II.3 - Canadá: Para ilustrar melhor as diferenças vamos nos aprofundar na análise do tema no Canadá. Escolhemos o Canadá por sua tradição de respeito aos direitos humanos, tolerância com minorias e imigrantes.

No Canadá crianças com menos de 12 anos são inimputáveis, enquanto jovens entre 12 e 18 anos estão sujeitos a regime jurídico especial regido pela lei federal Youth Criminal Justice Act (YCJA), publicada em 2003. O objetivo dessa lei é proteger o público através de:  responsabilizar os jovens infratores, através de medidas e penas proporcionais a gravidade das faltas e o nível de responsabilidade dos mesmos  reabilitar os jovens infratores e auxiliar sua reintegração na sociedade, para que os mesmos se tornem cidadãos respeitadores das leis e membros ativos da comunidade  Atuar na prevenção de crimes, indicando jovens e adolescentes para programas e serviços que ataquem as causas e circunstâncias que levam a prática de ofensas a lei

Para aplicar essa lei existe o Youth Justice, ramo da justiça canadense separada do sistema adulto, onde os jovens são julgados em tribunais especiais. No caso das penas, o sistema canadense estabelece que o Juiz pode decidir entre as seguintes penas, de acordo com a gravidade da infração:  advertência;  multa, compensação ou restituição das vitimas pelas perdas materiais e financeiras  serviço comunitário ou prestação de serviços diretamente às vitima do crime  liberdade assistida/ regime aberto com supervisão  prisão em centros de custodia juvenis, podendo ser seguido de liberdade condicional. No caso de crimes mais graves, se aplicam programas de reabilitação intensiva dentro dos centro de custodia

As penas juvenis estão limitadas da seguinte forma:  Homicídio Qualificado: 10 anos, com máximo de 6 anos de reclusão e restante em liberdade assistida  Homicídio doloso: 7 anos, com máximo de 4 anos de reclusão e restante em liberdade assistida para 
 Outros crimes: máximo de 2 anos

No caso de jovens acima de 14 anos, culpados de crimes sérios – definidos como qualquer crime em que um adulto poder receber penas de mais de 2 anos de reclusão - o juiz pode determinar uma sentença conforme o código aplicado aos adultos, e nesse caso os limites acima não se aplicam. Por exemplo, um jovem de 14 a 17 anos pode ser sentenciado à prisão perpetua no caso de homicídio qualificado.

Notamos assim um balanço entre promover a reabilitação e reintegração dos jovens, mas também em responsabilizar os mesmos pelos atos cometidos. Apesar de emitir parâmetros claros e compreender medidas protetivas, o ordenamento canadense permite ao sistema judiciário certa autonomia em ajustar as penas de acordo com cada caso, principalmente os mais graves como exposto acima.

III - Considerações Espiritas 

III.1 - Posicionamento do Movimento Espirita Brasileiro: Uma pesquisa rápida na internet nos mostra que todas as manifestações de instituições e entidades espiritas são contra qualquer mudança na lei de maioridade penal brasileira. Transcrevemos o enunciado da Associação Jurídico Espirita, pois a mesma sumariza bem o pensamento presente no movimento espirita:

AJE-BRASIL (Associação Jurídico-Espírita do Brasil), por ocasião do 1º Fórum de Reflexões, ocorrido na Federação Espírita Brasileira (FEB), em Brasília, deliberou ser contrária à PEC 171/93, que pretende reduzir a maioridade penal no Brasil, fixando-a a partir de 16 anos, pelos seguintes motivos:

1. O Brasil é signatário da Convenção dos Direitos da Criança de 1989, da ONU, que reconhece que a criança – indivíduo menor de 18 anos – é merecedora de cuidados especiais e de proteção, por conta de sua falta de maturidade física e mental; 2. O adolescente – indivíduo de 12 a 18 anos incompletos segundo a legislação brasileira – é um ser cuja personalidade está em desenvolvimento físico, mental, moral e espiritual, devendo lhe ser garantido o sistema de maior proteção aos direitos fundamentais; 3. Para a hipótese de condutas definidas como crime, o sistema jurídico brasileiro, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente, já prevê medidas socioeducativas para a adequada responsabilização do adolescente, não havendo que se falar em impunidade; 4. Ao invés de se adotar o sistema punitivo de natureza penal a adolescentes de 16 a 18 anos, cumpre ampliar medidas concretas nas áreas de assistência social, moradia, esporte, lazer, saúde, educação, entre outras; 5. A inserção de adolescentes no sistema carcerário – que se apresenta superlotado, em condições subumanas, portanto, sem estrutura mínima para cumprir o fim de ressocialização da pena e para atender à dignidade da pessoa
humana implica aumentar os efeitos deletérios desta realidade, com prejuízo para o cidadão e para sociedade em geral; 6. Dados estatísticos comprovam que a maior incidência da lei penal dá-se em relação a adolescentes pobres, negros e com baixo grau de alfabetização, o que revela a seletividade do sistema punitivo. De outro lado, o número de crimes praticados por adolescentes é baixo, em torno de 0,1425% (IBGE); 7. As políticas públicas devem buscar a emancipação do ser – em especial do adolescente que se encontra em desenvolvimento – em detrimento do aumento de medidas repressivas, o que se faz por meio da educação, que proporciona o aperfeiçoamento moral e intelectual do espírito imortal; 8. A lei humana deve privilegiar a ampliação e não a restrição dos direitos fundamentais, visando à construção de uma sociedade justa e fraterna; 9. A educação deve ser vista como prioritária e permanente opção para a evolução humana. Logo, a proposta em debate – de aumento de medida repressiva em prejuízo da adoção de medida de natureza educativa – se aprovada, representa retrocesso social e espiritual para os destinos da sociedade brasileira. AJE – Associação Jurídico Espírita Brasília, abril de 2015.

III.2 - Lei Natural e Lei Humana  Em "O Livro dos Espíritos", a justiça a qual um encarnado está sujeito é regulada pela "lei natural" e pela "lei humana" (ver subquestão (a) da questão # 875).  Os questionamentos feitos por Kardec dizem respeito, majoritariamente, à lei natural, já que a lei humana é específica conforme o tempo, a cultura e a sociedade. Apesar de tocar em vários pontos específicos acerca das leis humanas, não encontramos referencia direta em O Livro dos Espíritos sobre maioridade penal e/ou crimes cometidos por menores de idade. Isso posto, em vários pontos Kardec e os Espíritos provém diretrizes e guias que podem ajudar nossa reflexão.

A diretriz máxima da Lei Natural está exposta na questão #876 "Queira cada um para os outros o que quereria para si mesmo".  A questão # 877 complementa a anterior com relação ao primeiro dever que é "respeitar os direitos de seus semelhantes". Ainda segundo a lei natural, explicam os Espíritos na questão # 880, o primeiro de todos os direitos naturais do homem: “O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal.”

Quanto a ação da sociedade no encaminhamento da criança e do adolescente (segundo a lei natural) está toda sob a tutela da paternidade. Aqui encontramos o campo de maior efeito sobre os atos das crianças.  Por causa disso, a questão 582 qualifica a paternidade como uma missão:

582. Pode-se considerar como missão a paternidade?   “É, sem contradita possível, uma verdadeira missão. Constitui, ao mesmo tempo grandíssimo dever, que empenha, mais do que o pensa o homem, a sua
responsabilidade quanto ao futuro. Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pela senda do bem, e lhes facilitou a tarefa dando àquele uma organização física débil e delicada, que o torna propício a todas as impressões. Muitos há, no entanto, que mais cuidam de endireitar as árvores do seu jardim e de fazê-las dar bons frutos em abundância, do que de endireitar o caráter de seu filho. Se este vier a sucumbir por culpa deles, suportarão os desgostos resultantes dessa queda e partilharão dos sofrimentos do filho na vida futura, por não terem feito o que lhes estava ao alcance para que ele avançasse na estrada do bem.”

portanto, segundo a lei natural, a educação dos filhos é de responsabilidade dos pais. É pela falta ou ausência desses, porém, que a criminalidade infantil pode se tornar um problema da sociedade (como condição necessária, mas não suficiente, para manifestação dessa criminalidade). 

583. São responsáveis os pais pelo transviamento de um filho que envereda pelo caminho do mal, apesar dos cuidados que lhe dispensaram?  “Não; porém, quanto piores forem as propensões do filho, tanto mais pesada é a tarefa e tanto maior o mérito dos pais, se conseguirem desviá-lo do mau caminho.”

Sabendo-se que os espíritos reencarnados tem toda uma bagagem de varias existências passadas, sabemos que as crianças e adolescentes trazem consigo qualidades, defeitos e experiências anteriores muitas vezes com tendência a pratica do mal que pode aflorar através de ações delinquentes se educação e limites não forem estabelecidos a partir do lar.

Finalmente, não deixa de ser elucidativa a questão # 796 que aparece na III Parte do Capítulo VIII do "Livro dos Espíritos": 796. No estado atual da sociedade, a severidade das leis penais não constitui uma necessidade?

“Uma sociedade depravada certamente precisa de leis severas. Infelizmente, essas leis mais se destinam a punir o mal depois de feito, do que a lhe secar a fonte. Só a educação poderá reformar os homens, que, então, não precisarão mais de leis tão rigorosas.”

III.3 - Livre-arbítrio e Responsabilidade Individual Em vários pontos da Doutrina Espirita os espíritos deixam claro que no limite, cada individuo é o artificie e responsável por sua existência, seus atos e por sua própria evolução. Kardec expõe esse tópico magistralmente na questão 872, que apesar de extensa transcrevemos aqui por sua importância: 

872. A questão do livre-arbítrio se pode resumir assim: O homem não é fatalmente levado ao mal; os atos que pratica não foram previamente determinados; os crimes que comete não resultam de uma sentença do destino. Ele pode, por prova e por expiação, escolher uma existência em que seja arrastado ao crime, quer pelo meio onde se ache colocado, quer pelas circunstâncias que
sobrevenham, mas será sempre livre de agir ou não agir. Assim, o livre-arbítrio existe para ele, quando no estado de Espírito, ao fazer a escolha da existência e das provas e, como encarnado, na faculdade de ceder ou de resistir aos arrastamentos a que todos nos temos voluntariamente submetido. Cabe à educação combater essas más tendências. Fá-lo-á utilmente, quando se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral, chegar-se-á a modificá-la, como se modifica a inteligência pela instrução e o temperamento pela higiene. Desprendido da matéria e no estado de erraticidade, o Espírito procede à escolha de suas futuras existências corporais, de acordo com o grau de perfeição a que haja chegado e é nisto, como temos dito, que consiste sobretudo o seu livrearbítrio. Esta liberdade, a encarnação não a anula. Se ele cede à influência da matéria, é que sucumbe nas provas que por si mesmo escolheu. Para ter quem o ajude a vencê-las, concedido lhe é invocar a assistência de Deus e dos bons Espíritos.  Sem o livre-arbítrio, o homem não teria nem culpa por praticar o mal, nem mérito em praticar o bem. E isto a tal ponto está reconhecido que, no mundo, a censura ou o elogio são feitos à intenção, isto é, à vontade. Ora, quem diz vontade diz liberdade. Nenhuma desculpa poderá, portanto, o homem buscar, para os seus delitos, na sua organização física, sem abdicar da razão e da sua condição de ser humano, para se equiparar ao bruto. Se fora assim quanto ao mal, assim não poderia deixar de ser relativamente ao bem. Mas, quando o homem pratica o bem, tem grande cuidado de averbar o fato à sua conta, como mérito, e não cogita de por ele gratificar os seus órgãos, o que prova que, por instinto, não renuncia, malgrado à opinião de alguns sistemáticos, ao mais belo privilégio de sua espécie: a liberdade de pensar. A fatalidade, como vulgarmente é entendida, supõe a decisão prévia e irrevogável de todos os sucessos da vida, qualquer que seja a importância deles. Se tal fosse a ordem das coisas, o homem seria qual máquina sem vontade. De que lhe serviria a inteligência, desde que houvesse de estar invariavelmente dominado, em todos os seus atos, pela força do destino? Semelhante doutrina, se verdadeira, conteria a destruição de toda liberdade moral; já não haveria para o homem responsabilidade, nem, por conseguinte, bem, nem mal, crimes ou virtudes. Não seria possível que Deus, soberanamente justo, castigasse suas criaturas por faltas cujo cometimento não dependera delas, nem que as recompensasse por virtudes de que nenhum mérito teriam.

Demais, tal lei seria a negação da do progresso, porquanto o homem, tudo esperando da sorte, nada tentaria para melhorar a sua posição, visto que não conseguiria ser mais nem menos. Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em consequência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova , expiação  ou missão . Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências  boas ou más, que lhe são inerentes. Aí, porém, acaba a fatalidade, pois da sua vontade depende ceder ou não a essas tendências. Os pormenores dos acontecimentos, esses ficam subordinados às circunstâncias que ele próprio cria pelos seus atos ,
sendo que nessas circunstâncias podem os Espíritos influir pelos pensamentos que sugiram. Há fatalidade, portanto, nos acontecimentos que se apresentam, por serem estes consequência da escolha que o Espírito fez da sua existência de homem. Pode deixar de haver fatalidade no resultado de tais acontecimentos, visto ser possível ao homem, pela sua prudência, modificar-lhes o curso. Nunca há fatalidade nos atos da vida moral. No que concerne à morte é que o homem se acha submetido, em absoluto, à inexorável lei da fatalidade, por isso que não pode escapar à sentença que lhe marca o termo da existência, nem ao gênero de morte que haja de cortar a esta o fio. Segundo a doutrina vulgar, de si mesmo tiraria o homem todos os seus instintos, que, então, proviriam, ou da sua organização física, pela qual nenhuma responsabilidade lhe toca, ou da sua própria natureza, caso em que lícito lhe fora procurar desculpar-se consigo mesmo, dizendo não lhe pertencer a culpa de ser feito como é. Muito mais moral se mostra, indiscutivelmente, a Doutrina Espírita. Ela admite no homem o livre-arbítrio em toda a sua plenitude e, se lhe diz que, praticando o mal, ele cede a uma sugestão estranha e má, em nada lhe diminui a responsabilidade, pois lhe reconhece o poder de resistir, o que evidentemente lhe é muito mais fácil do que lutar contra a sua própria natureza. Assim, de acordo com a Doutrina Espírita, não há arrastamento irresistível: o homem pode sempre cerrar ouvidos à voz oculta que lhe fala no íntimo, induzindoo ao mal, como pode cerrá-los à voz material daquele que lhe fale ostensivamente. Pode-o pela ação da sua vontade, pedindo a Deus a força necessária e reclamando, para tal fim, a assistência dos bons Espíritos. Foi o que Jesus nos ensinou por meio da sublime prece que é a Oração dominical , quando manda que digamos: “Não nos deixes sucumbir à tentação, mas livra-nos do mal.” Essa teoria da causa determinante dos nossos atos ressalta com evidência de todo o ensino que os Espíritos hão dado. Não só é sublime de moralidade, mas também, acrescentaremos, eleva o homem aos seus próprios olhos. Mostra-o livre de subtrair-se a um jugo obsessor, como livre é de fechar sua casa aos importunos. Ele deixa de ser simples máquina, atuando por efeito de uma impulsão independente da sua vontade, para ser um ente racional, que ouve, julga e escolhe livremente de dois conselhos um. Aditemos que, apesar disto, o homem não se acha privado de iniciativa, não deixa de agir por impulso próprio, pois que, em definitivo, ele é apenas um Espírito encarnado que conserva, sob o envoltório corporal, as qualidades e os defeitos que tinha como Espírito. Conseguintemente, as faltas que cometemos têm por fonte primária a imperfeição do nosso próprio Espírito, que ainda não conquistou a superioridade moral que um dia alcançará, mas que, nem por isso, carece de livre-arbítrio. A vida corpórea lhe é dada para se expungir de suas imperfeições, mediante as provas por que passa, imperfeições que, precisamente, o tornam mais fraco e mais acessível às sugestões de outros Espíritos imperfeitos, que delas se aproveitam para tentar fazê-lo sucumbir na luta em que se empenhou. Se dessa luta sai vencedor, ele se eleva; se fracassa, permanece o que era, nem pior, nem melhor. Será uma prova que lhe cumpre recomeçar, podendo suceder que longo tempo gaste nessa alternativa. Quanto mais se depura, tanto mais diminuem os seus pontos fracos e tanto menos acesso oferece aos que procurem
atraí-lo para o mal. Na razão de sua elevação, cresce-lhe a força moral, fazendo que dele se afastem os maus Espíritos. Todos os Espíritos, mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana e, como o nosso mundo é um dos menos adiantados, nele se conta maior número de Espíritos maus do que de bons. Tal a razão por que aí vemos tanta perversidade. Façamos, pois, todos os esforços para a este planeta não voltarmos, após a presente estada, e para merecermos ir repousar em mundo melhor, em um desses mundos privilegiados, onde não nos lembraremos da nossa passagem por aqui, senão como de um exílio temporário.

Os espíritos corroboram tal argumento ao tratarem do Bem e do Mal e da influencia do meio nas ações individuais nas questões 637, 638, 639, 644 e 645 que transcrevemos a seguir:

637. Será culpado o selvagem que, cedendo ao seu instinto, se nutre de carne humana? “Eu disse que o mal depende da vontade. Pois bem! Tanto mais culpado é o homem, quanto melhor sabe o que faz.” As circunstâncias dão relativa gravidade ao bem e ao mal. Muitas vezes, comete o homem faltas, que, nem por serem consequência da posição em que a sociedade o colocou, se tornam menos repreensíveis. Mas, a sua responsabilidade é proporcional aos meios de que ele dispõe para compreender o bem e o mal. Assim, mais culpado é, aos olhos de Deus, o homem instruído que prati- ca uma simples injustiça, do que o selvagem ignorante que se entrega aos seus instintos.

638. Parece, às vezes, que o mal é uma consequência da força das coisas. Tal, por exemplo, a necessidade em que o homem se vê, nalguns casos, de destruir, até mesmo o seu semelhante. Poder-se-á dizer que há, então, infração da lei de Deus?  “Embora necessário, o mal não deixa de ser o mal. Essa necessidade desaparece, entretanto, à medida que a alma se depura, passando de uma a outra existência. Então, mais culpado é o homem, qua quando o pratica, porque melhor o compreende.”

639. Não sucede freqüentemente resultar o mal, que o homem pratica, da posição em que os outros homens o colocam? Quais, nesse caso, os culpados?  “O mal recai sobre quem lhe foi o causador. Nessas condições, aquele que é levado a praticar o mal pela posição em que seus semelhantes o colocam tem menos culpa do que os que, assim procedendo, o ocasionaram. Porque, cada um será punido, não só pelo mal que haja feito, mas
também pelo mal a que tenha dado lugar.”

644. Para certos homens, o meio onde se acham colocados não representa a causa primária de muitos vícios e crimes? “Sim, mas ainda aí há uma prova que o Espírito escolheu, quando em liberdade, levado pelo desejo de expor-se à tentação para ter o mérito da resistência.”

645. Quando o homem se acha, de certo modo, mergulhado na atmosfera do vício, o mal não se lhe torna um arrastamento quase irresistível? “Arrastamento, sim; irresistível, não; porquanto, mesmo dentro da atmosfera do vício, com grandes virtudes às vezes deparas. São Espíritos que tiveram a força de resistir e que, ao mesmo tempo, receberam a missão de exercer boa influência sobre os seus semelhantes.”

IV - Considerações Finais 

O espiritismo claramente define o individuo como responsável por seus atos e ações. Mesmo inserido em seu meio, e sujeito as influencias externas, o espirito tem sempre o livre-arbítrio e o poder de escolher entre praticar o bem ou o mal. Assim também são aplicadas suas penas e gozos futuros – ou seja individualizadas. Isso dito, fica claro que atenuantes devem ser considerados e que as penas são proporcionais as faltas e que não somente as ações são levadas em conta, mas também o contexto, as intenções e situações.  Dessa forma me parece obvio que qualquer posicionamento espirita sobre aprimoramento das leis humanas, aproximando-as da Lei Natural, deve incluir responsabilização individualizada, contextualizada nas condições dos fatos. Portanto, na questão da maioridade penal fica claro que necessitamos de aperfeiçoamentos aqui no Brasil, principalmente para adequar as penas e reparações a gravidade dos fatos. O ECA ao não permitir que a responsabilização seja proporcional ao delito, individualizada e ao aplicar soluções genéricas, restringe e limita uma melhor analise do fatos, contexto e consequências. Privilegiando somente um lado da equação, ou seja, considerando o menor infrator apenas como vitima maior da sociedade, as ações previstas no ECA são ajustadas sob essa perspectiva. O espiritismo, ao elevar o individuo como artífice máximo de sua própria existência, entende que um melhor balanço precisa ser atingido. Para tanto uma possível solução seria incluir no ordenamento jurídico nacional uma adequação que permitisse que o jovem infrator fosse também responsabilizado por seus atos, proporcionalmente a gravidade, consequência e contexto da mesma. Esse vetor, aliado aos vetores de reabilitação e prevenção estariam mais em consonância com os preceitos e moral definidos pelo espiritismo. Nesse debate, não precisaríamos necessariamente de nenhuma redução da idade da maioridade penal, hoje estabelecida aos 18 anos. Porém necessitaríamos
retirar da constituição a inimputabilidade de menores de 18 anos para que os mesmos possam ter reconhecidas sua responsabilidade perante a sociedade. Temos também que redefinir o ECA para que o mesmo permita a sociedade, através do poder judiciário e de suas varas especializadas na criança e na juventude possa melhor definir e aplicar penas reparatórias e proporcionais aos jovens infratores. O exemplo canadense parece bem equilibrado e algo que pode servir de parâmetro a sociedade brasileira. Um ordenamento jurídico baseado no tripé: - Responsabilizar individualmente o jovem por seus atos e que o mesmo possa, no possível, reparar os danos causados as vitimas; - Suporte da sociedade para que o jovem infrator possa ser reabilitado e reinserido na sociedade; - Foco em prevenção, através da valorização da família e educação;

Parece bem em consonância com o ensinado pela doutrina espirita e a meu ver seria um grande avanço na legislação brasileira, permitindo que nossa sociedade continue progredindo e avançando suas leis rumo a lei divina e natural.


Bibliografia/ Websites Consultados:

 Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos; Ed. FEB
 American Juvenile Justice System (https://en.wikipedia.org/wiki/American_juvenile_justice_system)
 Canada, British Columbia - Youth Justice Section of JusticeBC (http://www.justicebc.ca/en/cjis/youth/)
 Maioridade penal   (https://pt.wikipedia.org/wiki/Maioridade_penal#cite_note-71)
 Xavier, Ademir - Redução da Maioridade Penal e Espiritismo em Blog Era do Espírito  http://eradoespirito.blogspot.com.br/2015/04/reducao-da-maioridade-penale.html
 ONU, Comitê sobre os Direitos da Criança (25/4/2007). Children’s rights in juvenile justice. GENERAL COMMENT No. 10 (2007) http://www2.ohchr.org/english/bodies/crc/docs/CRC.C.GC.10.pdf
 Children in the US Justice System Amnesty International USA). (http://www.amnestyusa.org/news?id=D94FCE82406321E18025690000692 DCA&lang=e)
 Estatuto da Criança e do Adolescente; http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm
 A maioridade penal na visão da AJE – Associação Jurídico-Espírita do Brasil; Publicado por Rádio Boa Nova  http://radioboanova.com.br/jornal-nova-era/maioridade-penal-na-visao-daaje-associacao-juridico-espirita-brasil/

 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

A importância do Jornal Espírita Abertura – 31 anos influenciando o desenvolvimento do Espiritismo por Alexandre Cardia Machado


A importância do Abertura – 31 anos influenciando o desenvolvimento do Espiritismo


Se voltarmos no tempo, há 31 anos atrás, no mês de abril de 1987,  este jornal foi fundado com o objetivo de abrir um canal de comunicação para ideias espíritas não conservadoras, que tivessem como base o entendimento do Espiritismo como ciência, filosofia com consequências morias e não religioso.


Dedicou-se a criação e divulgação de eventos, coberturas jornalísiticas enfim uma série de ações que  hoje foram quase totalmente substituídas pelas midias eletrônicas, mas rápidas e que permitem a transmissão ao vivo e em cores.  Fotos videos ou transmissões ao vivo estão muito baratas, ou até mesmo sem custo algum.

Qual o nosso papel então nos dias atuais?

O que nos cabe é tratarmos os problemas socias, políticos e espirituais sob a ótica espírita, como se fossemos uma revista, com a reflexão que só o afastamento do fato diário permite.

Este tem sido o nosso foco. Contamos com articulistas que tem em comum o amor pelo Espiritismo moderno. Cada qual trás consigo visões de mundo um pouco distintas, o que permite uma pluralidade maior ao vaículo de comunicação.

Estamos na direção deste jornal há 8 anos, já produzimos 88 edições, após a desencarnação de Jaci Régis, ou 25% do total de edições do Abertura. Buscamos nos reinventar o tempo todo, a razão disto é que quase nada funciona do mesmo jeito que era em 1987.

Para dar uma ideia de como eram as coisas naquele tempo, eu, gaúcho e torcedor do Inter, para acompanhar o campeonato gaúcho, preciava subir no alto da Ilha Porchat, em São Vicente, para sintonizar a Rádio Gaúcha em ondas curtas, algo que parece, ao olharmos para trás, coisa do cinema em preto e branco.

Cláudia e eu casamos em 1985 e somente em 1989 conseguimos uma linha telefônica, isto porque antes mesmo de casarmos Cláudia já havia se inscrito na Telesp, para comprar uma linha, alguém hoje esperaria 4 anos por uma linha de telefone?

A comunicação entre amigos e colaboradores deste jornal que não viviam em Santos, era feita via carta. Estávamos vivendo o momento das diretas já. Na Europa a Alemanha estava dividida, desde o fim da segunda Guerra Mundial em Alemanha Ocidental e Oriental. Não havia ainda caído o muro de Berlim, cidade que estava dividida por um muro de 110 km de comprimento, acessada somente por via aérea, pois estava, o seu lado ocidental encrustrado em meio a Alemanha Oriental comunista. O mundo seguia em meio à Guerra Fria.

No campo da ciência espírita apostávamos nos avanços da psicobiofísica, por trás da cortina de Ferro, o que se demanstrou uma total ilusão. Os soviéticos faziam muita propaganda, mas de fato não estavam encontrando as respostas que buscavam, ou lhes interessavam.Quase 30 anos depois da queda a União Soviética, nada de prático surgiu, ou se apresentou neste campo do conhecimento.
Em 1988 tivemos a nossa atual constituição promulgada e agora, 30 anos passados, alguns de seus princípios ainda não foram regulamentados, mas muitos sim, temos o SUS – Sitema Único de Saúde, FGTS para empregados domésticos, estado laico, liberdade de crença e da imprensa, dentre muitos outros avanços.

O ICKS em 2017 apresentou um trabalho no 15° SBPE – Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita: Somos Progressistas? Que já divulgamos neste jornal, demonstrou como a visão espírita, ao menos em nosso grupo de ideal avançou, juntamente com o conjunto da sociedade emcampos de interesse como os direitos das mulheres, homossexuais, liberdade de gênero e muitos outros.

A sociedade está em constante mudanças, sempre haverão vanguardistas, excessos, reações, mas é o conjunto deste movimento que altera a legislação e por consequência, novos entendimentos socias são alcançados.

Como cada indivíduo tem uma história de vida, um trajeto familiar, cultural e também reencarnatório, teremos portanto pensamentos e ações distintas. Esta é a beleza da imortalidade dinâmica, conflitiva, litigante mas também transformadora.


sexta-feira, 2 de março de 2018

O Espiritismo Que Queremos – por Carol Régis – XV SBPE


“Para que César possa ter o Espiritismo que eu sempre quis: uma luz guia nos momentos de dor; uma fé nem sempre inabalável, mas uma fé que norteie eticamente sua jornada”


O Espiritismo Que Queremos – Carol Régis – XV SBPE

ü  Inquietação: Estado de inquieto, do que se acha em agitação. Estado de preocupação; desassossego que impede o repouso, a paz, a tranquilidade; nervosismo.

Foi uma constante inquietação que norteou as bases para o surgimento deste trabalho. Um sentimento não recente, fruto de vivências, observações, diálogos, leituras, alimentado por um olhar sobre o Espiritismo pratico diário, as casas, os Espíritas, as relações, as instituições. Uma observação filosófica sobre o caminho que estamos trilhando, com um amedrontado vislumbre do caminho que temos pela frente. Qual o foco do Espiritismo atual? E, principalmente, qual foco ele deveria ter daqui pra frente?

As respostas a esses questionamentos passam por inúmeros pontos: a Doutrina em si, sua tão necessária atualização, seus pontos imutáveis (ou não), a comunicação usada para transmiti-la, o comportamento – em grupo e individual – daqueles que escolheram o Espiritismo como filosofia a ser seguida, o planejamento para as próximas décadas e o trabalho com as próximas gerações. Mas passa, principalmente, por um ajustar de lentes, uma definição de foco sobre um tema imediato, urgente e aparentemente generalizada: a retomada da humanização do Espiritismo, colocar o Espírito encarnado como personagem principal da prática doutrinaria.

Este artigo foi publicado no Jornal Abertura de março de 2018: baixe aqui!



Obviamente, um trabalho hercúleo, não passível de ser esgotado em um trabalho, por um único pensador e, mesmo se possível fosse, não seria o ideal.

Desta forma, o presente trabalho vem mais como um compartilhar de inquietações, uma transmissão de sentimentos aos colegas de ideal, para que possamos, caso haja interesse, refletir em conjunto sobre o que está acontecendo na prática em nosso dia a dia como espíritas, que direcionamentos temos dado em nossas casas, como dirigentes ou não, vislumbrando o bem estar e a felicidade daqueles que nos procuram para algum fim. Qual o grau de importância real temos dado à pessoa que ali está sentada em busca de algo?

Uma movimentação que deve ser feita em duas frentes: a particular, solitária, do individuo com ele mesmo e sua percepção honesta de falhas e oportunidades de melhora. Mas principalmente coletiva, realinhando o que alguns indivíduos, intencionalmente ou não, possam ter desviado por motivos diversos ou pelo simples abandonar do exercício frequente de autorreavaliação, e que acabaram, por influência, desviando o foco da casa em que frequentam. 

O trabalho é, portanto, um convite à sincera reflexão sobre o objeto central do Espiritismo: o Espírito. Não um olhar distante e filosófico sobre a teoria do Ser. Mas um olhar para o lado, com genuíno interesse ao companheiro de jornada que frequenta a mesma casa ha tantos anos. Qual seu sobrenome, que situações o trouxe à casa, quantos filhos tem, de que precisa realmente? Que Espíritas somos e que Espíritas queremos ser? Estamos, na prática, vivenciando aquilo que estudamos há tantos anos? Quando uma situação surge, quando um companheiro necessita realmente, quando a vida nos põe à prova, embasamos nossa decisão na ética espírita de verdade? Fica a singela pretensão da contribuição compartilhada, no sentido de instigar assuntos que todos já sabemos e temos dentro de nós, como um falar sobre o óbvio que precisa ser dito. Propor uma retomada, uma revisita a aspectos do passado, algo vintage, sobre posturas, práticas e objetivos, nostalgicamente apontados como minguantes no Espiritismo moderno. E esses apontamentos precisam ser ouvidos, levados em conta, porque são verbalizações de sentimentos, vindos daqueles que mais importam: Os Espíritas.


ü  Atualizar: tornar(-se) atual, adequar(-se) aos dias de hoje; modernizar(-se)."a. o ensino de línguas". Promover a atualização cultural, pedagógica etc. (de alguém ou de si próprio).

Impossível imaginar o Espiritismo do futuro sem pensar em adequá-lo aos dias de hoje. O tema Atualização já vem sendo discutido ha décadas e ele mesmo já precisa ser modernizado. Com exceção de alguns trabalhos filosóficos apresentados em encontros, ou medidas práticas alteradas nos centros espíritas (emissão energética, não obrigatoriedade de água fluídica e preces, mudanças de nomenclaturas e adequações de alguns temas e grades de palestras), pouco se produziu e incorporou efetivamente da agenda elaborada para atualizar o Espiritismo nos meios laicos e livre pensadores.

A começar pela atualização da linguagem. Não houve nenhuma movimentação relevante no sentido mais básico de atualização da linguagem, do escopo teórico do Espiritismo, dos escritos de Kardec e contemporâneos do fundador. Ainda são as mesmas traduções, a mesma literatura que passa de gerações em gerações, com palavras incompreensíveis ao jovem de hoje. As traduções, por assim dizer, são tentativas individuais, oralmente transmitidas para um melhor entendimento do grupo. Nada formal, nada por escrito. E os poucos exemplares literários existentes não alcançaram expressão na divulgação a ponto de fazerem alguma diferença pratica nas bibliotecas dos centros, mesmo porque, são adaptações de forma muito mais do que de linguagem.

Faz-se necessário traduzir, no sentido literal da palavra, o que Kardec escreveu. Não é viável esperar de um adolescente de 14 anos, em 2017, a leitura prazerosa e compreensível do Livro dos Espíritos, 1857, de qualquer uma das editoras, esperando que ele adote aquilo como sua base ética. Não sozinho, não sem alguém para nortear, para transformar aquele conhecimento em algo compatível com a realidade deste jovem.  E aqui não cabe mais a visão ultraconservadora de não mexer no que Kardec fez; não reescrever as obras básicas. Obviamente, ninguém irá reescrever com linguagem atual O Livro dos Espíritos e colocar Allan Kardec como autor da obra. Mas podemos escrever um Livro dos Espíritos Revisitado e deixar bem claro o exercício de transcrever, com linguagem moderna o que foi dito por Kardec, há dois séculos.

Postergar ou minimizar essa atualização de linguagem das obras é cimentar o legado de Kardec, imortalizando-o enclausurado em uma bibliografia incompreensível dentro de muito pouco tempo. Porque, em breve, os dirigentes e tutores de reuniões, já serão todos de uma nova geração e terão que transmitir a novos freqüentadores – nascidos na era digital – que “a causa primária é, conseguintemente, uma inteligência superior à Humanidade” e que “Quaisquer que sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto maior há de ser a causa primária. Aquela inteligência superior é que é a causa primária de todas as coisas, seja qual for o nome que lhe dêem.”

Saberão passar isso aos novos freqüentadores como: “Não importa o nome que se dê a quem criou todas as coisas, ele sempre será a inteligência superior. Tudo o que for feito pela Humanidade, por mais brilhante que seja, teve seu inicio naquela inteligência inicial, criadora de tudo”? Tradução também pode ser feita de uma língua para a mesma língua, dado que a linguagem é perecível, orgânica, acompanha as mudanças sociais.

Uma vez encaminhada a questão da linguagem e a verdadeira compreensão do conteúdo doutrinário pelas as próximas gerações, podemos avançar para o temário contemporâneo. Questões pertinentes à sexualidade, alteridade, novas filosofias e religiões, genética e tantas outras que ainda irão surgir, precisam ser incorporadas como parte do conhecimento Espírita. Seja sob a forma de livros, PDFs, vídeos, perfis em redes sociais, o que for. Não há mais como fugir ou tratar apenas como um tema extraordinário em reuniões especiais. Porque vidas, Espiritos encarnados, dependem do posicionamento dos demais para poder seguir sua jornada com menos sofrimento. Isso irá desenvolver a produção de conhecimento novo nos centros, a participação efetiva de novos colaboradores que irão fortalecer o futuro das casas, criando vínculos afetivos e ideológicos com a comunidade, irá gerar a real atualização de conteúdo renovado e, principalmente, solidificará a postura esperada do estudioso da filosofia Espírita, como ser humano social.

Na prática, podem ser criados temários anuais seguidos pelas casas filiadas às mesmas Instituições, não como grades obrigatórias de estudos, mas como norte e incentivo à produção renovada de conteúdos, em diferentes círculos, podendo ser unificada e compilada posteriormente como um posicionamento oficial, ainda que transitório e momentâneo, sobre determinado assunto. E isso, não para veicular em imprensa, gerar status em rankings sociais; mas para darmos uma base moral e filosófica orientadora daqueles que seguem a mesma linha pensadora do Espiritismo. A falta de um guia orientador mínimo de temas a estudar ou atualizar, gera um sentimento de não pertencimento pratico, insegurança quanto ao que estudar e sob quais argumentos, quais formas agir e vivenciar a doutrina no dia a dia.

Atualizar, antes de tudo, é buscar a compreensão geral, para que todos estejam lado a lado, enfrentando os desafios diários das casas Espíritas, balizando comportamentos práticos de cada um e da coletividade, de acordo com os fundamentos comuns às organizações escolhidas por afinidade teórica. 

ü  Instituição: estrutura material e humana que serve à realização de ações de interesse social ou coletivo; organização. Cada um dos costumes ou estruturas sociais estabelecidas por lei ou consuetudinariamente que vigoram num determinado Estado ou povo.

É totalmente esperado que as pessoas busquem frequentar círculos onde encontrem afinidades morais, políticas, espirituais, filosóficas e, por sua vez, que essa comunidade também sinta a necessidade de unir-se a outras, que tenham pensamentos semelhantes, interesses coletivos. E assim começam a institucionalizarem-se. Até aí, seria ótimo, não fosse a premissa de que, invariavelmente, o comportamento coletivo distingue-se do comportamento de cada individuo isoladamente. E com a Institucionalização, vêm os cargos, as políticas internas e externas, as responsabilidades, a figura pública e toda uma gama de situações que põe a prova a prática genuína das teorias Espíritas, como uma filosofia de amor e respeito ao próximo, coletiva.

Há muito vem sido debatida a necessidade da complexidade de determinadas Instituições, que se impõem organogramas e cronogramas tão rígidos, comparáveis a uma verdadeira corporação multinacional. São eventos, planilhas, metas, cronogramas a cumprir, folhas de pagamento, orçamentos, diretores e secretários e tantos outros cargos que, muitas vezes, a comunidade em si vê-se quase toda ocupando algum titulo, com mais mandachuvas do que seguidores. Sem contar as contas a pagar: do lanche, da reforma, da rifa, do livro do autor da casa a ser publicado, das taxas municipais... tudo isso em um cenário de crise econômica e desemprego.

Mas, de tudo, o que vem mais pesando sobre a questão da Institucionalização é que, por muitas vezes, ela tomou o lugar principal nos objetivos das casas e associações. E nesse cenário, pululam brigas por poder, conchavos para derrubar esse ou aquele diretor, imposições a determinados frequentadores, vetos de assuntos e participações, presenças obrigatórias em eventos e tantas outras ingerências costumeiras. E o reflexo disso, é a alteração da percepção do público quanto à relevância das casas Espíritas e, consequentemente, uma evasão por motivos que, antes, não eram os que estávamos acostumados a lidar, como falta de tempo ou afinidade com o pensamento da casa.
Recentemente, a morte de um frequentador nas dependências da FEESP (ver anexo 01) causou comoção não pelo fato em si, mas pela forma supostamente fria e negligente dos gestores da casa para com os familiares, que levaram dois dias para encontrar e liberar o corpo. Foi relatado todo tipo de empecilho: os familiares não puderam entrar, negaram acesso as câmeras de vigilância, não permitiram o resgate imediato do corpo devido a um evento que estava ocorrendo na casa. A FEESP, em nota, disse que todo auxilio foi prestado à família, que a policia irá investigar a morte e que o nome de Claudio já estava no grupo de orações da casa (ver anexo 05).
A jornalista Dora Incontri, escreveu dois textos abordando o assunto no blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espirita, e foi recorde de leitura, compartilhamento e comentários (ver anexos 02, 03 e 04). Sentiu na pele a austeridade de muitos, mas também testemunhou relatos inimagináveis de situações ocorridas dentro das casas: desrespeito, boicote, menosprezo, por motivos diversos. “Esse episódio não me surpreende porque há muito que a FEESP é uma instituição onde a briga por cargos e poder já levou até a polícia lá para dentro, onde a impessoalidade é a tônica da uma instituição que cresceu tanto que perdeu o  caráter de acolhimento humano – o que se revela no extremo de uma situação como essa, que aqui comentamos.  O problema é que a desumanização de instituições espíritas tem sido um sintoma muito grave de parte do movimento”, relata Dora.
E Dora completa: “(...) movimentos religiosos e novas formas de moralidade, quando nascem, brotam da fonte espiritual legítima, com seus iniciadores, animados do élan evolutivo. Mas depois, com o tempo, se cristalizam, se institucionalizam e portanto, vão perdendo vida e impulso, vivência e amor.(...) Então, já dá para concluir que nós, espíritas, estamos no mesmo caminho: institucionalização (quando falo esse termo, estou me referindo à uma situação em que regras, burocracias, cargos, dinheiro, poder, valem mais do que o ser humano), perda de fraternidade real, esfriamento das relações humanas”.
À época do ocorrido, a publicação Crítica Espírita (edição 31/2017) veiculou uma matéria de capa com o psicólogo Franklin Félix sobre a questão da evasão dos centros espíritas por motivos sociais diversos. O editorial também tratou, sem amarras, do assunto (ver anexo 06): “Para quem costuma assumir tarefas ou se envolver em atividades no Centro Espírita, é muito comum tomar conhecimento de, ou mesmo vivenciar, processos de intolerância, de perseguição, de expulsão e de maus-tratos causados por outros trabalhadores no Centro Espírita. (...) De qualquer modo, se um Grupo Espírita é uma proposta de sociabilidade espiritualizada, regenerada, um local para desenvolvermos comportamentos e valores de honestidade , tolerância, empatia, de superar o “ser velho” em busca do “ser novo”, de vencer preconceitos e imperfeições arraigadas, então parece que alguma coisa está muito errada diante do fato de ser tão comum esses casos (...)”.

Diante da discussão, que já possui caráter aberto e nacional, faz-se necessário repensar na real necessidade da Institucionalização, nos moldes conhecidos, das entidades Espíritas. Por questões legais, enquanto uma casa é um local público, para recepção de pessoas, com um CNPJ válido, é necessário manter uma estrutura mínima de gestão para garantir o cumprimento das exigências formais. E, mais, para garantir o mínimo funcionamento de gestão de patrimônio, pessoas, atividades. Mas o foco deve ser o “mínimo”, não a “estrutura”. E, ainda mais importante, as pessoas que ocupam tais cargos devem ter a certeza, e serem sempre lembradas disso caso suas posturas demonstrem algo oposto, de que o cargo é meramente funcional, que deve ser visto como um trabalho apenas, separadamente do foco principal do centro: atender aos freqüentadores e realizar suas obras – assistenciais ou de estudo.


ü  Desumanização: Ato de desumanizar, perda de determinadas qualidades morais do ser humano, tornar ou torna-se desumano, tirar ou perder o caráter humano. Tratar o outro como objeto, não levando em conta suas emoções é uma atitude de desumanização.

A necessidade de trazer volta o objetivo essencial das casas Espíritas – o frequentador – ganha notoriedade ainda maior frente à questão da demasiada institucionalização, porque leva a uma postura fria e desumana no dia a dia das atividades. Pessoas são tratadas como parte das atividades, uma rotina a ser seguida, encaminhada, curada ou o que for. E isso não é crítica apenas ao movimento laico, ou ao religioso tradicional, mas uma percepção ampla, a todos que foram engolidos por essa roda viva contemporânea.
Em seu artigo, Dora cita um depoimento que recebeu sobre o tema: ““Em 1994, dezembro, estava com minha filha num hospital de SP. Ela havia feito uma cirurgia cardíaca e estava em coma. Depois da entrevista com médicos que a desenganaram, saí sem rumo; triste e sozinha. Havia levado o endereço de um centro espírita de uma médium famosa por seus romances. Entrei, sentei e comecei a chorar. Umas mulheres estavam arrumando o centro. Nem me olharam. Depois de um tempinho, sem se aproximarem, disseram o dia do passe. Enxuguei as lágrimas e fui embora. Precisava de apoio, aconchego, como sempre encontrei no centro que frequentava. As paredes do tal centro cobertas de reportagens de revistas com fotos da médium.”
A caminhada do movimento ao qual pertencemos, com foco na Filosofia e no ser Laico, parece ter distanciado o lado mais Humano do Espiritismo, subjetivo, atencioso aos aspectos mais cotidianos e fraternos, devido às nossas metas, agendas e congressos a cumprir. Encontros esses, cada vez mais distantes do público de interesse, seja por barreiras geográficas, econômicas ou temáticas, refletindo diretamente na quantidade cada vez mais escassa de trabalhadores realmente comprometidos e engajados, causando a incerteza sobre a perenidade Doutrinária.
E esse tornar humano, por mais redundante que seja, dado o caráter da própria doutrina, é algo que vem sendo repensado, solicitado e buscado em inúmeros grupos. Uma espécie de onda nostálgica e necessária em diferentes núcleos Espíritas, buscando atividades e atitudes de um passado recente como promoções sociais, reuniões de integrações, resgates de frequentadores e gerações passadas gerando a interação com os frequentadores atuais.Há um certo vazio, uma falta de algo que não se sabe explicar, mas que se expressa pela saudade de ter mais contato, maior interação social, mais calor humano. Talvez o longo tempo buscando distanciar-se da religião, embrenhando na busca filosófica da Doutrina, tenha custado algum afastamento do olhar ao próximo, no sentido de acolhimento.

            E, percebendo isso a tempo, é possível traçar, ou retraçar, os caminhos pelos quais iremos percorrer o Espiritismo do futuro. E nesse caminho não deve ser permitido preconceito de qualquer tipo, indiferença, embates pessoais acerca de assuntos filosóficos (Espíritas, políticos ou quaisquer outros). A fraternidade deve nortear os rumos do Espiritismo que queremos para nossos filhos e netos.

E esse legado passa, necessariamente, pela postura esperada do novo Espírita, ainda que ele já seja Espírita há décadas. Uma reforma íntima genuína, sem a pieguice geralmente empregada nesse termo. Um olhar para dentro de forma a mudar aquilo que reconhecemos não estar bom, passível de aprimoramento, buscando a felicidade no sentido de estar bem consigo, mas também nas relações interpessoais. Ninguém é feliz sozinho, então estar no mundo de forma consciente é a maneira mais plena de caminhar na evolução. E isso exige desapegar de velhos hábitos, comportamentos, padrões mentais. Romper o tradicional em busca de agregar o novo para ser feliz, livre de culpa, de julgamentos.
           
O olhar caridoso tanto para quem frequenta a casa, buscando o genuíno interesse em seus assuntos e dilemas, quanto para a comunidade ao redor e os tantos problemas sociais enfrentados é uma boa maneira de começar. E que os esforços sejam não apenas concentrados nas casas assistenciais ligadas diretamente ao centro frequentado, mas que haja integração e cooperação entre as diversas casas e suas necessidades sazonais, gerando um auxílio mútuo, uma rede de ajuda entre os frequentadores de diferentes casas, sem protecionismo ou preferência a esta ou aquela casa por estar ligada a este ou aquele centro.

E a partir dessa mudança interna, começar a exteriorizar, praticar, trazer pra vida real o tanto que se estuda na doutrina. Deixar de ser apenas uma teoria filosófica, para ser uma atividade diária, em cada atitude, cada decisão, cada diálogo. Vivenciar os princípios da doutrina a cada chamamento da vida, praticando a ética que escolhemos embasar nossa encarnação.

ü  Prática: ato ou efeito de praticar. O que é real, não é teórico; realidade.

Uma vez, uma querida colega de uma das casas da região, questionou-me durante uma palestra, porque não seguíamos um cronograma unificado de plano de estudo, sugerido pela Instituição a que pertencíamos. Alguns ouvintes, discordaram de imediato, talvez ranço de uma época onde os assuntos eram pautados e obrigatórios. Mas, ouvindo os argumentos da colega, percebi que poderia ser um bom ponto de partida para as mudanças práticas nas grades de estudo. Para ela, fazia falta algo norteador, em comum a todas as casas, uma produção de conhecimento que pudesse ser feita em conjunto, de forma organizada. Obviamente, não seria algo mandatório, mas sugerido para ser incluso dentro da grade de estudos das casas e, quem sabe, após um ano de estudo, produzir um documento unificando os pontos de vista, trazendo conclusões.
Outro ponto que precisa ser ponderado nas decisões estratégicas das casas é o alinhamento da transmissão do conteúdo gerado à nova realidade e às novas tecnologias. Não é mais compatível que continuemos utilizando somente o formato palestra tradicional para difundir nossas ideias, nem apenas seminários presenciais para produzir novos conteúdos. Existem tantas outras formas de divulgação de conteúdo de forma dinâmica, on line, à distância. E essas precisam ser incorporadas para termos um mínimo de horizonte a vislumbrar num futuro próximo.
Alguns cases de sucesso podem ser apresentados para ilustrar como a nova geração de espíritas já está se adaptando aos novos meios de produção de conteúdo. O videoblog/canal no Youtube Meninas Espíritas é um exemplo e já conta com mais de 13.000 inscritos. Feito por jovens e tendo Carol Oliveira como principal apresentadora dos temas, os vídeos abordam diversos assuntos da atualidade ou basilares do corpo Doutrinário de forma divertida, com linguagem jovem e embasamento moderno. Suicidio, reencarnação, homossexualidade, mediunidade e tantos outros já contam com mais de 385.800 visualizações desde a sua criação, em 2016. O perfil no Facebook, conta com mais de 38.000 seguidores.  

 

O WebCurso de Espiritismo, lançado pelo CPDoc, também é uma tentativa feliz em inovar nos meios de produção de conteúdo. À exemplo dos cursos à distância (EADs) que já são amplamente difundidos nos meios acadêmicos, os WebCursos Espiritas visam reunir pessoas de diferentes locais, com flexibilidade de horário de estudo. Os módulos abordam os princípios básicos: Deus, Espírito e Matéria; Reencarnação; Mediunidade; Ética e Moral; O que é Espiritismo. Em suas 8 edições, já contou com mais de 700 inscritos.



Aproveitando a familiaridade com o ambiente on line, é urgente que as organizações de encontros presenciais incluam a transmissão ao vivo como parte da programação. A diversidade de ferramentas, inclusive gratuitas, disponibilizadas na Internet é enorme e precisamos incorporar como parte de congressos, simpósios, reuniões e festas das casas. Para promover a inclusão daqueles que, por algum motivo, não puderam comparecer presencialmente: dinheiro, distância, falta de tempo, interesse em parte dos temas apresentados etc.  Isso oferece, no mínimo, a certeza de que a presença – seja pessoalmente ou on line – de cada um dos participantes é fundamental e importante, valiosa como uma possibilidade de contribuição.

Atualizando os modelos de geração de conteúdo, cria-se maior chance de
atrair e reter a participação de jovens para o Espiritismo, questão urgente para a continuação da obra Kardecista. Os centros estão envelhecendo: os dirigentes invariavelmente são fundadores ou filhos dos fundadores das casas e os jovens, quando estão na casa, ficam restritos a reuniões especificas para este público, com pouca ou nenhuma participação efetiva nas diretrizes, estratégias e produção e divulgação de conteúdo relevante. O resultado é um cenário ameaçador para um futuro próximo já que a retenção de novos pensadores não é uma questão prioritária no planejamento dos centros. E a origem do problema pode ser justamente a não formação de laços afetivos e significativos desse jovem desde a infância para com o centro, as pessoas, a Doutrina em si. Se, há décadas atrás, as reuniões contavam com 50 ou 60 jovens nas mocidades, a realidade hoje é bem diferente.

            Desta forma, é responsabilidade dos pais e avôs que percebem a relevância da presença e participação nos ciclos de estudo, buscarem alternativas, atrativos e, principalmente, incentivos para fazerem com que o Espiritismo seja parte fundamental da educação e formação dos jovens, incluindo na rotina da família o espaço para o estudo, assim como o Inglês, a Natação, o Escotismo e tantas outras atividades já “obrigatórias” na infância. Mas, principalmente, abrirem-se ao novo: internet, blog, vlog, canais de vídeos, projeções, projetos interdisciplinares. Enfim, todas as novas ferramentas, velocidades e pontos de vista que vêm com essas novas gerações.

            De tudo, o mais importante, urgente e necessário é a revisão da postura Espírita em relação aos próprios Espíritas. É valorizar o conhecimento humano que cada freqüentador traz em si e que pode ser fonte de muito aprendizado, colaboração, crescimento. É preciso que haja um esforço consciente de todos, encabeçados pelos dirigentes das casas, para se prestar atenção aos que lá estão sentados aguardando uma oportunidade de resolver questões internas e partir para o trabalho. Retomar sorrisos, historias, interesse genuíno, com afeto, respeito, importância.

            Falar de Humanização do Espiritismo nem deveria estar na pauta de trabalhos, palestras, artigos. É uma redundância que corrói, machuca os companheiros de jornada que buscaram nos centros um pedido de socorro, de crescimento, de liberdade. E, infelizmente, muito se tem errado ao tapar olhos e ouvidos a essas solicitações. Perde não apenas a pessoa em si, como perdem as casas, a Doutrina. E se a vigília for constante, atenta, notar-se-á tantos e tantos episódios que acontecem todos os dias ao nosso lado: um olhar desatento, um comentário maldoso, uma conversa desnecessária, uma decisão unilateral, uma perseguição política. E a troco de que? Certa vez, um dirigente espiritual disse irônico: “não entendo certas coisas, afinal, o salário de presidente do Centro é altíssimo não é mesmo?”

            Que a inquietação possa gerar atualização das instituições para humanizar a prática de uma filosofia de vida cuja ética não permite o contrario. Que sejamos Espíritas de alma, correndo no sangue, diariamente a cada decisão, a cada trato com o outro. Que os livros não morram dentro dos Espíritas como um pesado fardo de conhecimento não aplicado porque a correria da era moderna tomou espaço da fé, da espiritualização, da moral. Que tenhamos humildade de rever conceitos, coragem de cobrar de si e dos outros uma postura fiel ao que oramos à platéias lotadas. E que tenhamos amor ao próximo, a si mesmos, à Doutrina que escolhemos.

            O caráter e a inteligência podem impressionar as pessoas, mas é o amor que damos a alguém, que nos fazem brilhantes e inesquecíveis em sua vida. Porque o amor, torna as pessoas indispensáveis. Assim, se você quiser ascender um sorriso, iluminar um coração ou acordar a esperança em alguém, precisa se lembrar de uma coisa: as pessoas se alegram com sua inteligência, apreciam o seu caráter, mas precisam mesmo é do seu amor” – autor desconhecido.


Anexo 1
Matéria publicada no site globo.com em 11/08/2017

Mal súbito é a principal hipótese investigada pela Polícia Civil para explicar a morte do engenheiro desaparecido que foi encontrado morto no banheiro da Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp), centro da capital paulista. Claudio Arouca tinha sumido no dia 13 de julho e só acabou achado dois dias depois por um funcionário da limpeza do prédio.
Além de morte natural, são investigadas outras hipóteses para esclarecer o caso: suicídio ou homicídio. Mas essas duas últimas são mais remotas porque o G1 apurou que a investigação obteve informações preliminares da perícia de que a vítima não tinha marcas de violência pelo corpo.
Além disso, o homem de 49 anos estava com sobrepeso e teria histórico familiar de problemas cardíacos. Seria mais plausível, portanto, que pudesse ter tido um infarto, por exemplo. Mas somente o laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) poderá confirmar essa possibilidade. O documento ainda não ficou pronto. O resultado deve sair em até dois meses.
Porém, para Claudio ser enterrado no cemitério de Embus das Artes, na Grande São Paulo, o atestado de óbito foi expedido à família com a informação ‘causa da morte a esclarecer’.
Por conta disso, quase o um mês depois o 1º Distrito Policial (DP), na Sé, ainda investiga o caso como ‘morte suspeita’. Os policiais dependem do laudo com a causa da morte para poder encerrar a investigação e arquivá-la.
Enquanto isso, a polícia analisa imagens de câmeras de segurança que mostram o momento que Claudio chegou de carro ao estacionamento da Federação Espírita. Também teriam filmagens gravadas com a entrada dele na sede da entidade.

Críticas
O veículo usado pelo engenheiro seria da namorada dele, uma mulher que frequentaria a Feesp. Claudio teria se convertido recentemente ao espiritismo e iria ao local fazer tratamento espiritual. A reportagem não conseguiu localizar a namorada do engenheiro para comentar o assunto nesta sexta-feira (11). Por telefone, a ex-mulher de Claudio falou ao G1 que a família está apreensiva sem saber o que aconteceu. "Os exames que foram feitos na hora no IML [Instituto Médico Legal] não foram conclusivos", disse a dentista Adriana Colombo, de 50 anos. A dentista também criticou a Federação Espírita porque, segundo ela, a entidade dificultou o acesso da família a informações sobre o caso. "A postura da federação aumentou nosso sofrimento e dor", disse Adriana.
Funcionários da Federação disseram à reportagem que não têm suspeitas do que pode ter acontecido com Claudio. O G1 ainda procurou a Feesp para comentar o assunto. Até a última atualização desta matéria, os responsáveis não haviam retornado o contato. Mas em nota publicada em seu site, a entidade informa que tomou "todas as providências possíveis junto às autoridades e também para localizar os familiares, que foram acolhidos e apoiados no 8º andar da FEESP. Adriana teve três filhos com Claudio, de quem se separou. A dentista falou ainda que o ex-marido se dividia entre São Paulo, onde administrava os imóveis da família, e Eunápolis, na Bahia, onde morava.
"A gente não sabe de nada, mas quero que tenha sido natural [a morte], porque nos daria mais conforto", afirmou a ex-mulher de Claudio. "Disseram que os exames que irão apontar a causa da morte demoram dois meses para ficarem prontos."
Federação Espírita
Em um comunicado postado em seu site, a Federação informa que "a Polícia Civil continua realizando investigações sobre o ocorrido e o Instituto Médico Legal da Superintendência da Polícia Científica está periciando o material colhido, para fornecer o laudo médico legal."
A Feesp diz ainda que "assim que recebermos esses laudos comunicaremos a todos os resultados e os esclarecimentos."


ANEXO 2
Desumanização no movimento espírita
Publicado em 23 de julho de 2017 por Dora Incontri
https://blogabpe.org
O assunto é pesado, mas não podemos nos omitir em tecer algumas reflexões em torno de um episódio ocorrido dias atrás na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Chequei a informação em diversas fontes, antes escrever esse texto. Resumindo, para quem não soube ou não leu nas redes sociais, um companheiro espírita, Claudio Arouca, ficou desaparecido mais de 48 horas e a última notícia que se tinha dele era de que ele estava na FEESP. A família, depois de algumas horas do desaparecimento, desesperada, procurou a instituição e, pelo que narraram, não foi acolhida, não lhe foram fornecidas as gravações das câmeras e ninguém procurou pelo desaparecido. Apenas 48 horas depois, receberam da própria FEESP um telefonema dizendo que o corpo tinha sido encontrado no banheiro. Mas nem assim, foram melhor tratados. Não puderam ter acesso imediato ao familiar que havia morrido de um enfarte, porque estava havendo uma festa na Federação.
Só depois de muitas horas, o corpo já em putrefação, de que não puderam fazer nem velório, foi retirado. Além de todo surrealismo da situação, ainda foram destratados pela diretoria.
Esse episódio não me surpreende porque há muito que a FEESP é uma instituição onde a briga por cargos e poder já levou até a polícia lá para dentro, onde a impessoalidade é a tônica da uma instituição que cresceu tanto que perdeu  o caráter de acolhimento humano – o que se revela no extremo de uma situação como essa, que aqui comentamos.  O problema é que a desumanização de instituições espíritas tem sido um sintoma muito grave de parte do movimento.
Sem dúvida que esse movimento reflete um cenário do mundo pós-moderno, hipercapitalista, em que o ser humano está cada vez mais perdendo as referências de ser humano. Justamente na semana desse acontecido, havia lido uma reportagem pavorosa no El País, em que se conta de pessoas que têm sido encontradas mortas há 3, 4, 5 anos na Espanha, mumificadas pelo clima seco e de que ninguém deu pela falta delas. Nenhum contato na vizinhança, pessoas sem familiares, sozinhas, solitárias, abandonadas.
Há algo mais estarrecedoramente desumano e triste do que essa morte sem nenhum afeto, sem nenhuma presença, sem nenhum cuidado? E, de repente, vemos um fato como esse do companheiro Claudio Arouca (que os Espíritos bons cuidem dele como devem estar cuidando!), ocorrer dentro de uma instituição que se diz espírita!
Cabe-nos, portanto, questionarmos o que estamos fazendo enquanto movimento para nos diferenciarmos e resistirmos a essas tendências do mundo pós-moderno, em que o ser humano nada vale e não é notado olhos nos olhos e respeitado enquanto pessoa?
Kardec achava que os melhores centros espíritas (e isso está no Livro dos Médiuns) são centros pequenos, familiares, onde todos se conhecem e se gostam, pensam de forma afinada, estejam em sintonia afetiva e espiritual. Ora, no Brasil, há centros que viraram Igrejas, frequentados por multidões, impessoais – tem até alguns com catraca eletrônica – onde não há nenhum aconchego, nenhum olho no olho e se alguém que, mesmo frequentando a instituição há anos, tiver um comportamento fora da regra, é reenviado ao atendimento fraterno e se reincidente, expulso sem compaixão.
Claro que nada disso tem a ver com princípios como fraternidade, amor ao próximo, caridade ou o que se queira evocar. São centros em que a burocracia tomou o lugar da relação humana e afetiva. Ora, é evidente que num contexto desses, os Espíritos superiores não podem atuar.
É que se observa nesse caso da FEESP. Das pessoas que foram contactadas pela família (não sei quantas foram), por que não houve nenhuma que sentiu qualquer inspiração que o desaparecido estivesse ali na casa? Os Espíritos amigos do desencarnado e da família não tiveram a mínima brecha positiva para inspirar alguém. A desumanidade leva ao endurecimento e ao empedramento da mediunidade.
Tudo muito triste. Mas é necessária uma reação enérgica e vital. Saibamos de novo nos reunir em grupos pequenos, saibamos de novo cultivar amizades sólidas em grupos afins, em que cuidemos uns dos outros, com preocupação e empatia, sintonia e abertura para a inspiração do Alto.
Ainda é tempo de retomarmos o Espiritismo caseiro, onde os Espíritos bons se comunicam, em que todos estudam e participam espontaneamente, sem hierarquias e disputa por cargos. Que o amor despojado seja a tônica das relações entre encarnados e entre encarnados e desencarnados!


ANEXO 3
Mais algumas reflexões sobre a Desumanização no Movimento Espírita
Publicado em 31 de julho de 2017 por Dora Incontri
https://blogabpe.org
Não costumo dar sequência a artigos publicados no blog e muito menos em resposta aos comentários feitos. Mas a postagem da semana passada Desumanização no movimento espírita rendeu centenas de comentários e mais de 33 mil visualizações. Parece que mexemos numa ferida aberta e é preciso falar mais para pensarmos em soluções, remédios e melhoras.
Primeiro, a resposta aos que me criticaram por não ter ouvido o outro lado. Sou jornalista profissional e sei muito bem o que faço em termos de fontes. Chequei com várias pessoas (claro que não posso citar as fontes) e o ocorrido foi exatamente o que relatei, no caso da desencarnação de Claudio Arouca na Feesp. Felizmente, a família se sentiu confortada com o meu artigo e com o apoio que recebeu de muita gente por causa dessa publicação. Então isso já basta.
O fato, porém, extremo e lamentável, serviu como um exemplo de uma tendência no movimento espírita em geral. Nossa crítica não é pessoal à Feesp, quisemos fazer uma reflexão mais ampla. Tanto é verdade que não foram poucas as mensagens e comentários que recebemos, contanto casos, apoiando a reflexão proposta e dizendo muitos que não frequentam mais centros espíritas (aliás nem pequenos, nem grandes), porque se depararam com autoritarismo, burocratização, descaso, luta por cargos, falta de acolhimento, exclusões, etc. Cito esse caso abaixo, só para exemplificar:
“Em 1994, dezembro, estava com minha filha num hospital de SP. Ela havia feito uma cirurgia cardíaca e estava em coma. Depois da entrevista com médicos que a desenganaram, saí sem rumo; triste e sozinha. Havia levado o endereço de um centro espírita de uma médium famosa por seus romances. Entrei, sentei e comecei a chorar. Umas mulheres estavam arrumando o centro. Nem me olharam. Depois de um tempinho, sem se aproximarem, disseram o dia do passe. Enxuguei as lágrimas e fui embora. Precisava de apoio, aconchego, como sempre encontrei no centro que frequentava. As paredes do tal centro cobertas de reportagens de revistas com fotos da médium.”
Nessa mesma linha de denúncia, neste mês, o Jornal Crítica Espírita, publicou uma matéria de Franklin Felix, com muitos relatos de perseguição política e partidarização em centros espíritas. Então, o que acontece? Vamos ficar calados, de braços cruzados, colocar panos quentes? Fingir que somos um movimento fraterno, amoroso e caridoso? É óbvio que há muita gente boa no movimento. Viajo Brasil afora e conheço instituições e pessoas que ainda guardam o espírito acolhedor e amoroso que faz parte da ética espírita-cristã. Mas ouço também inúmeros relatos de expulsões, discriminações, brigas internas… Enfim… dirão: seres humanos são assim. É verdade. Mas seria de se supor que pessoas que adotam uma filosofia de vida como a espírita estivessem ensaiando um comportamento melhor.
Quero levantar aqui duas hipóteses explicativas para esse problema. Primeira, lembro do filósofo francês Henri Bergson, que escreveu uma obra-prima, sempre muito citada por Herculano Pires: As duas fontes da moral e da religião. Nesse livro, ele expõe uma tese de que movimentos religiosos e novas formas de moralidade, quando nascem, brotam da fonte espiritual legítima, com seus iniciadores, animados do élan evolutivo. Mas depois, com o tempo, se cristalizam, se institucionalizam e portanto, vão perdendo vida e impulso, vivência e amor.
Não foi o que aconteceu com o Cristianismo? Em seu livro História do Cristianismo, Paul Johnson tem a sua primeira parte intitulada: De mártires a Inquisidores. Impressionante relato de como aquele primeiro movimento lançado por Jesus, no seio de apóstolos (que aliás, já começaram a se desentender entre si – veja-se o conflito entre Paulo e Tiago), foi se tornando a Igreja poderosa e inquisitorial. Mas no seio dela, sempre ressurgiram aqueles que tentaram voltar à simplicidade e à fraternidade primitivas. Francisco de Assis, por exemplo, e tantos outros. O próprio movimento da Reforma protestante se deu também na tentativa de voltar às bases do Evangelho. E novamente, houve um esfriamento, uma institucionalização. 150 anos depois da morte de Lutero, o movimento pietista, dentro do próprio protestantismo, tentava revigorar o espírito de simplicidade e acolhimento e recomendava o culto do Evangelho no lar, a reaproximação aos ensinos de Jesus… Pestalozzi teve essa influência.
Então, já dá para concluir que nós, espíritas, estamos no mesmo caminho: institucionalização (quando falo esse termo, estou me referindo à uma situação em que regras, burocracias, cargos, dinheiro, poder, valem mais do que o ser humano), perda de fraternidade real, esfriamento das relações humanas. Por que acontece isso? Agora vamos à nossa segunda hipótese explicativa.
A adesão dos seres humanos à moral proposta pelas diversas tradições espirituais da humanidade se dá muitas vezes de maneira exterior. Adota-se uma postura artificial, de bondade, de fala mansa, de pseudocaridade, mas não houve de fato uma revolução interna profunda – coisa aliás que só se dá num processo de autoeducação e de terapia simultaneamente, com a coragem de nos olharmos como somos, nossas feridas, procurando curá-las, sem dissimulação. Esse fenômeno, Jesus já combateu: é o farisaísmo. A pessoa se traveste de santa, mas de santa não tem nada. E infelizmente ocorre entre católicos, budistas, protestantes, espíritas…
Se alguém discorda, é fraternalmente enviado para a desobsessão; se alguém migra de um centro para outro, de uma cidade para outra, de um Estado para outro, é obrigado fraternalmente a recomeçar o Espiritismo do zero, porque não se aceita o que a pessoa traz de bagagem de aprendizado e de anos de serviço prestado; se alguém se opõe a alguma regra ou conduta (muitas vezes com razão e mesmo que não fosse com razão) é convidado fraternalmente a sair do grupo…
Quando se limita o debate, quando não se sabe discutir ideias, porque só há melindres e vaidades, estamos entrando no campo do farisaísmo, da falta de autocrítica, da cristalização, que leva à intolerância e que mais dia menos dia nos pode levar a atitudes inquisitoriais. Quais os caminhos para remediar essa situação:
  • Façamos grupos pequenos, em casa ou no centro, com pessoas reconhecidamente afins, sinceramente interessadas em estudar, praticar a mediunidade e devotar-se ao bem;
  • Estudemos Kardec em profundidade;
  • Desierarquizemos as relações: todos devem ser ouvidos, as lideranças devem deixar de lado vaidades e vontade de poder (para isso uma boa terapia ajuda);
  • Façamos todos uma autoanálise diária, constante, de nossas atitudes e sentimentos (sobretudo de sentimentos, porque deve haver uma coerência entre eles e nossas ações);
  • Não forcemos a barra de uma santidade prematura, somos pessoas normais, em aprendizado constante;
  • Não idolatremos ninguém e nem nos deixemos idolatrar; sejamos enérgicos quanto a isso;
  • Não tenhamos mestres no espiritismo, somos todos aprendizes;
  • E se participamos de alguma instituição já rendida a essas práticas burocráticas e desumanizadas, com lideranças inquestionáveis, se depois de tentarmos melhorar as coisas, nos sintamos ainda incomodados ou indignados, retiremo-nos sem medo, fundemos outras casas ou façamos o espiritismo doméstico – mas não deixemos nunca essa doutrina libertadora, por causa daqueles que não se libertaram a si mesmos!


ANEXO 4

Desumanização do Espiritismo

Carol Régis e Reinaldo Di Lucia – publicado no Jornal Abertura (ago 17)/ http://icksantos.blogspot.com.br
Desumanização do Espiritismo?
Uma pessoa desencarna dentro das dependências da Federação Espírita do Estado de São Paulo e a família busca por informações com os dirigentes da casa. Segundo noticias, os responsáveis pela FEESP limitaram informações, dificultaram buscas e trataram friamente o caso, até encontrar, no banheiro, dois dias depois, o corpo do desaparecido, sendo obrigados a notificar os parentes para as devidas providências.  Alguns traços apontados como frieza no tratamento ao fato em si e à família, levaram a Jornalista Dora Incontri a escrever um pertinente relato sobre a “desumanização do espiritismo” (www.blogabpe.org).
Foi massacrada e ovacionada nas redes sociais, com recorde de leitura, reposts, compartilhamentos e comentários sobre o assunto, como não devia deixar de ser. Diante da repercussão, Dora  escreveu novo texto, tão brilhante quanto o primeiro, trazendo relatos semelhantes de falta de trato entre os Espiritas e, como não poderia deixar de ser, propostas de solução à questão.
Apontando as brigas por poder e a Institucionalização demasiada no movimento Espirita moderno – e não apenas na FEESP – como possíveis responsáveis pela postura observada em tantas casas, Dora expôs uma ferida velada, mas sentida por muitos. A mecanização no funcionamento das reuniões, as grades a cumprir, os trabalhos a entregar, os números a aumentar, as parcerias a fazer, os convidados obrigatórios a palestrar e tantas outras atividades “fordianas” que tomaram conta das rotinas nos centros, ocupou o lugar antes reservado à caridade, ao assistencialismo, ao abraço fraterno, ao conhecer os nomes e as famílias e as dores de cada freqüentador.
Discutir a “Desumanização do Espiritismo” deveria ser tão absurdamente redundante quanto ainda termos que falar em preconceito racial, em diferença entre sexos no mercado de trabalho, em aceitar ou não as opções sexuais – por nós há muito tempo defendido como assunto que já nem mereceria mais espaço, dada a obviedade humanística. É ultrajante saber que o Espiritismo está Desumano, uma vez que o objeto principal da doutrina Espírita é o Ser Humano, sua essência, encarnada ou desencarnada.
É percebida, em diferentes cidades e diferentes casas, uma necessidade geral da retomada de um Espiritismo próximo, pessoal, caridoso, que foi se distanciando há tempos, com a chegada de agendas lotadas de atualizações filosóficas – necessárias também – que, na verdade mesmo, resultaram em pouca mudança prática no Espiritismo. A era da atualização foi necessária, era preciso romper, foi preciso estabelecer novos horizontes. Mas pecamos em deixar em segundo plano o lado mais precioso da Doutrina: os Espíritas. Aqueles que sentam nos bancos em busca de algo: consolo, passe (chame como quiser), estudo, conversa, ouvir, ser ouvido, fazer parte, sentir-se integrante. E que estão a mercê de diretorias com metas a cumprir, prazos, planejamentos nem sempre alinhados aos interesses dos principais interessados: eles mesmos, os  próprios frequentadores.
Quantos de nós sabe os nomes dos novos freqüentadores, quantos filhos possuem, seus dramas pessoais, seus interesses a curto e médio prazo no centro? Quantos se preocuparam em ajudar, com pouco que seja, uma instituição assistencial necessitada – mas não aquela, que ajudamos sempre? Quanta ajuda, genuína, oferecemos àquele companheiro de casa que está desempregado, que perdeu um ente querido, que está doente? Estamos sabendo aproveitar o talento humano que passa pelos bancos espíritas, ou estamos apenas os direcionando para a reunião X, Y, Z de atendimento?  A desumanização ou humanização Espirita, não é lá, longe, na FEESP. É uma postura diária, no nosso centro, no nosso Eu. É o olhar o outro, mas, sobretudo, a si mesmo e perguntar onde foi parar aquele Espírita, de ideal, que fazia campanha assistencial, que era famoso por palestras cheias de compaixão e que abraçava, um a um, os companheiros de jornada.
Anexo 5Comunicado Oficial FEESP sobre a morte de Claudio Arouca (ago17)
Como é do conhecimento geral, ocorreu o óbito do jovem senhor CLAUDIO AROUCA nas dependências da FEESP. Comunicamos que a Polícia Cívil continua realizando investigações sobre o ocorrido e o Instituto Médico Legal da Superintendência da Polícia Científica está periciando o material colhido, para fornecer o laudo médico legal. Assim que recebermos esses laudos comunicaremos a todos os resultados e os esclarecimentos. Aproveitamos para esclarecer que, assim que fomos informados do fato, imediatamente tomamos todas as providências possíveis junto às autoridades e também para localizar os familiares, que foram acolhidos e apoiados no 8º andar da FEESP, pela Presidência e membros da Diretoria da Federação Espírita do Estado de São Paulo, durante todo tempo que aqui permaneceram, até a saída do corpo, que foi enviado ao Instituto Médico Legal no final da tarde. Simultaneamente a essas providências encaminhamos o nome do Sr. Claudio Arouca para ser assistido em nossa Assistência Espiritual, P3C – CONSOLO (sábado – 14:00 horas), juntamente com nossos pedidos de amparo e sustentação a todos os seus familiares. Continuamos em prece pedindo a Jesus que ampare a todos os envolvidos neste triste episódio.


Anexo 6 – Editorial publicado na Revista Crítica Espírita – ano III – Jun/17
Caras leitoras e caros leitores, para quem costuma assumir tarefas ou se envolver em atividades no Centro Espírita, é muito comum tomar conhecimento de, ou mesmo vivenciar, processos de intolerância, de perseguição, de expulsão e de maus-tratos causados por outros trabalhadores no Centro Espírita.
Isso se dá pelas mais variadas razões e é de uma complexidade que dificilmente podemos, se for o caso, ficar tomando partido tão rapidamente, sob pena de agirmos injustamente com os envolvidos, cada um com suas versões e justificativas. Algumas vezes, isso se dá por simples falta de afinidade. Porém, não são poucos os casos em que pequenas questões tomam uma proporção tal que vira caso pessoal, que gera um ódio entre pessoas que, da boca para fora, afirmam que devemos amar o próximo.
De qualquer modo, se um Grupo Espírita é uma proposta de sociabilidade espiritualizada, regenerada, um local para desenvolvermos comportamentos e valores de honestidade, tolerância, empatia, de superar o “ser velho” em busca do “ser novo”, de vencer preconceitos e imperfeições arraigadas, então parece que alguma coisa está muito errada diante do fato de ser tão comum esses casos de intolerância, perseguição, expulsão e maus-tratos entre espíritas.
Por isso, a edição desse mês, que se propõe a discutir esse tema publicamente, está um pouco diferente. Na forma, claro, onde teremos a Matéria de Capa e a Opinião do Editor.  Na matéria de capa, o psicólogo Franklin Félix atendeu ao desafio de colher relatos de pessoas que sofreram esses tristes processo. E, com muita competência, o autor apresenta uma base sólida não só para compreendermos onde estamos, em termos de movimento espírita brasileiro, mas também como podemos (e devemos) melhorar.
O texto conta com depoimentos de pessoas que enfrentaram essa situação, a maioria motivada por questões políticas, apesar de ser bem variável o repertório de exclusões. Por óbvio, como foi dito, esses processos são complexos. Cada situação é particular e cada um lida de uma forma. Como nunca tivemos a pretensão de sermos os donos da verdade e respeitamos sua inteligência para elaborar as suas próprias convicções, deixamos que você tire suas conclusões e aproveite para se autointerpretar a partir dos casos que foram compartilhados, sempre com o desejo de que essa abordagem possa provocar reflexões e melhorias, mudanças de postura e renovação. Na Opinião do Editor, abordamos sobre a “Reforma Trabalhista”, um atentado legislativo à dignidade do trabalhador.  Em  meio  a  mudanças  políticos  lacaios  e lambe-botas do capital jogaram, mais uma vez e covardemente, todo o peso da situação socioeconômica brasileira nas costas dos mais vulneráveis.
Desse modo, renovando nosso propósito de fazer espiritismo dialético, que dialogue com o seu tempo, trazendo temas importantes e permitindo que você formule seu próprio sistema de pensamento, desejamos uma excelente leitura!
Os editores - Em tempo: tomamos conhecimento (via redes sociais), especialmente por familiares, sobre uma suposta negligência da Federação Espírita de São Paulo (FEESP) quanto ao desaparecimento de um frequentador, o Sr. Cláudio Arouca. Como o último local onde o Sr. Cláudio se comunicou foi na FEESP, inclusive, seu carro estaria no estacionamento, os familiares foram ao local para acessar os registros das câmeras de segurança, o que, além de ter sido negado, também não receberam qualquer informação.
No dia 14.07, após diversas ligações para IML, hospitais, delegacias, e depois de verificarem nas câmeras de segurança de imóveis próximos e nada encontrarem, os familiares retornaram à FEESP. Ali, novamente foi negado o aces- so às câmeras de segurança e nenhum apoio foi dado.
Em 15.07, foram mais uma vez à FEESP, onde foram informados de que um corpo havia sido encontrado num dos banheiros do prédio. Porém, não bastasse a negligência na busca do desaparecido, a Federativa ainda teria dificultado os familiares em reconhecer o corpo (que estava no banheiro!) por causa de um evento que estava sendo realizado naquele momento.
Sem qualquer intenção de sensacionalismo, que definitiva- mente não é nosso objetivo, inclusive, sentido certo mal-estar em ter que veicular esse tipo de informação, o caso relatado, se verdadeiro, é de uma gravidade absurda, não apenas de ordem moral, mas também criminal. Por isso, buscando fidelidade aos princípios que esposamos, em primeiro lugar, manifestamos nossos mais sinceros sentimentos de paz e reconforto ao espírito que desencarnou e aos familiares, especialmente após vivenciarem toda essa situação dramática. Em segundo, esperamos uma posição da FEESP e a responsabilização civil e penal dos envolvi- dos. Em terceiro, diante de tamanha indiferença diante do sofrimento alheio, esse caso mostra, como temos reiteradamente abordado, que precisamos urgentemente repensar o espiritismo e o movimento espírita no Brasil.