Texto inaugural do blog do ICKS – 14 de abril de 2009
A PERPLEXIDADE DIANTE DOS FATOS
Republicamos este texto, dez
anos depois de sua primeira publicação. Jaci Regis inaugurou o
blog do ICKS chamando esta discussão. Bem hoje blogs não são tão dinâmicos
assim, outras mídias são mais vigorosas. Mas vale a releitura, para que
tenhamos a perspectiva histórica, veremos que não mudamos tanto.
Fiquem com Jaci Régis:
“O panorama social do mundo neste século vinte e um é extremamente confuso,
dinâmico, rico e pobre, violento e promissor.
Entretanto, é impossível ficar passivo diante da sucessão dos fatos.
Fatos que se modificam constantemente, que mudam cenários de um dia para a
outro.
Isso tem provocado profunda preocupação nos religiosos em geral.
Um espírita escreveu que não fosse a reencarnação, deixaria praticamente de
acreditar em Deus, tal a impressão de abandono e passividade da divindade
diante dos fatos.
Para ele, encontrar a culpa nas pessoas, relativamente ao passado, alivia a
passividade divina.
O exame é falho porque a reencarnação não é um instrumento de punição moral,
nem o Universo se assenta na perspectiva do pecado e do castigo.
Vemos o papa católico, vestido à moda da Idade Média falando a multidões e à
mídia, com ideia da Idade Média, sem que suas palavras causem efeito.
Da mesma forma os evangélicos, principalmente os pentecostais, arregimentam
multidões, em shows de fé e arrecadação, mobilizando recursos da mídia
eletrônica, sem que se veja qualquer atitude positiva na mudança das coisas, na
modificação do ambiente.
Na verdade quem tumultua e
muda é o materialismo que é genericamente apontado como o culpado de tudo.
É
preciso, porém, definir esse materialismo.
Não se trata de um esquema filosófico, nem uma opção consistente. Esse materialismo representa a insatisfação
generalizada, a subversão comportamental relativamente aos parâmetros que se
instituíram na sociedade cristã. Talvez seja mais
apropriado chamá-lo de comportamento oportunista. Como ocorre com certas
doenças que afloram devido à queda das defesas do organismo.
Essa insatisfação reflete a falta de perspectiva real, imortal da sociedade
nominalmente espiritualista, mas que se envolve deliberadamente no sexualismo,
no consumismo e na falta de perspectiva.
Esse materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e
precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer.
Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles
as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.
É mesma coisa que pais que dão péssimos exemplos e quando os filhos se
transviam alegam que a culpa é deles, das más companhias, do consumismo, enfim,
nada com eles mesmos.
Como compreender a sucessão dos fatos que derrubam antigas ordenações morais?
Por que o materialismo é tão sedutor?
Por que a porta da perdição é larga?
Na atual crise econômica o que menos se fala é em ética. Mas fundamentalmente
ela decorre da ganância, da esperteza, da deliquencia de colarinho branco que
corrompe as estruturas sociais.
Todavia poucas vozes se levantam para apontar essa falha básica, que não apenas
do capitalismo, mas de todos os regimes e ideologias.
Tenta-se remendar com trilhões de dólares. A questão ética fica de lado até na
crista da crise, quando nos Estados Unidos, foram pagos bônus milionários a
executivos, mesmo tendo o dinheiro origem pública.
Seria demais apontar o fracasso das religiões como causa básica do avanço do
materialismo?
O que pede a sociedade moderna?
A sociedade moderna olha para o que diz a ciência. A ciência se define como
materialista, no sentido de restringir seu campo de atuação, no caso do ser
humano, ao corpo.
Aqui, no corpo, estaria a base de tudo. A neurologia pretende responder a todas
as perguntas sobre o comportamento através de complicadas explicações das
funções cerebrais descartando qualquer natureza espiritual do ser humano.
Então, as religiões –
católica, evangélica ou espírita - fazem de conta que nada mudou, que seus
fundamentos continuam intactos, que o comportamento humano derivados das
necessidades, desejo, desvios, seja do que for, está errado e que o único
caminho é retornar aos roteiros por elas estabelecidos.
Todas
essas religiões são cristãs. Isto é, estão baseadas no modelo criado pela
Igreja nos primórdios da era cristã e que, estão comprovadamente falhos,
incapazes de entender a natureza do ser humano e de dar uma diretriz objetiva
para sua vida.
Vivem de rituais, de discursos repetitivos.
A verdade é que as religiões em toda a história são movimentos organizados para
exercer o poder.
Promovem a fé, mas não a espiritualidade.
Desprovidas do poder real
patinam em doutrinações que não questionam a natureza das emoções, medos e
insatisfações do ser humano.”
Espero que tenham
gostado do texto. Jaci Régis.
Republicamos este texto no Jornal Abertura de dezembro de 2019. Você pode ler este exemplar no link abaixo:
Nota: Artigo
originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.
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