O Real e o Virtual
Eugenio
Lara
Interessante observar as
similaridades entre o conceito espírita de mundo extrafísico e a realidade
virtual. Quando se adentra e se imerge num mundo onde não há o espaço nem o tempo
que, portanto, não influem em nossa percepção simplesmente porque não existem,
a realidade muda completamente, assim como nossa percepção dessa mesma
realidade. Não há lugar, não há sucessão temporal.
Na realidade virtual, o sujeito/objeto
e o objeto/sujeito estão imersos em um mundo atópico, acrônico, características
essenciais do ciberespaço. Num certo sentido, o mundo virtual gerado pela
cibernética, pela internet, as redes sociais, o ciberespaço, é um mundo com
características semelhantes ao mundo extrafísico, é seu reflexo, mas não há
lugar, não há espaço, não há corpo e o tempo deixa de ser contado, deixa de
existir. É o eterno presente, a realidade on-line.
Atopia é a
ausência de espaço, de lugar, como aquela estranha e engraçada casa do poema de
Vinícius de Morais: “não tinha teto não tinha nada”, não tinha chão, não tinha
parede... E Acronia é a inexistência
do tempo, de sua não decorrência, da insucessão das coisas. O mundo virtual se
define por ser atópico e acrônico, particularidades basilares do mundo
extrafísico, do mundo dos espíritos, sem tempo e sem espaço.
A percepção do tempo e do
espaço se dá através da experiência corporal, das sensações físicas, no
enfrentamento das vicissitudes. Na visão espírita, vicissitude é um conjunto de
necessidades, de limitações físicas, psíquicas e psicológicas. Trata-se do
enfrentamento da materialidade no processo evolutivo, no embate, na superação
de toda e qualquer limitação, segundo a causalidade e a casualidade.
Pela causalidade, em função da materialidade como causa eficiente, fatal,
da palingenesia e, da casualidade,
devido à inexistência de fatalidade nas ações humanas, volitivas e delineadas
pelo livre-arbítrio. É o acaso, descartado pelos espíritos, na época, em função
do padrão newtoniano vigente, mas que sob outra ótica, quântica, exerce
importante papel na realidade, seja ela física ou extrafísica, real ou virtual.
E a simulação do real pelo
virtual é tão intensa e impregnante que há quem tenha predileção pela vida
virtual em detrimento da real, como naquele famoso game Second Life. É a segunda vida, paralela, adjacente, vida contígua e
que transcende a vida atual, real. Há quem se realize no Facebook e nas redes
sociais, preferindo o ser virtual ao ser real.
A realidade virtual se
renderiza; o espírito se materializa, se corporifica, reencarna. O corpo ensina
a consciência. A consciência se expande através do corpo, que recebe os
impulsos mentais durante a encarnação, mas possui sua própria determinação,
suas próprias leis. O mecanismo da vida não depende do espírito para existir,
ele simplesmente existe, resultante da seleção natural, da evolução universal.
O virtual
colocava-se no plano da possibilidade, do vir a ser, de algo quase que
totalmente possível, daí as expressões “o virtual candidato”, “o virtual
campeão”. Expressões que hoje fornecem outro entendimento, ganharam outro
significado, porque o virtual conquistou autonomia, é “existente”, a realidade
simulada, a hiper-realidade, o simulacro de que falava o filósofo pós-moderno
Baudrillard: “É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade:
hiper-real”. (Jean Baudrillard - Simulacros
e Simulação).
O advento da realidade virtual
recoloca a histórica questão entre a matéria e o espírito, entre a alma e o
corpo, entre o físico e o extrafísico. Do mesmo modo que podemos simular a
realidade extrafísica através do mundo virtual, suponho que a recíproca também
seja verdadeira. No extrafísico, a simulação do físico, reproduzindo de forma
artificial o físico na realidade extrafísica, o que permitiria, teoricamente,
ao espírito na erraticidade, permanecer de modo indefinido nesse estado
transitório, sem precisar reencarnar, ato que dependerá, tão-somente, de seu
livre-arbítrio e merecimento moral.
Se na astronáutica simulamos a
ausência da gravidade, de modo análogo, no extrafísico, pode-se simular o
físico, em processo inverso ao da realidade virtual, como se o virtual se
apoderasse do real, na metáfora da Matrix, da simulação da realidade. Mera
aparência que daria razão à tese orientalista de que vivemos em um mundo de
aparências, no mundo de Maya ou num mundo de simulacros, segundo Baudrillard.
Ou, de modo verossímil, na
ideia de Avatar, da consciência em outro corpo, virtual, simulado, mas que
promove reações no corpo originário da consciência encarnada. Interessante lembrar que a palavra Avatar vem do sânscrito e
significa a encarnação de uma consciência imortal, de uma suprema criatura como
Krishna, na filosofia hindu. Na linguagem cristã, Jesus seria um Avatar: “o
verbo que se fez carne”.
Por outro lado, lembremos de
Kardec ao afirmar que o mundo extrafísico é o mundo primitivo, originário: “O mundo espírita é o mundo
normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo. O mundo corporal
é secundário; poderia deixar de existir ou nunca ter existido, sem alterar a
essência do mundo espírita”. (Allan Kardec - O Livro dos Espíritos, Introdução).
Não é um juízo de valor. São apenas
mundos de naturezas diferentes, essencialmente diferenciados. Algo próximo à
tese do universo holográfico, desenvolvida pelo físico quântico David Bohm, que
consiste na ideia de que todo o universo não passaria de um gigantesco
holograma (reprodução tridimensional por meio do laser), da imagem formulada e
criada pela mente como um campo único, material e consciencial. De que o
universo é uma grande projeção, de um nível de realidade além do tempo e do
espaço e, quem sabe, a projeção de uma Grande Consciência.
Eugenio
Lara
é membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita e autor de Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com
Artigo publicado no jornal Abertura de outubro de 2013
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