sábado, 7 de outubro de 2017

Ser Progressista - por Alexandre Cardia Machado

Ser progressista
A discussão em torno deste tema tem tomado conta do Grupo de Estudos do ICKS, em preparação para o nosso trabalho a ser apresentado no SBPE. Para tanto nos propusemos a analisar os jornais Espiritismo e Unificação e o nosso Abertura buscando temas que tem sido  caracterizados como frentes progressistas. Demonstraremos no SBPE que o Espiritismo é sim progressista e nossos veículos de comunicação o são em grau maior.


Esta questão se faz importante num momento em que a humanidade alcança avanços impressionantes em todos os campos de conhecimento, a ciência a cada dia nos tráz novidades, a medicina, a internet, os meios de comunicação. No campo das questões sociais nos parece que o avanço é mais lento, pois esbarra em alguns pontos que gostaríamos de discutir aqui.

O progresso social depende da cultura, das características do país, da política, mas principalmente da economia. Muitos dirão e com razão que tudo depende da política, pois é neste campo que se discute as relações entre os poderes e suas consequências no campo social e finalmente na vida de cada cidadão. Então para ser progressista no campo social há que se permear a política. Nosso jornal desde o seu nascimento teve uma proposta de abertura, ao pensamento espírita, a atuação e participação social, à questão cultural em nosso campo de ação na ruptura com a religião espírita.

Existem movimentos sociais progressistas, que lutam por direitos humanos, como por exemplo no passado pela maior participação feminina, pelo  direito ao divórcio, pela redução das jornadas de trabalho, nem todas ideias de esquerda, mas certamente nenhuma delas de direita, daí talvez a ideia ou vontade da apropriação do conceito progressista pelas esquerdas.

O ABERTURA sempre se posicionou contra os atos de desrespeito aos direitos humanos e aos atos de fé sem raciocínio, sejam eles atos de fé religiosa ou ideológica. Este jornal foi contra a invasão do Afeganistão pelos EUA onde se manifestou formalmente, colocando uma faixa negra escrita paz em branco, em frente ao ICKS, pois foi um ato sem apoio internacional. Mas também não fomos e não seremos  favoráveis a nenhum ataque terrorista, pois somos fundamentalmente a favor da paz.

No momento atual e sempre, nos sentimos à vontade de comentar qualquer ato de corrupção, ativa ou passiva, sem nos preocuparmos por qual partido está por tráz, a corrupção talvez seja o maior mal que devemos nos livrar na sociedade atual. Ele carrega consigo toda uma marginalidade, um desrespeito a todos os cidadões por aqueles que recebem o mandato em seu nome. O ABERTURA defende o voto consciente, sem fazer campanha partidária, que cada um analise e pense em qual candidato melhor representa o seu conjunto de valores.

O ABERTURA possui colunistas que assinam as suas matérias, não fazemos censura, desde que o tema seja espírita ou relevante à sociedade e abordado sob a ótica espírita, ele será publicado, os editoriais em sua grande maioria são publicados sem assinatura por representarem a opinião do Jornal ABERTURA, normalmente escritos pelo seu Editor-chefe, como fazem todos os veículos jornalísticos. 
O nome ABERTURA existe justamente por escrevermos sobre temas que outros jornais espíritas não abordam, revisamos textos de Allan Kardec que precisam ser atualizados, comparamos textos mediúnicos com textos de Allan Kardec para análise, algo que todo espírita deveria fazer, lançamos temas novos, questões sociais, promovemos debates, todo um conjunto de ações em nosso entender progressistas. Temos consciência de manter um canal aberto contra a mesmice e por isto lutamos constantemente para nos atualizarmos.

Recentemente modificamos nosso logotipo, invertendo o B como uma forma de demontrar claramente que devemos olhar para todos os lados, que somos desiguais – aliás vendo esta cadeia de lojas espanhola foi o que nos motivou a mudar o logotipo.

Mantemos o convite permanente aos nossos leitores que nos escrevam, que nos ofereçam a sua posição, através de nosso email ou de nosso blog, onde postamos algumas de nossas matérias e outras questões mais polêmicas, em um meio mais livre como deve ser o ambiente de internet. Temos um grande prazer em publicar as mensagens ou matérias enviadas, além disto promovemos a cada dois anos o Simpósio Brasileiro do Pensamento (livre) Espírita, aberto a qualquer trabalho espírita, sem censura.




O Egoismo - por Raymundo Rodrigues Espelho

                       O  EGOISMO 

 Raymundo Rodrigues Espelho
    espelho@myhands. com.br 
                Campinas

"O egoismo é veneno em nosso coração, sob a máscara de ciume, e fogo em nossa alma, sobe a capa de agressiva revolta". 
               
                    André Luiz / Chico Xavier

  Egoismo: excessivo amor ao bem próprio, sem atender ao dos outros. Pessoa que quer tudo para si mesma, custe o que custar, sem pensar no minimo bem estar do seu semelhante. Pessoa que, no espelho da vida, só enxerga a si mesma.
 Nuca poderia supor que o egoismo, esta chaga terrível da humanidade, fosse tão abrasivo como em nossos dias.
 De todos os males que nos assolam, sem dúvida, o germe do egoismo acarreta problemas tremendos.
 Força demoníaca do egoismo. Tudo vai bem entre os membros de uma família, mas quando surge uma herança, quando surge uma partilha de bens, os elementos daquela família viram bichos ferozes. Por isso mesmo, nosso Mestre Jesus, Psicólogo de alta penetração conseguiu prever, há dois mil anos, a dureza dos corações humanos. E com muita sabedoria, proclamou:   " é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico ingressar no reino dos céus...". Em geral, todo cidadão rico tem um traço acentuado de egoismo. Cristo ao fazer esta assertiva, sabia de antemão, que a parte mais estranhada na personagem do homem, sem dúvida, é o seu forte apego aos bens materiais. Pode se tocar em tudo o que for do homem, mas quando se toca a mão no bolso ou nos seus bens, este se transforma em uma fera de encomenda.
 Sim, meus amigos, tudo isso acontece, ainda, em nossos irmãos que não se deixam bafejar pela  brisa suave dos ensinamentos 
Cristãos. Evangelho, nos lares e nos corações, faz muita falta. Incorporado às ações do homem, torna a criatura  mais fraterna, mais desprendida, mais humana.
 Há, certamente, no coração do homem, um sentimento doce que o inclina ao amor de seus semelhantes, porém, diante dele ergue-se outro sentimento duro e cruel: o egoismo. É preciso que nos esforcemos, cada vez mais, para que o sentimento do Amor acabe vencendo as sombras do egoismo num mundo onde possa reinar a FRATERNIDADE CRISTÃ. A vida adorna mais luminosa e mais feliz. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

15° SBPE de 2 a 4 de novembro de 2017 - trabalhos apresentados

Trabalhos que foram apresentados no 15° SBPE
Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita

Este foi o último SBPE realizado.

Trabalho
Autor
Pensamento Sistêmico e o Espiritismo
Alcione Moreno
Somos Progressista? Pesquisa nos jornais Espiritismo e Unificação e Abertura
Grupo de Estudos do ICKS
O Papel dos Espíritas Frente as Questões Sociais e Políticas
Ricardo Nunes
Quem foi Padre Germano?
Marissol Castello Branco
Revisão Sistemática da Literatura e Outras Ferramentas Modernas Para Apoio à Pesquisa Espírita
Mauro Spinola
Jesus, Este Mito que me Atormenta
Marcos Videira
O Senso de Justiça e de Cidadania a Partir do Ethos Espírita.
Jacira Jacinto
Do Discurso à Ação e o Comportamento Espírita
Jaílson Mendonça
Reflexões Acerca do Homem e da Natureza
Ciro Pirondi
Da Crise Moral da Humanidade e a Transição do planeta
José Carlos de Souza
O Desenvolvimento Sustentável Versus o Desenvolvimento Consciente do Espirito
Gustavo Molfino
O Espiritismo que Queremos
Carol Régis di Lucia


O evento ocorreu de 2 a 4 de Novembro de 2017, em Santos -SP

domingo, 1 de outubro de 2017

O Valor de Uma Biblioteca Espírita - redação Jornal Abertura

Fazendo a Diferença: O Valor de Uma Biblioteca

Estamos em tempos novos, onde tudo ou quase tudo é digital, as pessoas não querem mais ter bibliotecas e descartam com facilidade os livros que leram. É compreensível, não que todos sejam iguais, mas aqueles que guardam seus livros muitas vezes são chamados de acumuladores.
Mas não foi sempre assim e bibliotecas, tem sim, um papel importante na história do conhecimento humano e em sua universalização.

Com toda a modernidade, computadores,  “smartphones” e “tablets”, a velocidade de aceso a conteúdo livre é enorme, não resta nenhuma dúvida que isto é incrível e que facilita em muito a nossa vida, no entanto, ainda há espaço para o conhecimento impresso. Podemos citar vários exemplos práticos, mesmo em instalações super modernas como plantas de geração de energia, ou centrais nucleares, é impressindível ter os documentos críticos impressos, para os casos de emergência, como falta de energia ou ataque cibernético. Num momento destes os desenhos impressos são os mais indicados.

Na história, principalmente nos séculos XIV e XV quando a civilização européia, pelo contato com os árabes que a estavam invadindo pela península hibérica ou pelos balcãs, puderam voltar a entrar em contato com obras originais gregas, que eram mantidas fora do alcance dos pensadores europeus pela centralização do conhecimento pela Igreja Católica. Ao serem traduzidas, causaram a segunda grande revolução do conhecimento humano, o renascimento. A primeira foi sem dúvida o desenvolvimento da escrita que nos tirou da pré-história. Este conhecimento de obras dadas como perdidas de grandes filósofos gregos, só foi possível pela existência da grande biblioteca de Alexandria, no Egito e por outras menores espalhadas por seus sudanatos.

A importância dada ao conhecimento no oriente contrastava com o que ocorria na Europa no mesmo período, pensar sobre isto hoje, nos demonstra que o livre-pensamento é importantíssimo e que a religião como forma de opressão do pensamento é também capaz de produzir uma inversão cultural entre ocidente o oriente, hoje na área dominada pelo Islã, em muitos países, livros são queimados, por serem considerados impúros, tremenda ironia.

Biblioteca da Cidade do Nova Iorque


É verdade que quase ninguém quer ter, nos dias de hoje enciclopédias, pois a velocidade do crescimento do conhecimento, torna uma obra destas obsoleta muito rapidamente. Para aqueles que cresceram ao lado delas e que gostavam de ler, ou pesquisar nas enciclopédias, sabem bem como era legal descobrir as coisas, ficar maravilhado. Isto, é verdade, não acabou, podemos fazer isto usando os navegadores da internet, apenas precisamos tomar o devido cuidado de verificar as fontes pois dizem que 50% do que está publicado na web é de conteúdo duvidoso.

O mesmo acontece com jornais e revistas que sofrem ao competir com o conteúdo “online”. Nosso jornal necessita buscar o tempo todo por novos leitores, para se manter viável, sites de grandes jornais limitam o acesso ao seu conteúdo online como forma de buscar mais assinantes, ou alguma forma de compensação. Agora qualidade tem preço, bons conteúdos, científicos, para serem acionados é preciso que as pessoas se inscrevam e paguem por isto. As bibliotecas virtuais, profissionais, custam muito dinheiro, pois precisam funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana, com velocidade de busca, ocupando grandes espaços virtuais, que custam dinheiro.

A elaboração de trabalhos científicos, obriga a leitura e referência de artigos confiáveis, recentes, isto seria impossível, nos dias de hoje, se eles não fossem de acesso virtual, no entanto grandes cidades como Nova Iorque, Paris ou São Paulo, possuem grandes bibliotecas reais, com acervos e coleções importantes de livros originais, registros históricos importantíssimos e que não puderam ser digitalizados.

Institutos como o Instituto Cultural Kardecista de Santos, por exemplo, possuem acervo de trabalhos e obras produzidas por seus sócios, bem como uma pequena biblioteca espírita e de assuntos correlatos, para suas pesquisas, possuímos também o acervo completo dos jornais publicados pelos periódicos espíritas Espiritismo e Unificação e Abertura. Pequisadores podem acessar com hora marcada, bastando entrar em contato pelo email do ICKS. Mesmo entre nós, muitos se perguntam, mas por que guardar tudo isto?

A resposta é simples, para que não cometamos os mesmos erros do passado, para manter acesa a chama da busca permanente do conhecimento e do desenvolvimento do livre-pensar.

Artigos importantes de nosso jornal, são publicaos em nosso blog, assim em qualquer lugar do planeta, podem ser lidos, mas não temos recursos suficientes para digitalizar tudo, de uma forma que permita uma consulta por palavras como por exemplo podemos fazer no “google”, mas quem sabe, não possamos um dia vir a ter isto também. Quem sabe usando resumos dos textos que sim poderiam ser encontrados por navegadores e desta forma asceder a uma cópia digital mais simples do artigo.
Na pesquisa que estamos realizando para o trabalho do ICKS no 15° SBPE, coletamos muito material, digitalizamos e em algum momento poderemos disponibilizar. São artigos relativos a assuntos onde nosso grupo de pensadores tem demonstrado serem progressistas.

Jornais são também marcadores do tempo. Pensem nisso. Só não se esqueçam de um pequeno detalhe, para que tudo isso seja viável, há que ter gente que o faça.

Nota: Artigo publicado no Jornal Abertura - Agosto de 2017


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Futuro do Movimento que Queremos Construir - por Alexandre Cardia Machado

Na edição de Junho de 2017, publicamos na página 8 do jornal um artigo chamado “ O Futuro do Espiritismo” que tratava do dilema que sempre ocorre, quando estamos envolvidos num trabalho intensamente e paramos para pensar, se o mesmo terá continuidade.

Repito abaixo o último parágrafo do artigo, lembrando ao leitor que já não possui mais o jornal do mês passado que poderá econtrar o texto completo no blog do ICKS.

“... Também temos receio do que acontecerá com nosso movimento livre-pensador, não vemos muitos jovens. Tememos que termine em 20, 30 anos. Mas a análise da história nos permite dizer que prosperará, encontraremos formas de chegar aos mais jovens, certamente aparecerão muitas coisas diferentes, novas mideas, novas formas de atingí-los.

Este é o grande desafio do momento, penetrar na mente e no coração dos mais jovens, trazê-los para as ações espíritas, em nosso grupo, em especial,  para o pensar espírita.”

Buscando algumas respostas a como fazer com que aparecem coisas diferentes e que motivem o ingresso de novos pensadores na nossa cadeia produtora de ideias, chegamos a alguns pontos que precisam ser explorados:

- Como penetrar na mente e nos corações dos jovens para trazê-los para dentro do movimento?

- Como seria um Centro Espírita moderno, reinventado? - Na década de 90 do século passado, mudamos muitas de nossas casa de Centros Espíritas para Centros de Cultura Espírita, este modêlo pode ser considerado um modêlo de sucesso?

- O ICKS durante 10 anos, por ter tido uma localização favorável, em uma avenida de grande movimento, na cidade de Santos, buscou disseminar a ideia Espírita laica, através de cursos voltados para simpatizantes espíritas, foram mais de 500 pessoas que passaram por nossas salas. Qual o resultado prático disto no fortalecimento de nosso grupo?

- Desde 1995, quando no IV SBPE um grupo gaúcho apresentou uma metodologia nova, chamada Estudo Problematizador” uma onda de reuniões de estudos centradas em grupos similares a este se espalhou por casas espíritas livre-pensadoras, passou-se a discutir tudo, questionar tudo, aprofundar tudo, mas não obtivemos uma maior participação jóvem neste modêlo, por que?

Mais recentemente o ICKS demonstrou que é possível desenvolver trabalhos de pesquisa, profundos, bem elaborados por grupos formados com pessoas acima de 70 anos, destacamos dois trabalhos importantes produzidos: Um caderno Cultural - Análise da evolução do conceito de Reencarnação ao longo das obras de Allan Kardec, apresentado inicialmente no XXI Congresso da CEPA em Santos e que viorou Caderno Cultural. A seguir produzimos “Pode o Espiritismo ser considerado Ciência da Alma? Uma análise epistemológica da  proposta do pensador espírita Jaci Régis “ apresentado no 13° SBPE. Se conseguimos fazer isto com um grupo de maior idade, o que nos limita, por que não temos a mesma produção dos jóvens de mocidades?

Vou arriscar um pouco de conceitos gerencias aqui, nosso movimento livre-pensador é eminentemente livre, desconectado, feito à partir de inicitivas isoladas e em muitos casos individuais, nos falta coordenação e planejamento estratégico.

Os Centros Espíritas são realmente células autônomas e pertanto não se engajam muito em atividades municipais ou estaduais, não tem um cronograma de ações conjuntas, entende-se isto pois saímos exatamente de entidades federativas, para termos mais liberdade, portanto este movimento um tanto caótico é uma característica deste tipo de grupo semi-autônomo.

Consequência imediata do modêlo atual é a falta de incentivos aos jóvens para que troquem experiências entre grupos, a exemplo das antigas confreternizações como a COMELESPs, no caso do leste do estado de São Paulo. Onde os jóvens iam apresentar temas e discutir as ideias então em moda. Foram anos de abertura mental no Brasil. Nosso momento atual não é menos provocador, mas nos faltam mecanismos de concentração e discussão para jóvens.

Nos anos 80 e 90 do século passado, nasceram os debates sobre aborto, homosexualismo, liberdade da mulher, ser ou não ser religião, divórcio, toda uma gama de assuntos de vanguarda hoje totalmente incorporados nas leis e nas práticas cotidianas, quais são as discussões atuais que motivarão os jóvens?

A CEPA, em sua gestão passada fez um grande exercício de Planejamento Estratégico que terminou por implantar apenas um capítulo – destinado a descentralização, o que permitiria uma maior velocidade de tomada de decisão, mas acreditamos que questões centrais como a que propomos aqui, de como seremos em 10, 20 ou 30 anos não tem um forum de discussão e por conseguinte, nenhuma ação coordenada é tomada. A CEPA hoje se concentra na realização de eventos, o que é importante para despertar as pessoas e fazê-las pensar mas não é sufuciente para disseminar ações novas e/ou para gerar novos pensadores.


O 15° Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita irá propor esta discussão, através de uma Mesa Redonda. Você leitor que comparecerá ao evento, traga as suas questões e propostas.

Artigo publicado no Jornal ABERTURA agosto de 2017

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Humildade a virtude dos sábios - por Roberto Rufo e Silva

Não se pode servir a dois senhores.

" Se Deus não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se Deus não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela " ( Salmo 127 ).

" Se Deus não existe, tudo é permitido ". ( Dostoiévski ) 

                                                                   
A casa caiu literalmente. Depois das delações das grandes empreiteiras não sobrou pedra sobre pedra. A casa, a qual podemos chamar de morada da política,  era construída sobre alicerces de areia. Porque se fosse construída sobre rochas teria resistido aos ventos e tempestades das denúncias. Negar a desonestidade se transformou num mero exercício de retórica. Usar as armas da competência administrativa ou falar das finalidades sociais para se justificar só os torna mais ridículos do que já são. 

Troquemos a palavra Deus por espiritualidade, que nada mais é do que a posse de valores positivos, visão de vida futura e exercício de amor ao próximo, e a frase de Dostoiévski mais o Salmo 127 ficam mais palatáveis ao espírita intelectualizado. 

De dois homens ricos, um nasceu na opulência e não conheceu jamais a necessidade, o outro deve a sua fortuna ao seu trabalho; todos os dois a empregam exclusivamente em sua satisfação pessoal; qual é o mais culpável? pergunta Kardec aos espíritos. Aquele que conheceu o sofrimento e sabe o que é sofrer. Ele conhece a dor que não alivia, mas muito frequentemente, dela não se lembra mais respondem os espíritos.

Uma das grandes virtudes humanas é o reconhecimento do erro e o esforço para mitigar suas consequências ruins. Todavia o show de soberba é avassalador, onde todos se justificam dizendo que as coisas funcionam assim mesmo e que caixa 2 é um instrumento válido para o exercício da política em época de eleições. Afinal sem eleições não há democracia! É risível esse silogismo. Mas obviamente trata-se de uma estratégia para que tudo caia no ralo comum do caixa 2 na esperança de que do STF surja o perdão de todos os pecados. Muito bem orientado pelo seu advogado, o governador Sérgio Cabral, um ladrão contumaz, diz agora que o dinheiro utilizado na compra de joias era resto de campanha oriundo do famigerado caixa 2. Esse mesmo argumento é utilizado para justificar aeroporto na fazenda da família, de sítio no interior e apartamento no litoral.  

Todos frequentam Igrejas, templos, batizam seus filhos e netos, comparecem a missas e procissões em épocas apropriadas, mas a espiritualidade já citada e o desejo de perfeição moral passam a léguas de distância de suas consciências. Infelizmente são incapazes de assumirem seus graves erros e com isso demonstrar aos seus simpatizantes que podem se recuperar moralmente. Afinal Jesus disse que sempre estão abertas as portas ao verdadeiro arrependimento. Mas não, continuam com seus discursos mentirosos e algo mais incrível,  levando consigo uma legião de tontos e militontos que teimam em vê-los como injustiçados. Enquanto isso a verdadeira injustiça social no Brasil só faz crescer.

Qual a mais meritória de todas as virtudes? pergunta mais uma vez Kardec aos espíritos. Ao responderem que todas as virtudes têm seu mérito, os espíritos realçam que o mais sublime na virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal para o bem do próximo sem oculta intenção. A mais meritória  é aquela que está fundada sobre a mais desinteressada  caridade. Não existe virtude em comprar joias da H. Stern para a mulher com dinheiro público. Perdão, dinheiro de sobras de campanha oriundo do caixa 2.


Roberto Rufo

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Desumanização do Espiritismo por Carol Régis di Lucia

Desumanização do Espiritismo?

Uma pessoa desencarna dentro das dependências da Federação Espírita do Estado de São Paulo e a família busca por informações com os dirigentes da casa. Segundo noticias, os responsáveis pela FEESP limitaram informações, dificultaram buscas e trataram friamente o caso, até encontrar, no banheiro, dois dias depois, o corpo do desaparecido, sendo obrigados a notificar os parentes para as devidas providências.  Alguns traços apontados como frieza no tratamento ao fato em si e à família, levaram a Jornalista Dora Incontri a escrever um pertinente relato sobre a “desumanização do espiritismo” (www.blogabpe.org).

Foi massacrada e ovacionada nas redes sociais, com recorde de leitura, reposts, compartilhamentos e comentários sobre o assunto, como não devia deixar de ser. Diante da repercussão, Dora  escreveu novo texto, tão brilhante quanto o primeiro, trazendo relatos semelhantes de falta de trato entre os Espiritas e, como não poderia deixar de ser, propostas de solução à questão.

Apontando as brigas por poder e a Institucionalização demasiada no movimento Espirita moderno – e não apenas na FEESP – como possíveis responsáveis pela postura observada em tantas casas, Dora expôs uma ferida velada, mas sentida por muitos. A mecanização no funcionamento das reuniões, as grades a cumprir, os trabalhos a entregar, os números a aumentar, as parcerias a fazer, os convidados obrigatórios a palestrar e tantas outras atividades “fordianas” que tomaram conta das rotinas nos centros, ocupou o lugar antes reservado à caridade, ao assistencialismo, ao abraço fraterno, ao conhecer os nomes e as famílias e as dores de cada freqüentador.

Discutir a “Desumanização do Espiritismo” deveria ser tão absurdamente redundante quanto ainda termos que falar em preconceito racial, em diferença entre sexos no mercado de trabalho, em aceitar ou não as opções sexuais – por nós há muito tempo defendido como assunto que já nem mereceria mais espaço, dada a obviedade humanística. É ultrajante saber que o Espiritismo está Desumano, uma vez que o objeto principal da doutrina Espírita é o Ser Humano, sua essência, encarnada ou desencarnada.

É percebida, em diferentes cidades e diferentes casas, uma necessidade geral da retomada de um Espiritismo próximo, pessoal, caridoso, que foi se distanciando há tempos, com a chegada de agendas lotadas de atualizações filosóficas – necessárias também – que, na verdade mesmo, resultaram em pouca mudança prática no Espiritismo. A era da atualização foi necessária, era preciso romper, foi preciso estabelecer novos horizontes. Mas pecamos em deixar em segundo plano o lado mais precioso da Doutrina: os Espíritas. Aqueles que sentam nos bancos em busca de algo: consolo, passe (chame como quiser), estudo, conversa, ouvir, ser ouvido, fazer parte, sentir-se integrante. E que estão a mercê de diretorias com metas a cumprir, prazos, planejamentos nem sempre alinhados aos interesses dos principais interessados: eles mesmos, os  próprios frequentadores.


Quantos de nós sabe os nomes dos novos freqüentadores, quantos filhos possuem, seus dramas pessoais, seus interesses a curto e médio prazo no centro? Quantos se preocuparam em ajudar, com pouco que seja, uma instituição assistencial necessitada – mas não aquela, que ajudamos sempre? Quanta ajuda, genuína, oferecemos àquele companheiro de casa que está desempregado, que perdeu um ente querido, que está doente? Estamos sabendo aproveitar o talento humano que passa pelos bancos espíritas, ou estamos apenas os direcionando para a reunião X, Y, Z de atendimento?  A desumanização ou humanização Espirita, não é lá, longe, na FEESP. É uma postura diária, no nosso centro, no nosso Eu. É o olhar o outro, mas, sobretudo, a si mesmo e perguntar onde foi parar aquele Espírita, de ideal, que fazia campanha assistencial, que era famoso por palestras cheias de compaixão e que abraçava, um a um, os companheiros de jornada.

Artigo originalmente publicado na edição de agosto de 2017 no jornal ABERTURA