quarta-feira, 15 de julho de 2026

David Grossvater - personalidade relevante do Espiritismo Latino-Americano - por Jon Aizpúrua

 

David Grassvater - por Jon Aizpúrua



Este artigo foi publicado no Jornal Abertura de julho de 2026. Se quiser ver o mesmo no jornal, clique no link abaixo, neste blog:

https://icksantos.blogspot.com/2026/07/jornal-abertura-de-julho-de-2026-pdf.html

Apresentamos o texto em português e logo a seguir, em espanhol.


Devo necessariamente escrever esta crônica em um estilo muito pessoal, em um tom íntimo, motivado pelos laços estreitos que me uniram à pessoa que faço esta biografia, a quem devo não apenas ter adquirido o conhecido da filosofia espirita e entendê-la como um sistema de pensamento laico e livre-pensador, mas também ter me acolhido, quando eu ainda era adolescente, com um afeto fraternal que, pouco depois do nosso primeiro encontro, se transformou em amor filial, fazendo-me sentir sua casa e sua família como minhas.

Hoje, como a única pessoa que pode dar testemunho direto da vida e trajetória de David Grossvater no movimento espirita venezuelano e internacional, sinto enorme satisfação em oferecer alguns fatos e comentários que ajudarão os leitores a obter conhecimento essencial sobre este líder espirita, cuja presença e ações deixaram uma marca profunda em seu tempo e projetaram-se para o futuro.    

Algumas referências sobre a vida dele.

Não sabemos muito sobre sua origem familiar, sua infância e juventude. Ele nunca escreveu sobre si mesmo e, quando questionado sobre sua história pessoal, respondia com parcimônia. Havia uma certa relutância de sua parte em relembrar episódios trágicos para ele, sua família e seu país de origem.

Ele veio nascer em uma família judaica asquenazitas (judeus de ascendência europeia oriental) em Cracóvia, Polônia, em 16 de outubro de 1911. O país estava então sob domínio russo e, anos depois, sofreria a invasão e ocupação impiedosa do exército nazista. Foi por meio dele que soube que seus pais e outros parentes morreram em um campo de concentração.

Em Cracóvia, ele concluiu o ensino fundamental e, após a formatura, sua família o enviou para Porto Alegre, no Brasil, para morar com parentes. Ele viveu nessa cidade dos 12 aos 23 anos. Aprendeu português, embora o iídiche, idioma dos judeus da Europa Central e Oriental, fosse falado em seu novo lar.

Buscando uma vida própria, viajou pelo vasto território brasileiro e chegou à Venezuela em 1934. Naquela época, a Venezuela era um país pouco povoado, com pouco mais de 3 milhões de habitantes, a maioria vivendo em áreas rurais ou pequenas cidades. No entanto, a nascente indústria petrolífera já gerava um aumento significativo na renda nacional e uma melhoria nas condições socioeconômicas da população, que foi ainda mais impulsionada por milhares de imigrantes de países vizinhos e da Europa. A partir de então, haveria migrações significativas de pessoas das áreas rurais para as cidades, que experimentariam um crescimento sustentado.

David me contou que a primeira cidade em que se estabeleceu foi Cumaná, capital do estado de Sucre, onde foi bem recebido e logo conseguiu se sustentar com modestos trabalhos comerciais e agrícolas. Depois de um tempo, mudou-se para Caracas e de lá para Barquisimeto, capital do estado de Lara, um importante centro urbano no oeste da Venezuela. Nessa cidade, casou-se com Blanca Gallardo, uma enfermeira. A partir de 1941, ele e sua esposa viveram em Maracay, capital do estado de Aragua, onde ele residiu até sua morte, em 1974. Sua única filha, Ima, nasceu na família Grossvater-Gallardo. Ele ajudava então, no sustento da família, com pequenas atividades comerciais.

Seu encontro com o espiritismo

David teve seu primeiro contato com o Espiritismo em Porto Alegre, capital e maior cidade do estado do Rio Grande do Sul. Ele tinha cerca de 20 anos quando assistiu a uma palestra no Instituto Espírita Dias da Cruz e, a partir daí, começou a frequentar suas atividades e a ler as obras de Allan Kardec, que gradualmente o conquistaram. Naturalmente, ele, que desde jovem se definia como um judeu liberal, irreligioso e de espírito livre, não simpatizava com a orientação decididamente cristã daquela instituição, embora guardasse boas lembranças dela, como expressaria mais tarde em alguns de seus escritos.

Em Cumaná, ele conheceu um grupo espirita guiado pelos livros de Joaquín Trincado, um escritor espanhol que havia se estabelecido em Buenos Aires, Argentina. Em 1911, Trincado fundou um movimento chamado Escuela Magnético-Espiritual de la Comuna Universal (EMECU), que se espalhou por diversos países da América Latina. Seus princípios gerais são semelhantes aos definidos por Kardec, embora existam algumas diferenças conceituais e linguísticas. Os centros espiritas da EMECU são chamados de Cátedras, e David logo se juntou à Cátedra de Cumaná com notável entusiasmo. Mais tarde, ele faria o mesmo em Caracas, Barquisimeto e Maracay. Ele apreciava particularmente o fato de esses centros apresentarem uma forma não religiosa de espiritismo e darem maior ênfase a questões sociais.

David tornou-se um líder proeminente do movimento Trincadadista, especialmente após se estabelecer em Maracay. Lá, fundou a Cátedra Simón Bolívar e a revista "El Espiritista", que circulou entre 1944 e 1948. Seus escritos desse período revelam que sua formação cultural, inteiramente autodidata, havia se expandido consideravelmente. Além dos livros de Trincado, ele lia com grande interesse as obras de Kardec, Denis, Delanne, Geley, Amália Domingo Soler, Quintín López Gómez, Manuel Porteiro, bem como filósofos clássicos e contemporâneos.

Fundação do CIMA

De fato, sua disposição em abrir a doutrina espírita ao estudo de diferentes autores e em se afastar de posições dogmáticas levou a debates acalorados, nos quais as divergências se tornaram intransponíveis. Apoiado por um grande grupo de espíritas de Maracay, Caracas e outras cidades venezuelanas, David Grossvater fundou um movimento em 20 de maio de 1958, inicialmente chamado Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines (C.I.M.A.), que mais tarde, em 1980, adotou o nome Movimiento de Cultura Espírita CIMA, nome que mantém até hoje.

A nova instituição rompeu com a velha guarda, não apenas em questões administrativas e institucionais, mas também em suas definições, princípios e propósitos. Baseava-se em um modelo conceitual próprio, reconhecendo o pensamento de Kardec como fundamento do Espiritismo, mas sem considerá-lo infalível ou sagrado. Surgiu o CIMA com a proposta de um Kardecismo que incentivasse a constante atualização, definindo-se como laico, evolucionista, racionalista e livre-pensador. Inspirados por esses princípios, e em um ambiente fraterno onde não havia espaço para censura ou desprezo, numerosos espíritas decidiram fundar grupos de estudo e de atividades mediúnicas em diversas cidades venezuelanas. Os nomes que os identificavam transmitiam a ideia da variedade e pluralidade que caracterizavam seus membros: CIMA “Armonía, Luz y Amor”, CIMA “Allan Kardec”, CIMA “León Denis”, CIMA “Amalia Domingo Soler”, CIMA “Cosmos”, CIMA “Arriba Corazones”, CIMA “Charles Darwin”, CIMA “Albert Einstein”, etc. Nos anos seguintes, novos centros afiliados à CIMA foram fundados na Colômbia, Peru, México, Guatemala e Estados Unidos.

Em 1960, a Primeira Assembleia Nacional Espírita foi realizada em Maracaibo, uma grande cidade no oeste da Venezuela, onde foi aprovada a fundação a Federación Espírita Venezuelana (FEV). A FEV foi colocada sob a presidência de Pedro Barboza de la Torre, advogado, pensador espírita e escritor de singular prestígio acadêmico. Grossvater assinou a carta de fundação da nascente Federação em nome do CIMA e causou um impacto notável com sua oratória eloquente, sua firme defesa da orientação espírita laico e seu jeito cordial, amigável, modesto e bem-humorado. Primeiro por meio de sua participação como entidade fundadora da FEV e, posteriormente, de forma independente, o CIMA filiou-se à CEPA,  então Confederação Espírita Pan-Americana (atual Associação Espírita Internacional CEPA), e ao longo dos anos contribuiu significativamente para seu crescimento e consolidação. À frente de uma grande delegação do CIMA, David participou ativamente do Sétimo Congresso Espírita Pan-Americano realizado em Maracaibo em 1966.

Produção intelectual

Seus escritos foram dedicados ao estudo e à divulgação do Espiritismo e estão compilados em três livros de sua autoria, centenas de artigos e traduções de outros autores. Além disso, ele manteve correspondência com os líderes espíritas mais proeminentes da América e da Europa. Preservei algumas dessas cartas, cujo conteúdo constitui uma importante fonte de informação sobre o movimento espírita de sua época.

Seus livros são:  Por los fueros del espíritu, Psicología del espíritu y Espiritismo laico. Cada um deles teve diversas reedições, principalmente por editoras Kier de Buenos Aires e Voz Informativa da Cidade do México. Seguindo o exemplo de Kardec, a cada nova edição ele introduzia correções, alterava conceitos e incorporava novos capítulos. Sua obra fundamental é o Espiritismo Laico e o próprio título fez dele a maior figura desta orientação espírita em sua época. Acrescente-se que sob o título Raciocínios Espíritas reuniu uma seleção de textos de autores espíritas e livres-pensadores com os quais se identificou. Esta obra, publicada pela Kier, foi muito popular e circulou amplamente nos centros espíritas e nas livrarias da América Latina.

 Seus artigos eram numerosos e abrangiam uma ampla gama de tópicos. Eles foram publicados nos periódicos do CIMA e de outras associações espíritas. Em sua residência em Maracay, eu frequentemente o via datilografando em sua velha máquina de escrever até altas horas da noite, dando forma ao que brotava de sua mente inquieta. Também testemunhei momentos em que ele parecia estar debatendo em voz alta consigo mesmo até que as ideias que buscava emergissem, as quais ele então transcrevia para sua amada máquina de escrever Olivetti. Depois, ele se deliciava em ler para mim o que havia escrito, e eu me sentia profundamente honrado quando ele pedia minha opinião ou uma análise crítica.

Aproveitando seu conhecimento de português, David traduziu três obras psicografadas do médium brasileiro Francisco Cândido Xavier, que ele considerou dignas de estudo e uso por leitores de língua espanhola: Mecanismos da Mediunidade, No Domínio da Mediunidade  e Evolução em Dois Mundos. Ele também traduziu o livro de Pietro Ubaldi, A Grande Síntese e de Hernani Guimarães Andrade – A Teoria Corpuscular do Espírito.

Conferências e viagens

Os grupos espiritas das décadas de 1950 e 60 buscavam sua presença para ouvir suas palestras, nas quais ele explicava os fundamentos filosóficos, científicos e morais da doutrina espírita. Radicalmente contrário à ideia de considerar o espiritismo uma religião, ele rejeitava todo tipo de dogma ou cerimônia e condenava enfaticamente os charlatães que usavam indevidamente o nome do espiritismo para lucrar explorando supostas ou reais habilidades psíquicas.

Sua orientação era frequentemente solicitada na área da mediunidade prática, que David dominava com admirável habilidade. Ele acreditava que um verdadeiro centro espírita deveria combinar o estudo com a prática mediúnica, sempre que as condições o permitissem. Participei de muitas sessões conduzidas por David e, em cada uma delas, aprendi as estratégias para realizá-las adequadamente por meio do desenvolvimento das habilidades dos médiuns, do diálogo com os espíritos, da educação mental e comportamental dos participantes, bem como da avaliação crítica das mensagens para determinar sua origem mediúnica ou espiritual, da análise e utilização de seu conteúdo e da erradicação de qualquer forma de credulidade ou sugestão. Nesse campo, ele recomendava fortemente a leitura e consulta de “O Livro dos Médiuns”  e  “O Invisível”,  textos de Allan Kardec e Léon Denis, respectivamente.

Em diversas ocasiões, David viajou internacionalmente para contribuir com a disseminação do Espiritismo, explicar sua visão laica e evolutiva e estabelecer relações fraternas. Tive a honra de acompanhá-lo em intensas e extensas viagens que nos levaram a várias cidades da Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e México. Essas atividades, apoiadas por inúmeros centros espíritas, resultaram em estreitas relações pessoais e fortes laços institucionais.

 Até os últimos dias de sua vida frutífera, David permaneceu inabalável em suas convicções espiritas, laicas e evolucionistas, que deram sentido à sua vida e aos seus esforços para difundi-las. Ele partiu deste mundo prematuramente, aos 63 anos, com muito ainda por fazer. Sua morte ocorreu no sábado, 18 de maio de 1974, em um hospital em Maracay, onde estava internado devido a graves problemas respiratórios causados ​​por enfisema pulmonar. Ele nunca conseguiu se livrar do vício do cigarro, apesar dos avisos e até mesmo dos apelos daqueles que o amavam.

Eu estava em Caracas quando recebi a triste notícia. Viajei rapidamente para Maracay e, ao chegar, abracei Blanca, Ima e muitos colegas do CIMA que permaneceram em respeitoso silêncio diante de seu corpo sem vida. Representantes da comunidade judaica se ofereceram para cuidar de todos os preparativos e despesas do sepultamento em seu mausoléu particular, desde que a cerimônia religiosa tradicional fosse observada. Explicamos a eles que David não praticava o judaísmo nem seguia seus preceitos, que sua filosofia de vida era o espiritismo e que ele sempre expressara o desejo de que, quando chegasse a hora, seu funeral fosse inteiramente civil e sem quaisquer cerimônias religiosas. E assim aconteceu, e com profunda tristeza no coração e um imenso vazio na alma, abalado por inúmeras lembranças, tive a honra de dizer algumas palavras para me despedir do eminente pensador, fundador e primeiro presidente do CIMA, o amigo que com afeto fraternal me tomou pela mão quando adolescente, abriu-me as portas de sua casa e me conduziu a percorrer com paixão os caminhos cativantes da cultura espírita.            


Texto em espanhol:

Jon Aizpúrua

 

PERSONALIDADES RELEVANTES DEL ESPIRITISMO LATINOAMERICANO

 

 

DAVID  GROSSVATER

 

     Necesariamente esta crónica debo redactarla en un estilo muy personal, en tono intimista, motivado por los estrechos lazos que me unieron al personaje biografiado, a quien no solo debo el haber conocido la filosofía espiritista y entenderla como un sistema de pensamiento laico y librepensador, sino también el haberme acogido cuando era todavía un adolescente, con un afecto tan fraterno que al poco tiempo de nuestro primer encuentro devino en amor filial, haciéndome sentir su hogar y su familia como propios.

     Al día de hoy, siendo yo la única persona que puede dar testimonio directo de la vida y de la trayectoria de David Grossvater en el movimiento espiritista venezolano e internacional, experimento una enorme satisfacción al ofrecer algunos datos y uno que otro comentario que sirvan a los lectores para disponer de un conocimiento esencial acerca de este líder espírita, cuya presencia y actuación dejarían honda huella en su tiempo y se proyectarían hacia el porvenir.

     Algunas referencias sobre su vida

     No es mucho lo que sabemos de sus antecedentes familiares ni de su niñez y juventud. Jamás escribió sobre sí mismo y cuando le interrogaba sobre su historia personal respondía con parquedad. Había en él un cierto rechazo a recordar episodios que fueron trágicos para él, para su familia y para su país de origen.

     Vino al mundo en el seno de una familia judía asquenazi en Cracovia, Polonia, el 16 de octubre de 1911. El país se hallaba entonces bajo la dominación rusa y años después sufriría la despiadada invasión y ocupación del ejército nazi.  Por él me enteré que sus padres y demás familiares fallecieron en un campo de concentración.

     En Cracovia había seguido estudios primarios y una vez culminados, por decisión familiar fue enviado a Porto Alegre, Brasil, a la residencia de unos tíos. En esta ciudad vivió entre los 12 y los 23 años de edad. Aprendió el idioma portugués, aunque en su nuevo hogar se hablaba en yiddish, la lengua usada por los judíos de Europa central y del este.

     En busca de una vida propia, recorrió el extenso territorio brasileño y llegó a Venezuela en 1934. Este era entonces un país escasamente poblado, que apenas superaba los 3 millones de habitantes, los cuales en su mayor parte vivían en el medio rural o en pequeños pueblos. Sin embargo, la incipiente explotación del petróleo ya reflejaba un aumento significativo de los ingresos nacionales y una mejora en las condiciones socioeconómicas de la población, que se vio incrementada por millares de inmigrantes que provenían de países vecinos o de Europa.  En adelante se producirían importantes traslados de población rural hacia las ciudades, las cuales crecerían de manera sostenida.

     Me contaba David que la primera ciudad en la que se estableció fue Cumaná, capital del estado Sucre, y que allí fue bien recibido y pronto pudo ganar su sustento realizando modestas faenas comerciales y agrícolas. Al cabo de un tiempo se marchó a Caracas y de aquí pasó a Barquisimeto, capital del estado Lara, importante centro urbano del occidente de Venezuela. En esta ciudad contrajo matrimonio con la señora Blanca Gallardo, enfermera de profesión. A partir de 1941 se estableció junto con su esposa en Maracay, capital del estado Aragua donde residiría definitivamente hasta su fallecimiento en 1974. En el hogar de los Grossvater-Gallardo nacería Ima, única hija. Atendió a las necesidades del hogar desempeñándose en modestas actividades comerciales.

     Su encuentro con el espiritismo

     David conoció la doctrina espiritista en Porto Alegre, capital y mayor ciudad del estado de Rio Grande do Sul. Contaba alrededor de 20 años cuando escuchó una conferencia en el Instituto Espírita Días da Cruz y en adelante comenzó a frecuentar sus actividades y a leer las obras de Allan Kardec, las cuales fueron ganando su entusiasmo y adhesión.  Naturalmente, a él que ya desde su juventud se definía como un judío liberal, arreligioso y librepensador, no le simpatizaba la orientación decididamente cristiana de aquella institución, aunque de ella guardaba gratos recuerdos y así lo manifestaría en algunos textos.

     Encontrándose en Cumaná conoció un grupo espiritista que se guiaba por los libros del escritor Joaquín Trincado, español de origen que estableció su residencia en Buenos Aires, Argentina. Aquí Trincado fundó en 1911 un movimiento que denominó Escuela Magnético-Espiritual de la Comuna Universal (EMECU), que alcanzó a expandirse por varios países hispanoamericanos, y cuyos principios generales son semejantes a los que definió Kardec, aunque no dejan de haber algunas diferencias conceptuales y de lenguaje. Los centros espíritas de la EMECU se denominan Cátedras, y pronto David se adhirió con notable entusiasmo la Cátedra de Cumaná. Lo mismo haría en adelante en Caracas, Barquisimeto y Maracay.  Le agradaba especialmente que en esos centros se planteara un espiritismo no religioso y que se pusiera un mayor énfasis en las cuestiones sociales.

     David llegó a convertirse en un destacado líder del trincadismo, especialmente desde que estableció su residencia en Maracay. Aquí fundó la Cátedra “Simón Bolívar” y la revista “El Espiritista” que circuló entre 1944 y 1948. Por sus escritos de esa época se puede constatar que su formación cultural, enteramente autodidacta, se había ampliado considerablemente. Además de los libros de Trincado leía con enorme interés a Kardec, Denis, Delanne, Geley, Amalia Domingo Soler, Quintín López Gómez, Manuel Porteiro, y también a filósofos clásicos y contemporáneos.

     Fundación del CIMA

     Precisamente, su disposición a que la doctrina espírita se abriera al estudio de diferentes autores y se alejara de posiciones dogmáticas, desembocó en fuertes debates en los que las desavenencias se hicieron insuperables. Secundado por un numeroso grupo de espíritas de Maracay, Caracas y otras ciudades venezolanas   David Grossvater fundó el 20 de mayo de 1958 un movimiento que inicialmente se denominó Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines (C.I.M.A), que posteriormente, en 1980, adoptaría el nombre de Movimiento de Cultura Espírita CIMA, que actualmente le distingue.

     La nueva institución rompía con el trincadismo, no solo en lo relativo a cuestiones administrativas o institucionales sino en sus definiciones, principios y propósitos. Partía de un modelo conceptual propio en el cual se reconocía el pensamiento de Kardec como la base del espiritismo, pero sin considerarlo infalible o sagrado. El CIMA surgió con la propuesta de un kardecismo que debía estimular una permanente actualización, que se definía como laico, evolucionista, racionalista y librepensador. Animados por estos principios, vibrando en un clima fraterno dentro del cual no había lugar para censuras, ni descalificaciones, numerosos espíritas decidieron fundar grupos de estudio y de actividades mediúmnicas en diversas ciudades venezolanas. Los nombres que les identificaban daban la idea de la variedad y pluralidad que caracterizaba a sus integrantes: CIMA “Armonía, Luz y Amor”, CIMA “Allan Kardec”, CIMA “León Denis”, CIMA “Amalia Domingo Soler”, CIMA “Cosmos”, CIMA “Arriba Corazones”, CIMA “Charles Darwin”, CIMA “Albert Einstein”, etc. En los años siguientes se fundaron nuevos centros adheridos al CIMA en Colombia, Perú, México, Guatemala y Estados Unidos.

     En 1960 se celebró en Maracaibo, gran ciudad del occidente de Venezuela, la Primera Asamblea Espírita Nacional en la que se aprobó la fundación de la Federación Espírita Venezolana (FEV), la cual quedó bajo la presidencia de Pedro Barboza de la Torre, abogado, pensador espírita y escritor de singular prestigio académico. Grossvater suscribió el acta fundacional de la naciente Federación en nombre del CIMA y causó un notable impacto por su verbo elocuente, por la defensa vertical de la orientación espírita laica, y por su trato cordial, amistoso, sencillo y bienhumorado. Primero por su participación como entidad fundadora de la FEV, y posteriormente en forma autónoma, el CIMA se afilió a la C.E.P.A, entonces Confederación Espírita Panamericana (hoy Asociación Espírita Internacional CEPA), y a lo largo de los años ha ofrecido una importante contribución a su crecimiento y consolidación. Al frente de una amplia delegación del CIMA, David participó activamente en el Séptimo Congreso Espírita Panamericano que se celebró en Maracaibo, en 1966.       

     Producción intelectual

     Su obra escrita estuvo consagrada al estudio y divulgación del espiritismo y se encuentra reunida en tres libros propios, centenares de artículos y traducciones de otros autores. A ello hay que agregar el intercambio epistolar con los líderes espíritas de mayor relevancia de América y Europa. Conservo algunas cartas cuyo contenido constituye una importante fuente de información sobre el movimiento espírita de su época.

     Sus libros se titulan: Por los fueros del espíritu, Psicología del espíritu y Espiritismo laico. Cada uno de ellos tuvo varias reediciones, principalmente por las editoriales Kier de Buenos Aires y Voz Informativa de Ciudad de México. Siguiendo el ejemplo de Kardec, en cada nueva edición introducía correcciones, cambiaba conceptos e incorporaba nuevos capítulos. Su obra fundamental es Espiritismo Laico y el propio título le convirtió en su tiempo en la figura máxima de esta orientación espírita. Hay que adicionar que bajo el título Razonamientos espiritistas, reunió una selección de textos de autores espiritistas y librepensadores con los cuales se identificaba. Esta obra, publicada por Kier, gustó mucho y circuló profusamente dentro de los centros espíritas y en las librerías de Hispanoamérica.

     Sus artículos fueron numerosos y dedicados al examen de temas muy variados. Aparecieron en las revistas del CIMA o de otras asociaciones espíritas. En su residencia en Maracay lo vi muchas veces tecleando en su vieja máquina hasta altas horas de la noche, dando forma a lo que brotaba de su mente inquieta y también pude presenciar momentos en que parecía debatir en voz alta consigo mismo hasta que aparecían las ideas que buscaba y las transcribía a su entrañable Olivetti. Luego se complacía en leerme lo que había escrito y yo me sentía muy honrado cuando pedía mi opinión o que hiciese un análisis crítico.

     Aprovechando su conocimiento del idioma portugués, David tradujo tres obras psicografiadas por el médium brasileño Francisco Cándido Xavier, que él consideraba dignas de ser estudiadas y aprovechadas por los lectores de habla española: Mecanismos de la mediumnidad, En torno de la mediumnidad y Evolución en dos mundos. Tradujo también el libro La Grande Síntesis de Pietro Ubaldi.

     Conferencias y viajes

     Los grupos espíritas de los años cincuenta y sesenta del pasado siglo requerían su presencia para escuchar sus conferencias en las que explicaba las bases filosóficas, científicas y morales de la doctrina espírita. Opuesto radicalmente a que se considerase al espiritismo como una religión, rechazaba toda clase de dogmas o ceremonias, y con mucho énfasis rechazaba a los charlatanes que emplean indebidamente el nombre del espiritismo para lucrar mediante la explotación de supuestas o reales facultades psíquicas.

     Con frecuencia se pedía su orientación en el área de la mediumnidad práctica, que David dominaba con admirable destreza. Él consideraba que un auténtico centro espírita debe combinar el estudio con el ejercicio mediúmnico, cuando hubiese condiciones para ello. Participé en muchas sesiones dirigidas por David y en cada una de ellas fui aprendiendo las estrategias para conducirlas apropiadamente mediante el desarrollo de las facultades de los médiums, el diálogo con los espíritus, la educación mental y conductual de los participantes, así como la evaluación crítica de los mensajes en cuanto a la determinación de su origen mediúmnico o anímico, el análisis y aprovechamiento de su contenido, erradicando cualquier forma de credulidad o sugestión. En este campo, recomendaba con insistencia la lectura y consulta de El libro de los médiums y En lo invisible, textos de Allan Kardec y Léon Denis respectivamente.

     En varias ocasiones David realizó viajes internacionales con la intención de contribuir a la divulgación del espiritismo, explicar su visión laica y evolucionista, y entablar relaciones fraternales. Tuve el honor de acompañarle en intensas y extensas giras que nos llevaron hasta diversas ciudades de Colombia, Ecuador, Perú, Chile, Argentina, Uruguay, Brasil y México, quedando de esas actividades, que contaron con el respaldo de numerosos centros espíritas, entrañables relaciones personales y sólidos vínculos institucionales.

     Hasta los días finales de su fecunda existencia, David se mantuvo inquebrantable en las convicciones espíritas, laicas y evolucionistas, que dieron sentido a su vida y a su esfuerzo por divulgarlas. Se marchó prematuramente de la dimensión encarnada cuando apenas sumaba 63 años y tenía pendiente mucho por hacer. Su deceso ocurrió el sábado 18 de mayo de 1974 en un hospital de Maracay en el que había sido recluido por presentar severos problemas respiratorios provocados por un enfisema pulmonar. Nunca pudo superar su afición al consumo habitual de cigarrillos, no obstante las advertencias y hasta las súplicas de quienes le queríamos.

     Me hallaba en Caracas cuando fui informado de la triste noticia. Rápidamente, me trasladé a Maracay y al llegar abracé a Blanca, a Ima, y a muchos compañeros del CIMA que guardaban respetuoso silencio ante su cuerpo inerte. Los representantes de la comunidad judía ofrecieron encargarse de todos los trámites y gastos del entierro en su panteón privado siempre que se cumpliera la tradicional ceremonia religiosa. Les aclaramos que David no practicaba la religión judía ni seguía sus prescripciones, que su filosofía de vida era el espiritismo y que siempre había manifestado su deseo de que llegado el momento su funeral debía ser enteramente civil y sin ceremonias de ninguna religión. Así se cumplió, y con hondo pesar en mi corazón y un inmenso vacío en mi alma, estremecido por un sinfín de recuerdos, me cupo el honor de pronunciar unas palabras para despedir al eminente pensador, al fundador y primer Presidente del CIMA, al amigo que con fraterno cariño tomó mi mano de adolescente, me abrió las puertas de su hogar, y me condujo a transitar con pasión por los cautivantes senderos de la cultura espírita.      

    

       

 

       

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