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quarta-feira, 15 de julho de 2026

David Grossvater - personalidade relevante do Espiritismo Latino-Americano - por Jon Aizpúrua

 

David Grassvater - por Jon Aizpúrua



Este artigo foi publicado no Jornal Abertura de julho de 2026. Se quiser ver o mesmo no jornal, clique no link abaixo, neste blog:

https://icksantos.blogspot.com/2026/07/jornal-abertura-de-julho-de-2026-pdf.html

Apresentamos o texto em português e logo a seguir, em espanhol.


Devo necessariamente escrever esta crônica em um estilo muito pessoal, em um tom íntimo, motivado pelos laços estreitos que me uniram à pessoa que faço esta biografia, a quem devo não apenas ter adquirido o conhecido da filosofia espirita e entendê-la como um sistema de pensamento laico e livre-pensador, mas também ter me acolhido, quando eu ainda era adolescente, com um afeto fraternal que, pouco depois do nosso primeiro encontro, se transformou em amor filial, fazendo-me sentir sua casa e sua família como minhas.

Hoje, como a única pessoa que pode dar testemunho direto da vida e trajetória de David Grossvater no movimento espirita venezuelano e internacional, sinto enorme satisfação em oferecer alguns fatos e comentários que ajudarão os leitores a obter conhecimento essencial sobre este líder espirita, cuja presença e ações deixaram uma marca profunda em seu tempo e projetaram-se para o futuro.    

Algumas referências sobre a vida dele.

Não sabemos muito sobre sua origem familiar, sua infância e juventude. Ele nunca escreveu sobre si mesmo e, quando questionado sobre sua história pessoal, respondia com parcimônia. Havia uma certa relutância de sua parte em relembrar episódios trágicos para ele, sua família e seu país de origem.

Ele veio nascer em uma família judaica asquenazitas (judeus de ascendência europeia oriental) em Cracóvia, Polônia, em 16 de outubro de 1911. O país estava então sob domínio russo e, anos depois, sofreria a invasão e ocupação impiedosa do exército nazista. Foi por meio dele que soube que seus pais e outros parentes morreram em um campo de concentração.

Em Cracóvia, ele concluiu o ensino fundamental e, após a formatura, sua família o enviou para Porto Alegre, no Brasil, para morar com parentes. Ele viveu nessa cidade dos 12 aos 23 anos. Aprendeu português, embora o iídiche, idioma dos judeus da Europa Central e Oriental, fosse falado em seu novo lar.

Buscando uma vida própria, viajou pelo vasto território brasileiro e chegou à Venezuela em 1934. Naquela época, a Venezuela era um país pouco povoado, com pouco mais de 3 milhões de habitantes, a maioria vivendo em áreas rurais ou pequenas cidades. No entanto, a nascente indústria petrolífera já gerava um aumento significativo na renda nacional e uma melhoria nas condições socioeconômicas da população, que foi ainda mais impulsionada por milhares de imigrantes de países vizinhos e da Europa. A partir de então, haveria migrações significativas de pessoas das áreas rurais para as cidades, que experimentariam um crescimento sustentado.

David me contou que a primeira cidade em que se estabeleceu foi Cumaná, capital do estado de Sucre, onde foi bem recebido e logo conseguiu se sustentar com modestos trabalhos comerciais e agrícolas. Depois de um tempo, mudou-se para Caracas e de lá para Barquisimeto, capital do estado de Lara, um importante centro urbano no oeste da Venezuela. Nessa cidade, casou-se com Blanca Gallardo, uma enfermeira. A partir de 1941, ele e sua esposa viveram em Maracay, capital do estado de Aragua, onde ele residiu até sua morte, em 1974. Sua única filha, Ima, nasceu na família Grossvater-Gallardo. Ele ajudava então, no sustento da família, com pequenas atividades comerciais.

Seu encontro com o espiritismo

David teve seu primeiro contato com o Espiritismo em Porto Alegre, capital e maior cidade do estado do Rio Grande do Sul. Ele tinha cerca de 20 anos quando assistiu a uma palestra no Instituto Espírita Dias da Cruz e, a partir daí, começou a frequentar suas atividades e a ler as obras de Allan Kardec, que gradualmente o conquistaram. Naturalmente, ele, que desde jovem se definia como um judeu liberal, irreligioso e de espírito livre, não simpatizava com a orientação decididamente cristã daquela instituição, embora guardasse boas lembranças dela, como expressaria mais tarde em alguns de seus escritos.

Em Cumaná, ele conheceu um grupo espirita guiado pelos livros de Joaquín Trincado, um escritor espanhol que havia se estabelecido em Buenos Aires, Argentina. Em 1911, Trincado fundou um movimento chamado Escuela Magnético-Espiritual de la Comuna Universal (EMECU), que se espalhou por diversos países da América Latina. Seus princípios gerais são semelhantes aos definidos por Kardec, embora existam algumas diferenças conceituais e linguísticas. Os centros espiritas da EMECU são chamados de Cátedras, e David logo se juntou à Cátedra de Cumaná com notável entusiasmo. Mais tarde, ele faria o mesmo em Caracas, Barquisimeto e Maracay. Ele apreciava particularmente o fato de esses centros apresentarem uma forma não religiosa de espiritismo e darem maior ênfase a questões sociais.

David tornou-se um líder proeminente do movimento Trincadadista, especialmente após se estabelecer em Maracay. Lá, fundou a Cátedra Simón Bolívar e a revista "El Espiritista", que circulou entre 1944 e 1948. Seus escritos desse período revelam que sua formação cultural, inteiramente autodidata, havia se expandido consideravelmente. Além dos livros de Trincado, ele lia com grande interesse as obras de Kardec, Denis, Delanne, Geley, Amália Domingo Soler, Quintín López Gómez, Manuel Porteiro, bem como filósofos clássicos e contemporâneos.

Fundação do CIMA

De fato, sua disposição em abrir a doutrina espírita ao estudo de diferentes autores e em se afastar de posições dogmáticas levou a debates acalorados, nos quais as divergências se tornaram intransponíveis. Apoiado por um grande grupo de espíritas de Maracay, Caracas e outras cidades venezuelanas, David Grossvater fundou um movimento em 20 de maio de 1958, inicialmente chamado Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines (C.I.M.A.), que mais tarde, em 1980, adotou o nome Movimiento de Cultura Espírita CIMA, nome que mantém até hoje.

A nova instituição rompeu com a velha guarda, não apenas em questões administrativas e institucionais, mas também em suas definições, princípios e propósitos. Baseava-se em um modelo conceitual próprio, reconhecendo o pensamento de Kardec como fundamento do Espiritismo, mas sem considerá-lo infalível ou sagrado. Surgiu o CIMA com a proposta de um Kardecismo que incentivasse a constante atualização, definindo-se como laico, evolucionista, racionalista e livre-pensador. Inspirados por esses princípios, e em um ambiente fraterno onde não havia espaço para censura ou desprezo, numerosos espíritas decidiram fundar grupos de estudo e de atividades mediúnicas em diversas cidades venezuelanas. Os nomes que os identificavam transmitiam a ideia da variedade e pluralidade que caracterizavam seus membros: CIMA “Armonía, Luz y Amor”, CIMA “Allan Kardec”, CIMA “León Denis”, CIMA “Amalia Domingo Soler”, CIMA “Cosmos”, CIMA “Arriba Corazones”, CIMA “Charles Darwin”, CIMA “Albert Einstein”, etc. Nos anos seguintes, novos centros afiliados à CIMA foram fundados na Colômbia, Peru, México, Guatemala e Estados Unidos.

Em 1960, a Primeira Assembleia Nacional Espírita foi realizada em Maracaibo, uma grande cidade no oeste da Venezuela, onde foi aprovada a fundação a Federación Espírita Venezuelana (FEV). A FEV foi colocada sob a presidência de Pedro Barboza de la Torre, advogado, pensador espírita e escritor de singular prestígio acadêmico. Grossvater assinou a carta de fundação da nascente Federação em nome do CIMA e causou um impacto notável com sua oratória eloquente, sua firme defesa da orientação espírita laico e seu jeito cordial, amigável, modesto e bem-humorado. Primeiro por meio de sua participação como entidade fundadora da FEV e, posteriormente, de forma independente, o CIMA filiou-se à CEPA,  então Confederação Espírita Pan-Americana (atual Associação Espírita Internacional CEPA), e ao longo dos anos contribuiu significativamente para seu crescimento e consolidação. À frente de uma grande delegação do CIMA, David participou ativamente do Sétimo Congresso Espírita Pan-Americano realizado em Maracaibo em 1966.

Produção intelectual

Seus escritos foram dedicados ao estudo e à divulgação do Espiritismo e estão compilados em três livros de sua autoria, centenas de artigos e traduções de outros autores. Além disso, ele manteve correspondência com os líderes espíritas mais proeminentes da América e da Europa. Preservei algumas dessas cartas, cujo conteúdo constitui uma importante fonte de informação sobre o movimento espírita de sua época.

Seus livros são:  Por los fueros del espíritu, Psicología del espíritu y Espiritismo laico. Cada um deles teve diversas reedições, principalmente por editoras Kier de Buenos Aires e Voz Informativa da Cidade do México. Seguindo o exemplo de Kardec, a cada nova edição ele introduzia correções, alterava conceitos e incorporava novos capítulos. Sua obra fundamental é o Espiritismo Laico e o próprio título fez dele a maior figura desta orientação espírita em sua época. Acrescente-se que sob o título Raciocínios Espíritas reuniu uma seleção de textos de autores espíritas e livres-pensadores com os quais se identificou. Esta obra, publicada pela Kier, foi muito popular e circulou amplamente nos centros espíritas e nas livrarias da América Latina.

 Seus artigos eram numerosos e abrangiam uma ampla gama de tópicos. Eles foram publicados nos periódicos do CIMA e de outras associações espíritas. Em sua residência em Maracay, eu frequentemente o via datilografando em sua velha máquina de escrever até altas horas da noite, dando forma ao que brotava de sua mente inquieta. Também testemunhei momentos em que ele parecia estar debatendo em voz alta consigo mesmo até que as ideias que buscava emergissem, as quais ele então transcrevia para sua amada máquina de escrever Olivetti. Depois, ele se deliciava em ler para mim o que havia escrito, e eu me sentia profundamente honrado quando ele pedia minha opinião ou uma análise crítica.

Aproveitando seu conhecimento de português, David traduziu três obras psicografadas do médium brasileiro Francisco Cândido Xavier, que ele considerou dignas de estudo e uso por leitores de língua espanhola: Mecanismos da Mediunidade, No Domínio da Mediunidade  e Evolução em Dois Mundos. Ele também traduziu o livro de Pietro Ubaldi, A Grande Síntese e de Hernani Guimarães Andrade – A Teoria Corpuscular do Espírito.

Conferências e viagens

Os grupos espiritas das décadas de 1950 e 60 buscavam sua presença para ouvir suas palestras, nas quais ele explicava os fundamentos filosóficos, científicos e morais da doutrina espírita. Radicalmente contrário à ideia de considerar o espiritismo uma religião, ele rejeitava todo tipo de dogma ou cerimônia e condenava enfaticamente os charlatães que usavam indevidamente o nome do espiritismo para lucrar explorando supostas ou reais habilidades psíquicas.

Sua orientação era frequentemente solicitada na área da mediunidade prática, que David dominava com admirável habilidade. Ele acreditava que um verdadeiro centro espírita deveria combinar o estudo com a prática mediúnica, sempre que as condições o permitissem. Participei de muitas sessões conduzidas por David e, em cada uma delas, aprendi as estratégias para realizá-las adequadamente por meio do desenvolvimento das habilidades dos médiuns, do diálogo com os espíritos, da educação mental e comportamental dos participantes, bem como da avaliação crítica das mensagens para determinar sua origem mediúnica ou espiritual, da análise e utilização de seu conteúdo e da erradicação de qualquer forma de credulidade ou sugestão. Nesse campo, ele recomendava fortemente a leitura e consulta de “O Livro dos Médiuns”  e  “O Invisível”,  textos de Allan Kardec e Léon Denis, respectivamente.

Em diversas ocasiões, David viajou internacionalmente para contribuir com a disseminação do Espiritismo, explicar sua visão laica e evolutiva e estabelecer relações fraternas. Tive a honra de acompanhá-lo em intensas e extensas viagens que nos levaram a várias cidades da Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e México. Essas atividades, apoiadas por inúmeros centros espíritas, resultaram em estreitas relações pessoais e fortes laços institucionais.

 Até os últimos dias de sua vida frutífera, David permaneceu inabalável em suas convicções espiritas, laicas e evolucionistas, que deram sentido à sua vida e aos seus esforços para difundi-las. Ele partiu deste mundo prematuramente, aos 63 anos, com muito ainda por fazer. Sua morte ocorreu no sábado, 18 de maio de 1974, em um hospital em Maracay, onde estava internado devido a graves problemas respiratórios causados ​​por enfisema pulmonar. Ele nunca conseguiu se livrar do vício do cigarro, apesar dos avisos e até mesmo dos apelos daqueles que o amavam.

Eu estava em Caracas quando recebi a triste notícia. Viajei rapidamente para Maracay e, ao chegar, abracei Blanca, Ima e muitos colegas do CIMA que permaneceram em respeitoso silêncio diante de seu corpo sem vida. Representantes da comunidade judaica se ofereceram para cuidar de todos os preparativos e despesas do sepultamento em seu mausoléu particular, desde que a cerimônia religiosa tradicional fosse observada. Explicamos a eles que David não praticava o judaísmo nem seguia seus preceitos, que sua filosofia de vida era o espiritismo e que ele sempre expressara o desejo de que, quando chegasse a hora, seu funeral fosse inteiramente civil e sem quaisquer cerimônias religiosas. E assim aconteceu, e com profunda tristeza no coração e um imenso vazio na alma, abalado por inúmeras lembranças, tive a honra de dizer algumas palavras para me despedir do eminente pensador, fundador e primeiro presidente do CIMA, o amigo que com afeto fraternal me tomou pela mão quando adolescente, abriu-me as portas de sua casa e me conduziu a percorrer com paixão os caminhos cativantes da cultura espírita.            


Texto em espanhol:

Jon Aizpúrua

 

PERSONALIDADES RELEVANTES DEL ESPIRITISMO LATINOAMERICANO

 

 

DAVID  GROSSVATER

 

     Necesariamente esta crónica debo redactarla en un estilo muy personal, en tono intimista, motivado por los estrechos lazos que me unieron al personaje biografiado, a quien no solo debo el haber conocido la filosofía espiritista y entenderla como un sistema de pensamiento laico y librepensador, sino también el haberme acogido cuando era todavía un adolescente, con un afecto tan fraterno que al poco tiempo de nuestro primer encuentro devino en amor filial, haciéndome sentir su hogar y su familia como propios.

     Al día de hoy, siendo yo la única persona que puede dar testimonio directo de la vida y de la trayectoria de David Grossvater en el movimiento espiritista venezolano e internacional, experimento una enorme satisfacción al ofrecer algunos datos y uno que otro comentario que sirvan a los lectores para disponer de un conocimiento esencial acerca de este líder espírita, cuya presencia y actuación dejarían honda huella en su tiempo y se proyectarían hacia el porvenir.

     Algunas referencias sobre su vida

     No es mucho lo que sabemos de sus antecedentes familiares ni de su niñez y juventud. Jamás escribió sobre sí mismo y cuando le interrogaba sobre su historia personal respondía con parquedad. Había en él un cierto rechazo a recordar episodios que fueron trágicos para él, para su familia y para su país de origen.

     Vino al mundo en el seno de una familia judía asquenazi en Cracovia, Polonia, el 16 de octubre de 1911. El país se hallaba entonces bajo la dominación rusa y años después sufriría la despiadada invasión y ocupación del ejército nazi.  Por él me enteré que sus padres y demás familiares fallecieron en un campo de concentración.

     En Cracovia había seguido estudios primarios y una vez culminados, por decisión familiar fue enviado a Porto Alegre, Brasil, a la residencia de unos tíos. En esta ciudad vivió entre los 12 y los 23 años de edad. Aprendió el idioma portugués, aunque en su nuevo hogar se hablaba en yiddish, la lengua usada por los judíos de Europa central y del este.

     En busca de una vida propia, recorrió el extenso territorio brasileño y llegó a Venezuela en 1934. Este era entonces un país escasamente poblado, que apenas superaba los 3 millones de habitantes, los cuales en su mayor parte vivían en el medio rural o en pequeños pueblos. Sin embargo, la incipiente explotación del petróleo ya reflejaba un aumento significativo de los ingresos nacionales y una mejora en las condiciones socioeconómicas de la población, que se vio incrementada por millares de inmigrantes que provenían de países vecinos o de Europa.  En adelante se producirían importantes traslados de población rural hacia las ciudades, las cuales crecerían de manera sostenida.

     Me contaba David que la primera ciudad en la que se estableció fue Cumaná, capital del estado Sucre, y que allí fue bien recibido y pronto pudo ganar su sustento realizando modestas faenas comerciales y agrícolas. Al cabo de un tiempo se marchó a Caracas y de aquí pasó a Barquisimeto, capital del estado Lara, importante centro urbano del occidente de Venezuela. En esta ciudad contrajo matrimonio con la señora Blanca Gallardo, enfermera de profesión. A partir de 1941 se estableció junto con su esposa en Maracay, capital del estado Aragua donde residiría definitivamente hasta su fallecimiento en 1974. En el hogar de los Grossvater-Gallardo nacería Ima, única hija. Atendió a las necesidades del hogar desempeñándose en modestas actividades comerciales.

     Su encuentro con el espiritismo

     David conoció la doctrina espiritista en Porto Alegre, capital y mayor ciudad del estado de Rio Grande do Sul. Contaba alrededor de 20 años cuando escuchó una conferencia en el Instituto Espírita Días da Cruz y en adelante comenzó a frecuentar sus actividades y a leer las obras de Allan Kardec, las cuales fueron ganando su entusiasmo y adhesión.  Naturalmente, a él que ya desde su juventud se definía como un judío liberal, arreligioso y librepensador, no le simpatizaba la orientación decididamente cristiana de aquella institución, aunque de ella guardaba gratos recuerdos y así lo manifestaría en algunos textos.

     Encontrándose en Cumaná conoció un grupo espiritista que se guiaba por los libros del escritor Joaquín Trincado, español de origen que estableció su residencia en Buenos Aires, Argentina. Aquí Trincado fundó en 1911 un movimiento que denominó Escuela Magnético-Espiritual de la Comuna Universal (EMECU), que alcanzó a expandirse por varios países hispanoamericanos, y cuyos principios generales son semejantes a los que definió Kardec, aunque no dejan de haber algunas diferencias conceptuales y de lenguaje. Los centros espíritas de la EMECU se denominan Cátedras, y pronto David se adhirió con notable entusiasmo la Cátedra de Cumaná. Lo mismo haría en adelante en Caracas, Barquisimeto y Maracay.  Le agradaba especialmente que en esos centros se planteara un espiritismo no religioso y que se pusiera un mayor énfasis en las cuestiones sociales.

     David llegó a convertirse en un destacado líder del trincadismo, especialmente desde que estableció su residencia en Maracay. Aquí fundó la Cátedra “Simón Bolívar” y la revista “El Espiritista” que circuló entre 1944 y 1948. Por sus escritos de esa época se puede constatar que su formación cultural, enteramente autodidacta, se había ampliado considerablemente. Además de los libros de Trincado leía con enorme interés a Kardec, Denis, Delanne, Geley, Amalia Domingo Soler, Quintín López Gómez, Manuel Porteiro, y también a filósofos clásicos y contemporáneos.

     Fundación del CIMA

     Precisamente, su disposición a que la doctrina espírita se abriera al estudio de diferentes autores y se alejara de posiciones dogmáticas, desembocó en fuertes debates en los que las desavenencias se hicieron insuperables. Secundado por un numeroso grupo de espíritas de Maracay, Caracas y otras ciudades venezolanas   David Grossvater fundó el 20 de mayo de 1958 un movimiento que inicialmente se denominó Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines (C.I.M.A), que posteriormente, en 1980, adoptaría el nombre de Movimiento de Cultura Espírita CIMA, que actualmente le distingue.

     La nueva institución rompía con el trincadismo, no solo en lo relativo a cuestiones administrativas o institucionales sino en sus definiciones, principios y propósitos. Partía de un modelo conceptual propio en el cual se reconocía el pensamiento de Kardec como la base del espiritismo, pero sin considerarlo infalible o sagrado. El CIMA surgió con la propuesta de un kardecismo que debía estimular una permanente actualización, que se definía como laico, evolucionista, racionalista y librepensador. Animados por estos principios, vibrando en un clima fraterno dentro del cual no había lugar para censuras, ni descalificaciones, numerosos espíritas decidieron fundar grupos de estudio y de actividades mediúmnicas en diversas ciudades venezolanas. Los nombres que les identificaban daban la idea de la variedad y pluralidad que caracterizaba a sus integrantes: CIMA “Armonía, Luz y Amor”, CIMA “Allan Kardec”, CIMA “León Denis”, CIMA “Amalia Domingo Soler”, CIMA “Cosmos”, CIMA “Arriba Corazones”, CIMA “Charles Darwin”, CIMA “Albert Einstein”, etc. En los años siguientes se fundaron nuevos centros adheridos al CIMA en Colombia, Perú, México, Guatemala y Estados Unidos.

     En 1960 se celebró en Maracaibo, gran ciudad del occidente de Venezuela, la Primera Asamblea Espírita Nacional en la que se aprobó la fundación de la Federación Espírita Venezolana (FEV), la cual quedó bajo la presidencia de Pedro Barboza de la Torre, abogado, pensador espírita y escritor de singular prestigio académico. Grossvater suscribió el acta fundacional de la naciente Federación en nombre del CIMA y causó un notable impacto por su verbo elocuente, por la defensa vertical de la orientación espírita laica, y por su trato cordial, amistoso, sencillo y bienhumorado. Primero por su participación como entidad fundadora de la FEV, y posteriormente en forma autónoma, el CIMA se afilió a la C.E.P.A, entonces Confederación Espírita Panamericana (hoy Asociación Espírita Internacional CEPA), y a lo largo de los años ha ofrecido una importante contribución a su crecimiento y consolidación. Al frente de una amplia delegación del CIMA, David participó activamente en el Séptimo Congreso Espírita Panamericano que se celebró en Maracaibo, en 1966.       

     Producción intelectual

     Su obra escrita estuvo consagrada al estudio y divulgación del espiritismo y se encuentra reunida en tres libros propios, centenares de artículos y traducciones de otros autores. A ello hay que agregar el intercambio epistolar con los líderes espíritas de mayor relevancia de América y Europa. Conservo algunas cartas cuyo contenido constituye una importante fuente de información sobre el movimiento espírita de su época.

     Sus libros se titulan: Por los fueros del espíritu, Psicología del espíritu y Espiritismo laico. Cada uno de ellos tuvo varias reediciones, principalmente por las editoriales Kier de Buenos Aires y Voz Informativa de Ciudad de México. Siguiendo el ejemplo de Kardec, en cada nueva edición introducía correcciones, cambiaba conceptos e incorporaba nuevos capítulos. Su obra fundamental es Espiritismo Laico y el propio título le convirtió en su tiempo en la figura máxima de esta orientación espírita. Hay que adicionar que bajo el título Razonamientos espiritistas, reunió una selección de textos de autores espiritistas y librepensadores con los cuales se identificaba. Esta obra, publicada por Kier, gustó mucho y circuló profusamente dentro de los centros espíritas y en las librerías de Hispanoamérica.

     Sus artículos fueron numerosos y dedicados al examen de temas muy variados. Aparecieron en las revistas del CIMA o de otras asociaciones espíritas. En su residencia en Maracay lo vi muchas veces tecleando en su vieja máquina hasta altas horas de la noche, dando forma a lo que brotaba de su mente inquieta y también pude presenciar momentos en que parecía debatir en voz alta consigo mismo hasta que aparecían las ideas que buscaba y las transcribía a su entrañable Olivetti. Luego se complacía en leerme lo que había escrito y yo me sentía muy honrado cuando pedía mi opinión o que hiciese un análisis crítico.

     Aprovechando su conocimiento del idioma portugués, David tradujo tres obras psicografiadas por el médium brasileño Francisco Cándido Xavier, que él consideraba dignas de ser estudiadas y aprovechadas por los lectores de habla española: Mecanismos de la mediumnidad, En torno de la mediumnidad y Evolución en dos mundos. Tradujo también el libro La Grande Síntesis de Pietro Ubaldi.

     Conferencias y viajes

     Los grupos espíritas de los años cincuenta y sesenta del pasado siglo requerían su presencia para escuchar sus conferencias en las que explicaba las bases filosóficas, científicas y morales de la doctrina espírita. Opuesto radicalmente a que se considerase al espiritismo como una religión, rechazaba toda clase de dogmas o ceremonias, y con mucho énfasis rechazaba a los charlatanes que emplean indebidamente el nombre del espiritismo para lucrar mediante la explotación de supuestas o reales facultades psíquicas.

     Con frecuencia se pedía su orientación en el área de la mediumnidad práctica, que David dominaba con admirable destreza. Él consideraba que un auténtico centro espírita debe combinar el estudio con el ejercicio mediúmnico, cuando hubiese condiciones para ello. Participé en muchas sesiones dirigidas por David y en cada una de ellas fui aprendiendo las estrategias para conducirlas apropiadamente mediante el desarrollo de las facultades de los médiums, el diálogo con los espíritus, la educación mental y conductual de los participantes, así como la evaluación crítica de los mensajes en cuanto a la determinación de su origen mediúmnico o anímico, el análisis y aprovechamiento de su contenido, erradicando cualquier forma de credulidad o sugestión. En este campo, recomendaba con insistencia la lectura y consulta de El libro de los médiums y En lo invisible, textos de Allan Kardec y Léon Denis respectivamente.

     En varias ocasiones David realizó viajes internacionales con la intención de contribuir a la divulgación del espiritismo, explicar su visión laica y evolucionista, y entablar relaciones fraternales. Tuve el honor de acompañarle en intensas y extensas giras que nos llevaron hasta diversas ciudades de Colombia, Ecuador, Perú, Chile, Argentina, Uruguay, Brasil y México, quedando de esas actividades, que contaron con el respaldo de numerosos centros espíritas, entrañables relaciones personales y sólidos vínculos institucionales.

     Hasta los días finales de su fecunda existencia, David se mantuvo inquebrantable en las convicciones espíritas, laicas y evolucionistas, que dieron sentido a su vida y a su esfuerzo por divulgarlas. Se marchó prematuramente de la dimensión encarnada cuando apenas sumaba 63 años y tenía pendiente mucho por hacer. Su deceso ocurrió el sábado 18 de mayo de 1974 en un hospital de Maracay en el que había sido recluido por presentar severos problemas respiratorios provocados por un enfisema pulmonar. Nunca pudo superar su afición al consumo habitual de cigarrillos, no obstante las advertencias y hasta las súplicas de quienes le queríamos.

     Me hallaba en Caracas cuando fui informado de la triste noticia. Rápidamente, me trasladé a Maracay y al llegar abracé a Blanca, a Ima, y a muchos compañeros del CIMA que guardaban respetuoso silencio ante su cuerpo inerte. Los representantes de la comunidad judía ofrecieron encargarse de todos los trámites y gastos del entierro en su panteón privado siempre que se cumpliera la tradicional ceremonia religiosa. Les aclaramos que David no practicaba la religión judía ni seguía sus prescripciones, que su filosofía de vida era el espiritismo y que siempre había manifestado su deseo de que llegado el momento su funeral debía ser enteramente civil y sin ceremonias de ninguna religión. Así se cumplió, y con hondo pesar en mi corazón y un inmenso vacío en mi alma, estremecido por un sinfín de recuerdos, me cupo el honor de pronunciar unas palabras para despedir al eminente pensador, al fundador y primer Presidente del CIMA, al amigo que con fraterno cariño tomó mi mano de adolescente, me abrió las puertas de su hogar, y me condujo a transitar con pasión por los cautivantes senderos de la cultura espírita.      

    

       

 

       

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Jornal Abertura - janeiro -fevereiro 2026 - disponível para dowload - pdf grátis

 Jornal Abertura - janeiro - fevereiro 2026 - disponível para dowload



Nesta edição:

Entrevista: Jon Aizpúrua é entrevistado por Marcelo Henrique do ECK sobre a situação na Venezuela;
COP 30 - por Roberto Rufo;
O espiritismo frente aos novos tempos - por Milton Medran;
Série Microfilme - Jornais Abertura;
Somos Felizes/ Por Cláudia Régis Machado;
Nossas livrarias, física e virtual;
Memórias Inesquecíveis - Congresso da CEPA em Santos - Reencarnação e o Desenvolvimento do Homem
O Homem Sorriso - Abrindo a Mente;Publicações em Espanhol

Baixe aqui:

https://icks.ong.br/wp-content/uploads/2026/02/Jornal-Abertura-Jan-Fev-2026.pdf


Confira nossos Aberturas Históricos que chamamos de Série Microfilme - História do Abertura

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domingo, 25 de janeiro de 2026

Carta de ano novo da presidência da CEPA - português e espanhol - Por José Arroyo

 Publicamos a carta de ano novo da CEPA - O ICKS é adeso à CEPA.




1º de janeiro de 2026

 

 

À comunidade espírita da CEPA e às pessoas afins:

 

Um novo ano amanheceu, com 365 oportunidades no horizonte. Recordemos o que foi vivido para celebrar as conquistas; felicitemo-nos pelos objetivos alcançados; reflitamos sobre o que ficou pendente para melhorar; aceitemos e aprendamos, com humildade e honestidade, aquilo que hoje precisa ser corrigido. Com esse senso de compromisso e maturidade espiritual, convido-lhes a olharmos para 2026.

 

Que a esperança de um amanhã melhor não seja uma vã ilusão. Depende de nós aquilo que possamos aportar a esse amanhã, trabalhando desde o hoje. Que o desejo de saúde não seja apenas uma intenção, mas que possamos fazer a nossa parte, para que nosso corpo e nossas circunstâncias se alinhem a esse objetivo. Que a paz que almejamos, não apenas para os que vivem em conflito, mas também para os nossos povos, possa ser construída pelo que fazemos em nosso entorno, em nosso círculo familiar e em nossa comunidade. Enfim, deixemos os que sonham, sonhar, e, como espíritas conscientes do que viver implica, saiamos nós para realizar.

 

Que a gratidão a Deus, aos Bons Espíritos, aos Mentores Espirituais, aos Familiares Esclarecidos e a todos os Colaboradores Espirituais seja a atitude que nos mantenha em uma sintonia positiva, otimista e aberta a tudo de bom que concretizaremos. Isso não como um ato de ilusão, mas como uma verdade alcançada pela consciência e pela certeza que a filosofia espírita proporciona.

 

Obrigado por nos terem apoiado, acompanhado, colaborado, participado, lido, questionado, contribuído, conversado, meditado, refletido e, sobretudo, acolhido com afeto. Sentimos a sua proximidade, que rompe toda barreira imposta pela distância, e nos fortalecemos com ela, além do senso de compromisso que nos ilumina. Obrigado por fazer parte desta família ou, ao menos, por estar perto de nós.

 De forma direta ou indireta, a presença de cada pessoa que se aproxima do que fazemos na CEPA – Associação Espírita Internacional, nos revigora e nos impulsiona a continuar fazendo, melhorando e nos comprometendo a cumprir a nossa parte por um mundo melhor.

 

Sigamos construindo o futuro, com consciência, trabalho e solidariedade.



Em espanhol:

1 de enero de 2026

 

 

A la comunidad espírita de CEPA y personas afines:

 

Un nuevo año amaneció, con 365 oportunidades en el horizonte. Recordemos lo vivido para celebrar los logros; felicitémonos por los objetivos alcanzados; reflexionemos sobre lo que quedó pendiente por mejorar; aceptemos y aprendamos con humildad y honestidad lo que hoy necesita ser corregido. Con este sentido de compromiso y madurez espiritual, les invito a que veamos el 2026.

 

Que la esperanza de un mejor mañana no sea una vana ilusión. Queda de nosotros lo que podamos aportar a ese mañana, trabajando desde el hoy. Que el deseo de salud no sea apenas una intención, sino que podamos hacer nuestra parte, para que nuestro cuerpo y nuestras circunstancias se alineen con este objetivo. Que la paz que anhelamos, no solo para quienes viven en conflicto sino también para nuestros pueblos, pueda ser construida por lo que hacemos en nuestro entorno, en nuestro círculo familiar y en nuestra comunidad. En fin, dejemos a los que sueñan, soñar, y como espiritistas conscientes de lo que el vivir conlleva, salgamos nosotros a hacer.

 

Que la gratitud a Dios, a los Buenos Espíritus, a los Mentores Espirituales, a los Familiares Esclarecidos y a todos los Colaboradores Espirituales, sea la actitud que nos mantenga en una onda positiva, optimista y de apertura a todo lo bueno que concretaremos. Esto, no como un acto de ilusión, sino como una verdad alcanzada por la consciencia y la certidumbre que da la filosofía espiritista.

 

Gracias por habernos apoyado, acompañado, colaborado, participado, leído, cuestionado, aportado, conversado, meditado, reflexionado y, sobre todo, abrazado emotivamente. Sentimos su cercanía, que rompe toda barrera impuesta por la distancia, y nos fortalecemos con esta, además del sentido de compromiso que nos ilumina. Gracias por ser parte de esta familia o, por lo menos, estar cerca de nosotros.

 

De una forma directa o indirecta, la presencia de cada persona que se asoma a lo que hacemos desde CEPA – Asociación Espírita Internacional, nos vigoriza y nos impulsa a continuar haciendo, mejorando y comprometiéndonos con hacer nuestra parte por un mundo mejor.

 

Sigamos construyendo futuro, con conciencia, trabajo y solidaridad.





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

PEDRO BARBOZA DE LA TORRE - por Jon Aizpúrua

 

Jon Aizpúrua

 

 Personalidades Relevantes do Espiritismo Latino Americano

 

PEDRO BARBOZA DE LA TORRE

    Homem de interesses intelectuais multidisciplinares e amplo conhecimento cultural, com uma trajetória de serviço excepcional, Pedro Alciro Barboza de la Torre foi, e continua sendo, uma figura essencial no mundo cultural, não apenas de Maracaibo, sua cidade natal, mas de toda a nação venezuelana.

 


            Para compreender plenamente sua personalidade multifacetada, desenvolvida ao longo de sua vida privada e carreira pública, é necessário considerar Pedro Barboza nestes papéis fundamentais: homem de família, advogado, educador, historiador, maçom, espiritualista e escritor — todos intimamente interligados em um todo coerente, oferecendo um perfil harmonioso de sua jornada de vida.

Familia e educação

           Filho de Pedro René Barboza e Ángela María de la Torre Pacheco, nasceu em 8 de novembro de 1917, em Maracaibo, capital do estado de Zulia. Faleceu na mesma cidade em 29 de junho de 2002. Em casa, assim como com seus irmãos Estanislao e Ángela, recebeu lições de amor e responsabilidade que deixaram uma marca indelével em seus sentimentos, princípios, valores e conduta cívica e social. Em 1942, casou-se com Mary Pereira Arria, uma união feliz que durou toda a sua vida e deu frutos em suas filhas, Iris Marina e Alina Marina, a quem ele e sua esposa transmitiram os mesmos ensinamentos morais e espirituais que ele havia recebido.

    Movido por uma sede de conhecimento, demonstrou amor pela leitura desde a infância, para grande alegria de seu pai, que era professor em escolas e liceus. Após concluir o ensino fundamental, prosseguiu seus estudos no Colégio Nacional de Maracaibo, cujo diretor era o ilustre humanista e poeta Jesús Enrique Lossada, que exerceu uma poderosa e benéfica influência no desenvolvimento progressivo de suas ideias filosóficas, sociais e políticas. A Venezuela encontrava-se então nos estágios finais do regime ditatorial liderado por Juan Vicente Gómez, e os estudantes sofriam com a repressão policial por sua luta acirrada para destituir o tirano, colocando em risco seus estudos e suas próprias vidas. O jovem Pedro Barboza uniu-se a esse movimento com fervor idealista, escrevendo seus primeiros textos em defesa dos estudantes e pela chegada da democracia, que finalmente se concretizaria em 1936, após a morte do autocrata. Cabe ressaltar que, embora não fosse filiado a nenhum partido político, suas simpatias e convicções, claramente identificadas com os princípios democráticos, o levariam ao longo de sua vida a apoiar, por meio de seus escritos, discursos e do exercício do direito ao voto, as opções ligadas ao pensamento social-democrata.

          Ele cursou seus estudos universitários na Faculdade de Ciências Políticas de Maracaibo, então parte da Universidade dos Andes, com sede na cidade andina de Mérida. A Universidade de Zulia havia sido fechada em 1904 pelo regime autocrático do General Cipriano Castro e só reabriria em 1946, com o Dr. Lossada como seu novo Reitor. Dois anos antes, Pedro Barboza havia se formado em Direito, seguido por um doutorado em Ciências Políticas. Por vinte anos, dedicou-se à advocacia privada, conquistando merecido prestígio na região de Zulia por sua sólida formação profissional, aliada à sua imparcialidade e comprovada integridade.

Exercício profissional da advocacia e ensino

          Após a reabertura da Universidade de Zulia, Pedro Barboza começou a lecionar diversas disciplinas relacionadas ao direito, história e outras áreas das humanidades. Em 1964, aposentou-se da advocacia privada e ingressou no corpo docente da universidade como professor titular, alcançando, eventualmente, o título de Professor Catedrático, o mais alto na hierarquia acadêmica. Por mais de 50 anos, milhares de alunos frequentaram suas aulas em sua alma mater, apreciando suas habilidades pedagógicas e a profundidade de seu ensino. Sempre expressaram gratidão, respeito e carinho por ele. Além de lecionar, ocupou diversos cargos de liderança administrativa na universidade, incluindo Diretor da Faculdade de Direito, Diretor da Faculdade de Jornalismo e Coordenador do Conselho de Desenvolvimento Científico e Humanístico. Também atuou como Presidente da Ordem dos Advogados do Estado de Zulia.

 

            Ao longo de sua vida, Barboza demonstrou uma impressionante paixão pela história, que perdurou ininterruptamente pelas últimas seis décadas de sua vida, complementando perfeitamente suas atividades acadêmicas, jurídicas e filosóficas. Sua pesquisa se concentrou principalmente em capturar a essência e o caráter de Maracaibo por meio de esboços biográficos de suas figuras mais proeminentes, desde os heróis da independência até seus principais cientistas, educadores, escritores e artistas. Não é surpresa que ele tenha sido nomeado membro titular da Academia Estadual de História de Zulia, da qual mais tarde se tornaria presidente.

Vida Maçônica

           Barboza teve uma carreira notável na Maçonaria venezuelana e latino-americana, onde se destacou por seus dons intelectuais e sua oratória fluida e envolvente. Seguindo os passos de seu pai, maçom de longa data, foi iniciado em 1947 na Loja Regeneradores nº 6, em Maracaibo. Lá, completou todas as etapas de formação exigidas pela Ordem do Esquadro e Compasso, alcançando o 33º Grau, o mais alto do Rito Escocês Antigo e Aceito. Em sua Loja, ocupou todos os cargos, chegando a servir como Venerável Mestre por vários mandatos, mas sua maior distinção veio em sua função como Procurador, graças à sua admirável eloquência e habilidade pedagógica em explicar qualquer assunto em discussão. Em reconhecimento às suas virtudes maçônicas, foi nomeado Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja da República da Venezuela e, em homenagem a este ilustre mestre maçom, seu nome foi adotado como epônimo de uma das lojas em sua cidade natal.

Dedicação ao espiritismo

 

          Pedro Barboza de la Torre nasceu e cresceu em um lar espírita. Seu pai, Pedro René, foi um dos fundadores e líderes ativos da Sociedade Espírita Kardeciana de Maracaibo, juntamente com notáveis ​​estudiosos do Espiritismo como Isidro Valles, Valmore Rodríguez, Manuel Matos Romero e Alberto Hernández, que também se destacaram como líderes sociais e culturais na capital do estado de Zulia.

        Desde jovem, leu os principais autores espíritas, a começar por Allan Kardec, com cujas obras sentia uma afinidade especial e às quais se referiria frequentemente em seus trabalhos espíritas posteriores, tanto em obras escritas quanto nas numerosas palestras que proferiu. Com base no conhecimento adquirido nos círculos acadêmicos, logo aprendeu a aplicá-lo à compreensão dos fundamentos doutrinários do Espiritismo, um sistema de pensamento que ele claramente identificava como uma filosofia científica com consequências morais e sociais. Decididamente secular e livre-pensador, Barboza expressou sua discordância com a noção de que o Espiritismo deveria ser considerado uma religião, embora respeitasse com espírito tolerante aqueles que tinham opiniões diferentes.

        Compreendendo a necessidade de o movimento espírita na Venezuela ser melhor organizado e de desenvolver programas de estudo seguindo sólidos princípios pedagógicos, Barboza liderou a fundação, em 1958, da Sociedade Venezuelana de Pesquisa Psíquica, dentro da qual também seriam realizadas sessões mediúnicas devidamente guiadas e supervisionadas. Seguindo essa linha de pensamento, em 1960, ele fundou a Federação Espírita Venezuelana (FEV) com o objetivo de unir os centros espíritas que operavam em todo o país, com sede em Maracaibo. Nesse admirável empreendimento, ele foi acompanhado por líderes espíritas de renomadas qualidades intelectuais, sólido conhecimento espírita e evidente integridade moral, entre os quais devemos mencionar José Naranjo Carrillo, Celmira de Pugh, Rosa Virginia Martínez, Gastón Chocrón, José Bromberg e Ramón Ocando Pérez. A presença dessas figuras públicas e sua adesão ao Espiritismo conferiram a esta religião um nível de respeitabilidade social nunca antes alcançado na Venezuela.

            A Federação Espírita Venezuelana (FEV) cumpriu seus objetivos da melhor maneira possível e, para tanto, promoveu uma série de iniciativas concretas. Foi fundada a Livraria Espírita Venezuelana para vender e distribuir obras espíritas produzidas por editoras da Argentina e do México a preços acessíveis; a revista "Ciência e Consciência" foi criada para dar espaço às reflexões de escritores espíritas da época e para divulgar notícias sobre o progresso do movimento kardecista na América e na Europa; foi estabelecida a Associação Venezuelana de Jovens Espíritas para atrair e reunir jovens interessados ​​em aprender sobre a doutrina espírita; e foram promovidas visitas de líderes da Federação a grupos espíritas ativos e sérios no país para apoiá-los em seu trabalho, reorientando critérios e procedimentos doutrinários na área da mediunidade que precisavam ser adaptados às normas inerentes ao corpo de ideias teóricas e práticas do kardecismo.

         Como era perfeitamente natural, a Federação Espírita Venezuelana (FEV), sob o ímpeto dinâmico de seu presidente, estabeleceu laços com os líderes da Confederação Espírita Argentina (CEPA) (então Confederação Espírita Pan-Americana e posteriormente Associação Espírita Internacional CEPA) com o objetivo de forjar relações de trabalho colaborativas em apoio ao ideal espírita. Aproveitando uma visita de Barboza a Buenos Aires em 1962, como representante oficial do Ministério da Educação da Venezuela em um seminário patrocinado pela UNESCO, o presidente da FEV proferiu uma palestra no auditório da Confederação Espírita Argentina, concedeu uma extensa entrevista à sua revista oficial "La Idea" e, a partir de então, as relações entre a federação venezuelana e a mais alta entidade espírita pan-americana foram formalizadas.

             Uma distinta delegação venezuelana, chefiada por Barboza, participou do VI Congresso Espírita Pan-Americano, realizado na capital argentina em outubro de 1963. Três anos depois, ele foi responsável pela organização do VII Congresso em Maracaibo, tarefa que repetiu ao liderar o XI Congresso, também realizado na capital do estado de Zulia. De fato, a partir de então, não houve evento espírita de âmbito regional ou pan-americano em que sua presença não fosse sentida, encantando os participantes com suas magníficas e instrutivas apresentações. Representando o C.E.P.A. (Centro para a Promoção do Espiritismo), como seu Delegado Oficial, dedicou-se por quatro décadas como incansável promotor do ideal espírita em toda a Venezuela e em diversas partes das Américas, principalmente na Colômbia, Equador, Argentina, Porto Rico, Honduras, Guatemala, México e Miami. Por todas essas razões, sua eleição em 1990, por decisão unânime do XV Congresso Espírita Pan-Americano, realizado em Caracas, como Presidente do C.E.P.A., foi um feito notável. para o mandato seguinte de três anos, não poderia ter sido mais justo e merecido.

Escritor de multipla e variada obra

            Escritor de grande produção, de estilo refinado e elegante, dedicou a maior parte da sua vida a uma rotina exaustiva de trabalho intelectual, centrada no vasto mundo da literatura, tendo como recurso indispensável a sua extensa biblioteca. Eleito pelos seus colegas de Zulia, tornou-se presidente da Associação de Escritores. Desta vocação incessante e apaixonada pela escrita surgiram inúmeros livros, monografias, panfletos, manuais, prólogos, artigos e crônicas jornalísticas, que o colocam numa posição de destaque na literatura venezuelana do século XX. Mencionaremos apenas alguns títulos-chave da sua vasta obra, distribuída pelas diversas áreas temáticas que ocuparam a sua atenção:

            A sua especialização jurídica manifestou-se em dezenas de trabalhos doutrinários sobre a natureza do direito e sobre a relação entre o direito e as ciências sociais, publicados em revistas científicas, e nas obras *Sociologia Jurídica* e *Influência do Direito Antropológico no Direito Especial*, recomendadas como livros didáticos universitários.

            No campo da pedagogia, devem ser mencionados seus livros *Recursos para Acadêmicos*, *O Bibliotecário Universitário como Professor*, *Manual de Pesquisa Bibliográfica* e *Planejamento Metodológico de Pesquisa*.

             De sua vasta produção maçônica, temos: *Curso de Aprendiz de Maçom*, *Curso de Companheiro Maçom*, *Curso de Mestre Maçom*, *Manual dos 33 Graus da Maçonaria* e *Maçonaria em Ação*.

             É claro que a literatura espírita deve muito ao seu talento inesgotável, ao seu amor pelo estudo e pela pesquisa, à sua dedicação ao ensino dos princípios do Espiritismo e ao seu compromisso em moldar uma cultura espírita, divulgando e promovendo a compreensão da doutrina espírita em seu verdadeiro caráter filosófico, científico, moral, sociológico, plenamente humanista e de livre-pensamento. Barboza escreveu extensivamente para ajudar a alcançar esses objetivos e documentou isso em vários livros e artigos publicados nas Américas. Dada a sua quantidade, é muito difícil listá-los todos aqui, embora estejam disponíveis para auxiliar os estudiosos: Comentários sobre a Doutrina Espírita, Cronologia Espírita, Espiritismo para Católicos, Espiritismo para Espíritas, O Monsenhor Espírita Enrique María Dubuc, Desenvolvimento de Médiuns, Repertório Experimental para Mediunidade, Da Sombra do Dogma à Luz da Razão.         

A marca de seu legado espirita

            Um exemplo de homem culto que soube conectar o conhecimento adquirido na universidade e nos círculos acadêmicos com os ideais espíritas. Um pensador elevado, que jamais deixou de agir com humildade e generosidade. Secular, racionalista e de espírito livre, era também aberto e tolerante a todas as crenças. Compreendendo que o Espiritismo precisava ser organizado em grupos dinâmicos e em sintonia com os tempos, nunca poupou esforços ou recursos para promover a criação de sociedades e federações espíritas, viajando por todo o mundo para ministrar seminários e palestras. Eficiente diretor de sessões mediúnicas, sempre agiu com sabedoria, firmeza, respeito e serenidade para obter os melhores resultados do diálogo e da troca com o mundo espiritual. Generoso no apoio aos líderes emergentes das novas gerações, estava sempre pronto a compartilhar seu vasto conhecimento e extensa experiência. Por todas essas razões, e muitas outras, não é possível desconsiderar a figura de Pedro Alciro Barboza de la Torre ao relembrar e avaliar o Espiritismo na América durante o século XX.  

Artigo publicado no Jornal Abertura de dezembro de 2025, quer ver o original?

https://icksantos.blogspot.com/2025/12/saiu-o-jornal-abertura-de-dezembro-de.html



Em Espanhol:


Jon Aizpúrua

 

PERSONALIDADES RELEVANTES DEL ESPIRITISMO LATINOAMERICANO

 

 

PEDRO BARBOZA DE LA TORRE

 

          Hombre de un ejercicio intelectual multidisciplinario y de amplio alcance cultural, con una hoja de servicios excepcional, Pedro Alciro Barboza de la Torre fue, y sigue siendo, referencia obligada del mundo cultural no solo del Maracaibo que le vio nacer sino de la nación venezolana toda.

         Para tener una visión aproximada acerca de su polifacética personalidad, desarrollada en el conjunto de su vida privada y de su actuación pública, se hace necesario ubicar a Pedro Barboza en estas facetas fundamentales: el hombre de familia, el abogado, el educador, el historiador, el masón, el espiritista y el escritor, todas las cuales se vinculan estrechamente en un todo coherente y ofrecen un perfil armónico de su andadura vital.

 

Familia y educación

           Hijo de Pedro René Barboza y Ángela María de la Torre Pacheco, vino al mundo el 8 de noviembre de 1917 en Maracaibo, capital del estado Zulia. En esta misma ciudad falleció el 29 de junio de 2002. Recibió en su hogar, lo mismo que sus hermanos Estanislao y Ángela, lecciones de amor y responsabilidad que dejaron una huella imborrable en sus sentimientos, en sus principios y valores, y en su comportamiento cívico y social. En 1942 contrajo matrimonio con Mary Pereira Arria, enlace feliz que perduró incólume toda su existencia, y que fructificaría en sus hijas Iris Marina y Alina Marina, a quienes trasmitió, junto con su esposa, las mismas enseñanzas morales y espirituales que había recibido.

          Tomado por la sed de conocimiento, desde niño mostró su afición a la lectura, muy del gusto de su padre que era maestro de colegios y liceos. Luego de culminar su formación primaria, siguió estudios de bachillerato en el Colegio Nacional de Maracaibo, cuyo Director era el insigne humanista y poeta Jesús Enrique Lossada, quien ejerció una poderosa y benéfica influencia en la configuración progresiva de sus ideas filosóficas, sociales y políticas. Venezuela se hallaba entonces en las postrimerías del régimen dictatorial encabezado por Juan Vicente Gómez y los estudiantes llevaban el peso de la represión policial por la dura lucha que libraban para conseguir la sustitución del tirano, poniendo en peligro sus estudios y sus propias vidas. El joven Pedro Barboza se sumaba con ímpetus idealistas a ese empeño con sus primeros escritos a favor de los estudiantes y por el advenimiento de la democracia, lo cual ocurriría a partir del año 1936 tras la muerte del autócrata. Conviene aquí apuntar que si bien no sería propiamente un militante de algún partido político, sus simpatías y convicciones, nítidamente identificadas con los principios democráticos, le llevarían toda su vida a respaldar con sus escritos, sus discursos y el ejercicio del sufragio, a las opciones identificadas con el pensamiento socialdemócrata. 

          Sus estudios universitarios los realizó en la Escuela de Ciencias Políticas de Maracaibo, adscrita entonces a la Universidad de los Andes, con sede en la ciudad andina de Mérida, debido a que la Universidad del Zulia había sido clausurada en 1904 por el régimen autocrático del general Cipriano Castro, y solo sería reabierta en 1946, siendo su nuevo Rector el Dr. Lossada. Dos años antes, Pedro Barboza obtendría el título de abogado, al que seguiría el doctorado en Ciencias Políticas. Durante veinte años se dedicó a la práctica privada del derecho, conquistando un merecido prestigio en la región zuliana por su sólida formación profesional, aunada a la recta aplicación de la justicia y a su demostrada probidad.

 Ejercicio profesional del derecho y la docencia

           Tras la reapertura de la Universidad del Zulia, Pedro Barboza comenzó a prestar servicios docentes en diversas asignaturas relacionadas con la ciencia jurídica, la historia y otras disciplinas de carácter humanístico, hasta que en 1964 se retiró de la práctica privada del derecho y se incorporó a la nómina universitaria como Profesor a dedicación exclusiva, alcanzando el grado de Titular, el más alto del escalafón académico. Durante más de 50 años dedicados a la docencia en su Alma Mater, miles de estudiantes pasaron por sus clases y apreciaron las cualidades pedagógicas y la profundidad de las enseñanzas impartidas por su distinguido profesor,  hacia el cual siempre manifestaron sentimientos de gratitud, respeto y afecto. Adicional a la docencia, ocupó diversos cargos de dirección administrativa en su universidad, entre los cuales cabe mencionar que fue Director de la Escuela de Derecho, Director de la Escuela de Periodismo, Coordinador del Consejo de Desarrollo Científico y Humanístico. Fue, además, Presidente del Colegio de Abogados del Estado Zulia.

          A lo largo de su vida, Barboza mostró un impresionante fervor historiográfico que cubre sin interrupción las últimas seis décadas de su vida, y se combina perfectamente con sus afanes académicos, jurídicos y filosóficos. Su labor de investigador se centró principalmente en captar la esencia y el talante de Maracaibo por medio de semblanzas biográficas de sus personajes más relevantes, desde los próceres de la independencia, hasta sus más relevantes científicos, educadores, escritores o artistas. No es de extrañar que se le nombrara Miembro de Número de la Academia de Historia del estado Zulia, de la que llegaría a ocupar la presidencia.

 

Vida masónica

            Barboza tuvo una destacadísima actuación en el seno de la masonería venezolana y latinoamericana, en cuyo seno brilló por sus dotes intelectuales y su oratoria fluida y amena. Siguiendo los pasos de su padre, masón de antigua data, se inició en 1947 en la Logia Regeneradores No. 6 de Maracaibo. En ella cubrió todas las etapas formativas exigidas por la tradicional Orden de la Escuadra y el Compás, hasta alcanzar el Grado 33, último de la escala del Rito Escocés Antiguo y Aceptado. En su Logia cubrió todos los cargos hasta ocupar el de Venerable Maestro en varios períodos, pero donde más brillo ganó su actuación fue en su desempeño como Orador Fiscal por su admirable elocuencia y destreza pedagógica a la hora de explicar cualquier tema en discusión. En reconocimiento a sus virtudes masónicas se le nombró Gran Maestro Adjunto de la Gran Logia de la República de Venezuela, y en honor a este ilustre maestro masón, su nombre fue adoptado como epónimo de una de las logias de su ciudad natal.

 

Dedicación al espiritismo

           Pedro Barboza de la Torre nació y creció en un hogar espírita. Su padre, Pedro René se contó entre los fundadores y activos dirigentes de la Sociedad Espírita Kardeciana de Maracaibo, junto a notables estudiosos del espiritismo como Isidro Valles, Valmore Rodríguez, Manuel Matos Romero, Alberto Hernández, quienes también se destacaron como líderes sociales y culturales de la capital zuliana.

          Desde muy joven leyó a los principales autores espiritistas, comenzando con Allan Kardec, por cuyas obras sintió especial identificación y a las cuales haría referencia de manera insistente en su labor espírita posterior, sea en trabajos escritos o en las numerosas conferencias que dictaría. Sustentado en los conocimientos adquiridos en los medios académicos, pronto supo aplicarlos a la comprensión de los fundamentos doctrinarios del espiritismo, sistema de pensamiento al cual identificó claramente como una filosofía científica de consecuencias morales y sociales. Decididamente laico y librepensador, Barboza mostró su inconformidad con la tesis de que el espiritismo deba considerarse como religión, si bien respetaba con ánimo tolerante a quienes opinaban de manera distinta.

          Habiendo comprendido la necesidad de que el movimiento espírita en Venezuela estuviese mejor organizado y pudiese desarrollar programas de estudio siguiendo adecuados criterios pedagógicos, Barboza impulsó la fundación en 1958 de la Sociedad Venezolana de Investigaciones Psíquicas, en cuyo seno también se realizarían sesiones mediúmnicas debidamente orientadas y controladas. Y, siguiendo esa línea fundó en 1960 la Federación Espírita Venezolana (F.E.V) con el propósito de agrupar a los centros espíritas que funcionaban en todo el país, y tendría su sede central en Maracaibo. En ese admirable esfuerzo le acompañaron líderes espíritas de reconocidas cualidades intelectuales, sólidos conocimientos espíritas y manifiesta solvencia moral, entre los cuales cabe recordar a José Naranjo Carrillo, Celmira de Pugh, Rosa Virginia Martínez, Gastón Chocrón, José Bromberg y Ramón Ocando Pérez. La presencia de estas personalidades de la vida pública y su adhesión al espiritismo, hizo que éste adquiriese un estatus de respetabilidad social nunca antes logrado en Venezuela.

          La F.E.V. cumplió, dentro de sus posibilidades, con los objetivos trazados, y para ello impulsó un conjunto de iniciativas concretas. Se fundó la Librería Espírita Venezolana para vender y distribuir a bajos precios las obras espíritas que producían las editoras de Argentina y México; se creó la revista “Ciencia y Conciencia” para dar cabida en sus páginas a las reflexiones de los escritores espíritas de la época y a las noticias que informaban de la marcha del movimiento kardeciano en América y en Europa; se constituyó la Asociación Venezolana de Jóvenes Espíritas, con la finalidad de atraer y reunir a los jóvenes interesados en conocer la doctrina espírita; se promovió la visita de los dirigentes de la Federación a los grupos espíritas serios que estaban activos en el país para apoyarlos en sus tareas, reorientando aquellos criterios doctrinarios y procedimientos en el área de la mediumnidad que necesitaran adecuarse a las normas que son inherentes al cuerpo de ideas teóricas y prácticas del kardecismo.

           Como era perfectamente natural, la F.E.V. bajo el dinámico impulso de su presidente, estableció vínculos con los dirigentes de la C.E.P.A. (entonces Confederación Espírita Panamericana y posteriormente, Asociación Espírita Internacional CEPA) con miras a entablar relaciones de trabajo conjunto en favor del ideal espírita. Aprovechando una visita de Barboza a la ciudad de Buenos Aires en 1962, en representación oficial del Ministerio de Educación de Venezuela a un Seminario auspiciado por la UNESCO, el presidente de la F.E.V. dictó una conferencia en el salón de actos de la Confederación Espiritista Argentina, concedió una amplia entrevista a su revista oficial “La Idea”, y a partir de allí se formalizaron las relaciones entre la federación venezolana y la máxima entidad espírita panamericana.

          Una calificada delegación venezolana, encabezada por Barboza, concurrió al VI Congreso Espírita Panamericano que se celebró en la capital argentina en octubre de 1963. Tres años después le cupo la responsabilidad de organizar en Maracaibo la celebración del VII Congreso, y repetiría en esa labor, encargándose del XI Congreso, que tuvo también su sede en la capital zuliana. Lo cierto es que ya no habría eventos espíritas de alcance regional o panamericano en los que no se contase con su presencia para deleitar a los asistentes con sus magníficas e instructivas disertaciones. En representación de la C.E.P.A., como Delegado Oficial, se movilizó durante cuatro décadas como un voluntarioso difusor del ideal espírita, por toda Venezuela y por diversos lugares de América, principalmente en Colombia, Ecuador, Argentina, Puerto Rico, Honduras, Guatemala, México y Miami. Por todo ello, no podía ser más justa y merecida su elección en 1990, por decisión unánime del XV Congreso Espírita Panamericano realizado en Caracas, como Presidente de la C.E.P.A. para el siguiente trienio.

 

Escritor de múltiple y variada obra

            Escritor prolífico, dueño de una prosa correcta y refinada, la mayor parte de su vida siguió una exhaustiva rutina de trabajo intelectual orientada hacia el ancho mundo de las letras, teniendo como respaldo indispensable su amplísima biblioteca. Elegido por sus colegas zulianos, llegó a ocupar la presidencia de la Asociación de Escritores. De esa incesante y apasionada vocación por la escritura, vieron la luz numerosos libros, monografías, opúsculos, manuales, prólogos, artículos y crónicas de prensa, que le sitúan en un puesto significativo de las letras venezolanas del siglo XX. Mencionaremos solo algunos títulos claves de su extensa producción, repartidos entre las diversas áreas temáticas que ocuparon su atención:

         Su veta jurídica se expresó en decenas de trabajos de índole doctrinaria sobre la naturaleza del Derecho y sobre las relaciones entre el Derecho y las ciencias sociales,  que fueron publicados por revistas arbitradas, y en las obras Sociología jurídica, Influencia del derecho antropológico en el derecho especial, recomendados como textos de estudios universitarios.

         En el campo de la pedagogía, deben citarse sus libros Recursos para estudiosos, El bibliotecario universitario docente, Manual sobre investigación bibliográfica, Planificación metodológica de la investigación.

         De su ingente producción masónica tenemos: Curso de Aprendiz Masón, Curso de Compañero Masón, Curso de Maestro Masón, Manual de los 33 Grados de la Masonería, Masonería en acción.

          Por supuesto, mucho le debe la bibliografía espiritista a su inagotable talento, a su amor al estudio y a la investigación, a su entrega por la enseñanza de los principios del espiritismo, a su empeño para darle forma a una cultura espírita, dando a conocer y comprender la doctrina espírita en su verdadero carácter filosófico, científico, moral, sociológico, plenamente humanista y librepensador. Barboza escribió mucho para ayudar a  la consecución de tales propósitos, y de ello dejó constancia en variados libros y artículos diseminados por numerosas publicaciones del continente americano, que, dada su cantidad, es muy difícil referir aquí, aunque allí están para auxilio de los estudiosos: Comentarios a la doctrina espírita, Cronología espírita, Espiritismo para católicos, Espiritismo para espiritistas, El espiritista Monseñor Enrique María Dubuc, Desarrollo de médiums, Repertorio experimental para la mediumnidad, De la sombra del dogma a la luz de la razón.

         

La impronta de su legado espírita

 Ejemplo de hombre culto que supo relacionar el conocimiento adquirido en la universidad y los medios académicos con el ideario espírita. Pensador de altos vuelos, sin que por ello dejase de actuar con humildad y generosidad. Laico, racionalista, librepensador, y a la vez, abierto y tolerante hacia todas las creencias. Habiendo comprendido que el espiritismo necesita ser organizado en agrupaciones dinámicas que estén en sintonía con la marcha de los tiempos, nunca regateó sus esfuerzos ni sus recursos para impulsar la creación de sociedades y federaciones espíritas, movilizándose a todas partes para dictar seminarios y conferencias. Eficiente director de sesiones mediúmnicas, actuó siempre con sabiduría, firmeza, respeto y serenidad, para obtener los mejores frutos del diálogo e intercambio con el mundo espiritual. Generoso para respaldar a los líderes  que emergían de las nuevas generaciones, estuvo presto para compartir sus vastos conocimientos y su amplia experiencia. Por todo ello, y por mucho más, no es posible prescindir de la figura de Pedro Alciro Barboza de la Torre a la hora de recordar y evaluar al espiritismo de América durante el siglo XX.