terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Jesus, este mito que me atormentava - por Marcus Videira

 Tema: Jesus, este mito que me atormentava

 

 

 

Índice

 

 

Tópicos

Página

1

Introdução

2

2

Objetivo e Público Alvo

2

3

Mito: definição

3

4

O motivo para escrever este texto

3

5

Espiritismo  versus  Jesus  versus  Religião

4

6

Fanatismo: sinal da falta de cultura ?

5

7

Experimentos Científicos   versus 

6

8

Escolas que discutiram sobre a natureza de Jesus

7

9

O significado dos nomes: Jesus, Cristo e Jesus Cristo

9

10

Jesus pelo mundo

10

11

Diferentes visões sobre o papel de Jesus

11

12

Jesus: poucas evidências históricas

11

13

Crítica Textual aplicada aos escritos sobre Jesus

14

14

Composição da Bíblia

15

15

A história de Jesus é calcada nos deuses da mitologia ?

16

16

Nascimento de Jesus:   data  versus cidade  versus  local

17

17

Jesus dos 13 aos 30 anos

18

18

Pregação de Jesus:   início  versus  término

20

19

Morte de Jesus

21

20

Propagação da doutrina cristã

23

21

Conclusão

25

22

Agradecimentos

27

23

Cronologia

27

24

Bibliografia

30

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jesus, este mito que me atormentava.

 

  • 1-) Introdução

Em 12/07/2016 o blog do ICKS -Instituto Cultural Kardecista de Santos publicou o meu texto, que naquela oportunidade eu intitulei como: Jesus, este mito que me atormenta. Tal texto ainda pode ser encontrado no citado blog.

 

Posteriormente, apresentei este trabalho em alguns eventos: no XV SPBE-Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, realizado em Santos em 2017; um resumo do mesmo foi publicado no Jornal Abertura – edição 340 – jan/fev-2018; na reunião do CPDOC-Centro de Pesquisas e Documentação da Doutrina Espírita, realizada em Santos em 2019 e nesse mesmo ano no CEAK-Centro Espírita Allan Kardec de Santos.

 

Após as apresentações acima citadas e somado às novas leituras, bem como às diversas contribuições de inestimáveis amigos, decidi reeditar o texto; porém desta vez, com um novo título: Jesus, este mito que me atormentava.

 

  • 2-) Objetivo e Público Alvo:

A pretensão deste texto é levar a comunidade espírita a refletir se o papel de Jesus dentro de tal comunidade deve ser enxergado como uma divindade, semelhante ao que é encontrado nas igrejas cristãs, ou como um espírito que foi criado simples e ignorante e progrediu segundo o seu livre arbítrio, desde que Jesus tenha existido. Desde início faço esta provocação sobre a existência ou não de Jesus, com base nas diferentes literaturas que questionam a existência dele.

 

Particularmente, creio na existência de Jesus, mas em hipótese nenhuma, creio que ele seja uma divindade, pois isso colocaria em xeque a essência do espiritismo, acima já mencionada e citada na resposta à questão nº 115, do Livros dos Espíritos: “Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-lo de si”.

 

Para reforçar a distinção entre a interpretação de Jesus para o Espiritismo e para o Cristianismo, faz-se necessário registrar, com base no Dicionário Enciclopédico das Religiões, o papel de Jesus para os cristãos:

  • Reconhecer a Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, filho único do Pai Eterno;
  • Proclamar que Ele, o Crucificado e Ressuscitado, é o único Salvador, Mediador entre Deus e os homens;
  • Professar a divindade do Espírito Santo, consubstancial ao Pai e ao Filho;
  • Acreditar que a Bíblia contém a revelação de Deus a seu povo.

 

Com base na definição acima, fica claro que o Espiritismo não pode aceitar esse papel de Jesus, pois violaria princípios basilares, tais como os mencionados na pergunta nº 803 no Livro dos Espíritos e sua respectiva resposta: Perante Deus, são iguais todos os homens? Todos os homens estão submetidos às mesmas Leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos seus olhos, são iguais.

 

 

  • 3-) Mito: definição

“Uma verdade não é difícil desaparecer e uma mentira, quando bem contada, torna-se imortal” – Mark Twain – 1835-1910 – escritor norte-americano.

 

Mito significa relato fantástico de tradução oral, com conteúdo culturalmente significativo, sendo expressões dos conteúdos psíquicos mais profundos do ser humano. Mitos não se comportam necessariamente como mentiras. Como mostra o antropólogo Claude Lévi-Strauss – 1908-2009, por tratarem de contradições profundas das sociedades a que dizem respeito, eles permanecem vigentes para além dos argumentos racionais ou dos dados e documentos que buscam negá-lo. Afinal, muitas vezes é mais cômodo conviver com uma falsa verdade do que modificar a realidade.

 

  • 4-) O motivo para escrever este texto

Em 1985, o meu amigo Arnaldo mudou-se para os Estados Unidos da América e querendo diminuir a sua bagagem, me ofertou, além de várias bugigangas, o livro A Gênese – os milagres e as predições segundo o espiritismo, escrito em 1868 pelo francês prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo de Allan Kardec. Guardo até hoje essas lembranças, bem como o livro, o qual contribuiu para aumentar as minhas dúvidas a respeito da crença católica, que conservava àquela época. Falo em aumentar, pois alguns anos antes desse episódio, trabalhei ao lado do meu amigo Rogério, um profundo estudioso da doutrina das Testemunhas de Jeová, quando pude ouvir dele várias interpretações a respeito das passagens bíblicas, as quais são chamadas pelos TJ’s como Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, de formas diferentes, ou melhor, conflitantes em relação às interpretações que eu tinha, oriundas do Catolicismo.

 

A jornada do Catolicismo até o Espiritismo foi penosa e longa, pois não foi fácil largar a “segurança” das orações e do clima criado durante as cerimônias religiosas, principalmente aquelas invocadas com canções, criando sons vocálicos inebriantes, como as praticadas nas cerimônias Rosacruz, nas quais também deixei algumas pegadas... Quando me lembro desse ritual de passagem, do Catolicismo ao Espiritismo, penso no ator americano de cinema Woody Allen, sempre em busca de uma resposta para as questões de religião, sem falar da morte e do sexo, que completam a trilogia desse cineasta.

 

Não era agradável ouvir do Jaci Régis - grande pensador espírita radicado em Santos/SP desde a juventude e desencarnado em dez/2010 - durante as suas preleções no Centro Espírita Allan Kardec, localizado em Santos/SP, que o Espiritismo não era cristão. Mas com o passar do tempo e com o aprofundamento das leituras sobre o Espiritismo, pude suportar esse “peso”.

 

Todas essas questões e dúvidas levaram-me a escrever este texto, que possui muitas passagens que são cópias literais da bibliografia citada ao final do mesmo, o qual intitulei: Jesus, este mito que me atormentava. O termo atormentar é só uma força de expressão, pois é um tema que me seduz e procuro ler as várias versões/posições a respeito, pela necessidade que sinto de reforçar a minha crença no Espiritismo, de forma racional, pois como disse Allan Kardec no livro A Gênese – capítulo I – item 55: “O espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará”.

 

  • 5-) Espiritismo  versus  Jesus   versus  Religião

“Quando o assunto é religião é muito fácil iludir um homem, e muito difícil desiludi-lo” – Pierre Bayle – 1647-1706 – filósofo e escritor francês.

 

A discussão do tema sobre Jesus, de alguma forma, guarda uma relação com os questionamentos sobre se o Espiritismo é uma religião ou não.

 

O assunto é controverso até hoje e foi debatido por Kardec num discurso, por ocasião do “Dia dos Mortos”, publicado na Revista Espírita de dez/1868.

 

Durante tal discurso, Kardec pergunta e responde: “O Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião”.

Kardec prossegue: “Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos. As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isso é, com recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa. Pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto as tomem por assembleias religiosas. Não se pense que isto seja um jogo de palavras: a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada ideia”.

 

A despeito da posição de Allan Kardec de que o Espiritismo seria uma religião no sentido filosófico; no que se refere ao Cristianismo, Allan Kardec, através das comunicações mediúnicas recebidas, sustenta que o Espiritismo é cristão.

 

No livro O Evangelho Segundo o Espiritismo – capítulo I – O Espiritismo – item 7, Kardec diz: “O Espiritismo é, pois, obra de Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, a regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra”. Inclusive, existem diversas mensagens presentes no citado livro, assinadas pelo Espírito da Verdade, que segundo Kardec, seria o próprio Jesus, uma delas pode ser encontrada no capítulo VI – Instruções dos Espíritos.  Tais mensagens reforçam o papel de Consolador, que muitos espíritas atribuem ao Espiritismo.

Talvez a resposta à questão nº 625 do Livro dos Espíritos – “Qual tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo ?” – “Jesus”, possa ter influenciado Kardec a escrever “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, pois tal obra foca nos ensinos da moral, com os “informantes” predominantemente cristãos. Pergunto: onde estavam os “informantes” de outras vertentes ?

 

Além das posições de Kardec, como acima mencionadas, aqui no Brasil, a primazia do aspecto religioso foi dada pelos primeiros dirigentes, em decorrência de fatores culturais e tendências pessoais. Oriundos do Catolicismo, ao adotarem o Espiritismo procuraram a forma como apresentá-lo ao público. Nos primórdios, falou mais alto o suposto mandato dos Espíritos Superiores que teriam se comunicado através de médiuns confiáveis. No núcleo que tomaria para si o comando doutrinário, surgiu a figura do Anjo Ismael, supostamente governador espiritual do Brasil. O parâmetro foi estabelecido sem qualquer relação com o pensamento kardecista, descartado diante da supremacia do mandato provido do “alto”. Firmada e cristalizada a estrutura religiosa, mais uma vez, se procurou adaptar: “Jesus é a porta, Kardec é a chave”, disse o Espírito Emmanuel, reduzindo a Doutrina a mero braço evangélico.

 

Infelizmente não é uma visão humana de Jesus que vemos hoje na maioria dos centros espíritas, pois tal figura continua a ser cultuada como uma encarnação de Deus.

 

  • 6-) Fanatismo: sinal da falta de cultura ?

 

“Tudo aquilo que se ignora é tomado por magnífico ou mágico” – Tácito – 56-117 - historiador romano

 

Encontramos nas religiões um verdadeiro fanatismo. O termo latino fanaticus vem de fanus – um altar ou um santuário. Designava o benfeitor de um templo ou um indivíduo diretamente inspirado pelos deuses. Cícero, no século I a.C., talvez tenha sido o primeiro a usar a palavra de forma pejorativa – numa de suas orações, o termo vira sinônimo de supersticioso. Centenas de anos depois, Voltarie - 1694–1778 – escritor e filósofo iluminista francês, chegou a uma definição mais próxima daquela que usamos hoje. Para ele, “O fanatismo é uma doença da mente, que se transmite da mesma forma que a varíola”.

 

Em 2016, a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo Ibope, mostrou que o Brasil é, basicamente, um país de leitores de Bíblia. No mesmo ano, outra apuração apontou para a ascensão dos livros religiosos e a queda da literatura no país.

 

Já no ano seguinte, mais um indício da supremacia dos livros sacros, cujas vendas novamente cresciam enquanto o comércio de livros científicos diminuía.

 

É o reflexo perfeito de uma população que se preocupa cada vez menos em ouvir vozes divergentes, que aos poucos vai trocando livros formadores por livros religiosos normalmente interpretados de forma oportuna por algum “líder espiritual”. Provavelmente na mesma linha de quem escreveu o texto do folheto mencionado a seguir:

Em janeiro de 2002, quando eu estava com a minha esposa e filhos, a passeio na cidade do Rio de Janeiro, um jovem trajando um uniforme estilo militar, ostentava no peito um bordado com o título Embaixador de Cristo e me entregou um folheto, que guardo até hoje e nele está escrito: “Por natureza, todos nós somos inimigos de Deus. Mesmo quando alguém não acredita nisso” !!??. Depois, o texto segue com outras “ameaças”, para finalmente apresentar Cristo como a solução para todos os problemas.

 

Com os dados aqui apresentados a respeito do incremento de leitores da Bíblia e a diminuição de leitores de literaturas diversas nos induz a crer que a falta de uma cultura heterogênea, cria um ambiente propício ao fanatismo, ou seja, a crença não raciocinada, a qual vai de encontro ao que Kardec preconiza.

 

O escritor peruano Mario Vargas Llosa disse: “Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que, alguns, fazem passar por ideias”.

 

  • 7-) Experimentos Científicos  versus  Fé

 

“O homem está, de certo, totalmente louco; ele não pode fazer um verme, mas faz deuses às dúzias” – Michel de Montaigne – 1553-1592 – filósofo renascentista.

 

A falta de uma leitura diversificada, abordada no item anterior, favorece a fé num Jesus divino e se soma à possibilidade de a fé possuir algum componente biológico. Para explorar isso, alguns experimentos científicos serão citados a seguir, uma vez que há uma corrente da neurociência que defende que a razão caminha em paralelo com as questões de crenças religiosas, ou seja, é algo impossível de se tentar conciliar. Estes experimentos científicos colocam em dúvida se a fé é algo genuíno ou biológico.

 

O cérebro humano é mais inclinado a acreditar do que a desconfiar. Tanto que, quando cremos em algo, nosso impulso natural é buscar informações para confirmar que estamos certos. Quando do surgimento do método científico em diferentes partes do mundo antigo, pensadores como o filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) começaram a propor métodos de observação sistematizados, baseados em hipóteses, que deveriam ser submetidas a testes controlados, cujos resultados precisavam ser anotados para que conseguíssemos reproduzi-los. A crença pura e simples, a impressão ou a opinião já não bastavam para sustentar o conhecimento.

 

Ainda na linha da corrente da neurociência, citada anteriormente, o neurocientista Michael Persinger, da Universidade Laurentian, no Canadá, conseguiu reproduzir em laboratório algumas experiências religiosas, utilizando um capacete magnético. Os voluntários recebiam pequenas descargas elétricas no lobo temporal (responsável pelo nosso senso de individualidade), causando micro cisões na região. Em resposta, seus cérebros produziam uma série de sensações estranhas, como a impressão de estar saindo do corpo, ouvindo vozes, ou sentir uma presença inexplicável no local. Ih, será que os nossos médiuns “sofrem” desse tipo de descarga elétrica?...

 

Outro experimento, foi conduzido pelo psiquiatra americano Philip Corlett, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, que coordenou um estudo, publicado no início de ago/2017 cujo objetivo era provar como os seres humanos são suscetíveis a alucinações, ou seja, “percepções sem estímulos externos”, quando possuem alguma crença, qualquer crença, de cunho religioso ou não. Nesta pesquisa realizou-se um teste em que voluntários foram divididos em quatro grupos, com cerca de quinze pessoas cada um. Num desses times, incluíram-se somente indivíduos que haviam sido diagnosticados com alguma doença psicótica, circunstância que os levava a ouvir sons inexistentes. Em outro grupo ficaram aqueles que sofriam de algum distúrbio psíquico, porém não escutavam vozes; no terceiro, pessoas completamente saudáveis; e, por fim, apenas indivíduos que não tinham sido clinicamente diagnosticados com nenhum problema de natureza psicológica, mas declaravam ter alucinações auditivas e as atribuíam a experiências místicas, espirituais ou religiosas. Durante o experimento, por meio da repetição, os cientistas levavam os voluntários a acreditar que poderiam ouvir estímulos sonoros específicos toda vez que visse uma luz. Ocorre que nem sempre os sons eram ativados. A intenção era detectar se as pessoas iriam notificar que haviam ouvido o barulho, mesmo sem ele existir. Neste teste foi possível analisar, por meio de ressonância magnética, o que ocorria no cérebro das pessoas durante o estudo. Conclusão: as que mais ouviram sons inexistentes estavam no primeiro grupo (dos psicóticos) e no último (dos místicos). O pesquisador definiu que alucinações são mais frequentes entre indivíduos que já possuem crenças.

 

A questão da fé é algo extremamente complexa, pois a Associação Mundial de Psiquiatria declara a importância da espiritualidade nos tratamentos de saúde. Uma das explicações é a atuação do chamado eixo "psiconeurimunoendócrino", em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial.

 

A fé, palavra que vem do latim “fides”, significa “fiar-se de”, “ter confiança” parece que pode ter algum componente biológico e de certa forma, impactar em nossas crenças cegas; porém não se ter uma explicação racional para algum fenômeno, não implica afirmar que é inexplicável, apenas reforça que ainda não alcançamos um fato pelo método científico.

 

  • 8-) Escolas que discutiram sobre a natureza de Jesus

Considero válido citar que a discussão sobre a natureza de Jesus foi algo muito debatido por parte de várias escolas, que buscavam determinar qual era a natureza de Jesus. Cito abaixo, algumas delas:

 

  • Adocionismo–(século VIII) – Jesus é uma das manifestações do Monarquianismo e defende que Jesus, como homem, é o Filho de Deus apenas pela adoção e graça, dispensada no momento de seu batismo.
  • Arianismo-(século III) – seguia a doutrina proposta por Ário, um presbítero de Alexandria que crê que Jesus, apesar de um ser superior, seja inferior ao Pai.
  • Basilídios – uma das primeiríssimas seitas cristãs não acreditavam que Jesus tivesse morrido na cruz e que outro indivíduo lhe serviu de substituto.
  • Docetismo–(século II) - defende que Jesus era um mensageiro dos céus e que seu corpo carnal era uma ilusão e sua crucificação teria sido apenas aparente.
  • Ebionismo–(século II) - crê em Jesus como um profeta, nascido de uma relação carnal de Maria e José, que teria se tornado Cristo no ato do batismo.
  • Monarquianismo–(século III) -  série de crenças que enfatizam a Unidade Absoluta de Deus, ou seja, são contrários ao conceito trinitário da Divindade.
  • Monofisismo–(século V) – segundo a qual Jesus teria uma única natureza: divina (o Monofisismo foi elaborado por Eutiques em reação ao Nestorianismo).
  • Nestorianismo–(século V) – segundo a qual Jesus Cristo é, na verdade, duas entidades distintas, vivendo no mesmo corpo: uma humana (Jesus) e uma divina (Cristo).
  • Nicenos – embasados pelo Concílio de Niceia (325), defendiam a crença na Trindade e afirmavam que Jesus possuía a mesma substância do Pai.
  • Sabelianismo ou Modalismo–(século III) - é a outra manifestação do Monarquianismo e defendia que Jesus e Deus não eram pessoas distintas, mas sim “aspectos” ou “modos” diferentes do trato da divindade com a humanidade.

 

As diferentes escolas citadas traçam um paralelo junto a outros movimentos religiosos ou filosóficos, como a seguir:

 

  • Os Testemunhas de Jeová e os Mórmons são os modernos Arianos.

 

A posição dos mulçumanos, com base na 4ª Surata (As mulheres) – versículos 157-158, vai ao encontro dos Basilídios, pois eles também acreditam que Jesus foi substituído por outra pessoa, no momento da crucificação.

 

No tocante ao Nestorianismo, registra-se que a doutrina Rosacruz difunde esta ideia dual da figura de Jesus, mencionada no livro “A Vida Mística de Jesus”, onde há o registro de que a entidade divina de Jesus deixou de existir no momento da crucificação (“No momento da entrega do Espírito Santo, ainda na cruz, Jesus deixou que o poder e a autoridade especial retornassem à Consciência Cósmica.”), mas ele, utilizando-se de seus conhecimentos gnósticos, recuperou-se dos ferimentos sofridos pela crucificação e continuou com a sua vida humana.

 

No meio espírita, encontramos quatro posições a respeito da natureza de Jesus: Kardec, Roustaing,  Ramatís e Emmanuel.

 

Para Kardec, Jesus é o modelo de ser humano mais perfeito que Deus ofereceu para servir de guia, conforme resposta à pergunta de nº 625 do Livro dos Espíritos – “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da Lei do Senhor, porque, sendo Ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito divino o animava”.

 

Uma posição que se coaduna com a escola do Docetismo é a de Jean Baptiste Roustaing (contemporâneo de Kardec), que defendia ter o Cristo um corpo diverso dos demais, de natureza fluídica (agênere). Tal tese é defendida no livro Os Quatro Evangelhos. Esta tese foi refutada por Kardec em artigo da Revista Espírita de 1866, mesmo ano da publicação do citado livro. Registra-se que o livro Os Quatro Evangelhos foi incluído no estatuto da Federação Espírita Brasileira, por Bezerra de Menezes em 1895 e só em 2019, tal livro foi retirado do estatuto.

 

Segundo o médium Hercílio Maes (1913-1993), no seu livro: O Sublime Peregrino, registra as comunicações de um espírito chamado Ramatís, o qual dizia ter sido um filósofo de Alexandria na época de Jesus e foi à Palestina encontrar pessoalmente com ele. Nesta publicação, Ramatís defende que Jesus era um espírito angélico, um sublime médium, o mais qualificado representante da divindade na terra, que teve a plenitude mediúnica alcançada aos 30 anos. Para Ramatís, Jesus é um médium do Cristo Planetário (consciência diretora de um planeta).

 

Entre Roustaing e Ramatís existem alguns pontos em comum, como exemplo: Jesus evoluiu em linha reta sem reencarnar.

Na visão do espírito Emmanuel, que se comunicava através do médium Francisco Cândido Xavier, ele cita no capítulo A Gênese Planetária, do livro A Caminho da Luz, que Jesus quando alcançou o patamar de espírito puro, foi incumbido por Deus para ser o governador do planeta Terra, tendo operado como construtor de tal planeta, desde o início da sua formação, há cerca de 4,5 bilhões de anos

 

Neste tópico do presente texto já podemos tomar conhecimento de como o Cristianismo não teve um início de forma estruturada, com base em dados/fatos suficientemente concretos, uma vez que séculos após a morte de Jesus, ainda se esteja discutindo sobre a natureza dele.

 

Considero que tal discussão só existiu e, ainda existe, pela total falta de documentos originais de inquestionáveis veracidade. Este assunto (documentos verossímeis) será aborda a seguir, nos itens 12 e 13.

 

  • 9-) O significado dos nomes: Jesus, Cristo e  Jesus Cristo

Até o presente momento deste texto, a palavra Jesus foi citada em alguns e em outros a palavra Cristo, para se referir à mesma pessoa. Desta forma, julgo ser necessário expor algo a respeito disso, ou seja, como Jesus em hebraico Yeshua ou Joshua em grego – “há salvação em Deus”, nome muito comum entre os judeus da época (*), passou a ser chamado de Jesus Cristo. Cristo vem do latim Christus, que por sua vez vem de Christos, correspondente grego da palavra Messias, e significa literalmente Ungido. O nome Jesus Cristo foi empregado por Paulo de Tarso (missionário de Jesus, nascido em torno de 6 d.C. Paulo não chegou a conhecer Jesus), que também chamava Jesus, só como Cristo, ou seja, Paulo usou a palavra Cristo como se fosse um sobrenome e não como um título: Jesus, o Cristo. Nesse ponto, o uso de Cristo como sobrenome de Jesus também é mencionado pelo historiador romano Tácito.

  • (*) Só como exemplo de como o nome Jesus era comum, cito apenas algumas passagens nas obras do historiador judeu Flávio Josefo: Jesus, filho de Ananias, um camponês; Jesus, rival de Josefo; Jesus, filho de Sapphias; Jesus, fiho de See; Jesus, filho de Phabi,; Jesus, filho de Damneu; Jesus, chefe dos sacerdotes; Jesus, filho de Sapphas; Jesus, filho de Gamala; Jesus, filho de Thebuti; Jesus, cunhado de Justus de Tiberias.

 

  • 10-) Jesus pelo mundo

A ideia de escrever a respeito de um “Jesus histórico” não é nova, pois em 1914, o filósofo e teólogo judeu-alemão Franz Rosenzweig escreveu no seu “Atheistiche Theologie” que uma mudança estava em curso no modo de entendermos a herança religiosa judaica e cristã. No caso específico do Cristianismo, esse viés produziria uma crescente humanização de Jesus, desaguando na obsessão pelo “Jesus histórico”, eliminando, por fim, a ideia de sua divindade.

 

A busca por conhecer Jesus, seja o divino ou o histórico, faz com que no mundo existam mais de 80.000 livros sobre ele.

Segundo a World Christian Encyclopedia, publicação da Oxford University Press (New York) registrou em 2001 a existência de 33.830 denominações cristãs. Dentre elas, encontramos um grupo denominado Jews for Jesus (Judeus para Jesus), que congrega em todo o mundo 1,5 milhão de seguidores. Tal movimento, também chamado de judeus messiânicos não é reconhecido pelos judeus tradicionais, pois estes aguardam um Messias que venha restaurar o Reino de Deus na terra, conforme os preceitos da Torá (livro sagrado do Judaísmo).

 

A divulgação do Cristianismo conta com um exército de missionários espalhado pelo mundo. De acordo com o Centro Global de Estudos sobre Cristianismo, havia cerca de 440 mil missionários atuando pelo mundo em 2018. Só os mórmons possuem cerca de 66 mil missionários. Mas este trabalho dos missionários não é fácil. Por exemplo: no Nepal o proselitismo religioso é ilegal e passível de prisão e deportação.

 

Apesar da figura de Jesus ser extremamente conhecida no Ocidente, faz-se mister registrar que O MUNDO NÃO É CRISTÃO. Segundo o relatório da Pew Research Center em Washington, DC de 2015, através do projeto: Pew – Templeton Global Religious Futures e com o apoio do projeto: Age and Cohort Change da International Institute for Apllied Systems Analysis em Laxenburg, Áustria, o Cristianismo representava 31,2% em relação à população mundial e o Islamismo 24,1%; porém, a continuar o crescimento do Islamismo, na proporção atual, projeções feitas pelo instituto americano Pew Research Center para o ano de 2075 indicam que tal religião superará o Cristianismo, ou seja, em pouco mais de meio século, teremos mais crianças ao redor do mundo sendo ensinadas que o maior e mais importante profeta foi Maomé (Muhammad em árabe, nascido em 570 na cidade de Meca e falecido em 632 na cidade de Medina) e que Jesus foi somente mais um profeta; porém menor do que Maomé, pois segundo a religião Islâmica, Maomé foi o último e o mais importante profeta de Deus (Allah como eles os chamam, que significa Deus Único). Não é só o crescimento do Islamismo que deve contribuir para superar o Cristianismo, mas também a própria diminuição dos adeptos de tal corrente. Entre 2007 e 2014 no EUA, o aumento de ateus e agnósticos foi de 100%, além da perda de 5 milhões de cristãos. No Brasil, em 1980, 2% da população não acreditava em Deus e em 2016 esse percentual era de 9%.

            

  • 11-) Diferentes visões sobre o papel de Jesus

Cada época fez de Jesus o reflexo de suas próprias preocupações. Na França, na época da Revolução (1789), vimos aparecer a figura de um Jesus “sans-culotte” (denominação de trabalhador que participou da Revolução Francesa).

 

Em seguida, por ocasião da Revolução de 1848, a de um Jesus proletário e socialista. No início do século XX, Houston Stewart Chamberlain, um inglês que adotou a Alemanha como lar, inspirador das teorias nazistas, até retratou um Jesus Ariano e disse “quem afirma que Cristo era judeu é ignorante ou desonesto”.

 

Não podemos nos esquecer das contendas do povo judeu, com base na proibição de praticar o judaísmo, em 167 a.C., quando do domínio pelos gregos e quando do nascimento de Jesus, pelo governo romano exercido pelo violento e corrupto Herodes. Céfores, capital da Galileia era o símbolo da revolução dos judeus contra os romanos, ou seja, Jesus nasceu num momento em que os judeus clamavam por liberdade, o que leva a alguns historiadores a entenderem que o papel de Jesus foi o de um revolucionário. Estes fatos contribuem para que ao longo dos anos, muitos estudiosos propusessem um papel a Jesus, mais próximo às questões do dia a dia de um ser humano, do que a de um messias divino, que viria resgatar, de forma milagrosa, um povo tão sofrido. Esta visão se coaduna com o Espiritismo, ou seja, a de que Jesus, se existiu, foi uma pessoa qualquer e não um ser divino. Desta forma, abaixo registram-se algumas visões nessa linha:

O alemão Hermann Samuel Reimarus (1694 -1768) foi um dos pioneiros a tentar uma interpretação secular, para entender quem foi Jesus. Ele defendia que os objetivos de Jesus eram basicamente políticos.

 

Uma das visões mais influentes sobre Jesus é a defendida pelo ex-padre irlandês John Dominic Crossan (1934), autor de Quem Matou Jesus?  Crossan afirma que Jesus teria sido uma versão judaica dos filósofos cínicos gregos. Em outras palavras, um pensador itinerante que atacava as convenções sociais e convidava seus ouvintes a levar uma vida de solidariedade radical.

 

Para o cristianismo, o papel de Jesus foi sendo lapidado após a sua morte, vindo a se tornar a Segunda Pessoa da Trindade com decisões tomadas nos Concílios de Niceia (em 325) e de Constantinopla (em 381).

                                                           

  • 12-) Jesus: poucas evidências históricas

As evidências históricas sobre Jesus são poucas e os religiosos se apoiam na Bíblia para sustentar a existência dele, porém os mais antigos textos completos da Bíblia são o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, que remontam ao 4º século (Codex é um texto antigo em forma de livro, em vez de rolo).

 

  • Autores contemporâneos a Jesus NÃO o citou em seus textos:

Seneca o Jovem (Lúcio Aneu Seneca – filósofo estoico – 3 a.C – 65 d.C);

Gálio (Júnio Aneu Gálio – morto em 65 d.C.). Magistrado que, segundo a Bíblia (Atos 18:12-17) teria ouvido o caso de Paulo e expulso-o do tribunal;

Fílon de Alexandria (20 a.C. – 50 d.C.) escritor, cronista político e estadista judeu, considerado o maior filósofo judeu do mundo Greco Romano. Escreveu sobre as religiões marginais e outras seitas judaicas como os Essênios e os Terapeutas. Ele poderia estar literalmente na cena de todos os fatos mais marcantes da vida de Jesus, porém não fez nenhum registro sobre ele.

Com base nos autores contemporâneos de Jesus, seus fiéis são deixados com duas escolhas infelizes: ou os Evangelhos estavam exagerando de forma grosseira a vida e as realizações de Jesus e ele era apenas mais um pregador vagando com uma pequena legião de seguidores, completamente despercebido pela sociedade em geral ou ele era, sem dúvida nenhuma, um personagem mítico.

  • Autores posteriores a Jesus, que citaram o seu nome:

O historiador antigo Flávio Josefo  (37-100) escreveu sobre Jesus no ano de 93 ou 94, quando escreveu suas Antiguidades dos Judeus (capítulo XVIII – página 63), que contém duas passagens controversas que muitos sustentam como evidências históricas para a existência de Jesus. Porém estas passagens estão entre dois textos que se completam, ou seja, tais passagens citando Jesus seriam fraudulentas.

 

A partir do 4º século, o Bispo Eusébio de Cesareia começa a citar as passagens atribuídas a Flávio Josefo, onde suspostamente, ele menciona Jesus. Na época, o Bispo Eusébio foi criticado pelos seus colegas, por deturpações deliberadas em suas histórias.

O romano Caius Cornelius Tacitus ou simplesmente Cornélio Tácito (55-120) cita em seu livro: Anais – página 44 do 15º volume “Cristo, de quem o nome cristão teve sua origem, sofreu a extrema penalidade durante o reinado de Tibério, às mãos de um dos nossos procuradores, Pôncio Pilatos” .

 

O romano Gaius Suetonius Tranquillus ou simplesmente Suetônio (69-141) cita em seu livro: “Vida dos doze Césares” – capítulo 25 – página 4 -  “O imperador Cláudio expulsou de Roma os judeus que viraram causa permanente de desordem pela pregação de Cristo”. Este fato (expulsão de judeus de Roma) é ratificado em At 18:2.

 

O romano Plinius Caecillus Secundus ou simplesmente Plínio, o Jovem (61-111)  cita em seu livro: Carta a Trajano – capítulo X – página 96 -  “Os cristãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo, que consideram Deus, para cantar e jurar não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassinato, adultério e infidelidade” .

 

Há, também, o registro de uma carta, atribuída a Pôncio Pilatos e dirigida ao imperador Tibério Cesar, onde ele faz comentários sobre a figura de Jesus; porém tal carta, a qual possuo uma cópia, cedida gentilmente pelo meu amigo Rogério, faz descrições elogiosas sobre os feitos de Jesus, bem como sobre sua aparência física, que nada se coadunam com a figura perversa que foi Pilatos. Em 35 d.C. Pilatos trucidou muitos samaritanos, o que o levou à Roma para se desculpar com o imperador.

 

Um ponto que gerou muita expectativa quanto às possíveis evidências históricas sobre Jesus, ocorreram com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (930 documentos escritos entre o século III a.C. e o século I d.C., que foram descobertos entre 1947 e 1956, em 11 cavernas próximas de Qumran, em Israel); porém as traduções desses manuscritos, que foram polêmicas, face às várias mudanças dos profissionais responsáveis, nada revelaram a respeito.

 

Pelo contrário, geraram mais dúvidas, pois nos citados documentos havia menção a um Messias (Mestre da Justiça), líder dos Essênios (“essaioi”, em grego e “esseni”, em latim, que podem ser traduzidos como “aqueles que curam”), mas que historiadores “disputam” diferentes explicações para tal figura. Sem falar na polêmica se tais manuscritos pertenciam aos Essênios, seita que muitos acreditam que Jesus pertencia, ou aos Macabeus.

 

Cabe lembrar que Jesus nada escreveu. A única passagem bíblica que menciona algo é em João 8, 1-11 – “Então Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo” – esta passagem se refere à mulher flagrada em adultério, a qual para muitos críticos não faz parte do texto original de João, pois foge do estilo dele, mas isto é uma pequena mostra das controvérsias que iremos ver mais adiante. 

 

Há estudiosos que defendem que Jesus era analfabeto. Nenhuma surpresa, pois essa era a realidade daquela época; porém existem passagens bíblicas que mencionam Jesus lendo, como em Lucas 4:16-17... no sábado entrou na sinagoga, e levantou-se para fazer a leitura...

 

O emblemático dessa situação é que os historiadores que foram contemporâneos a Jesus não o citaram em seus escritos. Faço lembrar que a narração bíblica a respeito da morte de Jesus, cita acontecimentos extraordinários, tais como os citados em Mateus 27:50-51: a cortina do Santuário do Templo rasgou-se em duas partes, a terra tremeu, fenderam-se as pedras e os túmulos se abriram e muitos santos falecidos ressuscitaram, ou seja, são narrações fantásticas que requereriam um registro de tais fatos, mas nada é encontrado fora da Bíblia. Por outro lado, os historiadores que citaram Jesus, o fizeram dezenas de anos após a sua morte, ou seja, a doutrina cristã foi calcada na tradução oral.

 

 

 

  • 13-) Crítica Textual aplicada aos escritos sobre Jesus

Uma área de estudos que tem acumulado pesquisas a respeito de como os copistas foram mudando as escrituras e sobre como se pode reconhecer onde eles fizeram alterações é a chamada Crítica Textual.

 

O pontapé inicial da Crítica Textual foi dado pelo francês Richard Simon com o lançamento da obra “Uma História Crítica do Texto do Novo Testamento”, em 1689.

 

Os registros a seguir irão relatar as passagens bíblicas e/ou conceitos criados a respeito de Jesus, ao longo dos anos, conceitos estes que não se coadunam com as visões dos recentes historiadores.

 

Os estudos mais recentes, que tentam separar o “Jesus histórico” do “Cristo da fé” tem origem no século XIX, em meio ao protestantismo liberal alemão. Os dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus e os dois iniciais de Lucas são bastante distintos um do outro, a ponto de parecerem inconciliáveis. De cara, divergem sobre a genealogia de José: cada um cita pai, avô e bisavô diferentes. Lucas e Mateus querem vincular José à linha ancestral dos patriarcas judeus, mas nenhum deles tem dados confiáveis para comprovar isso.  Por isso, criaram genealogias com esse intuito, que acabaram se tornando conflitantes.

 

Esses dois Evangelhos também exibem contradições com fatos conhecidos da história. Apenas Lucas narra a viagem de Nazaré a Belém feita por José e Maria para se registrar num censo no qual o mundo inteiro deveria ser contado, sob o governo do imperador César Augusto. Há boa documentação sobre o tempo de César, e não houve nenhum censo durante todo o seu reinado. O 1º censo ocorreu em 74 d.C., durante o reinado do imperador Vespasiano.  Sobre a questão do recenseamento, não podemos deixar de registrar o contraditório, pois Sir William Ramsay, historiador inglês, alega nos seus livros que os recenseamentos se davam periodicamente de 14 em 14 anos e que em 746 a.u.c. (Ab urbe condita - da Fundação de Roma) houve um recenseamento que durou até 748 a.u.c., ou seja, próximo à data sustentada para o nascimento de Jesus.

 

O Cristianismo é uma religião cujos textos fundamentais foram mudados e que só sobrevivem em cópias que diferem de uma para outra, em certos momentos de um modo altamente significativo.

Não temos os originais, como não temos as primeiras cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde (séculos depois). Todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens.

 

John Mill – membro do Queens College, Oxford, em 1550 examinou cerca de cem manuscritos gregos para descobrir suas 30 mil variantes.  Hoje temos conhecimento de muitas variantes (temos catalogados 5.700 manuscritos gregos, contendo desde pequenos fragmentos até produções bem maiores).

 

Com este número de fragmentos, estudiosos divergem quanto às variantes, podendo ser de 100 mil a 400 mil.

 

Tudo indica que os livros que registravam os mais preciosos dados históricos a respeito da verdadeira figura de Jesus, foram destruídos pelo incêndio da famosa biblioteca de Alexandria, em 646 da nossa era.

 

Como exemplo das variantes das traduções, cito o Códex Vaticanus datado do século IV d.C. que é um dos mais importantes e antigos exemplares da Bíblia em grego. Neste Códex, a famosa cena da mulher adúltera do “atire a primeira pedra quem não tiver pecado”, não consta desse manuscrito.

·         14-) Composição da Bíblia

A seguir registro algumas informações a respeito da composição da Bíblia, pois este livro é o que serve de sustentação para os religiosos, como evidência da existência de Jesus, haja vista que, como já mencionado aqui neste texto (item 12), as evidências históricas a respeito da existência dele são frágeis.

 

Na minha época de catecismo, era ensinado que a Bíblia fora criada sob a inspiração de Deus e nada se questionava sobre a veracidade dos textos, ou seja, tal livro continha a plenitude dos ensinamentos de Jesus; porém como visto no item anterior (Crítica Textual), a inspiração de Deus se esvai, até porque, cada segmento do cristianismo possui a sua própria Bíblia, ou seja, se fosse a palavra de Deus, materializada em texto, não existiriam essas divergências.

 

Sobre a Bíblia ter sido constituída sob a inspiração de Deus, ressalta-se que esta vertente surge ao fim do século XVIII e início do século XX.

 

A Bíblia abriga na contagem dos católicos 73 livros e 66 na versão de protestantes e evangélicos e 78 na versão ortodoxa.

 

A definição dos livros que entrariam no Antigo Testamento ocorreu por volta dos anos 80 a 100 da era cristã em Jâmnia, no sul da Palestina.

 

A escolha dos quatros Evangelhos foi feita pelo bispo Irineu – Bispo de Lyon da Gália (a França moderna), no ano de 185, quando ele escreve Contra as Heresias – 3.11.7 ...” Pois, dado que há 4 regiões no mundo em que vivemos, 4 ventos principais, ... é adequado que a Igreja deva ter 4 colunas”.

 

Coube ao bispo de Alexandria – Atanásio, durante a 2ª metade do século IV, ou seja, 300 anos depois que os livros do Novo Testamento foram escritos, relacionar os 27 livros que deveriam compor o mesmo.

 

No fim do século IV cristão, o papa Dâmaso encomendou ao maior especialista daquela época – Jerônimo, a produção de uma tradução latina “oficial”, que pudesse ser aceita por todos os cristãos que falavam latim, em Roma e em outros lugares, como um texto oficial. A tradução de Jerônimo se tornou conhecida como a Bíblia Vulgata (comum).

 

Com o advento da imprensa no século XV por Johannes Gutemberg foi impressa a 1ª edição da Bíblia (Vulgata), concluída em 1456 e somente com o desenvolvimento dela é que as cópias da Bíblia puderam ter uma maior concisão, mesmo assim, novas traduções foram feitas, culminando com a de 1979, promulgada pelo Papa João Paulo II, a qual se tornou a versão oficial da Igreja Católica – denominada de Nova Vulgata.

 

A versão mais popular para um idioma que não fosse o latim coube a Martinho Lutero, que traduziu a Bíblia para o alemão, durante a Reforma Protestante.

 

Foi somente em 1546, no Concílio de Trento, que os 73 livros da Bíblia – 39 do cânone hebraico mais os 7 deuterocanônicos (que não constavam do cânone, mas eram lidos pelos judeus de língua grega) e os 27 do Novo Testamento – foram considerados inspirados por Deus e aprovados oficialmente pela Igreja Católica.

 

Atualmente a Bíblia está traduzida para 648 línguas. Estima-se que no mundo, só 250 milhões de pessoas não tenham acesso à Bíblia, por falarem dialetos minoritários e por isso não contam nem com traduções parciais.

 

Segundo o escritor alemão – Frank Crüsemann (1938), a constituição do decálogo, mencionado na Bíblia (Êxodo 20) surge como uma reação à uma profunda crise religiosa, teológica, política e social que os hebreus estavam vivenciando entre os séculos 9 e 8 A.E.C., ou seja, o decálogo procura regulamentar comportamentos éticos e sociais de um clã e portanto, não tem o Deus dos hebreus como criador do decálogo, mas sim uma autoridade humana.

 

Os relatos acima  sobre a composição da Bíblia visam demonstrar a fragilidade dela, como um documento de reconhecimento histórico, haja vista que diferentes decisões, de cunho personalistas, ao longo dos anos, tiveram influência direta na composição final hoje conhecida. Reforçando que só em 1.546 !! a Bíblia é aprovada oficialmente pela Igreja Católica.

 

  • 15-) A história de Jesus é calcada nos deuses da mitologia?

Peter Joseph, americano e diretor de cinema, produziu um documentário intitulado Zeitgeist, no qual faz várias analogias sobre os acontecimentos da vida de Jesus e os acontecimentos nas vidas de outros deuses da mitologia, como:  Krishna (Índia 3.228 a.C.): Hórus (Egito – 3.000 a.C); Dionísio (Grécia – 1.500 a.C.); Mitra (Grécia 1.250 a.C.) e Átis (Frígia – 1.200 a.C.).

 

Em alguns deles há a coincidência sobre a data de nascimento: 25 de dezembro; a estrela como símbolo de nascimento; a quantidade de 12 discípulos; a morte por crucificação; o nascimento de uma virgem e a ressuscitação após 3 dias.

 

Como um exemplo mais detalhado dessa analogia, cito o que é encontrado na literatura Hindu, através de um livro chamado Bhagavad-Gita, que em seu 3º volume relata a história da encarnação de Vishnu (espírito conservador do universo) em Krishna. Tal livro traz narrativas similares às encontradas na Bíblia, a respeito do nascimento de Jesus. Inclusive no nome do homem, que iria receber a encarnação: Yésu (a personificação de Krishna). Outro ponto a ressaltar é que em tal livro, Yésu nasce numa manjedoura, local sagrado para os hindus, o que não se pode dizer o mesmo para os judeus.  O detalhe é que o livro ora mencionado é datado do século IV a.C.

 

Não podemos nos esquecer de que o cristianismo nasceu no meio dos judeus e este povo acumulava a memória dos seus vários povos dominadores ao longo da história e não seria de se admirar que tenham absorvido um pouco da cultura de cada um desses, o que pode ter contribuído de fato para que a narrativa da história de Jesus tenha correlações com esses deuses.

 

Como exemplos das correlações com esses deuses, podemos citar:

 

  • Héracles. Ele era filho de Zeus e Alcmena (Diodoro da Sicília. BH 4,9:1-3,6,10:1);
  • Teógenes de Tasos. Ele era filha de Héracles e de uma mãe mortal (Pausânias. DG II.11:2-9);
  • Alexandre, o Grande. Ele era filho de Zeus e de Olímpia, uma mulher mortal (Plutarco. Vidas 2:1-6, 3:1-9);
  • Otávio ou Otaviano, que tornu Augusto. Ele era filho de Aplolo e de àcia, uma mulher mortal (Dio Cássio. HR 45 1:2-2:4; Suetônio. DC 94:1-11);
  • Apolônio de Tiana. Ele era filho de Proteo, deus do Egito, e de uma mãe mortal (Filóstrato. VA 1:4-7).

 

  • 16-) Nascimento de Jesus: data  versus  cidade  versus local

Em momentos simultâneos da história, cristãos comemoravam as diferentes etapas da vida de Jesus, buscando testemunhos do dia exato de seu nascimento, enquanto pagãos celebravam a chegada da luz e dos dias mais longos ao fim do inverno (solstício de inverno – Natalis Solis Invicti – Nascimento do Sol Invencível). Foi somente no ano de 354 d.C. que o Papa Libério, querendo cristianizar as festividades pagãs entre os vários povos europeus, instituiu oficialmente a celebração do Natal no dia de 25 de dezembro, como sendo a data de nascimento de Yeshua ben Yossef (em aramaico) - Jesus, filho de José.

 

Como visto acima, a data de nascimento de Jesus, comemorada pelos cristãos ao redor do mundo, não é verdadeira e, muito menos, o ano, pois não há consenso sobre tal. Estima-se que ele tenha nascido entre 7 e 4 a.C. Alguns estudos precisam melhor entre 7 e 6 a.C.

 

A dúvida sobre o ano de nascimento de Jesus recai sobre o abade Dionisus Exiguus, que em 531 d.C. introduziu o sistema cristão de datas - Anno Domini (AD) em latim ou depois de Cristo (d.C.), pois ele havia errado nos seus cálculos do nascimento de Jesus. Em vez de 754 a.u.c. (Ab urbe condita – da fundação de Roma), Jesus nasceu no ano 749 a.u.c., isto é, em vez de Jesus ter nascido no ano 1 da era Cristã, ele teria nascido no ano 5. a.C. Isto se apoia no evangelho de Lucas que diz que Jesus nasceu nos dias do rei Herodes, o Grande, e Herodes morreu em março de 750 a.u.c. (4 aEC – cf. Lc 1:5). Maria deu à luz a Jesus somente quando Quirino era  governador da Síria (este fato só ocorreu no ano 6 EC – cf. Lc 2:2: cf. tb. Josefo. AJ 18:1) Implica dizer, que a cronologia utilizada por Lucas só faria sentido se a gravidez de Maria tivesse durado dez anos !

 

Como pode o nascimento do filho de Deus não ter um dia definido, uma vez que a história registra com precisão alguns acontecimentos mais antigos, como o da erupção do Monte Vesúvio, que destruiu Pompéia em 24/08/79 a.C.

 

Sobre a cidade de nascimento também há polêmicas, pois por Marcos e João o local é apontado como Nazaré e por Mateus e Lucas como Belém. Acredita-se que Mateus e Lucas optaram por Belém, pois de acordo com uma profecia do livro do profeta Miquéias 5,1 - AT, o salvador viria de lá, uma vez que era a cidade do rei Davi. As recentes pesquisas indicam como local de nascimento, a cidade de Nazaré. Porém para alguns arqueólogos de Israel, Jesus nasceu em Belém, mas numa cidade chamada de Belém da Galileia, que fica a 7 km de Nazaré e não em Belém da Judeia, uma vez que Belém da Galileia se enquadraria melhor na narração de Mateus, segundo o qual, Maria grávida de nove meses viajou montada em um burro de Nazaré, na Galileia, até Belém da Judeia, onde Jesus nasceu. A distância de quase 100 km era uma enormidade para a época, ou seja, para estes arqueólogos, dentre eles cito Aviram Oshri, faz mais sentido que a Belém de nascimento seja a da Galileia.

 

Ainda sobre o nascimento, existe, talvez, um dos pontos mais questionáveis que seria a virgindade da mãe de Jesus – Maria. Talvez esse caso seja parecido com um do Alcorão (livro sagrado do Islã), onde historiadores acreditam que há um erro na tradução, onde diz que o devoto do Islã, morto em combate terá no céu a companhia de 72 virgens. Esses historiadores acreditam que sejam pérolas, a tradução correta. Para o caso de Maria, há historiadores que também defendem um erro de tradução na Bíblia, da palavra ALMAH, que significa jovem e foi erroneamente traduzida do Hebraico para o Grego, como virgem. Em Isaías – 7,14 – faz menção a uma jovem que dará à luz a um menino e em Mateus – 1,23 usa esta passagem de Isaías, mas muda o termo “jovem” para “virgem” e João – 1,45, por sua vez, afirma que Jesus é o filho de José, ou seja, nem jovem e nem virgem....

 

Mateus escreve que Jesus nasceu em casa e Lucas escreve que Jesus nasceu numa manjedoura.

 

A história de que Jesus nasceu numa manjedoura, não condiz com o que de fato ocorreu, pois para o judaísmo, a maternidade é algo sagrado e nenhum judeu permitiria que Maria desse à luz num estábulo.

 

Mas uma coisa é certa, o Natal é hoje o feriado mais rentável financeiramente em países predominantemente cristãos.

 

  • 17-) Jesus dos 13 aos 30 anos:

A Bíblia é omissa quanto às atividades de Jesus no período dos 13 aos 30 anos e muitas “hipóteses/histórias etc” tentam preencher essa lacuna de 17 anos, que começa no versículo 52 do Capítulo 2 do Evangelho segundo Lucas: “E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens” e indo até o versículo 23 do Capítulo 3 do mesmo Evangelho.: “Jesus tinha cerca de trinta anos quando começou sua atividade pública”.

Para tentar elucidar este “apagão” da figura de Jesus entre a juventude e a vida adulta, o escritor e espírita Francisco klörs Werneck escreveu o livro intitulado: Jesus dos 13 aos 30 anos – Editora Eco, no qual reuniu várias hipóteses, abaixo transcritas, sobre o que aconteceu com Jesus nesse interregno (as histórias aqui mencionadas, estão contidas na 10ª edição do citado livro). A maioria dessas hipóteses se dividem entre a permanência de Jesus na Índia, Ásia ou entre os Essênios, quando pode ter contato com todas as práticas terapêuticas, esotéricas etc. Práticas essas necessárias para poder iniciar a sua pregação na Palestina, por volta dos 30 anos, sendo que, em algumas dessas hipóteses, Jesus retorna para o local onde recebeu o seu aprendizado e lá é que morre. Existe, ainda, uma “teoria” de que Jesus esteve na Inglaterra.

Francisco K. Werneck sustenta que procurou atuar da mesma forma que Kardec, ou seja, colhendo todos os elementos, focando unicamente nas transcrições e traduções de forma fiel, dos mais diversos textos encontrados sobre o tema.

Nikolai Aleksandrovich Notovich (1858 – 1916):

Alega ter encontrado em 1887 no mosteiro de nome Himis no Tibete, manuscritos a respeito da vida de Jesus, com o título a Vida do Santo Issa.

Escreveu em 1894 o livro “La Vie Inconnue de Jesus Christ”. Com base nesses manuscritos: “Jesus passou 6 anos com os padres brâmanes, que lhe ensinaram a ler e compreender os Vedas, a curar com o auxílio de preces e a expulsar o espírito maligno do corpo do homem. Depois, Jesus foi para o Nepal e lá permaneceu até aos 26 anos, estudando os livros sagrados do Budismo. Depois retornou para Israel, chegando lá com 29 anos”.

Nicolau Roerich (1874 - 1947)

Ele escreveu o livro “El corazon de Asia”, edição do Museu Roerich, de New York, 1930 e num trecho do livro há uma concordância com o livro acima de Nikolai: “Ouvimos a lenda de como o Cristo, quando jovem, chegou à Índia em uma caravana de mercadores e como foi aprendendo a suma sabedoria dos Himalayas, que se difundiu amplamente pelo Ladak, Sinkiang e Mongólia”.

Yogi Ramacharak: (1862 – 1932)

Escreveu o livro “Cristianismo Místico”, edição do Círculo Esotérico a Comunhão do Pensamento, 1926, no qual cita: “Membros da organização secreta a que pertenciam os Magos, após ouvi-lo no acontecimento do Templo, convenceram os pais de Jesus a acompanhá-los a fim de receber as instruções. Jesus segue para a Índia, Egito e Pérsia e a outras regiões distantes, vivendo alguns anos em cada centro importante e sendo iniciado nas diversas irmandades, ordens e corporações, para só depois disso, retornar à Palestina”.

Dr. H. Spencer Lewis: (1883 – 1939)

Escreveu o livro The mystical life of Jesus, da Biblioteca Rosacruz nos USA e cita: “Jesus quando estava ainda com 13 anos foi levado pelos Magos para escola monástica de Djaguernat para se familiarizar com os ensinamentos e rituais do budismo. Depois ele foi para o vale do Ganges para estudar ética, física e gramática. Ali Jesus se interessou pelo sistema terapêutico dos hindus. Depois retornou ao mosteiro de Djaguernat, onde se familiarizou com a arte de ensinar por meio de parábolas. Jesus continuou os seus estudos por vários lugares a preparar-se para os graus superiores da Grande Fraternidade Branca, quando então alcançou o título de Mestre e voltou para a Palestina”.

Resposta do espírito Ramatís, a respeito da vida de Jesus no período não mencionado nos Evangelhos, extraída do livro “O Sublime Peregrino”, da Livraria Freitas Bastos:

“Jesus esteve em contato com os Essênios e conheceu-lhes os costumes, as austeras virtudes, assim como teve oportunidade de apreciar-lhes as cerimônias. Apesar de Jesus ter conhecido os Essênios, ele não se filiou à Confraria dos Essênios, mas entreteve relações amistosas. Jesus jamais propalou a sua condição de membro honorário da Confraria dos Essênios, onde o sigilo era um voto de severa responsabilidade moral”.

André Cehesse:

Em artigo: “Teria Jesus vivido na Inglaterra?” – O Globo – 1958, o autor cita: “Jesus acompanhou, de navio, o seu tio José de Arimatéia pois este era um rico mercador cujos navios singravam o Mediterrâneo e numa dessas viagens, chegaram até Cornualha, situada no sudoeste da Inglaterra, onde Jesus teve a oportunidade de instruir-se com os druidas, antes de retornar à Palestina”.

As citações carecem de comprovação científica, mas as mesmas aguçam a curiosidade, pois como mencionado no início deste tópico, a Bíblia é omissa quanto a este período e, provavelmente, jamais teremos confirmações para este hiato na vida de Jesus.

 

  • 18-) Pregação de Jesus: início  versus  término

Muitos consideram que o início da pregação de Jesus foi marcado pela passagem citada em Lucas 2:46-47, onde Jesus, com 12 anos de idade, aparece no meio dos doutores do Templo, escutando e fazendo perguntas e estes ficaram maravilhados com a inteligência de suas respostas; porém, segundo o escritor Moacyr Jaime Scliar (1937 – 2011) esta é a idade que compreende o momento na vida de um judeu onde ele é sabatinado, através da cerimônia chamada Bar Mitzvah (filho do mandamento) e, que marca a maioridade religiosa de um judeu. Fica a dúvida onde Jesus teria aprendido os costumes judaicos, pois Nazaré era uma pequena cidade com 2 hectares e, provavelmente, não deveria ter uma Sinagoga.

 

No tocante ao local de início das pregações de Jesus, a história territorial e a arqueologia conjugam-se com a tradição cristã, indicando que foi em Cafarnaum, cidade situada na parte setentrional do mar da Galileia.

Lucas 3:23 menciona que Jesus inicia sua vida de pregação “por volta de 30 anos”, mas é preciso ter cuidado, já que é possível ver nessa indicação uma aproximação com a entrada do rei Davi na vida pública.

 

No tocante à duração da atividade pública de Jesus; Mateus, Marcos e Lucas não fazem qualquer indicação, mas João (Jo 2:13; Jo 6:4 e Jo 11:55) menciona três páscoas, o que nos leva a concluir, com base nesta posição, que Jesus pregou durante dois ou três anos e meio.

 

  • 19-) Morte de Jesus:

A morte de Jesus é atribuída pelo método da crucificação e esta forma era mais do que uma pena de morte para Roma – era um lembrete público do que acontecia quando se desafiava o Império. Por isso, era reservada exclusivamente para os crimes políticos mais radicais: traição, rebelião, sedição e banditismo (só no ano de nascimento de Jesus, estima-se que ocorreram 2.000 crucificações).

 

A crucificação não ocorreu só durante o início do cristianismo, ela é bem anterior a isso e teria se originado com os assírios e babilônicos e, infelizmente, ainda hoje é praticada em alguns países (em ago/2018 a Arábia Saudita procedeu uma crucificação).

 

Em Mc 11:15-18, a morte de Jesus é atribuída à expulsão dos vendilhões do Templo e em Jo 11:47-53 é atribuída à ressureição de Lázaro. Ambas as passagens responsabilizam os religiosos judeus pela condenação de Jesus e, desta forma, esvaziam o elemento político, ao retirarem a responsabilidade romana pela morte de Jesus.

 

Apesar disso, tudo leva a crer que o motivo atribuído à pena para Jesus foi o de sedição (perturbação da ordem pública), uma vez que as autoridades romanas consideravam isso como uma ofensa capital. E ela foi aplicada face à diversos fatores: Jesus ao falar sobre a instalação de um reino de Deus em Cafarnaum foi interpretada pelas autoridades romanas como um afronto, pois já existia um Reino de Deus, cujo nome era Império Romano e o seu imperador era tido como filho de Deus; ao ataque de Jesus aos negócios do Templo, quando ele derrubou as mesas dos cambistas, que trocavam várias moedas pelo Shekel, única moeda aceita no Templo e expulsou os vendedores de comida e soltou os animais que seriam vendidos a sacrifícios. O Templo de Jerusalém era a principal instituição cívica e religiosa dos judeus e o ataque de Jesus aos negócios do Templo, além de provocar a reação das autoridades romanas, indica que houve a participação dos judeus na acusação contra Jesus, porém por uma parte, chamada de Saduceus, facção que apoiava a dominação romana e controlava a nomeação dos sumos sacerdotes. Esta possibilidade da culpabilidade dos judeus pela morte de Jesus produziu uma série de perseguições a este povo e o escritor israelense Amo Oz (1939 – 2018), nos deixou um artigo “Cristãos injustiçaram judeus e árabes”, jornal Folha de S.Paulo, de 19/03/2000, citando a seguinte passagem: “Quando eu era criança, minha sábia avó me explicou a diferença entre judeus e cristãos em termos simples: Os cristãos acreditam que o Messias já esteve aqui uma vez e vai retornar algum dia; os judeus afirmam que o Messias ainda está por vir. Por que todo o mundo não pode simplesmente esperar para ver? Se o Messias chegar dizendo “olá, é bom rever vocês”, então os judeus terão que admitir que estavam errados. Se, por outro lado, Ele chegar perguntando “como vão vocês?”, então o mundo cristão terá que pedir desculpas aos judeus. Enquanto esse dia não chegar, por que não viver e deixar viver, simplesmente?”

 

Para que a pena de crucificação fosse aplicada, houve um julgamento e este é cercado de controvérsias: Haim Herma Cohn (1911 – 2002)  ex-ministro da Suprema Corte de Israel alega em seu livro “O julgamento e morte de Jesus”, que tal julgamento é incompatível com várias disposições da antiga lei Judaica, tais como: negligenciando a Páscoa, reunindo-se à noite e em uma propriedade particular, o Sumo Sacerdote agindo como interrogador etc.

 

Além desse ponto, como explicar o seguinte: os evangelhos citam que Jesus, antes de chegar a Jerusalém, passou por várias cidades, sendo seguido por multidões. Como pode num dado momento ser aclamado e em ato contínuo ser julgado?

Durante o julgamento de Jesus, a multidão teria pedido que Barrabás, um assassino, fosse solto em vez de Jesus – já que era “costume” da Páscoa. Esse costume, porém, não é mencionado em nenhum lugar, exceto nos Evangelhos. Para os pesquisadores, Barrabás personificaria os sicários, judeus que saíam armados de punhais para matar romanos na calada da noite. E que por isso mesmo eram assassinos amados pela população.

 

A questão da crucificação de Jesus é assunto controverso, face às diferentes correntes a respeito da natureza dele, já mencionadas no item 8 deste texto. Incluo, ainda, que os Testemunhas de Jeová alegam que Jesus morreu numa estaca ou poste (segundo eles seria a tradução correta da palavra grega stauros e não numa cruz, a despeito do que isto possa significar para as questões de fé).

 

Ainda na linha das questões controversas, cito que cada evangelista escreveu uma frase diferente no letreiro que foi afixado na cruz:

  • Mt 27:37 - “Este é Jesus, o rei dos judeus”.
  • Mc 15:18 - “Salve, rei dos judeus”.
  • Lc 23:38 - “Este é o rei dos judeus”.
  • Jo 19:19 - “Jesus nazareno, o rei dos judeus”.

 

No âmbito arqueológico, uma única prova dos métodos de crucificação foi encontrada em Israel em 1968: um esqueleto com um prego de 11,5 centímetros enterrado em seus pés. Tal esqueleto foi identificado como sendo de Yehohanan ben Hagakol (João, filho de Hagakol), morto durante o século I.

 

No que se refere ao sepultamento de Jesus, há outro ponto contraditório, pois em todo o mundo romano, o costume era abandonar o cadáver na cruz, para ser comido por abutres. Além disso, é suspeita a figura de José de Arimatéia, judeu rico e simpatizante secreto de Jesus que teria obtido seu corpo e organizado seu sepultamento, segundo os Evangelhos. 

 

Camponeses como os seguidores de Jesus não teriam como se dirigir a Pilatos para exigir o corpo. Assim, os evangelistas enfrentam o problema de explicar o sepultamento de Jesus e usam a figura de José de Arimatéia, que praticamente cai de paraquedas na narrativa. Porém não se pode ser taxativo quanto ao não sepultamento de Jesus, pois como mencionado há o registro de sepultamento de um crucificado. Porém, como explicar o fato de o porquê de não terem sido encontradas as ossadas dos milhares de crucificados na longa história do Império Romano, tais como, por exemplo, os cerca de seis mil escravos capturados (Apiano. Guerras  Civis 1:120) após a derrota de Espártano em 71 aEC; ou os milhares de crucificados judeus que tentaram escapar do cerco imposto por Tito (Josefo. GJ 5:447-451) à cidade de Jerusalém em 70.

 

Para aqueles que creem num “Jesus divino”, a discussão sobre a data da morte dele é irrelevante; porém neste texto, discutimos o Jesus histórico e é inconcebível que uma criatura com tantos feitos atribuídos durante a sua vida, não saibamos a data exata da sua morte, enquanto a história nos recheia de informações precisas, mesmo de pessoas que não tiveram o mesmo realce, como, por exemplo: a morte de Cleópatra, que ocorreu em 12/08/30 a.C., vítima de uma picada de serpente.

 

  • 20-) Propagação da Doutrina Cristã:

Após a morte de Jesus não houve um crescimento automático da sua doutrina, pois em Atos 1:15 afirma que havia apenas cerca de 120 seguidores depois de sua morte.  

 

A denominação cristã surgiu pela primeira vez por volta do ano 44 d.C, pelos habitantes de Antioquia de Orontes, os quais deram aos seus seguidores, a alcunha de “Khristianoi”, cristãos – Atos 11:26. Alguns afirmam que o termo cristão foi criado como um nome depreciativo, sendo aplicado como um termo de escárnio para aqueles que seguiram os ensinamentos de Jesus.

 

Existem outras datas em que foram encontradas informações produzidas acerca dos cristãos, como exemplos: 96-98 d.C. no principado de Nerva e em 98-117 d.C. no de Trajano. Especificamente no governo de Trajano, há o registro de uma carta de Plínio, o Jovem endereçada a ele, datada de 111 d.C., onde ele está para julgar um caso de um cristão e alega nunca ter julgado um caso sobre um seguidor de tal doutrina. Tal carta é o 1º exemplo registrado pelos romanos, reconhecendo o cristianismo como uma nova doutrina religiosa. Outra data a respeito do emprego dos termos “cristão” e “cristianismo”, aparecem, também, entre 107 e 110 d.C. por Inácio de Antioquia.

 

O início do Cristianismo foi complicado, pois havia duas “forças” que se opunham entre si: um grupo, defendido por Tiago, irmão de Jesus (os Católicos não aceitam que Jesus teve irmãos, pois o termo grego “adelfos” possui um significado mais amplo, incluindo tios, primos etc.) e outro promovido pelo ex-fariseu Saulo (nome judaico), que adotou o nome romano de Paulo, após conversão ao Cristianismo.

 

O grupo de Tiago, nitidamente formado por homens contrários à dominação romana, praticamente desapareceu no massacre de Jerusalém pelos romanos na revolta que terminou no ano 70 d.C. e até um pouco ante disso, face à morte de Tiago, ocorrida em 62 d.C.

 

O grupo de Tiago tinha Jesus como o Messias, que teria vindo ao mundo para livrar o povo judeu da opressão e era o escolhido para implantar o reino de Deus e governar Israel conforme a Lei. Paulo, porém, apresentava Jesus como o Filho de Deus. Paulo focava a pregação junto aos pagãos e conseguiu convencer Tiago a permitir que os pagãos convertidos fossem dispensados de seguir a Lei judaica.

 

Como mencionado, o grupo de Tiago praticamente foi extinto com o massacre de Jerusalém em 70 d.C. o que, para muitos teólogos, proporcionou a Paulo se transformar num personagem fundamental nos primeiros anos do Cristianismo. Seu trabalho de evangelização foi em grande parte, responsável pelo caráter universal da doutrina cristã. Enquanto a maioria dos apóstolos que conviveram com Jesus restringiram sua pregação à Palestina, Paulo levou a palavra de Jesus para: Grécia e Roma, com a mensagem de um Jesus divino e descomprometido com a política.

 

A penetração de Paulo em lugares aonde só ele chegou, faz com que uma corrente de historiadores e teólogos considerem que Paulo deturpou os ensinamentos de Jesus – a ponto de a mensagem cristã que sobrevive até hoje, ter origem não em Jesus, mas em Paulo, uma vez que a sua tese central é a da salvação somente pela fé em Cristo morto e ressuscitado. Sobre Paulo recai a acusação de ser o responsável na transformação do “Jesus histórico” no “Jesus mítico”.

 

Esses historiadores e teólogos julgam ser mais correto dizer que o que existe hoje é um “paulinismo”, não um Cristianismo. Esta posição é corroborada por Friedrich Nietzsche (1844 – 1990), filósofo alemão, em Aurora: “Paulo é o primeiro cristão, o inventor do Cristianismo. Até então havia apenas alguns sectários judeus”.

 

O início do cristianismo, após a morte de Jesus, foi considerado pelas autoridades romanas, apenas mais uma das inúmeras dissidências do judaísmo. A comunidade cristã passou a se apresentar como destinatária das profecias outrora reveladas aos judeus.

 

O monoteísmo cristão exigia fidelidade exclusiva a Jesus, o que se tornava incompatível com a cosmovisão política do Estado romano, uma vez que este reconhecia a sacralidade do cargo imperial.

 

Não podemos crer que a expansão do cristianismo se deu de forma homogênea pela bacia do Mediterrâneo e que tenha conseguido neutralizar e substituir os valores, costumes e práticas pagãs da época. O que ocorreu no século I foi o livre trânsito de adeptos ao cristianismo no período caracterizado pela Pax Romana, e que permitia uma intensa hibridização entre os romanos e os povos por eles subjugados, propiciando a difusão do Evangelho.

 

Vale ressaltar que, por muito tempo, o cristianismo e o judaísmo foram duas crenças absolutamente porosas, de maneira que a separação entre elas não se deu em um único movimento, mas por etapas. Um dos marcos da separação foi a destruição do Templo de Jerusalém, que alimentou as correntes da escatologia cristã, pois tal destruição foi interpretada como um indício de que o Juízo Final se aproximava.

   

Outro ponto que contribuiu para a ascensão do Cristianismo foi graças ao colapso do Império Romano, que estava “encharcado” de corrupção e que teve início com o assassinato do imperador Pertinax (193 d.C.) e proporcionou décadas de guerra civil (no curso de 50 anos se alternaram 26 imperadores, dos quais apenas um teve morte natural).

Como sempre acontece por todo o mundo, quando os tempos são bons, poucos se preocupam com questões religiosas, mas em tempos ruins a religião se torna algo relevante e como o Cristianismo possuía um bem-organizado serviço social, foi importante para atingir os pobres e marginalizados que crescia a cada dia.

 

Somado a tudo isso, temos fatos marcantes que, também, contribuíram para o crescimento do Cristianismo: o Édito de Tolerância, assinado pelo imperador Galério em 311 d.C. que termina com a perseguição aos cristãos; o Édito de Milão, assinado pelo imperador Constantino em 313 d.C., que declara o Império Romano neutro nas questões religiosas e oficializa o fim das perseguições aos membros de crenças fora do paganismo, em especial aos cristãos, o que propiciou aos mesmos um período de tolerância. Constantino adotou o Cristianismo para si, mas não o instituiu como religião oficial de Roma e, finalmente, a decisão do imperador Flávio Teodósio, que em 380 d.C. torna o Cristianismo como religião oficial do Império Romano, através do Édito de Tessalônica, abolindo todas as práticas politeístas. O Alto Clero romano modifica o nome de Igreja Cristã para Igreja Católica e adota a cruz como símbolo do Cristianismo. Tal símbolo é atribuído ao imperador Constantino, pois ele teria sonhado com esse símbolo com a inscrição In hoc signo vinces – “sob este símbolo vencerás”, porém os primeiros cristãos identificavam a sua doutrina por um peixe estilizado, criando, inclusive, um acrônimo para ichthys, peixe em grego: Iesus Christus Theou Yicus Soter – “Jesus Cristo filho de Deus Salvador”. A cabeça do peixe indicava o lugar onde o grupo cristão local faria suas reuniões clandestinas, os cristãos se viam forçados a usar símbolos mais crípticos do que a cruz e o peixe era um dos seus favoritos.

 

  • 21-) Conclusão:

O questionamento maior que fica é: os ensinamentos atribuídos à Jesus são os únicos modelos de ética do mundo? Como resposta a esta indagação, registro o comentário do amigo Ricardo de Morais Nunes, quando da minha apresentação do presente tema no CPDOC: “obviamente que não, pois a diversidade de crenças em Jesus, na atualidade, deve ser interpretada não como um único modelo de conduta ética, mas como um modelo que fala especialmente para nós que vivemos no ocidente. E que para outras partes do mundo, outras inspirações e outros modelos existem”.

 

Aproveitando essa observação do Ricardo, menciono que a passagem em Mateus: 7,12, chamada de Regra de Ouro - “Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles” é encontrada em várias religiões/filosofias, sendo muitas delas, bem anterior à citada passagem. Como exemplos, cito:

  • Hinduísmo (1.700 – 1.100 a.C.) “Esta é a suma do dever: não faças aos demais aquilo que, se a ti for feito, te causará dor”.
  • Zoroastrismo (680 - 583 a.C.) “Um caráter só é bom quando não faz a outros aquilo que não é bom para ele mesmo”. 
  • Budismo (563 – 483 a.C.) “Não atormentes o próximo com aquilo que te aflige”.
  • Confucionismo (551 - 479 a.C.) “Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam”.

 

No ano de 2020, quando reescrevo este texto, o mundo sofre com a pandemia do Covid 19. O noticiário informa que as palavras mais pesquisadas na internet são: Deus, Fé e Oração. Isto só alimenta que, principalmente, nos momentos difíceis a humanidade busca por consolo nas questões religiosas, que por sua vez, alimenta a crença em um “Jesus divino”, obviamente, no mundo Ocidental. Isto posto, torna-se impossível prever quando, ou melhor, se um dia o “Jesus histórico” se sobreporá ao “Jesus divino”.

 

Como esse texto visa “confrontar” a comunidade espírita sobre o papel de Jesus no Espiritismo, remeto à pergunta 798 do “Livro dos Espíritos”, onde Kardec pergunta: se o Espiritismo se tornará crença comum e os espíritos respondem: “a marcha do Espiritismo será mais célere que a do Cristianismo”. Como o Cristianismo demorou mais de 2.000 anos para atingir só 31,2% da população da Terra e se considerarmos o início do Espiritismo a partir de Kardec, o mesmo completa 163 anos neste ano (2020), ou seja, o Espiritismo, como uma doutrina filosófica, demorará uma “eternidade” para atingir a “profecia” dos espíritos que responderam à citada questão.

 

Parece que a “profecia” do teólogo Franz Rosenzweig, citada no item 10 - Jesus pelo mundo, de que a busca pelo “Jesus histórico” eliminaria a ideia de sua divindade, está muito longe de ocorrer.

 

Em resumo, o ser humano possui uma necessidade de se apoderar da figura de Jesus ou de qualquer outro mito, como se fosse uma propriedade exclusiva e aceitar as “verdades” oriundas deste, mesmo sem um questionamento filosófico e científico. Tal fato é corroborado pelo provérbio Iraniano que diz: A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Cada um recolhe o pedaço e diz que toda a verdade está naquele caco.

 

Encerro este texto com duas passagens do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” de Allan Kardec:

 

  • ...não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade. (capítulo XIX – item 7)
  • Desconfiai daqueles que pretendem ter o único monopólio da verdade. (capítulo XXI – item 8)

 

  • 22-) Agradecimentos:

Agradeço os comentários/críticas/sugestões recebidas dos amigos membros do CPDOC - Centro de Pesquisas e Documentação da Doutrina Espírita e do ICKS-Instituto Cultural Kardecista de Santos, o que me proporcionou instrumentos para poder rever o texto e reescrevê-lo na atual versão: Jesus, este mito que me atormentava.

 

 

  • 23-) CRONOLOGIA:

 

a.C.

753 - Fundação do reino de Roma

509 - Fundação da República Romana

451 - Primeiro código escrito de leis romanas

206 - Romanos dominam a Península Ibérica

167 – A religião judaica é proibida oficialmente com pena de morte pelo Império Selêucida. O Templo de Jerusalém é transformado num santuário do deus grego Zeus

166 – Com o apoio de todos os partidos judeus tradicionais, Judas Macabeu lidera revolta vitoriosa contra os selêucidas

150 – Os essênios se fixam em Qumran. Liderados pelo Mestre da Virtude, rejeitam as autoridades de Jerusalém.

146 - Corinto, na Grécia, é invadida e queimada; término das Guerras Púnicas, com a destruição de Cartago e a consolidação da supremacia romana sobre as antigas áreas helenistas

89 - Toda a Península Itálica recebe a cidadania romana

63 - O triúnviro romano Pompeu conquista Síria-Palestina.

20 - Herodes inicia a reconstrução do Templo de Jerusalém

06 - Nasce Jesus

 

d.C.

26 – Pôncio Pilatos assume como governador de Jerusalém

27 - Jesus é crucificado

36 - Paulo, perseguidor dos cristãos, converte-se aos ensinamentos de Jesus

44 – Os habitantes de Antioquia de Orontes foram os primeiros a dar aos adeptos de Jesus a alcunha de “cristãos”.

46 - Paulo inicia viagens missionárias a Chipre, à Ásia Menor e à Grécia.

58 – Em Jerusalém, Paulo é censurado por Tiago por incitar os judeus a não seguir mais a Lei Judaica.

62 - Morre Tiago, irmão de Jesus

66 - Morre Paulo

70 – O imperador Tito conquista Jerusalém e destrói o 2º Templo. Milhares de judeus são mortos e os sobreviventes se espalham pelo mundo, dando início à Diáspora Judaica.

117 O império Romano alcança, sob o governo de Trajano (sucedido, nesse ano, por Adriano), a máxima extensão territorial.

144 – Marcião propõe um cânone com apenas o Evangelho de Lucas e dez cartas de Paulo

185 - Bispo Irineu (Bispo de Lyon) escolhe os 4 evangelhos.

249 – 253 – Os imperadores Décio e Valeriano iniciam uma perseguição aos cristãos, pois nessa época o Império Romano vinha sofrendo incursões em suas fronteiras pelas tribos germânicas e os cristãos foram escolhidos como “culpados” por esses acontecimentos.

260 – O imperador Galieno promulga um Edito que autoriza o clero a presidir livremente seu culto.

269 - A tese da Divindade de Jesus é rejeita em Antioquia (foi rejeitada em 3 concílios).

301 – O rei Tiridates III torna o cristianismo a religião oficial da Armênia.

303 – Imperador Diocleciano emite 4 Editos que retomam as perseguições aos cristãos.

311 – Imperador Galério assina o Édito de Tolerância que revoga a proibição legal que pesava sobre o cristianismo. Este documento constitui o 1º reconhecimento legal da crença em Jesus..

313 – Durante o governo de Constantino é emitido o Édito de Milão, que é responsável por tributar o apoio da casa imperial aos cristãos e determina a devolução dos locais de culto e das propriedades que haviam sido confiscadas dos cristãos (o termo Édito de Milão é “polêmico” pelo fato de não termos a comprovação da existência do mesmo, mas sim de uma epístola enviada pelo soberano do Oriente, Licínio ao governador da Bitínia.

317 – o Imperador Constantino passa a adotar os símbolos cristãos, em especial a cruz.

325 - Concílio na cidade bizantina de Nicéia (atual Isnik, Turquia). Foi o 1º Concílio ecumênico e organizado pelo Imperador Constantino. Aprova a tese da Divindade de Jesus (a questão da Divindade de Jesus durou 3 séculos e só terminou com a expulsão dos Bispos Arianos, adeptos de Ário

); a virgindade de Maria e faz uma primeira separação de Evangelhos canônicos e apócrifos. Ainda, durante tal Concílio, a Europa Cristã adotou o calendário de Júlio Cesar.

330 – Fundação de Constantinopla (atual Istambul) como a capital do Império Romano no Oriente.

341 – O bipo Úlfilas traduz as Escrituras do grego para o gótico, permitindo a difusão do cristianismo do norte do Danúbio até a Mésia inferior.

353 – Novamente, os cristãos voltam a sofrer perseguições com Constâncio II e Juliano.

354 - Papa Libério institui oficialmente a celebração do Natal, no dia 25 de dezembro, como sendo a data de nascimento de Jesus.

363 – O Concílio de Laodiceia (atual Turquia) determina que apenas os textos confirmados como escritura podem ser usados em cultos. Decreta que o Novo Testamento conteria 26 livros, excluindo o Livro do Apocalipse e o Antigo Testamento conteria 22 livros.

380 – Teodósio, Graciano e Valentiniamo assinam o Édito de Tessalônica, que se torna o marco oficial da cristianização do Império Romano. O Alto Clero romano modifica o nome de Igreja Cristã para Igreja Católica.

391 – Um édito de Teodósio se volta contra os cultos pagãos, proibindo que os mesmos fossem praticados não só nos espaços públicos, mas no privado.

397 – O Concílio de Cartago decide a reincorporação do Apocalipse.

449 – O Papa Leão 1º estabelece o dia 25 de dezembro como o dia para a comemoração do nascimento de Jesus.

476 – Queda de Rômulo Augusto, após invasão germânica, precipitando a dissolução da parte ocidental do império Romano: o lado oriental (Império Bizantino) persistiria até 1453, quando Constantinopla é então tomada pelos turcos otomanos.

529 -O Imperador Justiniano declara o dia 25 de dezembro como feriado oficial do Império Romano.

531 – O Abade Dionísiu Exigus calculou o nascimento de Jesus como o ano 1, criando a expressão Anno Domini (AD), no latim ou depois de Cristo (d.C.).

607 - O imperador Foca favorece a Criação do Papado, sendo que essa decisão imperial faculta aos Bispos de Roma prerrogativas e direitos até então inimagináveis.

622 – A fuga de Maomé de Meca para Medina, marca o início do Islamismo.

1054 – Surge a Igreja Ortodoxa em função da cisma entre Oriente e Ocidente, decorrente das disputas de poder entre o papa de Roma e o patriarca de Constantinopla.

1229 – Durante o Sínodo de Toulouse são definidas as diretrizes que nortearam o funcionamento da Inquisição.

1231 – A Inquisição é oficialmente instalada pelo Papa Gregório IX

1453 – Queda de Constantinopla que fica em poder dos Turcos (os historiadores consideram o fim da era medieval e o início da Renascença).

1456 - Impressão da 1ª Bíblia

1517 – Nasce o Protestantismo, movimento reformador iniciado na Alemanha pelo monge Martinho Lutero

1518 – O Papa Leão X cria o célebre “Livro das Taxas da Sagrada Chancelaria e da Sagrada Peninteciaria Apostólica”, onde estipula os preços da absolvição de todos pecados, desde o adultério até os crimes mais hediondos.

1521 – Martinho Lutero é condenado como herege

1522 – Martinho Lutero traduz o Novo Testamento para o alemão

1534 – Martinho Lutero traduz o Velho Testamento para o alemão.

1546 - O Concílio de Trento considera que os livros da Bíblia foram inspirados por Deus e aprovados oficialmente pela Igreja Católica.

1555- Após longa luta, Carlos V reconhece a existência do luteranismo e o direito dos nobres em escolher a sua religião (2/3 da Alemanha adota a Religião Luterana)

1582 – O Papa Gregório XIII estabelece um novo calendário, aperfeiçoando o de Júlio Cesar

1609 – Surge a Igreja Batista na Holanda

1611 – O rei britânico James I encomenda uma tradução da Bíblia para o inglês

1739 – Surge a Igreja Metodista na Inglaterra

1781 – Ocorre a última sentença de morte proferida pela Inquisição Espanhola.

1830 – Surge a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida como Mórmons, nos EUA

1844 – Em 22 de outubro deste ano, ocorre o chamado: Dia do Grande Desapontamento. Foi nesse dia que religiosos do EUA esperavam a 2ª vinda de Jesus, com base numa passagem bíblica.

1857 - Kardec escreve O Livro dos Espíritos

1863 – Surge a igreja Adventista do 7º Dia nos EUA, tendo como uma das fundadoras a Srª Ellen White, cujos escritos são considerados pelos adventistas como inspirados por Deus

1865 – Surge nos EUA a religião evangélica Exército de Salvação, que inicialmente utilizou o nome de Missão Cristã (o Exército de Salvação é uma dissidência da Igreja Metodista).

1868 - Kardec escreve A Gênese – os milagres e as predições segundo o espiritismo.

1870 – O Papa é definido como pessoa infalível (Infabilidade Papal)

1870 – Surge a Igreja Testemunhas de Jeová, nos EUA (inicialmente a denominação adotada era de Estudantes da Bíblia e o nome Testemunhas de Jeová só foi adotado em 1931)

1908 – O termo Inquisição é abolido pelo papa Pio X.

1947 - Descoberta dos Manuscritos do Mar Morto

2001 - World Christian Encyclopedia divulga a existência de 33.830 denominações cristãs.

2010 - Jaci Régis, um dos maiores pensadores do espiritismo contemporâneo, desencarna na cidade de Santos-SP.

2017 – Ocorre em Santos-SP a edição do XV Seminário do Pensamento Espírita Brasileiro, onde o presente texto, na sua versão original, é apresentado.

2019 – Ocorre em Santos-SP a reunião do CPDOC-Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, onde o presente texto, na sua versão original, é apresentado e discutido, surgindo daí a presente versão.

 

 

  • 24-) Bibliografia:

 

  • “Belém vs Belém” (24/12/2011) – Jornal Folha de S.Paulo.

·         Aslan, Reza - “Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré” – editora   Zahar – (2013).

  • Bíblia  – Edição Pastoral – (nov/1991)
  • Chevitarese, André Leonardo – “Cristianismos no Império Romano” – Menocchio Editora - (2023).
  • Chevitarese, André Leonardo – “Jesus de Nazaré – o que a história tem a dizer sobre ele” – Menocchio Editora – (2022).
  • Dawkins, Richard – “Deus um delírio” – Companhia das Letras (2006).
  • Duncan, Anthony - “Jesus Ensinamentos Essenciais” – Editora Cultrix – (1986).
  • Ehrman, Bart D. - “O que Jesus Disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê”– Agir Editora Ltda – (2005).
  • Fizgerald, David - “NAILED: Dez mitos Cristãos que mostram que Jesus nunca sequer existiu”– Published by Create Space – Portuguese Edition – (2017)
  • Flusser, David - “O Judaísmo e as Origens do Cristianismo” – volume I – Imago Editora – (2000).
  • Hayek, Samir El - “O significado dos versículos do Alcorão Sagrado com comentários” – Narsan Editora Jornalística - 14ª edição – (2009)
  • Imbassahy, Carlos de Brito  (nov/1993 a fev/1994)  - “Na Hora da Verdade I, II, III e IV”- Jornal Abertura.
  • Lewis, H. Spencer - “A Vida Mística de Jesus” – Biblioteca da Ordem Rosacruz  - (1985).
  • Petitfils, Jean-Christian - “Jesus, a  Biografia” – Editora Benvirá – (2015).
  • Regis, Jaci  – (dez/1999)  - “O Terceiro Aspecto” – Jornal Abertura .
Werneck, Francisco Klörs - “Jesus dos 13 aos 30 anos” – Editora Eco – 10ª 

Quer ler o primeiro texto sobre o tema, escrito por Marcus Videira, baixe aqui:


Nenhum comentário:

Postar um comentário