OPINIÃO EM TÓPICOS
Milton Medran Moreira
POLARIZAÇÃO
POLÍTICA
Não
sei onde vai parar essa polarização político-ideológica que tomou conta do
Brasil.
Sei,
sim, que, no campo das ideias políticas e sociais, há duas forças que, para
todo sempre, hão de se digladiar.
Elas são tese
e antítese que alimentam o fluir do processo político. Estão presentes na
política porque, igualmente, movem o processo individual de crescimento do
espírito humano.
Uma busca
preservar os valores conquistados. A outra estimula mudanças mediante a
superação do que ontem era um valor e hoje pode ser descartado porque
incompatível com os novos tempos.
Allan Kardec
expressou esses dois movimentos mediante o que denominou Lei de Conservação e
Lei de Destruição.
DIALÉTICA
Entretanto, é
justamente desse embate dialético que deve resultar uma síntese, capaz de
harmonizar as duas tendências humanas e sociais. Novamente, Kardec! Ele
compreendeu as forças componentes desse processo e nominou como Lei do
Progresso o estágio capaz de harmonizar e sintetizar os movimentos
conservadores e destruidores.
Democracia,
tolerância, fraternidade, diálogo são, contudo, elementos que o humanismo
introduziu para tornar suportável e eficiente essa luta natural entre a tese e
a antítese, abrindo espaço à síntese.
Não é, pois,
uma luta entre o bem e o mal. Contudo, o que desvirtuou nosso processo político
foi, justamente, a ideia de que quem está de um dos dois lados está com o bem,
enquanto o mal caracteriza definitiva e irremediavelmente os do lado oposto.
IDEOLOGIAS
Maus
políticos, interesseiros e populistas, valendo-se, mesmo da religião – e esta,
sim, calca-se numa base doutrinária fundamentalmente dualista e maniqueísta – é
que conferiram às ideologias esses pretensos rótulos de boas e más.
Ideologias são
visões de mundo que diferentes grupos sociais têm, buscando proteger seus
interesses coletivos. Em princípio, não são boas ou más. São expressas por meio
de ideias que formam a base doutrinária de partidos políticos. Partidos são
partes de um todo. Protegem interesses coletivos que, necessariamente, não
contemplam os anseios de uma nação inteira.
Evidentemente,
há ideologias mais generosas que outras e há agrupamentos políticos que
oferecem instrumentos mais voltados à igualdade de direito e à justiça social.
A eles se tem denominado de progressistas, em contraposição ao conservadorismo
de outros. Isso, no entanto, não lhes garante a supremacia e a posse exclusiva
do bem e da verdade. Até porque nenhum agrupamento humano, por melhor que sejam
as ideias por ele teoricamente defendidas, está infenso, na prática, à
manipulação de pessoas inescrupulosas, interesseiras, hipócritas e
aproveitadoras.
EM SÍNTESE
Por isso tudo,
e em meio, mesmo, aos extremismos dessa polarização a que fomos levados pelo
discurso de ódio de maus homens públicos, tenho buscado não medir ninguém
exclusivamente pela régua política.
Rejeito a
ideia de que quem está ou esteve, em determinado momento, ao lado do político A
ou B, seja, necessariamente, igual a ele. Mesmo que eu jamais venha a apoiar
quem abrace ideias com as quais, por princípios filosóficos, eu nunca
concordaria, procuro não julgar o outro exclusivamente por suas preferências
eleitorais.
Posições
políticas sempre são precárias. Meras ferramentas na construção do progresso.
Atendem interesses coletivos ou individuais válidos para aquele momento
histórico. Não convém tomar líderes políticos como mitos, nem ideologias como
salvadoras do mundo. Cidadão que assim procede pode estar tendo uma visão muito
distorcida da exequibilidade das próprias ideias que defende. Ou, pragmático,
esteja vendo seu candidato apenas como o meio capaz de derrubar o ídolo do
outro, a seu juízo, pior que o dele.
A vida e o
relacionamento plural me ensinaram que quem está do outro lado pode ser um
sonhador, um ingênuo, um ludibriado, mas, nem por isso, um mal-intencionado. E
frequentemente é nosso próprio pai, um irmão, um amigo querido. É um bom chefe
de família, profissional responsável, bom colega, vizinho solícito, bem
diferente do candidato que cultua ou do agrupamento político no qual detectamos
tanto atraso e, às vezes, muita hipocrisia.
Artigo publicado no Jornal Abertura de outubro de 2024, gostaria de ler o jornal completo?
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