terça-feira, 14 de abril de 2020

O SAMBA DA MANGUEIRA - por Ricardo de Morais Nunes


O SAMBA DA MANGUEIRA

Existem espíritas que condenam o carnaval. Alegam que no carnaval homens e mulheres se afastam de seus propósitos divinos e caem na tentação da luxúria, acompanhados, é claro, por uma boa leva de espíritos obsessores. Muitos temem, em complexos mal resolvidos, a exposição da beleza dos corpos femininos e masculinos que os remetem a ideias de culpa e pecado introjetadas em seu inconsciente por uma educação religiosa deturpada.

De fato, existem excessos no carnaval, mas também fora do carnaval, e é difícil acreditar que os que gostam de excessos esperem o carnaval para realizá-los. Prefiro enxergar o carnaval como uma grande festa popular, rica em significados profundos para alma do povo. O carnaval talvez seja a grande válvula de escape psicológica do povo brasileiro, que sofre no dia a dia as agruras de uma sociedade extremamente desigual e injusta e os desafios da existência cotidiana.

O carnaval é o momento da fantasia e da ilusão. O varredor de rua veste-se de rei. O desempregado, por alguns dias, se transforma em um poderoso magnata árabe ou em um banqueiro de casaca. A bela jovem brilha, como uma verdadeira mulher maravilha, no carro alegórico. O rico e abastado se junta à massa popular e esquece por alguns momentos suas distinções econômicas e materiais. O empregado dança a mesma marchinha que seu patrão. Aqueles que nutrem esperanças no amor se transformam em pierrôs e colombinas.

Além da característica psicológica das festas de Momo, que permitem o extravasamento de tensões emocionais e o alívio momentâneo das lutas de classe, ainda existe a característica cultural. Esta característica pode ser observada nas letras dos sambas enredo, no bailado cheio de alta estima e estilo do mestre sala ou do passista, no orgulho da porta bandeira em ostentar o símbolo maior de sua escola, na beleza das fantasias e dos trajes coloridos e na pulsação e ritmo da bateria.

O carnaval é muito mais do pensam os moralistas de plantão sejam eles espíritas ou não. O carnaval pode servir para dar espaço a atos políticos cheios de simbolismo e significado. Neste sentido, a escola de samba Mangueira do Rio de Janeiro surpreendeu a todos neste ano de 2020 com um belo samba enredo de nome “A verdade vos fará livre”. Este samba diz muitas coisas importantes a respeito do real significado da mensagem de Jesus e faz uma crítica bem atual da instrumentalização da religião para fins políticos de poder.

 Uma das frases da letra do samba que me marcou particularmente é a que diz “Não tem futuro sem partilha nem messias de arma na mão”. Parece incrível que no Brasil atual chegamos ao ponto de uma escola de samba ter que dizer uma coisa tão óbvia, mas, que, curiosamente, causou impacto em muitos que se dizem cristãos e versados em teologia e estudos bíblicos.

 A escola de samba mangueira trouxe para a avenida um Jesus da não violência, da paz, do amor, da compaixão com os deserdados do mundo, da justiça social, e do respeito a diferença. Um Jesus que se apresenta com “rosto negro, sangue índio e corpo de mulher” e que “enxuga o suor de quem sobe e desce ladeira”. Para alguns, fortemente condicionados de ideologia conservadora: um Jesus comunista!

Na verdade, a escola de samba mangueira, paradoxalmente, deu uma aula de espiritualidade para muitos que se dizem religiosos, pois teve a capacidade de expressar, com máxima clareza, um Jesus que não combina com armas de fogo, opressões, ou com discriminações de qualquer natureza. Um Jesus que não combina com poder e com dinheiro e que ama os simples, os que com o suor de seu rosto ganham o pão de cada dia sem prejudicar ou enganar a ninguém.

A mangueira fez um desfile revolucionário!

Ricardo de Morais Nunes é Bacharel em Direito, licenciado em Filosofia, Presidente do CPDoc e reside em Santos

Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.

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