domingo, 12 de julho de 2026

Lavar a Alma - uma reflexão sobre o perdão por Cláudia Régis Machado


 


Lavar a alma


    Escrever temas que me inspiram é uma viagem interior, um olhar sobre minhas necessidades minhas possibilidades, dificuldades e muitas coisas mais.

    Para mim escrever não é um exercício fácil, mas insisto na oportunidade e aproveito para refletir sobre situações, leituras e o cotidiano como eles me causam impacto e para reunir argumentos e questionamentos pessoais. Só que refletir num processo interno e consciente não é a mesma coisa do que colocar no papel de forma clara e concisa e que leve as pessoas à vontade de ler e pensar sobre o assunto escrito.

    Não faço dos artigos um confessionário, mas procuro mergulhar em mim mesmo e levar o que reflito para os leitores do jornal como inspiração e busca de seus próprios questionamentos ou simplesmente para entreter em uma simples leitura.

    Procuro sempre ter o fundamento da Doutrina Espírita que constitui a base do meu olhar para o mundo e para mim mesmo.

    Com esta preliminar, este mês me veio à baila a questão do perdão, isto após conhecer a história de uma família que depois do assassinato de seu filho, conseguiu perdoar o criminoso visitando-o no presídio e esta atitude foi conseguida com o esforço deles, desenvolvido em atos e campanhas de benemerências e de promoção social.

    Este fato assim como outros me traz muita admiração por estas pessoas, pois perdoar não é uma atitude fácil a sua execução requer muitos sentimentos para que este se concretiza.

    Quando o Evangelho coloca a resposta de Jesus a pergunta “Quantas vezes temos que perdoar? E a resposta é setenta vezes 7, vira quase um mantra de conscientização para conduzir a realização do movimento do perdão.



    Muitas vezes não passamos por situações tão graves e já encontramos dificuldade em nos desculpar; imagino as pessoas que tem dores profundas, que machucam a alma e perdoam como no caso da história que coloquei acima, o que demonstra que é possível.

    Adentrei mais sobre o assunto, fiz pequenas leituras para aprofundar um pouco mais. A definição para o vocábulo perdoar que é uma expressão latina e é assim construída per + donare, sendo Per= além e Donare = doar. Doar além, dar um pouco mais.

    Perdoar é um procedimento racional, uma decisão racional, isto é, não vem do coração ao contrário é um processo íntimo e mental que advém de ponderação e considerações como o quanto podemos fazer, qual o benefício e os ganhos pessoais e muitas questões mais. Geralmente a pessoa ou o acontecimento a ser perdoar causou mágoa o que traz dor emocional e física levando a ressentimentos, raiva, sentimento de vingança e de justiça.

    Tudo isto precisa ser entendido além do mais incluir as dificuldades do agressor e muitas vezes se colocar no lugar do outro e ver a si mesmo como agiria em situação semelhante. Porque também não somos infalíveis principalmente no estágio de evolução que nos encontramos. Não precisamos estar sozinhos neste aprendizado a ajuda de terapeutas e pessoas dedicadas e especializadas são de grande valia.

    Do ponto de vista espírita todos esses passos são positivos pois ajudam em nosso progresso pessoal, compreendendo que estamos aqui para aprender e evoluir, e o mais importante procurar uma vida produtiva que não tenham entraves para a felicidade e realizações. O sentimento de vingança e ressentimento trazem um impacto negativo na nossa realidade espiritual, aqui não colocamos como algo para ganhar pontos frente a espiritualidade mais como ganho para o próprio espírito.

    Como toda evolução e aprendizado há um caminho muitas vezes árduos pois são situações que causaram mágoas e muita tristeza. Ato de perdoar é um ato de superação, dar um pouco mais que sem dúvida exige muito esforço.

    Perdoar é o ato de se desprender dos ressentimentos e pode ser visto de forma didática em alguns tipos como:1- Perdão de si mesmo, 2- Perdão de pessoa para pessoa e 3- Perdão social.

    Talvez seja bom lembrar que para perdoar não é necessário ter uma relação próxima ou de convívio, muitas vezes estabelecer limites é saudável para nós. Conseguir perdoar traz uma libertação emocional, acarreta leveza para alma, paz interna e equilíbrio. Faz-nos sentir bem e acima de tudo nos dá a possibilidade de avançar com o coração limpo, sem guardar mágoas dentro dele. Tem um poder curativo           

    Perdoar as nossas dívidas assim como perdoamos os nossos devedores, é algo desejado. Fazer aos outros aquilo que desejamos para nós mesmos.

    Perdoar ainda não é uma atitude espontânea pequenos passos como desculpar, tolerar e gradativamente esta virtude pode nos tornar melhor, podendo dar além, dar um pouco mais. Começo de uma longa caminhada.

    Como tudo na vida o mais difícil é dar o primeiro passo.

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Este artigo foi publicado originalmente no Jornal Abertura de abril de 2024.

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