segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

DA ESPANHA ÀS AMÉRICAS: A TRAJETÓRIA DA TRADIÇÃO ESPÍRITA LIVRE-PENSADORA - por Herivelto Carvalho

DA ESPANHA ÀS AMÉRICAS: A TRAJETÓRIA DA TRADIÇÃO ESPÍRITA LIVRE-PENSADORA
Herivelto Carvalho

Por volta de 1870, Don Justo de Espada, um espanhol oriundo de Málaga, veio tentar a sorte na Argentina, trabalhando em empreendimentos comerciais, na capital Buenos Aires. Trouxe consigo uma carta de recomendação que comprovava sua vasta experiência no ramo, porém, sua maior contribuição ao país que o acolhera, não foi no campo profissional, mas sim no das ideias espiritualistas, pois foi o primeiro divulgador de um movimento que, no dizer de Cosme Mariño, preocupava os intelectuais mais avançados do Velho Mundo: o Espiritismo. Outro espanhol, Angel Aguarod, antigo integrante do Centro Barcelonés de Estudios Psicológicos, se tornou no início do séc. XX, um dos principais divulgadores do Espiritismo na América do Sul. Em Cuba, imigrantes catalães deram início aos primeiros agrupamentos espíritas do país.

Estes exemplos ilustram como a vinda de imigrantes espanhóis foi fundamental para o desenvolvimento do Espiritismo em vários países da América Latina. Além de atuarem como propagandistas da nova doutrina, trouxeram consigo algumas características que eram peculiares do movimento espírita espanhol, dentre elas, uma forte tendência de associação doutrinária com os ideais de livre-pensamento, secularismo e atuação social.

Esse movimento desenvolveu grande unidade e atuação na sociedade espanhola, cuja proposta filosófica se apresentava como a superação das religiões positivas. Esta forma moderna de espiritualismo rechaçava os elementos de dogmatismo existente nas religiões do passado e pretendia desenvolver uma nova espiritualidade racional, capaz de se relacionar com a filosofia e a ciência. Pelas particularidades que o mesmo desenvolveu, formou uma escola de pensamento que tem como atributo principal a interpretação do Espiritismo como um sistema de ideias aberto, progressivo, não-dogmático e relacionado com o livre-pensamento, constituindo, portanto, no sentido filosófico, uma tradição.

Podemos afirmar que o surgimento da tradição espírita livre-pensadora ocorreu, no final do séc. XIX, quando as obras de Allan Kardec se popularizaram na Espanha. Seus expoentes iniciais foram Alverico Perón, Fernandez Colavida, Torres-Solanot e Amália Domingo Soler. Esta tradição adquire características próprias não porque fez um rompimento com o pensamento kardecista, mas sim pelo método de desenvolvimento adotado e pelo modo de atuação no seu contexto social, que se distinguiu do modo como os espíritas franceses praticavam e divulgavam o Espiritismo.

Profundamente organizado e ativo, o movimento espírita espanhol se internacionalizou, influenciando a formação de movimentos espíritas nos países americanos. A Espanha, portanto, se tornou para estes, a principal fornecedora de conteúdo doutrinário, através de periódicos e livros que atravessavam o Atlântico, tornando alguns autores espanhóis muito populares no Novo Mundo. Essa situação fez com que, no final do séc. XIX, a figura da espanhola Amália Domingo Soler se tornasse uma das maiores divulgadoras internacionais do Espiritismo, tendo seus escritos reproduzidos em publicações por toda a América Latina.

Outro exemplo de intercâmbio cultural entre os movimentos espíritas dos dois continentes pode ser notado, durante a realização do Primeiro Congresso Internacional Espírita, em Barcelona, no ano de1888, em que as duas maiores delegações, com exceção da própria Espanha, eram as de Cuba e México, bem como, um dos secretários do evento foi o destacado líder espírita cubano Eulogio Prieto.

Apesar de as ideias de laicidade, livre-pensamento e constante atualização serem praticadas por espíritas latino-americanos e espanhóis, desde as últimas décadas do séc. XIX, com o passar dos anos, no âmbito do movimento espírita pan-americano, o conhecimento acerca desse fato, ficou perdido, a ponto de muitos integrantes desse movimento acreditarem que tais ideais se consolidaram após a fundação da Confederação Espírita Pan-americana em 1946.

Após o resgate e disponibilização virtual de obras clássicas de autores que atuaram como protagonistas no desenvolvimento do Espiritismo pan-americano, realizada com muito zelo pela equipe do projeto PENSE, foi possível uma leitura mais atenta deste material, o que permitiu identificar um grande número de citações e referências a autores espanhóis que se consagraram nas primeiras décadas do movimento espírita daquele país, cujo trabalho apresentava uma ascendência sobre o pensamento dos espíritas latino-americanos. Naum Kreiman, por exemplo, ao falar sobre seu conceito de ciência espírita, cita, diversas vezes, o pensamento de Manuel Sanz Benito, espanhol que, em 1890, publicou importante obra sobre a epistemologia espírita.

Uma análise atenta desse fato confirma que o Espiritismo divulgado e vivido pela CEPA é o desenvolvimento das ideias da tradição espírita livre-pensadora, elaborado durante um intercâmbio cultural, onde o conhecimento espírita produzido nos dois continentes possuía mútua influência. Trata-se de uma escola de pensamento espírita perpetuada e ampliada por pensadores latino-americanos como Mariño, Porteiro, Mariotti, Fernández, Kreiman, Grossvater, Postiglioni, Aizpúrua, dentre outros.

Esse intercâmbio foi crescente e progressivo até os anos 1930, quando a Guerra Civil Espanhola e a perseguição imposta pela ditadura do General Franco destruiu o forte movimento espírita espanhol. A partir desse momento, os espíritas americanos perceberam que estava sob sua responsabilidade, a tarefa de manter vivo o projeto de desenvolvimento do Espiritismo, e que para efetivar esta atividade, seria preciso instituir um movimento integrador para o continente. O resultado dessa percepção culminou com a iniciativa de criação da CEPA.

Os ideais de defesa do caráter progressivo, laico e livre-pensador do Espiritismo bem como o desenvolvimento da Filosofia Espírita e sua atuação em diversos setores da sociedade como a política, a educação, a justiça, etc, tão defendidos na atualidade pelos espíritas cepeanos, podem ser facilmente encontrados na aurora da tradição espírita livre-pensadora.  Em 1890, Sanz Benito, alegava que “nunca o Espiritismo poderá constituir escola, doutrina ou sistema, com afirmações definitivas, pois que sempre deixará amplo campo às investigações e sempre irá ampliando seu curso científico”, dando destaque ao seu caráter progressivo. O próprio Congresso de 1888 se pautou pela manutenção deste mesmo caráter ao buscar efetivar o projeto de Kardec sobre os "congressos orgânicos", que seriam responsáveis pela revisão geral e a adesão de novos princípios. O mesmo evento salientou a característica de laicidade, ao afirmar, no texto de sua declaração final, que era preciso um “esforço constante para difundir o laicismo por todas as esferas da vida”. Alguns anos antes, Colavida, em carta a Albert de Rochas, afirmava essa mesma característica ao declarar que “O espiritismo não é nem cristão, nem muçulmano, nem judeu, etc.”.

Ao longo de sua existência, a tradição espírita livre-pensadora, através das obras de autores clássicos e modernos, contribuiu para o desenvolvimento dos fundamentos e da natureza do Espiritismo. A CEPA ampliou sua participação, nos últimos anos, no Brasil, na Espanha e na França, além de continuar atuante em todo o Continente Americano, e, como uma legítima herdeira dessa tradição, tem a tarefa de manter vivos seus ideais, especialmente, o tão importante caráter progressivo do Espiritismo, considerado por Kardec como a condição essencial para a sua perpetuidade e sobrevivência.

Herivelto Carvalho é servidor público municipal, membro do CPDoc e delegado da CEPA em Ibatiba ES.

Os artigos desta coluna baseiam-se em estudos e pesquisas desenvolvidos pelo CPDoc.www.cpdocespirita.com.br / contato@cdocespirita.com.br

NR: Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Abertura de outubro de 2016 - na coluna CPDoc em Foco.

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