sábado, 1 de outubro de 2011

Jaci Régis biografia e vida

Jaci Regis
Um Radical Discípulo de Kardec

O espaço destinado a Jaci Regis na história do Espiritismo depende de quem conta a história. O que não se pode negar, entretanto, é que ele é uma das personalidades mais marcantes da história contemporânea do Espiritismo. Um homem que conseguiu questionar e abalar as estruturas do movimento espírita oficial, introduzindo a crítica fundamentada, numa obra profunda, contundente, consistente, contra-hegemônica e..., portanto, profundamente polêmica.
Polêmico por natureza, personificou a contradição em toda sua essência. Era, ao mesmo tempo, um homem sensível, culto, repleto de ternura, explosivo, ríspido e autoritário. Acessível às novas idéias, progressista, estimulou e defendeu a adoção de comportamentos responsáveis e livres de preconceitos no que diz respeito à sexualidade e à liberdade, fundamentais para a construção da felicidade humana, que compreendia como diretamente ligada à busca do prazer. Por outro lado, era politicamente conservador, um liberal clássico na acepção da palavra, que nutria exagerada antipatia ao socialismo e a esquerda em geral.
Filho de Octávio Regis e Izolina Adriano Regis, espíritas praticantes, nasceu em Florianópolis, em 30 de outubro de 1932, sendo o sexto filho de uma prole composta por oito irmãos: Otávio, Arnaldo, Francisco, Albertina, Mariazinha (já falecidos), além de Ivon, Luci e Egydio. Fez o curso primário nesta cidade catarinense, onde começou a frequentar o Catecismo Espírita e, mais tarde, a Mocidade Espírita.
No início de 1947 veio para Santos com a família e em novembro deste ano entrou para a Juventude Espírita de Santos, recém-fundada pelo Centro Espírita Manoel Gonçalves. A partir daí começa a sua exitosa trajetória de líder, divulgador e pensador espírita, destacando-se pela sua inteligência, impulsividade e criatividade. Em 1949, quando a Juventude, já então denominada Mocidade Espírita Estudantes da Verdade (MEEV), mudou-se para o Centro Beneficente Evangélico, assumiu a liderança da mesma (tinha então 17 anos) com a transferência de Alexandre Soares Barbosa, fundador e grande polarizador dos jovens, para a cidade de Araraquara.
Em 1952 liderou o movimento que assumiu a direção do Centro Beneficente Evangélico. A partir daí esse centro tomaria um rumo diferenciado dos demais. Por sua sugestão, a casa mudou o nome para Centro Espírita Allan Kardec (CEAK).
Em 1962 liderou outro movimento composto por um grupo de jovens que assumiu a direção da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda, fundada em 1954, da qual foi presidente por 32 anos. Sua gestão foi marcada por grandes realizações, culminando com a construção de um belo prédio, sede da creche que atende hoje 130 crianças e 80 mães, e outro para a escola (posteriormente vendido) que continua atendendo 60 crianças.
Participou destacadamente do movimento juvenil no Estado de São Paulo, sempre combativo e inovador. Foi um dos fundadores da União Municipal Espírita de Santos (UMES), em 1951, sendo seu primeiro vice-presidente. Foi idealizador e presidente da Divulgação Cultural Espírita (Dicesp), órgão da UMES, desenvolvendo um grande trabalho de divulgação. Jovens da MEEV, editavam o jornal Espiritismo, que posteriormente fundiu-se com o jornal Mensageiro da União, órgão da UMES, surgindo o "Espiritismo e Unificação", do qual foi diretor e editor por mais de 23 anos, em companhia de José Rodrigues, que faleceu também em 2010.
A partir das divergências e disputas encetadas com o segmento religioso da UMES, fundou a Livraria Cultural Espírita (Licespe), vinculada ao Lar Veneranda. E o Jornal ABERTURA, em 1987, do qual foi presidente e redator até o seu desencarne.
Por cinco décadas foi membro do Conselho Diretor e participou de atividades doutrinárias no CEAK, do qual foi presidente por 12 anos. Em 1999, afastou-se do CEAK e fundou o Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), entidade ligada ao Lar Veneranda, que presidiu até o seu desencarne. Também presidia, desde 1994, o Conselho Deliberativo do Lar Veneranda. Sempre empreendedor, criou em 2009 uma OCIP, denominada Lar Ven, para cuidar dos cursos profissionalizantes ministrados no Edifício Jaci Régis, pertencente ao Lar Veneranda e sede do ICKS e do Lar Ven.
Escreveu as seguintes obras: A Mulher na Dimensão Espírita, em parceria com Nancy Puhlmann Di Girolamo e Marlene Rossi Severino Nobre (1975), Amor, Casamento & Família (1977), Comportamento Espírita (1981), O Poder no Movimento Espírita (1981), Uma Nova Visão do Homem e do Mundo (1984), Caminhos da Liberdade (1990), o romance As Muralhas do Passado (1993) Introdução À Doutrina Kardecista (1997), A Delicada Questão do Sexo e do Amor (1999), Doutrina Kardecista - Uma releitura da Obra de Allan Kardec (2005), Novas Idéias - Textos Reescritos (2007), Doutrina Kardecista - Modelo conceitual (2008) e Novo Pensar - Deus, Homem e Mundo (2009).
Dirigente, orador, divulgador do Espiritismo, escritor, jornalista, por décadas dedicou-se à causa espírita, desempenhando inúmeros e relevantes papéis. Poucos, entretanto, sabem que Jaci, muito embora tenha cedo iniciado seu contato com a mediunidade, dirigindo reuniões por muitos anos, tardiamente desenvolveu faculdades mediúnicas, tendo contribuído por muitos anos como médium em reuniões de desobsessão, assistência espiritual e de pesquisa mediúnica no CEAK. Por 17 anos interrompeu suas atividades mediúnicas, mas há pouco mais de um ano as tinha retomando nas reuniões do Gabinete Psico-Mediúnico do ICKS.
Era casado com Palmyra há 57 anos, companheira dedicada que conheceu na época de mocidade espírita e com a qual teve 6 filhos: Valéria (pedagoga), Rosana (assistente social), Gisela (bióloga), Cláudia (psicóloga), Fernando Augusto (médico) e Marcelo (engenheiro). Seus genros, Junior Oliveira, Roberto Rufo e Alexandre Machado, inspirados em seu exemplo e dedicação, tornaram-se militantes espíritas muito valorosos. A maioria dos seus 11 netos participa ativamente da MEEV. Atualmente o Lar Veneranda é dirigido por sua filha, Valéria Regis Silva, e sua numerosa e devotada família participa ativamente na gestão desta entidade, bem como do Jornal Abertura, do Lar Ven e do ICKS.
Trabalhou durante 30 anos, até aposentar-se, na Refinaria Presidente Bernardes - Petrobrás, chegando a cargos de chefia de departamentos. Formou-se em Economia, Jornalismo e Psicologia.
Freudiano assumido, era psicólogo clínico e até o seu desencarne exercia intensa atividade profissional, que influiu decisivamente para que se dedicasse a abordagem de temas relacionados ao comportamento humano, a sexualidade, a família, a personalidade humana e suas relações com os problemas afetivos e psíquicos. Desenvolveu, ao longo da década de 90 do século passado, uma teoria a que denominou Espiritossomática, procurando estabelecer pontos de confluência e a construção de uma práxis terapêutica a partir das contribuições doutrinárias do Espiritismo e de outras áreas da Psicologia, em particular a psicanálise.
Era expositor e autor que fazia (e continuará fazendo) muito sucesso entre os jovens e espíritas livre-pensadores, desprovidos de preconceitos, tocados pelos argumentos e pela abordagem moderna, aberta, fundamentada e consistente com quem lidava com os mais diversos temas doutrinários e problemas humanos.
Um autor que possuía um estilo peculiar, de reconhecida competência. Sua pena produzia há décadas ensaios e crônicas, publicadas em jornais e livros, de rara sensibilidade e ternura, que tocam as mais profundas fímbrias de nossos corações e mentes. Um texto sensível e criativo, sem que recorresse à mesmice que caracteriza a literatura espírita. Ao mesmo tempo, era capaz de produzir artigos, trabalhos, textos e livros de cunho doutrinários que se constituíram em verdadeiros clássicos da literatura espírita contemporânea, indispensáveis aos estudiosos da Doutrina Espírita. Desenvolveu uma linha de raciocínio e argumentação extremamente fundamentada e consistente, a partir dos postulados de Kardec – que conhecia como poucos.
Era um líder nato e grande realizador. Não há dúvidas de que o Lar Veneranda foi a grande obra de sua vida, pois embora tenha tido inúmeros e valorosos colaboradores, sua obstinação, competência e liderança foram fundamentais para erguer e consolidar esta instituição modelar.
Sua contribuição intelectual ao pensamento espírita, por outro lado, foi sendo desenvolvida e aperfeiçoada num processo no qual se destacam três fatos de fundamental importância na definição de sua obra: a "descoberta" de Freud e sua formação psicanalítica, no curso de Psicologia; o acesso às informações contidas na Revista Espírita, o que lhe permitiu um aprofundamento e a contextualização do pensamento de Kardec; e, por fim, a elaboração de uma proposta de re-leitura de Kardec, uma reconceituação das atividades doutrinárias, de modo a adequá-las aos princípios e objetivos do Espiritismo, num movimento criado e difundido a partir de 1978, ao qual denominou "Espiritização", que alcançou grande repercussão no movimento espírita.
Constituiu-se, sem dúvida, no mais contundente e consistente crítico do Espiritismo evangélico/cristão e do não assumido roustanguismo da Federação Espírita Brasileira. Denunciou a concentração de poder nas mãos dos conservadores dirigentes das federativas e suas nefastas consequências. Impulsionou, a partir de meados da década de 80, a discussão em torno do caráter religioso do espiritismo, defendendo vigorosamente que o espiritismo não é uma religião, combatendo a incorporação de práticas e rituais religiosos pelo movimento e as distorções no uso e prática da mediunidade.
Foi um dos líderes, em 1986, da chapa de oposição à USE-SP, que terminou amplamente derrotada. A este processo seguiu-se uma verdadeira caça às bruxas, que objetivava isolar todos aqueles que de alguma forma estavam próximos ao "Grupo de Santos", ou seja, os influenciados e/ou liderados por Jaci Regis.
Foi deliberadamente satanizado, rotulado de obsedado por seus "fraternos" inimigos. A divulgação do jornal por ele dirigido e de seus livros foram proibidos. Deixou de ser convidado para proferir palestras e conferências. As entidades do movimento de unificação do Espiritismo brasileiro procuraram isolá-lo, crentes que desta forma conseguiriam sufocar a crítica à deturpação do Espiritismo por eles transformado em uma religião conservadora e assim sufocar a retomada de um movimento genuinamente kardecista, progressista e laico.
Buscando construir uma estratégia que pudesse romper o isolamento dos espíritas kardecistas que haviam sido excluídos e marginalizados (ou que se auto-excluíram por não suportarem mais as condições impostas pelo movimento oficial), idealizou e realizou em 1989 o I Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), bianual, destinado a estimular a produção doutrinária de espíritas encarnados, que este ano atingirá a sua 12a edição ininterrupta. Jaci Regis proporcionou com o SBPE um reencontro de antigos líderes espíritas e o surgimento de uma nova e promissora geração de dirigentes espíritas. Com isto, houve um grande fortalecimento e a definitiva capilarização da CEPA em todo o território nacional, que culminou com a criação da CEPABrasil, que tradicionalmente realiza suas assembléias durante esse evento.
Proferiu palestras e conferências em vários eventos internacionais realizados pela CEPA. Assim, tornou-se conhecido (e suas idéias reconhecidas) na Argentina, Venezuela, Espanha, etc., bem como seus livros e artigos traduzidos para o espanhol. Inicialmente manteve uma posição de autonomia em relação à entidade, mas aos poucos foi se aproximando, culminando com a adesão do ICKS à CEPA e a sua participação, em parceria com Milton Medran, da Secretaria Editorial do Conselho Executivo da CEPA, eleito em Porto Rico, para a gestão 2008-2012.
Embora tenha participado ativamente de seus eventos e seja responsável por vasta contribuição intelectual ao debate de ideias no seio desta instituição, manteve sempre uma relação extremamente tensionada, quase conflituosa. Na última década “sacudiu” o movimento espírita laico dirigido pela CEPA, a quem prioritariamente procurava estabelecer um diálogo, ao propor novos rumos para o espiritismo a partir de algumas ideias que sintetizam parte dos consensos construídos no interior deste movimento nos últimos anos com outros conceitos e propostas instigantes e polêmicas. Concebeu um Novo Modelo Conceitual, com o qual se propunha a reescrever o modelo espírita, e a Doutrina Kardecista, que finalmente vinha denominando Ciência da Alma. Em setembro de 2010 esteve presente no II Encontro Nacional da CEPABrasil, em Bento Gonçalves, discutindo em toda a radicalidade o seu Modelo Conceitual e a Ciência da Alma. Tratam-se de contribuições fundamentais que devem ser amplamente debatidas e aprofundadas, dado o alcance e repercussões das proposituras ali contidas.
Era sem dúvida um espírito complexo e profundamente polêmico: íntegro, direto, inquieto, impulsivo, autoritário, muitas vezes ríspido. Ao mesmo tempo era um homem sensível, sereno, amável, carinhoso e profundamente benemerente.
Entre os adeptos do Espiritismo e dirigentes espíritas, é admirado por muitos, odiado por tantos outros, mas respeitado por todos. Um espírita que ousou romper a mediocridade reinante. Alguém que contribuiu como poucos (e ainda contribuirá por muito tempo) com o estudo e a divulgação do Espiritismo, comprometido de fato com o pensamento de Kardec, numa dinâmica libertária, capaz de produzir uma nova visão do homem e do mundo. Um dirigente espírita influenciou profundamente a cada um dos que com ele conviveu ou teve acesso a suas ideias e pensamentos. Um líder na essência da palavra, com seus erros e acertos, defeitos e virtudes. Uma vida dedicada com amor e paixão ao Espiritismo. Inquestionavelmente, uma das grandes personalidades espíritas do século 20 e da primeira década do 21.
Até a véspera de sua internação na Santa Casa de Santos, em decorrência de insuficiência renal crônica, vinha trabalhando normalmente em seu consultório e em suas atividades doutrinárias. Mas o corpo cansado, embora tenha deixado a UTI por 2 dias, não mais resistiu. Jaci Regis desencarnou no dia 13 de dezembro de 2010, aos 78 anos de vida, em Santos, após 45 dias de hospitalização.
Retornou ao mundo dos espíritos, onde queridos companheiros devem (em festa) tê-lo recebido. Deixa-nos, entretanto, com a firme convicção de que a partir desta data o clima de contemplação e tranquilidade idealizado por muitos para caracterizar o mundo dos espíritos estará com os dias contados. Em breve, o mais radical discípulo de Kardec estará de volta, com toda a sua genialidade e inquietude, produzindo entre encarnados e desencarnados novas reflexões, desmobilizando o conservadorismo reinante, instigando a todos a dar continuidade à permanente atualização do pensamento espírita, a buscar incansavelmente o conhecimento e o crescimento espiritual. E, ao mesmo tempo, envolvido nas tarefas de acolhimento aos que padecem de sofrimentos psíquicos e morais e que necessitarem de sua ajuda qualificada e amorosa.
O desencarne de Jaci Regis, por tudo que ele representa para incontáveis espíritas em todo o mundo, não será o fim de uma história. Não extinguirá a trincheira libertária que ele abriu nas mentes de várias gerações de espíritas. O movimento emancipatório que ele liderou terá continuidade. Caberá a cada um de nós, que ao longo de nossas vidas nos iluminamos a partir de suas ideias, dar continuidade, de alguma forma, às diversas frentes que esse homem (insubstituível) plantou, cultivou e viu florescer. Cuidar desse imenso jardim não é tarefa para poucos, mas terá continuidade.

Ademar Arthur Chioro dos Reis

3 comentários:

  1. Jaci foi um grande mestre, sua vida aqui descrita pelo Ademar, nada menos do que o o Terceiro Vice-Presidente da CEPA demonstra em detalhes a trajetória deste grande homem.

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  2. Em 3 dias, no dia 13 de dezembro fará 1 ano da desencarnação deste grande pensador espírita.

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  3. No dia 13 de Dezembro de 2011 - fará 1 ano da desencarnação deste grande pensador espírita.

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