quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Perispírito segundo Jaci Régis - uma análise comparativa por Egydio Régis


Esta semana relendo o Caderno Cultural Espírita- edição de outubro de 2002- editado ICKS, tive a oportunidade de mais uma vez saborear a matéria sobre o perispírito. Marcelo Coimbra Regis e Reinaldo di Lucia exploraram de maneira objetiva e corajosa à luz dos modernos conhecimentos científicos “o corpo espiritual” das mais antigas culturas e o perispírito da era kardecista. Jaci fecha a matéria do Caderno com sua habitual visão e corajosa posição revolucinária quanto a revisão e atualização de alguns conceitos doutrinários. Mas, antes de chegarmos à lição do Jaci, vamos fazer algumas considerações a respeito do que se falou e se fala sobre o perispírito.
Recentemente fiz uma busca na internet para ver se conseguia algo atual, baseado em pesquisa científica, sobre o perispírito. Entrei em um site que se propõe a entrevistar cientistas (?) e apresentar informações sobre pesquisa de assuntos ligados ao Espiritismo e Espiritualidade em geral. Abri um vídeo com entrevista de um companheiro de D.E., o estudioso e conhecido Eng. Ney Prieto Perez.

Fiquei atento na esperança de ouvir novidades a respeito do tema. Infelizmente nada mais foi acrescentado além do que já se escreveu. Definição de Kardec (aliás a mais precisa se considerarmos os conhecimentos científicos da época e sem inventar teorias que não pudessem se sustentar com o tempo.), informações de A. Luiz, teoria do MOB- Hernani Guimarães Andrade e outros.Nenhuma nova ou arrojada teoria. Todos circulam em volta do que escreveram Denis, Dellane, além dos acima citados. Parecem satisfeitos a despeito da evolução científica e da assertiva progressista de Kardec, quando afirmou que o Espiritismo não disse a última palavra e que ele (o Espiritismo) deveria acompanhar o desenvolvimento científico, sob pena de sucumbir como todas as doutrinas que pararam no tempo. Esses nossos confrades de reconhecida inteligência e de formação científica (embora não sejam cientistas) continuam presos à ideia de que o Espiritismo foi ditado por Espíritos Superiores e que espíritos como Emmanuel, por exemplo, são autoridades incontestáveis.

Assim, todos os pesquisadores, como o citado Hernani G.Andrade e poucos outros, procuram desenvolver suas teses com base nessas informações e conformar suas conclusões de modo a não mudar o que consideram sagrado, isto é, o que os Espíritos disseram. Nada se cria, nada é original. O próprio Modelo Organizador Biológico, criado por Hernani ( a quem admiramos desde de nossa juventude) que é considerado o trabalho de maior respeito pelo movimento espírita, não criou nada de novo além de A.Luiz e apenas deu nova e atualizada roupagem sobre as propriedades do perispírito. É bem verdade que A. Luiz trouxe notável contribuição para estudo sobre o corpo do Espírito e é pena que algumas de suas colocações não foram suficientemente compreendidas e aproveitadas pelos estudiosos, exceção feita, como veremos, a Jaci Regis.

No mês de outubro de 2002, foi lançada pelo Instituto Cultural Kardecista de Santos, a primeira (se não me engano a única) edição do Caderno Cultural Espírita. A matéria objeto dessa publicação foi sobre o perispírito, dentro de uma nova abordagem. Dois jovens engenheiros espíritas- Marcelo Coimbra Regis e Reinaldo Di Lucia, juntamente com Jaci, desenvolveram, sob ângulos diferentes, ideias sobre funções e constituição do perispírito baseados em autores clássicos encarnados, desencarnados contemporâneos e em conceitos científicos modernos.

Em síntese, a conclusão de ambos deixa bem claro que o conceito dos autores clássicos, assim como dos Espíritos contemporâneos, que têm o perispírito como entidade modelar do corpo humano e guardião da memória do espírito através das encarnações, não se sustenta à luz da ciência e da lógica filosófica do Espiritismo. Marcelo faz uma análise das posições de autores como Gabriel Dellane, Ernesto Bozzano, assim como de André Luiz, concluindo quanto aos dois primeiros: “Ernesto Bozzano e principalmente Gabriel Dellane transferem para o perispírito atribuições antes reputadas ao espírito, bem como todas as funções orgânicas não explicáveis até sua época. Enquanto A.Kardec posicionava o perispírito mais do ponto de vista de sua necessidade fisiológica, seus seguidores europeus viram no mesmo a chave para explicação de muitos fenômenos materiais não explicados. Além disso eles materializaram em demasia o espírito transferindo para o perispírito o foco de atenção da ciência Espírita.” Em relação a André Luiz conclui: “ A. Luiz avança ainda mais na valorização do perispírito como coordenador de todas as funções e processos corporais.Para ele o Corpo Espiritual é a sede da evolução física do Homem tanto encarnado quanto desencarnado. Destaca-se aqui seu papel ativo e detalhista nas atividades orgânicas e psíquicas do Homem, relegando ao Corpo Físico um papel secundário, de menor importância, passando ao perispírito todas as funções superiores.”

Entrando no campo da ciência moderna, Marcelo faz um breve comentário sobre os avanços da Biologia, especialmente no campo da genética com relevância ao DNA. São suas conclusões: “ A genética revelou que o corpo possui um programa escrito em seus cromossomos, formado durante séculos de evolução contínua... o Corpo Humano é um organismo complexo,auto-suficiente em suas funções básicas, possuidor de mecanismos que permitem sua perpetuação e a manutenção de sua estabilidade, sem a necessidade de uma interferência direta do perispírito.”

Reinaldo de Lucia aprofunda o tema analisando os novos conceitos da Física, principalmente em relação à matéria/energia que revolucionou o entendimento científico do século XIX. Diz ele: “O problema está no pensar da ciência do século XIX. Esta ciência é discreta, ou seja, pensa o Universo macroscopicamente, em elementos distintos e estanques, ligados entre si por algum tipo de meio físico. Assim, o perispírito seria um ente particular, perfeitamente definido em si mesmo, que serviria de meio entre dois elementos: o espírito inteligente e a matéria bruta.”E continua: “ A ciência do século XX quebrou estes dois conceitos: mostrou que, apesar de no âmbito das partículas subatômicas as energias serem trocadas em quantidades determinadas. ou “pacotes” fechados e existirem “ saltos quânticos” que afetam drasticamente as partículas, no mundo macro há um desenvolvimento contínuo da matéria no que tange, por exemplo, às freqüências envolvidas, nos níveis em que é possível a detecção pelos equipamentos disponíveis. E mostrou também que não são necessários quaisquer meios para transmissão de energia no espaço-tempo. Parece então mais lógico postular o perispírito como uma continuação energética da matéria.” É claro que não é somente isso que estamos tentando resumir. A matéria desenvolvida por Reinaldo é extensa e elucida muitos pontos referentes aos conceitos antigos apresentados por eminentes pensadores espíritas. Ficamos no campo da citação e quem se interessar deve ir diretamente a fonte que é o Caderno Cultural acima referido.Vamos fechar suas idéias com esta conclusão: “ O Espírito age como se fosse (numa analogia grosseira) uma carga. Tal como uma carga elétrica cria em torno de si um campo eletromagnético, o Espírito cria em torno de si um campo, que à falta de nome melhor, poderia ser chamado de campo espiritual. Este não seria, então, um corpo, um organismo propriamente falando, mas um aglomerado energético-material em constante interação como o espírito.”

O último artigo do caderno é de autoria de Jaci Regis. E, não poderia ser de outra maneira porque é a síntese racional e lógica de toda a matéria. Utilizando-se das idéias avançadas de Marcelo e Reinaldo e suportando-se em Kardec e nas revelações de André Luiz, Jaci oferece uma das mais consistentes argumentações sobre a existência, propriedades e funções do perispírito. É uma nova proposta sobre o corpo espiritual e como ele diz: “Trata-se, contudo, de uma discussão teórica, uma hipótese de trabalho, que embora alicerçada no momento da ciência sobre as funções da transmissão da herança genética, é ainda uma tentativa de compreender a inserção do elemento espiritual nos processos naturais, uma vez que não é possível apresentar provas inconcussas e experimentais da nossa proposta.” Jaci repensou as funções do perispírito, até então tido por todos os autores, antigos e modernos, como entidade permanente e repositório de todas as experiências do espírito, matriz e modelo organizador do corpo material. “ O perispírito é produto da mente que, alcançando o pensamento contínuo, consegue mantê-lo íntegro após a morte do corpo físico...restringe-se no espaço extra-físico ao papel de “capa energética” identificadora do Espírito desencarnado. E, afirma com autoridade de quem pensa mais adiante: “ Em cada encarnação o perispírito é desagregado diluindo-se no processo de gestação” E mais: “ Assim parece perfeitamente aceitável que o perispírito, não sendo um organismo, não possua órgãos, o que elimina a suposição de que a mente, ou seja, a capacidade intelecto-afetiva do Espírito esteja nele sediada.” Baseia-se nas informações de André Luiz, que encontrou o caminho, mas não conseguiu (ou não quis contrariar o “status” sobre o perispírito), para apontar o corpo mental ( que envolve o espírito) como o arquivo real do espírito: “O corpo mental é o único instrumento organizador aderido ao Espírito. Como órgão executor e permanente.” Sua argumentação é consistente e alicerçada em raciocínios lógicos que esclarecem dúvidas e pôe as coisas nos seus devidos lugares. Não vamos nos estender mais porque senão teríamos que reproduzir todo o artigo, o que não é nosso propósito. É importante resgatar esse trabalho, republicando ou disponibilizando na internet. Vamos encerrar estas considerações transcrevendo apenas algumas posições da conclusão ( em número de dez) para que os estudiosos se interessem e reflitam sobre as mesmas: 1. O perispírito é um campo energético que identifica o Espírito... 2. As funções ontogenéticas geralmente atribuídas ao perispírito, são, na verdade, exercidas diretamente pelo Espírito, através de seu corpo mental... 3. Sendo produto do pensamento do Espírito, o perispírito é transitório ... 4/5. Em cada encarnação o perispírito é desagregado...portanto, pode-se afirmar que durante a gestação não existe perispírito.11. O perispírito é, como afirmamos, uma “capa energética bem próximo da expressão “envoltório” usada por Kardec, sem estrutura e sem organização propriamente dita, mas existindo pela vontade do Espírito, como instrumento de identificação.”

Nota do Moderador: O Caderno Cultural - Perispírito está esgotado, ainda temos disponíveis o Caderno Cultural sobre Reencarnação.

2 comentários:

  1. Interessante este trabalho!

    Obs: tive um pouco de dificuldade para ler o artigo porque está todo num único parágrafo.

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